30 de mar de 2008

Romeu

Ele tinha olhos doces, mãos calosas, ombros largos e tórax definido. Sempre parecia estar à procura de algo que se encontrava eternamente fora de seu alcance. Saia todas as noites e rodava as casas noturnas na esperança de um dia encontrar o que faltava em sua vida. Em seus sonhos a companhia perfeita tinha cabelos louros, pernas compridas de coxas grossas, curvas delicadas em um torso delicado, olhos cor de mel com reflexos dourados e a voz calma e até meio infantil que faz da mulher a boneca perfeita. Ele observava e investigava e a cada vez que se aproximava de alguém próximo à imagem desejada encontrava somente decepção. Eram todas fúteis, tristes figuras de cera sem cérebro nem vontade. Seus cabelos eram coloridos, seus seios inflados, sua maquiagem pesada e seus cérebros ocos. Como muitos, nosso Romeu nunca percebeu que buscava o ideal somente olhando o exterior e este pode ser mudado, disfarçado e alterado permanentemente. Num mundo de imediata satisfação é difícil explicar para os ávidos que a perfeição pode estar escondida em qualquer lugar e uma noite nunca será suficiente para saber se descobrir se o ouro jaz sob a terra ou somente barro. Romeu almoçava todos os dias no mesmo lugar e lá muitas vezes dividia a mesa com uma mulher de cabelos castanhos, olhos verdes, seios grandes e naturais e mais carne do que era permitido por cima de seus ossos. Eles liam os mesmos livros e gostavam dos mesmos seriados, conversavam animadamente por todo almoço e quase sempre seguiam para um café para estender o papo. Nossa Julieta estava claramente interessada. Já deixara claro que não tinha namorado e em sua voz rouca e sexy insinuava convites que não tinha coragem de tornar explícitos. Ela era bela em sua simplicidade. Usava pouca maquiagem e desistira de tentar entrar numa calça 38 há muito tempo, mas quem a conhecia sempre se encantava com sua mente ágil e seu humor acido. Romeu sentia falta dela nos dias em que não almoçavam juntos, mas nunca pensou que ela pudesse preencher o lugar que tinha reservado para sua musa, não tinha cabelos louros, nem olhos cor de mel e muito menos um corpo de modelo. Ele não via e ela com o tempo percebeu. Ele continuava sua busca e ela desistiu da sua. Romeu passou a ansiar pela presença de Julieta que parecia ter evaporado do mundo. Deixou de sair pela noite em sua busca para ficar em casa se perguntando por que ela o abandonara. Um dia a viu em outro restaurante acompanhada por outro homem que a tocava como ele somente agora percebia que desejara toca-la. Romeu então passou a sonhar com Julieta, mas nunca mais a viu.

28 de mar de 2008

A Alma Imoral

Fiquei feliz por ter ficado. Fiquei mais pelos amigos, menos pelo espetáculo, mas certas noites as estrelas estão no lugar certo, você segue seus instintos, deixa o cansaço de lado e algo muito bom acontece. “A Alma Imoral” foi meu ponto de exclamação para uma época de descobertas. Foi a confirmação de que minha insanidade é pura e perfeita e que não se deve fugir do que parece tão certo para sua alma. Imoral.
Nunca fui convencional, talvez por agir tão intuitivamente. Até mesmo meus erros, os grandes e pequenos, me levaram a lugares melhores, não materialmente, mas pelo menos me levando a ser a pessoa que sou e da qual, insanamente, tenho orgulho. Se errei para fazer o que era certo ou se acertei fazendo o errado eu não sei, mas de certa maneira depois dessa peça tenho mais fé no ser humano. Fico feliz de saber que existem mais pessoas despreocupadas com os dogmas, o moralismo e as regras impostas por séculos. Fico aliviada de perceber que outros sabem que nem tudo é certo e que deixar de errar é o pior que se pode acontecer, pois significa nunca mais aprender.
Ver o corpo nu andando pelo palco entre pregas de tecido negro é libertador, porque o que vejo realmente é uma alma livre dando seu recado àqueles presos à tantas pequenas coisas que os ancoram firmemente à uma moralidade estúpida e vazia.
Depois de hoje os dedos acusatórios me parecem ainda menos assustadores. Se antes eu dava de ombros e seguia, um pouco insegura, mas convicta de que minha insanidade era saudável, agora eu rio com a certeza de que não quero ser nada mais do que insana.
A peça é uma adaptação do livro homônimo de Nilton Bonder e Clarice Niskier nos brinda com boa hora e meia de perolas nuas e cruas que te levam do espanto do reconhecimento ao riso de puro contentamento. Sinto-me eternamente em debito com está mulher madura e de pele translúcida que apagou sua nudez com a absoluta beleza de suas palavras.
“A Alma Imoral” teve uma única apresentação no Centro da Cultura Judaica, onde esta que vos fala tem a honra de bater ponto das 9 e pouco da manhã até sabe Deus que horas da noite, mas procurem se informar dos horários que será apresentada no teatro da Livraria Cultura. Vale a pena. Podem muito bem descobri uma ou duas coisinhas que mudarão seu modo de olhar para o mundo, se é que um dia realmente o enxergaram.

