6 de nov de 2010

A good day


O motor ronca macio enquanto navego pelas ruas. Parece ser aquela hora onde todos resolvem que é tempo de se preparar para a noite, mas ainda é dia, o sol ainda se põem e a brisa suave entra pela janela trazendo a garoa fina e mais que agradável. Acabei de deixá-lo em casa. Mais uma tarde de risadas, companheirismo e uma amizade que parece, quase como um milagre, se tornar ainda mais solida, como se o tempo nos tornasse gêmeos e a ponte de pouco mais de um ano já não existisse. Outro bom dia. Estendo a sensação de satisfação ao máximo, dias bons devem ser bem vividos da maneira certa, respirados calmamente e ingeridos com aquele satisfação que somente um prato bem preparado produz. E assim vago pelas ruas que amo sem destino, saboreando as ruas vazias, ouvindo as musicas que gosto, cantando com elas, respirando o sábado com alivio. Logo, espero que logo, todos dias serão assim, dias vividos com prazer. Enquanto isso acelero suavemente e rio sozinha, o sol pode ter se escondido, mas ele ainda brilha dentro de mim.

5 de nov de 2010


Foi o cheiro da chuva no asfalto que me levou à janela. Não foi o vento, nem mesmo os relâmpagos que amo, nem minha alma agitada que parece não caber em meu peito. Foi o cheio a chuva no asfalto. Não é tão bom quanto a terra recém molhada, mas é quase tão bom. É o fim perfeito para o dia imperfeito. Abro a janela e respiro os pingos ainda gentis até que me vejo coberta por essa fina camada de chuva que refresca minha pele e acalma minha mente que ameaçava uma insônia rancorosa. O vento se apressa, sabe lá onde vai, parece correr dando voltas, jogando o que vê pelo caminho para o ar. As gotas agora são grávidas, pesadas e brincalhonas. Batem no vidro tentando acordar quem esteja dormindo, perseguem os que andam pelas ruas com suas risadas de fadas madrinhas e pipocam pela rua ainda quente pelo dia de sol fazendo com que suba até mim o cheiro da chuva no asfalto. Posso dormir agora, o que me incomodava foi lavado de mim, varrido pelo vento e jogado em algum canto do mundo onde não mais me perturba. Só o que resta são as noticias boas, os planos para o futuro e uma ansiedade sadia que nada tem a ver com preocupação, mas sim com antecipação. E tudo porque senti o cheiro da chuva n asfalto. Somente pelo cheiro da chuva no asfalto.

20 de out de 2010

A Cidade


O que se costuma fazer ao sair do escritório é amaldiçoar o transito, os outros seres humanos em seus carros, os transeuntes, os semáforos com soluço e a cidade de São Paulo como um todo. É o costume e completamente compreensível já que a jornada de trabalho é terrível, os chefes completamente idiotas e o salário sempre insatisfatório, mas nem sempre. Nem sempre se vê a cidade com olhos cansados. Alguns dias, como hoje, sua mente vaga tranqüila, sem estresse com a longa linha de veículos à sua frente e enquanto todos encaram raivosos o circulo vermelho no semáforo você se descobre observando as pessoas passando apressadas, mais charmosas nesse dia de sol, mas de vento gelado. Repara na longa escadaria do Gazeta onde alunos do Objetivo sentam trocando informações sobre o nada ou simplesmente dividindo um cigarro. Você vê com inveja o balcão de um café completamente lotado e quase pode sentir o gosto do espresso descendo por sua garganta. Olha para cima e lá estão vasos e mais vasos de plantas transformando um dos poucos edifícios residenciais da Paulista em um jardim botânico. Ri do rapaz de bicicleta que quase atropela um carro por se distrair com uma bunda jeitosa seguida por um par de peitos avantajados. E sem perceber, aquelas centenas de carros que antes eram um obstáculo agora são sua desculpa para apreciar uma cidade que é bela novamente porque você finalmente parou para olhá-la. E lá estava eu, presa no Viaduto Paraiso, olho para a 23 de Maio e não vejo o de sempre, vejo sim duas serpentes correndo em direções opostas, uma vermelha e sedutora, outra branca e tímida. Correm se tocando de maneira insinuante, sabendo que seus caminhos são opostos, mas que por alguns quilômetros podem ver o propósito uma da outra. A cidade é bela hoje.
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19 de out de 2010

