23 de jul de 2009

O Despertar (11° Parte)


Kália acordou ainda com Analice nos braços. Sua primeira reação foi se afastar da garota, mas essa proximidade era relaxante de alguma maneira. Só experimentara uma intimidade assim doce uma vez na vida e a lembrança ainda a sustentava depois de tanto tempo. Apertou mais Analice em seus braços e esta abriu os olhos sonolentos.
“Mãe?”
Logo percebeu seu erro, mas voltou a fechar os olhos aproveitando a segurança que aqueles braços fortes lhe davam. Dentro deste circulo podia quase esquecer que agora sua vida era tão incerta quanto às chuvas de verão.
Logo após a batalha, a noite fatídica onde sua mãe fora morta diante de seus olhos, Analice adoecera. Febril rolava de um lado para outro em pesadelos cada vez mais assustadores e em nos raros momentos em que saia desse torpor maligno se via cercada pelas guerreiras que cuidavam para que seu corpo recuperasse a força e sua mente a lucidez. Quando voltou a si foi fácil perceber que nenhuma das pessoas que fizera parte de sua vida até então estava disposta a ceder que fosse um canto de seu coração a ela. Ouviu Kália discutindo com o conselheiro da cidadela o seu destino e foi com alivio que em uma discussão mais acalorada escutou a guerreira anunciando que a levaria com ela. Era o que sempre quisera. Oh, Deus, era o que sempre sonhara.
Analice sonhara sim com este destino, mas nunca imaginara que caminhos teria que percorrer, o que teria que perder para que se tornasse realidade. Ficava agora dançando na ponta da navalha, indecisa entre a satisfação da liberdade adquirida tão sonhada e a dor por esta ser somente possível devido a trágica perda daquela que a pusera no mundo. Nada é simples, parece que sempre temos um preço a pagar por qualquer prazer, parece que sempre existira uma clausula em letra diminuta ao pé do contrato onde nos é oferecida a felicidade.
Neste estado de eufórica melancolia Analice partiu com as guerreiras sem nunca olhar para trás, para as portas que se fechavam para uma vida que já não lhe pertencia. Foram longos dias na garupa de Kália ou no lombo de um dos cavalos. Dias em que o silencio a levava de volta ao momento que desejava esquecer. Foi uma viajem repleta de culpa e beleza, medo e deslumbre, ansiedade e fascinação. Ao cruzar os portões da casa da Irmandade foi como se houvessem a absolvido do pecado de desejar outra vida sem pensar nas conseqüências. Ao cruzar aqueles portões aceitou seu destino.
Em seu sono ainda haviam lamentos e lagrimas, mas agora, acordada, sentindo os braços de sua mestre a amparando, somente o que havia era realização e paz.
“Não finja que dorme Analice, vi muito bem que acordou. Precisamos arrumar algo para comer, acho que dormimos um dia todo. Vamos, levantando. Pegue sua mochila e vamos nos lavar antes de descer.”
“Sim, senhora.” E Analice sorriu, ainda não conseguia chama-la de Kália
As outras já haviam levantado e arrumaram o quarto antes de se banharem e vestirem. Logo andavam pelos corredores sem fim até um refeitorio tão grande que mais parecia um salão de baile com mesas sem fim e grandes tachos sob o fogo constante cheios de comidas deliciosas.
“Aqui dorminhocas.” Chamou Teresia do canto do refeitório vazio.
“Nem precisava chamar, parece que somos as únicas a levantar tarde.” Cami completou.
“Acho que somos as únicas que chegaram recentemente, pelo que soube somos as primeiras em três semanas a chegar. Antes de nós vieram Frida e suas guerreiras de uma missão em Los Feliz e depois nada até agora.” Contou Eledia.
“Isso é estranho, vou averiguar. Geralmente chegam e saem grupos quase todos os dias. Quem é mesmo a Mãe desta casa?” perguntou Kália.
“Há! Você vai gostar dessa, a velha Mãe morreu faz seis meses e a nova é Donata a gorda.” Teresia sorriu de prazer.
Haviam duas Donatas na casa que Kália cresceu, a gorda e a magra. A magra era uma Donata sempre mal humorada de cor esverdeada e voz de taquara rachada. A gorda tinha a voz doce como mel, podia-se escutar seu riso por toda a casa todos os dias e era uma mãe para todas mesmo quando ainda não tinha idade para isso. Agora já devia ter seus 50 anos e finalmente assumia o posto para o qual tinha nascido, o de Mãe em uma casa da Irmandade.
“KÀLIA!” Gritou a voz conhecida e lá veio Donata a gorda com seu sorriso e seu cheiro de açucar e canela. Os braços portentosos enlaçaram Kália que se deixou perder no abraço com imenso prazer. Esta mulher adorável havia sido o mais quase uma mãe para ela.
“Donata, que felicidade te encontrar aqui.”
“Ah, minha menina, nem sabe como fiquei feliz quando me disseram que você havia chegado.”
“Mas porque não me procurou antes?”
“Você precisava de descanso e eu quando começo a falar não paro.” E sua risada rica encheu o refeitório deserto. “Mas depois que se alimentar precisamos falar. Pode ir me encontrar na minha sala?” O sorriso se foi e Kália viu, sob a aparência sempre fresca de Donata, a preocupação que empalidecia sua pele.
Continua...
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Um comentário:

Eu... disse...

muito, muito bom.