24 de mar de 2008

Tidbits - Cantoras

Cristina Aguilera me dá arrepios. Confesso que certas coisas que canta até podem, talvez, se o meu humor do dia permitir, me agradar, mas só se não precisar olhar para sua cara. O responsável pela sua maquiagem deveria ser preso, torturado com agulhas e banhado em azeite fervendo, mas aposto como logo achara logo outro que faça a mesma massa corrida 3 tons mais escura que sua pele. Não entendo como essa mulherada tão preocupada com o peso se ateve a sair de casa com um reboco de 5 cm no rosto. Deve pesar como o diabo.

Fergie me assusta! Brrrrrrrrr e muito. E como ver uma boneca inflável com um corpaço e a cabeça de uma senhora de 50 anos encarapitada no alto. Pode até ser divertido escutar uma coisa ou outra dela, mas acabo nunca prestando atenção tão fascinada que fico com os retoques que são feitos para que os buracos da sua cara desapareçam. E se eu começo a prestar muita atenção nas letras acabo tendo ataque de risos incontroláveis. Parece que hoje em dia só se faz musica para adolescentes com fixação sexual.

Gwen Stefani sempre me faz dançar, mesmo quando acho as letras abobadas Ela tem aquela qualidade “moleque” e simpática que torna impossível não sorrir de seus clips. Mesmo quando as letras são simplistas e obviamente apelativas ao espírito juvenil eu mexo meu corpo no seu ritmo. Seu dom natural para saber o que lhe cai bem, sem escorregar no vulgar, também me leva a admira-la, mas, e, oh, nos dias de hoje sempre existe um mas, o que acontece com seu cabelo? Será que ela um dia na vida saiu de casa sem laquê? Apesar de todo ritmo em sua musica, todo figurino divertido, eu sempre lembro de uma boneca Susi que eu tinha quando pequena, as duas compartilham do mesmo cabelo amarelo de nylon.

Britney Spears? Meu Deus, nem sei por onde começar. Não canta, já não dança, mal sabe se vestir, não tem a mínima idéia do que é roupa intima, tem o senso fashion de um molusco ensandecido e pervertido. Seu cérebro entrou em recesso nos últimos 10 anos e não parece querer voltar das férias eternas no pais da fantasia. Tem um complexo de inferioridade tão grande que somente pode ser aplacado pela orda de paparazzi que a segue. Tem dois filhos que provavelmente já estão com problemas para o resto da vida somente por terem saído dela. Não consegue dizer duas palavras que façam sentido e conseguiu acabar com uma fortuna que deveria durar por gerações.

Amy Winehouse foi uma descoberta que me alegrou demais. Sua bela voz e suas letras explicitamente engraçadas me deram bons momentos e ainda dão. Infelizmente parece que todo seu sucesso só serviu para levá-la para um poço sem fundo e, se ela não se decidir a ser feliz em vez de miserável, ao fim de sua bela voz também. Ao mesmo tempo que tenho pena quando vejo o estado lamentável em que caminha pelas ruas de Londres, tenho desprezo pela fraqueza que a leva a jogar fora todo talento e ser famosa somente por ser uma nojenta e suja viciada.

22 de mar de 2008

The wheel is turning, but the hamster is dead.