O Amigo


Ela ouviu a ultima reclamação com o rosto composto, a pura imagem da resignação. Era sempre assim. Ele aprontava e ela levava a culpa. Fora assim a vida toda. Desde pequena, menina comportada e tímida, se via em meio às situações mais constrangedoras pela conduta perversa deste que se dizia tão seu amigo. “Vou estar sempre ai seu lado.” Ou “vamos ser unidos para sempre” ou “só você parece me ver como sou” ele sempre dizia estas coisas e a convencia que juntos eram melhor que separados, que unidos eram mais fortes, que este vinculo os fazia especiais, mas não era como ela se sentia na maior parte das vezes. Lembrava-se com clareza quando ele quebrara a jarra de cristal de sua avó e a culpa acabara sendo sua já que ele como sempre se escondeu em um canto e com seu sorriso meio de culpa, meio de graça, assistindo a bronca e o castigo que se seguiu sem remorsos. Ele era assim, não exatamente ruim, mas maldoso com certo charme. E ela sempre o perdoava. E ele sempre voltava a aprontar como se para sempre estivesse na infância.
Ela cresceu e seguiu o seu caminho. Ele a seguiu. Como sempre. Parecia incapaz de viver sem a sua presença e também parecia incapaz de viver sem atrapalhar cada passo de seu caminho. A seguiu pela faculdade, roubando seus trabalhos, escondendo seus livros, a atrasando para encontros, a embaraçando nas festas a fazendo beber demais e quase a fazendo perder a própria formatura. Tentou mudar de cidade, arrumou um emprego e tentou a tal vida nova que tantos experimentam e dizem maravilhas, mas não passou muito tempo antes de ele chegar de mala e cuia e se instalar em seu quarto de hospedes tornando sua vida absolutamente impossível novamente.
Sentia muitas vezes que sua vida pertencia mais a ele que a si mesma. E ele a usava sempre da maneira errada. Tentava ajudar, ou dizia que o fazia, como no colégio quando dizia que explicaria à professora que fora ele que perdera seu livro, mas se esquecia e ela acabava levando pontos negativos. Ou na faculdade quando se prontificava para entregar seu trabalho e ela descobria, muito depois do prazo vencido que ele o esquecera em cima da geladeira. No trabalho era ainda pior, vinha com seu animo contagiante dizendo que ela relaxasse e fosse tomar uma cerveja com os amigos que ele revisaria seu relatório e no dia seguinte ela tinha que encarar um diretor furioso com um relatório onde nenhuma conta fazia sentido.
Procurou um terapeuta para tentar lidar com o fato de ser incapaz de mandá-lo embora. Foram muitas sessões, mais do que ela julgou serem preciso para lida com seu apego a ele, mas um dia seu terapeuta pareceu mais serio que de costume e em vez de sua posição relaxada, sentava na beira da poltrona como se hoje fosse ele que precisasse desabafar.
“Doutor, o que é? O senhor parece ter algo importante a dizer.”
“Na verdade tenho. Você vem me ver há um ano e já tentei, indiretamente, de todas as maneiras lhe dizer o que acontece com você, mas parece que você sempre deturpa o que falo para que se ajuste à sua ilusão. Preciso agora ser duro e direto com você e quero que escute bem.”
“ Sempre escuto, doutor.” E se preparou para o que quer que viesse.
“Minha cara, você tem um amigo imaginário.”
Ela ficou muito quieta olhando para ele como se estivesse na verdade há quilômetros de distancia. Olhou para as mãos. Recostou-se. Coçou a cabeça e disse.
“Então, doutor. O senhor precisa me ajudar com meu amigo. Hoje ele entregou todas minhas contas erradas e quase fui demitida. Não sei mais o que fazer com ele. O que o senhor acha?”
“Acho que precisamos de mais sessões, minha cara.”

** Em homenagens a minha querida amiga Luciana que tem um amigo imaginário muito atrapalhado.
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4 de out de 2010

Alex


A tristeza exige ser sentida, vivida, mastigada e ingerida até a última gota. Damos muitos nomes a ela, depressão, ressaca, mal humor, mas no fim é somente a maldita tristeza que veio nos prestar sua visita. Ela é como aquela tia velha, meio inconveniente, enrugada, mas que nos dá uma sensação de reconhecimento, sangue de nosso sangue, que mesmo contra a vontade nos deixa um vazio quando parte. Não há nada de errado em senti-la, ela existe para que saibamos o que é ser feliz, que muitas vezes é somente a ausência dessa tia que nos belisca as bochechas e solta gases no meio do jantar de família.

O que chamamos de depressão nada mais é que uma TPM do espírito, é quando nossa mente está “naqueles dias” e dramatiza tudo. Cada gesto parece exagerado, cada palavra um ataque pessoal e os minutos se arrastam em uma cena de novela mexicana eterna. Eu sei. Estive lá muitas vezes. Não vou minimizar a coisa e dizer para você simplesmente sair dessa porque não é assim que funciona. Não é a toa que essa TPM de espírito baixa como caboclo em centro espírita. Algo está errado, fora do lugar, incomodando. Nem sempre se descobre o que é, nem sempre é obvio, às vezes é somente insatisfação pelo rumo de nossa vida, outras porque olhamos fundo nos olhos das pessoas a nossa volta e não as reconhecemos, como se descobríssemos de repente que o que queremos não está ali. Às vezes é o inicio de uma nova era e essa TPM é na verdade um aviso para que se prepare para chacoalhar seu traseiro.

É fácil falar, sei eu que sempre falo demais, mas é tudo verdade. Nada é eterno, nem a tristeza do momento, nem a inocência do passado e muito menos a sabedoria do futuro que acaba sempre afogada em lembranças da infância quando ficamos velhos. Isso vai passar. Eu juro.

Escrevo isso como um beijo de mãe, aquele que se dá no joelho esfolado de uma criança. Não é um remédio, mas lembra como a dor parecia diminuir? Lembra como, sentado no colo materno, ouvia as palavras tão usadas, mas que consolavam e aliviavam sua dor? É isso. Esse é meu beijo, minha canção de ninar, meu sopro depois do mertiolate, meu eu te amo.

Estou aqui. Como sempre. Shhhhh, já vai passar, vou assoprar para não doer, vou cantar para você dormir. Shhhh.... Dorme nenê. Não há nada embaixo de sua cama. Estou aqui. E te amo.

