18 de jul de 2009

O Despertar (8° Parte)


Já faziam 10 dias desde que deixaram a cidadela. Haviam contornado uma grande cidade em ruínas e agora se aproximavam da casa da Irmandade de Andes Verdes na base das grandes montanhas. Era uma casa majestosa aninhada na base da montanha cujos picos eram eternamente nevados. A enorme construção era caiada de branco e o telhado de um vermelho vivo fazendo com que fosse vista às vezes à um dia de distancia. Nela viviam mais de 100 guerreiras em treinamento constante e mais as hospedes, como Kália e suas irmãs, que procuravam por descanso após uma missão. Para estas estava reservada toda uma ala onde o conforto era maior que em todo o resto. Aqui vinham repousar e se curar aquelas que andavam pelo mundo sem descanso.
Kália sentia as pernas doerem, o estomago estalar e as mãos arderem ao receberem o ar gelado. Mal conseguia acelerar a estúpida motocicleta. Haviam ficado com três delas deixando as outras para a cidadela, uma forma de compensá-los pela perda de 6 de seus habitantes. Estavam acostumadas à morte, mas aquelas haviam sido desnecessárias, se pelo menos o conselheiro as houvesse obedecido e não abrisse o maldito portão.
Andava devagar para não cansar os cavalos que a seguiam, Cami e Teresia vinham logo atrás dela com as outras duas motos e as outras seguiam à cavalo. Os três cavalos extras vinham com seus pertences e os presentes que haviam ganho como recompensa. Botas longas de couro nobre, camisões de linho grosso para o frio, malhas de lá tingidas e tecidas com esmero e compotas das mais variadas espécies. Um rico presente.
Kália sentiu os braços ao redor de sua cintura perdendo a força e fez um sinal para pararem.
“Ah, Kália, já está tão perto, que dá quase para sentir o cheiro dos bolos do chá da tarde, para que parar agora?” Cami estava ávida por um longo banho e uma sauna seguida de massagem para aliviar suas dores.
“Analice está dormindo de novo e vai acabar caindo da moto.”
“Não estou dormindo não, juro!” A menina tinha os olhos vermelhos e fundos e a palidez de seu rosto era extrema.
“Garota, vá para o cavalo com Inês, é mais confortável e ela pode te segurar que eu aqui.” Kália tentou pela centésima vez.
“NÃO!” e Analice apertou os braços ao redor de Kália.
“Vamos embora, Kália, faz dez dias que você tenta tirar a menina da garupa.” Teresia disse impaciente com a teimosia de Kália. Quando ela perceberia que a menina só se sentia segura com ela? “Vamos dar um jeito nisso, Analice.” Teresia tirou de sua mochila um grande chale de um material fino e delicado, Enrolou até que parecesse uma corda e passou ao redor de Kália e Analice amarrando com firmeza. “Pronto, fofinha, agora pode dormir que não vai cair.”
“Obrigada Teresia.” A menina sorriu já fechando os olhos.
“De nada, fofinha.” E indo para sua moto estapeou a testa de Kália numa reprimenda.
“Ouch! Vamos de uma vez.” E Kália ligou a moto e sem esperar pelas outras acelerou rumo ao seu destino.
Ainda demoraram 3 horas para chegarem aos portões. O caminho até a ala reservada a elas pareceu eterno, com postulantes as parando para saber do resultado da missão ou simplesmente para apertar a mão de Kália que tinha uma reputação maior que sua pouca idade. Finalmente chegaram aos seus aposentos, um enorme quarto com camas acolhedoramente acomodadas em nichos para dar um mínimo de privacidade para suas ocupantes. Algumas se jogaram do jeito que estavam nos lençóis limpos e adormeceram imediatamente, mas Kália e Teresia sabiam, depois de tantas batalhas que ao acordar sentiriam os corpos ainda mais doloridos e que um banho e uma massagem antes de dormir acabariam com muito do desconforto da viagem.
Analice sentou na beira de uma cama vazia olhando para Kália. Iria aonde ela fosse mesmo que seu corpo se recusasse a trabalhar, se arrastaria pelos corredores como um verme se preciso. Não havia outro lugar seguro no mundo que não a seu lado.
“Se quiser dormir pode ficar aqui, fofinha, senão venha com a gente e logo vai se sentir melhor.” Teresia ofereceu estendendo uma mão enquanto na outro carregava sua mochila e a de Analice.
A menina olhou de Teresia para Kália como se esperasse por uma resposta em vez de ser ela a dever uma.
“Essa rabugenta também vem, pode ficar sossegada.” E com isso Analice se levantou e tomou a mão de Teresia. Kália seguiu as duas sem expressão.
A sala de banhos era composta de três salões, o central com uma piscina de água sempre tépida, uma sala com vários chuveiros individuais e outra com mesas para massagem separadas por cortinas diáfanas. Teresia levou Analice para os chuveiros e ajudou a garota a se livrar das roupas sujas, a menina estava tão cansada que esqueceu da vergonha e deixou a mulher mais velha cuidar dela como se fosse uma boneca. Kália se livrou das roupas como se não houvesse ninguem à sua volta, seu corpo, perfeitamente modelado, era tão cheio de cicatrizes que Analice soltou um “oh” cheio de espanto e pena, mas Teresia lhe cobriu a boca e virou seu rosto.
“Não falamos de nossas cicatrizes, querida, e não gostamos que encarem. É uma coisa que vai ter que se acostumar.”
“Mas ela tem tantas....” Analice diz baixinho.
“Todas temos, por dentro e por fora.” Teresia enfiou a menina no box e abriu o chuveiro. Levou bem uma meia hora esfregando a garota que parecia ter terra em cada dobra de seu corpo e depois de enrolá-la em uma toalha a mandou esperar em um dos inúmeros bancos ao redor da piscina.
A menina obedeceu sem tirar os olhos da sala dos chuveiros, com medo de perder Kália que ainda estava no banho, mas logo lá veio ela, enrolada em um roupão macio seguida de Teresia que estendeu a mão para Analice e a levou até o outro lado para as mesas de massagem. Deitaram lado a lado, deixando as cortinas entre elas abertas e relaxaram sob as mãos experientes das massagistas que usavam óleos de ervas especiais para aliviar as dores da viagem, acabar com a febre dos ferimentos e relaxar o espírito. Saíram sonolentas e prontas para pelo menos 12 horas de sono.
Os corredores pareciam infindáveis para Analice e somente soube que chegavam quando esbarrou em Kália que estacara para encarar uma mulher que parecia à espera delas na porta de seu quarto.
“Olá, Kália, vejo que não teve ferimentos graves. Fico feliz. Não me dá um abraço?”
Kália continuou devagar até a mulher e a abraçou com força.
“Oi, mãe.”
Continua...
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