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31 de ago de 2010

Love


Talvez a inabilidade de estar perfeitamente contente enquanto sozinho seja o grande mal dos nossos tempos. As pessoas parecem sempre em busca de algo, mas nunca sabem exatamente o que, imaginando que o tal Santo Graal esteja entre a multidão, no meio de uma pista de dança, no fundo do copo de bebida na mesa de um bar. Na verdade o Santo Graal de nossos tempos é o estar feliz sem causas externas. É o aceitar que o mundo é imperfeito, que as pessoas são mais imperfeitas ainda e que nada mudará enquanto não soubermos exatamente quem mora dentro de nós. Esperar por apoio, carinho e amor não é errado, mas viver dependendo dos sentimentos alheios o é. Não recebemos amor porque esperamos e nem mesmo porque merecemos. Amor é um acaso que podemos somente rezar que nos aconteça. Para os que tem sorte ele vem mais de uma vez, pois amores eternos acontecem somente nas paginas dos romances e na película dos filmes. Amamos de varias formas, com varias intensidades sem nunca saber se o que estamos vivendo durará o suficiente para saciar a nossa sede, mas amamos mesmo assim. Jovens somos paixão pura, precisando dividir nosso ar, nossa pele, nosso desejo com outra pessoas, seja quem for, aonde for, como for. Não selecionamos, somente sentimos e nos entregamos sabendo que o amanhã nos trará outros sabores para que possamos construir nosso banco de dados sensorial. Com a idade selecionamos conforme padrões impostos ou, se temos sorte de sabermos o que queremos, segundo os desejos de nosso coração. Passamos a vida procurando, de uma maneira ou de outra, seja para satisfazer a pele, o cérebro ou o coração. Caímos e levantamos para novos braços sem pensar que o que precisa ser entendido e amado está mais próximo do que pensamos.
Vejo e ouço todos os dias as historias daqueles que buscam e nunca os ouço dizer como passaram momentos calmos e relaxantes na própria companhia. Sorrio do alto dos meus quase 50 anos e tenho vontade de avisá-los que enquanto não gostarem da imagem refletida no espelho dificilmente encontrarão quem ame a pessoa alem da imagem.
Mas o erro é meu ao querer dar ao inocente o caminho fácil, é impossível chegar a se amar e aceitar a solidão tão necessária ao meu coração sem passar pela vida como passei. Sem o desejo que saciei, sem os amores que vivi, sem os romances inconseqüentes que bebi em doses extravagantes, sem as dores quase insuportáveis que moldaram minha alma, os erros que demorei a me perdoar, as aventuras que ainda respiro e a calma que se segue aos anos torturantes da juventude. É preciso viver para saber e é preciso saber para procurar.
Então aqui vai meu aviso para que saiba que o caminho é árduo, mas o túnel tem sim um fim. Não deixe de viver, mas viva procurando mais dentro de si do que à sua volta. O segredo não existe, está somente toldado por hormônios exigentes e corações rebeldes. O segredo é que você deve amar sua própria companhia para que os outros queiram partilhá-la.
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28 de ago de 2010

Sexo Frágil.


A mulher trilhou um longo caminho para atingir a liberdade e tudo começou bem antes de se queimarem sutiãs em praça publica. Desde que deixamos de grunhir, e descobrimos o fogo para o churrasco e a roda para o automóvel nos levar ao cinema, sempre existiram mulheres que lutaram por um lugar melhor no mundo, que lutaram por diminuir a diferença de tratamento profissional entre os sexos, que lutaram por mostrar que apesar de parir, cozinhar, passar e muitas vezes cuidar de um marido inútil, ainda eram capazes de trabalhar como verdadeiros machos, ocupando cargos de destaque, decidindo o destino de empresas e enchendo seus cofrinhos com suadas notas bem empregadas em fundos de investimento. Éramos uma raça decidida a ocupar o topo apesar de nossa fraqueza. Lidávamos com nossas cólicas menstruais estoicamente, escondendo o desconforto e a dor por trás de um sorriso. Lidávamos com a dupla jornada com brio, sabendo que se quer bem feito faça você mesma. Não pedíamos que nossos homens dividissem igualmente o trabalho caseiro, pois sempre soubemos que não nasceram com nossa habilidade nata de lidar com um milhão de coisas ao mesmo tempo e ainda ter tempo para colocar uma lingerie e o seduzir após as crianças terem embarcado no expresso de Morfeu. Éramos rainhas, guerreiras, cortesãs, mães, filhas, esposas, profissionais e meninas. Éramos tudo e o mundo era um mistério a ser resolvido, destrinchado, explorado até que finalmente chegássemos ao ápice da igualdade. Que nunca veio. Hoje, infelizmente, parecemos mais fracas do que antes. Cólicas viraram desculpas para trabalho mal feito, a maldita TPM motivo para más decisões e perda de compostura, filhos e marido desculpas para faltas e atrasos. Sinto-me só quando, de espada em punho, tento manter o forte seguro. Onde estão minhas companheiras que queriam ser objeto de admiração por sua capacidade, inteligência e graça? Onde estão aquelas que sabiam como colocar suas vidas, profissional e pessoal, numa balança e mantê-la equilibrada? Estou à espera, mas a cada dia meu braço pesa mais e a espada cai um centímetro. A porta do forte já parece pronta a ruir e somente posso pedir que aqueles que me encarem quando a ultima barreira cair o façam com admiração, olhando para mim como mereço, por ter me comportado com bravura sem sexo, com paixão sem medo e por ter ignorado, nessa longa jornada, que sou do sexo frágil.
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22 de ago de 2010

Talk


Eu gosto de conversas que voam. Você nem sabe como chegou a um assunto e já descobriu outro para partilhar. Historias se cruzam como espadas, piadas pipocam no meio de dramas compartilhados, verdades são ditas com sorrisos satisfeitos e pequenas mentiras vêm acompanhadas de olhares divertidos. É muito difícil achar parceiro para esses embates, quase impossível. Parece que cada vez mais as pessoas desaprendem a arte de simplesmente conversar. Me pego muitas vezes tentando essa troca de idéias e cada vez mais vejo que somente eu falo e que me encaram com olhos vagos, bocas sem respostas, cérebros emperrados por falta de uso. O engraçado é que estas mesmas pessoas com quem consigo dividir palavras sem fim são as mesmas que me deixam mais confortável se escolho o silencio. Os estúpidos também não entendem o silencio, parece reverberar pela câmera vazia de seus crânios os incomodando imensamente. E há tanto o que se dividir... Livros que leu, experiências, constrangimentos, historias de família, lugares visitados, pessoas interessantes, filmes, idéias, conceitos, sonhos. Há muito o que se dizer, muito sobre o que conversar, infelizmente as pessoas parecem ter perdidos as palavras, esquecidos de como transformar suas idéias em algo inteligível e interessante. O mundo está emburrecendo de maneira assustadora e parece que ninguém se importa. Pelo menos tenho meu “conversador” sempre à mão e depois de 5 dias entre acéfalos sou brindada com um fim de semana onde mesmo o silencio é prazeroso. Thank you, brother Bear.
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21 de ago de 2010

Night


Tantas janelas… São mais do que posso contar sem me perder em historias de vidas que desconheço. A musica das ruas ainda é forte, carros indo e vindo com propósitos desconhecidos, mas imagináveis, afinal é sábado, dia em que todos se sentem obrigados a achar diversão mesmo que isso os ponha com os nervos a flor da pele. Mas ainda é cedo e as janelas estão todas acesas, sombras vagueiam por trás das cortinas, cheiro de sanduíche no tostex, pipoca com o som do filme das nove, risadas em grupo antes da balada. E eu espero. Espero pela madrugada quando posso ouvir no vento o som da folha sendo carregada para longe de sua arvore, onde posso sentir o ar ficando mais puro, os sons abafados pela mortalha da madrugada. Espero pelo momento em que as janelas se tornam retângulos negros e somente uma em cada cem se ilumine com a tela de uma TV ou um abajur suave que ilumina as paginas de um livro. Espero pelo momento onde é mais fácil de imaginar um mundo onde deseje viver, onde por trás das janelas existam pessoas com anseios iguais aos meus e que desejem algo alem do obvio. A noite é a cobertura perfeita para os sonhos, tudo parece possível e o impossível é quase palpável. E espero. Espero o momento que as estrelas sussurrem meu nome e a lua brilhe com mais intensidade deixando um rastro no céu que, como um espelho, reflete a cidade em que desejo morar. Espero.
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18 de mai de 2010

Observações


A filha da senhora do 4º mora no 16º, mas é a senhora do 4º que passeia com o pequeno cão dela, isso quando não está passeando com o seu que é velho e mal humorado. A senhora do 4º é argentina, acho, e tem a disposição inversa ao seu cão. A moça do 10º usa saltos mesmo depois que chega em casa. Eu a ouço andar sem parar pela casa, tec tec tec, e me pergunto se ela não tem uma havaiana ou se gostaria de uma. Ela também gosta de arrastar moveis às 3 da manhã e eu a sigo de olhos no teto fazendo pequenas sugestões “A cama não fica bem ai, vire ao contrario e ponha a mesa do computador embaixo da janela.” O rapaz da cadeira de rodas mora no 8º, sempre é simpático mesmo quando o elevador lota e alguém quase cai em seu colo. A grávida do 13º tem dois cães e sempre comenta as musicas que escuto quando chegamos à garagem juntas. O senhor do 2º parece julgar que todos são possíveis seriais killers ou ao menos batedores de carteira. Minha vizinha, 9º, tem duas filhas, uma neta e o Chico, seu cão, que parece ter sempre algo a me dizer quando entro e saio de casa. Os jovens do 5º adoram futebol e graças a Deus torcem pelo time certo, pois do contrario suas comemorações escandalosas incomodariam. A jovem do 11º é antipática, talvez a saia muito justa e curta esprema seu cérebro. O garoto do 3º gosta de bola e de mais dois amigos. A mãe do 15º deixa o filho mais novo se vestir para ir a escola o que resulta em uniforme, óculos escuros e boné do Tigrão ( amigo do urso, não o meu irmão, mas o Puff) com orelhas e rabo. Mãe e filha do 17º pensam são melhores que os outros moradores somente por morarem no último andar, a senhora do 4º me assegura, pela careta que lhes faz pelas costas, que isso não é verdade. A cadela do 10º, algo entre um labrador negro e um vira-lata, ama me ver no elevador, alias ama qualquer um que fale com ela e coce ali bem atrás da orelha. O basset do 5º está velho e não quer papo, uma vida inteira olhando para a canela das pessoas deve tê-lo cansado. O porteiro da tarde gosta de papo, o da manhã gosta de acenos, o menino que tira o lixo gosta de pedaços de bolo na sexta-feira, o porteiro da noite olha com inveja para as caixas de pizza, o zelador instala lustres, chuveiros, varões de cortina e sempre cobra metade do preço que cobrariam por ai. Às vezes o elevador tem problemas. Às vezes os dois elevadores têm problemas. Às vezes falta luz, mas a subida pelos nove andares é sempre divertida. Os passos acima da minha cabeça me dizem que é hora de começar a relaxar e preparar o corpo para outro dia. Boa noite.
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17 de mai de 2010

Blue


Era um homem cortês. Muito mais do que isso, era um homem sempre pronto a estender a mão, a perdoar, a servir. Era daqueles para quem um ato de bondade é mais natural que respirar, mas a cada dia achava mais difícil seguir seus instintos. Quando temos a natureza compassiva não esperamos recompensa, fazemos o bem porque nos faz bem, nos acostumamos a que nos virem as costas e nos encarem com estranheza e até mesmo nos acostumamos a que atos que deveriam ser voluntários sejam exigidos como se a repetição de um gesto delicado deva ser replicado indefinidamente mesmo quando recebido com apatia. Ele já não sentia prazer em fazer o bem, ainda o fazia, mas como o coração pesado esperando o retorno raivoso, como o cão que lambe a mão sabendo que o pé lhe acertará o traseiro no mesmo instante. Olhava em volta e via tantas pessoas precisando de uma mão amiga, mas quando se aproximava o olhavam com aquela expressão rancorosa e estúpida dos que se ressentem dos que tem a alma mais bela e pura. Ele então virava as costas. A primeira vez foi difícil, apesar das palavras raivosas ainda queria ajudar, mas da segunda vez foi mais fácil, bem mais fácil. Era somente imaginar o acido das palavras amargas com que seria pago e podia virar por sua vez as costas sem remorsos. A cada dia ficava mais fácil e também mais difícil, pois para seu coração fazia falta acalmar a dor alheia, mas com o tempo percebeu que os anos mal recompensados o haviam transformado em um homem triste e sem esperança na humanidade. Um dia, andando pela rua tentando ignorar os alertas nas faces emburradas, viu um cão angustiado e faminto. Era fácil ler a historia do animal, a coleira dizia que um dia pertencera a alguém, o pelo tosado que este alguém um dia se importara, mas os olhos desesperados diziam que alem de já não se importarem mais ainda o haviam despachado sem cerimônias para a terra dos animais sem dono, estas avenidas onde alguns encontram alguém que os abrigue novamente, outros viram companheiros sem abrigo de humanos sem casa, muitos perdem a vida entre pneus e asfalto e outros vagam tentando entender onde erraram, se amaram demais ou se demonstraram felicidade demais ao encarar aqueles a quem se dedicaram sem esperar muito, mas esperando por um pouco de carinho. Ele sentou perto do cão, que já devia ter recebido sua parcela de insultos em sua busca por seus humanos, e esperou que o animal viesse a ele. Dividiu um sanduíche com o cão e vendo que este se acalmara o atou com seu cinto e, esquecendo que ainda havia meio dia de trabalho, o levou para casa. Encheu a banheira de água quente e mergulhou o cão com cuidado. O ensaboou varias vezes e o enxaguou até que a água que escorria fosse límpida. Depois de secá-lo o alimentou, misturando arroz e carne moída que pareceram agradar o bicho imensamente. Arrumou um canto da área de serviço colocando jornais velhos e contou ao novo companheiro que ali seria seu banheiro. Resolveu tornar as coisas mais agradáveis e permanentes e atando o amigo novamente ao cinto o levou a um pet shop. Lá comprou ração, tigelas para água e comida, duas roupas de plush, o inverno afinal já havia chegado, e uma cama grande, fofa e bem colorida. Voltando ao seu apartamento arrumou tudo e quando se deu por satisfeito tomou um banho e ligou a TV para ver se o mundo ainda estava girando. Pegou o cão e o acomodou no sofá ao seu lado e o chamou de Blue. E a cada cinco minutos o chamava Blue até o cão entender que era esse seu novo nome. Deste dia em diante nunca mais se sentiu só ou triste por não poder fazer o bem. Sempre que seu coração pedia que fosse gentil ele o era. Para Blue. Sempre que desejava reconhecimento ele o tinha. De Blue. Sempre que queria amor ele o recebia. Blue. Sempre que queria sorrir havia por que sorrir. Blue. Sempre que pensava que quase desistira de ser bom ele agradecia. A Blue
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16 de mai de 2010

Com o Pé na Cova


As pessoas sempre se surpreendem quando digo a minha idade. Rio muito quando me tiram 10 anos ou mais e mais ainda quando dizem o quanto minha vivacidade os surpreende para alguém tão perto dos 50. Talvez isso se deva ao fato de que minha memória é fantástica para as coisas que importam. Lembro muito bem de minha infância e mais ainda dos anos confusos da adolescência, mas me lembro ainda melhor da minha mocidade e da alegria de estar viva, ser bela e saudável e ter um cérebro de certa maneira privilegiado, já que em uma era onde o declínio mental começou eu fui capaz de pensar por mim mesma e ganhar meu espaço no mundo sem a ajuda de ninguém. Lembro principalmente dos sentimentos e como era lindo amar e sofrer, e ter esperança e desesperar, sempre pulando de sentimento para sentimento em espaços de tempo que agora me parecem infinitesimais. Talvez minha memória é que tenha me dado a capacidade de me conectar com as pessoas que precisam de um ombro amigo, mas não complacente, de uma pessoa com alguma sabedoria, mas sem medo de dizer verdades, de uma mãe/irmã/mulher que não sinta o peso do tempo. Em jovem me consideravam adulta demais, agora, no que considero o pico de minha vida, me consideram jovem para meus anos. De certa maneira faz sentido, mesmo que somente para mim. Vivi tantas experiências maravilhosas que hoje me farto delas, fecho os olhos e revivo meus momentos mais belos como se tivessem ocorrido ontem. Relembro meus reveses e decepções também, pois a balança precisa estar nivelada e saber viver é entender o que te faz feliz e infeliz, o que lhe traz o sucesso e o fracasso. A felicidade é um mito e estar completamente satisfeito com sua vida é entender que “felizes para sempre” somente existe em contos de fada e que um coração que se contenta com o que tem é jovem para sempre. Este blog se chama Com o Pé na Cova e existe, em muitos provedores, há muito tempo. Ele ganhou este nome quando me disseram, pela primeira vez, que eu estava ultrapassada, velha. Foi feito como uma piada e acabou se transformando em mais uma maneira de me manter jovem e “afiada”. Transformou-se também, para minha surpresa, em um lugar onde maravilhosos amigos foram feitos e onde pude, com meu cinismo e crueza habituais, ajudar aqueles que ainda não tem a memória de tantos sentimentos vividos.
Pelas minhas contas são sete anos de Cova e apesar de me distanciar às vezes, com certeza nunca a abandonarei, é aqui que digo o que penso e tento, com o pouco dom que Deus me deu, transmitir àqueles que ainda são inocentes que mesmo quando tudo parece perdido é preciso dar um passo atrás e olhar o quadro com interesse clinico para então voltar, curtir a dor como ao couro e respirar novamente, sabendo que a dor virá muitas vezes, assim como o amor, os momentos de felicidade, a paixão, a alegria. E vivendo cada momento plenamente chegarão aos 47 surpreendendo a todos com uma juventude que vem de dentro, que vem por finalmente aceitar que a perfeição é ser o que se é sem desejar mais ou menos, fazendo de si mesma o melhor e entendendo que se não é magra o suficiente a culpa é do chocolate que come todas as noites e não do universo, se o cabelo não encaracola é porque é naturalmente liso, se o amor não vem fácil é porque está cada vez mais exigente, se não sai tanto é porque não aceita os convites feitos e se o futebol não lhe traz alegrias é porque escolheu torcer pelo Corinthians. Como mano Urso diz.... Se eu tivesse escolha trocava de time. O resto eu deixo como está.
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8 de mai de 2010


Ter fé é algo com que me acostumei. Não penso muito nisso, não faço promessas, nunca as fiz, não rezo pedindo por milagres, mas confesso que rezo para Deus me dar calma para agüentar tanta idiotice no meu dia a dia. Acendo velas para meu anjo da guarda regularmente e durante crises eu aguardo que Deus me dê uma mãozinha, mas nunca o culpo se está ocupado demais para perceber meu desespero. Tenho fé e não sei de onde vem. Sei que está lá porque quando meu coração pesa , e eu não tenho com quem me confessar, conto minhas inseguranças e medos baixinho debaixo do edredom e sinto um alivio por acreditar que alguém me ouve e se compadece. Não tenho religião, não preciso desta bengala, sou feliz acreditando e tendo fé sem que ninguém me diga que é uma obrigação. Talvez seja minha rebeldia nata falando, mas não admito que homem, ou mulher, na terra se diga apto para entender a fé melhor do que eu e meu coração. Sou assim uma paria nessa sociedade onde se é preciso pertencer, pertenço somente a mim mesma e ao que acredito e acredito em tantas coisas... Hoje, recostada na cama, notebook na bandeja, tenho uma daquelas conversas com Deus, peço a ele que me dê paciência para conviver com aqueles que amo, mas me irritam, mais paciência ainda para continuar num trabalho em que meus superiores tem sempre dois pesos e duas medidas para tudo e, para não parecer que não sou grata, agradeço pela existência dos animais, do chocolate, da pipoca, da TV a cabo, dos amigos que nunca esquecem, do meu irmão que faz tudo valer a pena, dos meus dogs que me tornam sempre uma pessoa melhor, dos livros, da musica, perfumes importados, laranja lima, caixas de madeira coloridas, bichos de pelúcia, flores multicoloridas, canecas gigantes, manicures com senso de humor, banana com sorvete, computadores super potentes, mentes brilhantes, amores possíveis e fins de semana. Ah, e Chris Cornell. Amem.
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2 de mai de 2010

Segredo


Todos temos segredos. Todos nós escondemos fatos e manias que temos medo influenciarem o modo como outros nos vêem. Todos temos segredos, ridículos na maioria das vezes, como cutucar o nariz e claramente justificados, como assassinato. Ela não cutucava o nariz. Enquanto olhava a sua volta pensava como era simples aparentar normalidade. Ninguém que a visse sentada empoleirada ao balcão tomando um cálice de vinho poderia imaginar que seu acervo secreto de facas picava mais do que cenouras e tomates. Seu sorriso era gentil e sedutor e suas mãos delicadas e macias. Orgulhava-se delas, mas não de sua aparência feminina e sim sua firmeza e precisão. Alguns a chamariam de serial killer, mas nunca procurou uma vitima, estas sempre se apresentavam a ela, culpadas, cheias de pecado, desejo, maldade e estupidez. Algumas vezes se questionava se levava longe demais a aversão pelos parasitas que povoavam o mundo, mas era como se toda resistência fosse inútil, pois eles cruzavam seu caminho a cada esquina. Não fazia distinção entre homens, mulheres, heteros ou gays, o que lhes garantia o posto em seu altar de sacrifício era sua ignorância e num mundo onde a ignorância cresce como erva daninha entre o asfalto não havia como escapar do que o destino colocava em seu caminho. Seu olhar vagou pelo bar e com um suspiro agradecido se preparou para aproveitar uma noite de paz e solidão. Não gostava de matar, não fora criada acreditando estar acima da justiça, do bem e do mal, mas era como uma compulsão e cada vez que podia voltar para casa sem que esta fosse despertada era como um desejo atendido, um milagre realizado. Terminou seu vinho, deixou uma boa gorjeta para o barman e saiu para a rua respirando profundamente o ar noturno que quase a fez esquecer que morava em uma metrópole das mais poluídas do mundo. A noite cheirava a chuva fresca e brisa marinha e se sentiu renovada. Esta noite não mataria, mas sabia que era somente um daqueles dias felizes onde o dedo do destino a acariciava em vez de punir. Hoje seu altar ficaria vazio e ela satisfeita.
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28 de abr de 2010

Intimidade


Sempre me incomodou essa noção de que intimidade é sinônimo de falta de privacidade, talvez venha daí minha aversão ao casamento. Lembro de alguém me contando como estava completa agora que se sentia a vontade de usar a privada na presença do namorado. Lembro também como fiquei estarrecida e amedrontada pensando que euzinha nunca teria a tão sonhada intimidade já que meus momentos no banheiro são extremamente privados. Como pode se chamar intimidade algo que me provoca extremo desconforto? Para mim intimidade é algo mais pacifico e menos fisiológico. Para mim intimidade é não precisar falar quando não tenho vontade, poder dividir o silencio com a alma que me acompanha sem precisar me justificar. Intimidade é sentir o prazer do outro como meu, duplicando as sensações. Intimidade é ver alem do obvio e se eximir de comentar o que fere e magoa. Intimidade é sentar ao lado de quem amo e ver um jogo de futebol, rindo de seu nervoso, atentando para suas necessidades mais básicas (cerveja e pipoca) mesmo que este possa não ser o meu passatempo preferido. Intimidade para mim é mais de dentro para fora do que de fora para dentro. As pessoas demonstram demais nos dias de hoje, mas dificilmente sentem o tanto que demonstram. Escrevendo agora lembro de outro caso da dita intimidade que fazia com que uma conhecida sempre descansasse uma mão no pênis de seu namorado mesmo que num bar à céu aberto. Ela dizia que a intimidade deles assim permitia, mas para mim sempre pareceu uma cena ostensiva que ela pensava ser sensual, mas para mim era somente ridícula e constrangedora. Quem é que fica de mão dada com o pênis do namorado numa festa? Intimidade para mim vai muito alem de tocar para conectar, está mais para estar tão conectado que sei quando meu parceiro deseja ser tocado. O que posso desejar é que o destino me escolha o próximo parceiro com cuidado, que seja tão neurótico e avesso a esta nova intimidade como eu.
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26 de abr de 2010


O que eu vejo quando olho por cima de meu ombro é um labirinto de caminhos me afastando do que desejo. Ainda não sei se me deixo levar, se sou tão fraca assim, se tenho medo do que quero ser somente um sonho ou se realmente o destino conspira para me encher o saco. Talvez tudo tenha a ver com meu estado de espírito, que diga-se de passagem não anda lá aquela coisa, talvez seja preciso que o corpo não esteja corroído pelo estresse e o cérebro não esteja sufocado por rotinas desinteressantes e idéias empurradas a força por pessoas que não tem a mínima idéia de para que um cérebro realmente serve. E assim é, como sempre, que olho para frente e me deparo com algumas escolhas. Devo seguir meu coração ou deixar que a vida me engula incompleta? E é isso que me mantém acordada e inativa quando deveria estar pondo sonhos no papel, mas para cada situação existe um “turning point” aquele ponto onde sua vontade é quebrada para sempre ou simplesmente assume a liderança com uma calma decisiva e blasé. Sim, eu sei para onde vou, mesmo que não tenha a mínima idéia de como chegarei até lá.
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31 de jan de 2010

Pambo

Minha mãe diz que tenho algo de São Francisco, suas palavras não minhas. Qualquer pomba machucada cai em meu quintal, qualquer animal abandonado me segue pela rua, é uma maldição e uma benção. Maldição porque não posso ajuda todos os animais que vejo e benção por aqueles que posso. Esse post é sobre uma Pambo. Não, eu não quis dizer pombo, mas pambo mesmo. Essa ave estranha chegou em minha casa um belo dia com um fio enroscado nas patas, era visível a dor que lhe causava e já não conseguia mais voar, talvez de fraqueza, talvez de dor, talvez por estar puta da vida por alguém ter deixado o raio do fio em seu caminho. O fio terminava em uma argola que se engatava por aonde ela fosse fazendo com que caísse como bêbada de cara no chão. Era um triste espetáculo. Sua aparência tornava tudo ainda mais bizarro. Sua plumagem malhada de branco e marrom claro parecia absurdamente limpa para uma pomba, as patas e o bico tão laranjas que comentei que deveria ser filha de pato e assim ela virou em minha cabeça uma Pambo ou Pomto, ou ainda Pompa na versão de minha mãe que juntou os nomes como bem entendeu. Dia e noite eu olhava Pambo e me condoia e um dia a atrai para a cozinha, fechei a porta, peguei a danada e numa operação meio complicada, já que o fio estava literalmente cortando suas patas, cortei o danado fora e soltei Pambo na porta da cozinha. Ela ali ficou, andando para lá e para cá me olhando quando o click da argola de metal falhava em a seguir. Voltei para a sala com a cara feliz do trabalho realizado e até hoje, quando acordo, Pambo é a primeira coisa que vejo quando abro a janela a cada manhã. Ela mora aqui, eu acho, não sei bem aonde, mas parece considerar esta a sua casa. Quando chove e fecho a janela de vidro ela bate com o bico reclamando de ser deixada de fora, quando fecho a janela no fim do dia e subo, lá fica ela no murinho olhando como se não entendesse o porquê de não ter uma cama como a dos dogs aqui dentro. Quando não lhe damos atenção e fechamos a cortina ela simplesmente espera um vento e pula para dentro quando a cortina dança. Se a cortina está aberta muitas vezes Pambo pula para a mesinha de trabalho de minha mãe e lá fica olhando para a velha como se esperasse um cumprimento. Não adianta gritar xô, nem abanar a mão, ela não se assusta nem quando chegamos perto o suficiente para tocá-la, simplesmente fica lá como se soubesse que não há o que temer. E agora, com a mudança a menos de duas semanas, eu me pergunto o que será dela quando a janela se fechar para sempre. O que será de Pambo sem os pãezinhos de leite que minha mãe lhe dá todo dia? Como ficará se sentindo assim abandonada pela família que adotou? Olho para ela e me pergunto se a levar ao apartamento, até o nono andar, e a soltar de nossa nova janela , será que nos achará novamente? Pambo é um pé no saco a maior parte do tempo, mas é nossa Pambo.

27 de jan de 2010

Coisas que eu sei...


Na maior parte do tempo eu não estou certa sobre absolutamente nada, mas de algumas coisas tenho certeza:
- Alguns dias são melhores que outros, mas todo dia nasce com a promessa de ser maravilhoso.
- Mediocridade é um item comum nos dias de hoje, não deixe que seja o padrão de suas ações.
- Quanto mais difícil algo é de se conseguir, melhor o sentimento quando conseguimos.
- O amor de sua vida é aquele que você se esforça por manter, os outros feneceram por falta de interesse ou pura preguiça.
- Sexo não tem regras, somente preferências.
- Na escuridão podemos sentir o perfume de terras distantes
- A internet somente é o demônio para aqueles estúpidos demais para acreditarem em tudo que lêem.
- Você precisa aprender a ler antes de dizer que não gosta de livros. Experimentando diferentes estilos é a única maneira de descobrir que tipo de leitor você é.
- Um bom professor nem sempre é um bom profissional da área que ensina e um bom profissional nem sempre é um bom professor. Você pode ser ambos, mas é raro.
- Não amar os animais é perdoável, mas não respeitá-los não é.
- Ser feliz tem mais a ver com aceitar as rotinas da vida do que em viver um conto de fadas.
- Abrir a carteira e achar uma nota de R$ 50 escondida anima o dia de 99% da população.
- A capacidade de recuperação do ser humano é imensa. Infelizmente também o é sua estupidez.
- Ou sou amada ou odiada e isso me serve bem. A indiferença de outro ser humano revelaria minha irrelevância enquanto seu amor ou ódio mostram minha grandeza.
- Se beleza e magreza fossem sinônimos de felicidades todas atrizes de Hollywood estariam bem casadas.
- Quando você tem fome um bom prato de botequim é mais satisfatório que cinco pratos de um restaurante Frances.
- Homens traem sem se envolver emocionalmente. Mulheres não. Talvez por isso mulheres perdoem com mais facilidade um par de chifres do que homens.
- Um sonho é somente um sonho enquanto nenhum passo é dado para vê-lo realizado.
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25 de jan de 2010

Sorte

A faca corta a pele com facilidade e delicadeza. Não faço força nem rasgo a carne macia, mas sim, suavemente, sigo o trajeto que a lamina me dita. A pele rugosa cai em tiras que tento fazer o mais longas possíveis. Sorrio lembrando de outra mulher fazendo o mesmo trabalho com o mesmo carinho. O cheiro da laranja lima se espalhando a cada fruta descascada. Uma a uma eu as desnudo pensando no passado, no presente e nos dias que ainda virão. Sei que tenho sorte. Neste mundo desumano tive alguém que me descascou laranjas e preparou meu lanche para a escola, tive pessoas que me deram o ombro chorar e me disseram verdades que não queria ouvir, tive e tenho um irmão que posso confiar e com quem tenho prazer de partilhar minha vida, tenho trabalho, carro, casa. Tenho amigos. Tenho sorte sim e descascando laranjas é que penso nisso. Na mulher no quarto no andar de cima que não sabe que em poucos minutos um prato de laranjas cortadas em cubos lhe será oferecido. Sei que não pode ser considerado um presente, para alguns até mesmo pode ser visto como obrigação, mas para mim é um gesto que diz: Tenho sorte de poder ter pessoas para quem eu me importe de descascar laranjas.
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24 de jan de 2010

Maria Guimarães Sampaio...



Quando vejo esse nome pipocar em meu email, naquela mensagem sempre esperada e as vezes temida indicando um visitante do blog que se importou em deixar um recado, eu sinto vergonha. Ela me pergunta porque não escrevo e sempre lhe dou minhas desculpas validas, mas serão realmente assim tão justificadas?
Amo escrever e não postar não quer dizer que não tenho mantido todas minhas idéias anotadas com cuidado em paginas e mais paginas de Word arquivadas na pasta “Contos”, subpasta “idéias”, mas confesso que pareço fugir do blog como se ele merecesse um recomeço melhor e talvez agora eu o tenha. O meu recomeço.
Há muito tempo tenho estado descontente com certos aspectos de minha rotina que alem de me tirar do sério roubam meu tempo e meu espírito. Em resumo, moro em uma casa enorme que consome minha energia como um aparelho inútil que não pode ser desligado. Chego exausta para me encontrar em meio a mais tarefas a minha espera e quando ligo meu querido notebook já perdi aquela sensação boa que me acompanhou durante o dia, aquela idéia para um conto ou um post. Não que a idéia se perca, mas sim meu espírito para transpô-la para o papel.
Agora posso dizer orgulhosamente a minha querida Maria que meu espírito se eleva a cada passo que dou em direção a meu novo endereço. As idéias parecem mais à mão agora que sei que logo estarei dando vida a elas de minha nova residência.
Sei que ainda tenho um mês duro, o trabalho desgastante, caixas a serem enchidas, detalhes pequenos como se o super chuveiro que ganhei de mano Urso precisará de nova fiação para agüentar seu design espacial, se cada móvel a ser doado será retirado em tempo e se os novos chegarão ou precisarei de almofadas por um tempo, se levarei meus livros antes como tesouros preciosos que são ou confiarei no pessoal da mudança, se as louças de mamãe estarão seguras no baú ou deverei encaixotá-las com mais cuidado. Mas são cuidados felizes, cada um deles me levando mais perto da tranqüilidade e da realização.
Posso dizer também que alem do prazer desta mudança também existe Maria que é um grande farol me guiando neste mundo, pedindo que eu me aproxime e conte como o mar me trouxe até aqui, que monstros marinhos puxaram meu barco para o fundo do mar e como sereias cantaram até que voltasse à superfície, como consegui, sem remo nem leme, chegar à praia que seu farol ilumina. E posso dizer que é fácil, Maria, é só seguir sua voz e lembrar que escrever é meu alimento para a alma.
Obrigada por nunca abandonar esta naufraga, por sempre apontar sua luz em minha direção me lembrando que mesmo que a jornada seja árdua e longa eu tenho alguém que me espera para ouvir minhas historias.
Para Maria aqui vão os nomes dos contos e livros em andamento para que me cobre num futuro próximo a conclusão de cada um deles.

Livros em andamento:
Malibu – Suspense
A Guerra de Joana – Romance
Predador – Policial
A Livraria do Dragão – Aventura
Depois da Escuridão – Aventura
Entre o céu e a Terra – Suspense fantástico
Kaeth – Suspense fantástico
O Cofre – Policial
O templo Esquecido - Suspense


Ideias-Livros:
Contos para crianças incompletas – Infantil
O menino chamado Danielle – Infantil
Manhattan – Romance
Postmortem – Suspense

Contos
O olho - Suspense
OCircular5290A – Suspense
Visões - Suspense
Viagem a cidade sem saída – Suspense fantástico

Obrigada, minha querida, por nunca esquecer, a vida é perfeita quando somos cercados de pessoas com memória e coração como o seu.
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