O mundo está ficando extremamente sem graça. Não só existe toda essa mania do politicamente correto levada a décima potencia como as pessoas estão insuportavelmente burras. Ninguém mais entende o humor sardônico e malicioso, todos somente entendem a graça, dúbia, do rapaz transando com a torta ou da garota absolutamente estúpida e loira, não há mais humor com cérebro. Talvez seja por isso que eu aproveite tanto as tardes com mano Urso onde muitas vezes parecemos mais estar duelando do que conversando. De quem será a próxima frase perfeita? Quem fará a próxima conexão brilhante? É como usar espadas feitas de letras e escudos de risadas. Podemos falar por horas a fio, seja seriamente ou não, e nunca nos cansar, nunca ficarmos sem assunto. Lá fora, no mundo tão vasto e já sem sentido para mim, tenho dificuldade em achar alguém que possa ler as entrelinhas, sempre mais divertidas e cheias de sentido que as suas companheiras. Parece que ninguém mais enxerga alem do obvio, talvez seja esse o motivo do sucesso dos reality shows e das comedias adolescentes americanas. Acho que a ignorância me assusta mais que a violência, afinal eu sempre posso ir morar no fim do mundo no alto de uma montanha, mas pensar que um dia não haverá uma palavra que se preste sendo dita... isso me deixa completamente apavorada.

19 de mar de 2008

uhm?

A escada, na horizontal, começa a me ultrapassar com facilidade. Um, dois, três degraus até que surge o cidadão que a suporta no ombro. Eu tento acompanhar seu passo, para chegar mais depressa em casa, um pouco de competição ajuda no final do dia, mas ele parece apressado. Talvez o seu companheiro na outra ponta o esteja empurrando. Tenho experiência nesse jogo de levantar peso com companheiro. Eu e meu mano urso sempre carregamos coisas juntos e devo dizer que é muito difícil. Ele é alto, eu sou baixa (perto dele que é o filho preferido e por isso foi feito numa forma maior), ele é mais forte, mas desajeitado, eu sou mais fraca, mas cheia de jeito, eu tenho problemas com esquerdas e direitas, ele é desajeitado (sei que me repito, mas ele é!). Carregamos coisas juntos, a ultima foi uma TV 29” para meu quarto que me deixou com medo de despencarmos da escada, mas chegamos lá. Então... voltando à vaca fria, ou melhor, à escada, eu sei exatamente como um companheiro de carregar pode te impor um ritmo que não é o seu. O homem da frente, que passava por mim estava andando meio desequilibrado e eu abanei a cabeça já pensando em olhar feio para o homem de trás. Não se empurra o companheiro de levantar peso! Um, dois, três degraus. Nada do companheiro. Lá estou eu, apostando corrida com a escada, perdendo e esperando para olhar feio para o homem da traseira e ... mais um, dois, três degraus e nada. Quando resolvi olhar para trás a escada acabou e eu fiquei ali olhando para o fim da escada oscilando no espaço sozinha. A única coisa que pensei até chegar em casa foi como é triste não se ter um companheiro de levantar peso. Ah... eu perdi a corrida...

18 de mar de 2008

Please, do! Please, don't!

Tenho inveja das pessoas que não vêem a verdade do espelho. Elas estão por toda parte e geralmente alegram meu dia, mas as vezes me assustam terrivelmente. Sou do tipo que se encarada já imagino se a salsa da salada não ficou entre meus dentes, se voltam a cabeça para acompanhar meus passos já penso que minha calça está furada. Ah, sim, tenho inveja das gorduchas de calça baixa e blusa curta que deixam seus pneus ao vento sem vergonha. Que falar das bocas rosa elétrico que mais parecem semáforo em terra de barbies e esmaltes azuis com pequenos decalques assustadores? Como posso traduzir meus sentimentos pelas botas pesadas de salto plataforma de borracha que acompanham vestidos de verão? Como explicar meu sorriso feliz ao ver os cabelos de um loiro mais falso que notas de 3,50 que não combinam nada com tons de pele mais felizes enquadrados pelo castanho natural? Não me entendam mal, não caçôo de quem me alegra o dia, eu as admiro. É preciso coragem para se ignorar, para não se estar consciente dos olhares espantados dos que passam. Gostaria de ter um pouco desse “foda-se” que em muitas mulheres parecem estar permanentemente ligados. Talvez elas sejam mais felizes do que eu, mas ainda assim.... acho que prefiro cobrir meus defeitos e colorir meus branco do meu castanho natural numero 5.3 da Loreal. Cada um sabe o que lhe é mais confortável, mas meus dias serão menos divertidos se uma chuva de bom senso cobrir as mulheres do planeta.

17 de mar de 2008

Para que perfeição?

Dé, é só um emprego.” E assim, magicamente, minha mãe tirou um peso de meus ombros, bem ela que nunca entende o que penso e porque, mas que na hora certa soube me trazer os pés para a terra. Afinal, é só um emprego. Meu mal é sempre me dar demais, nada eu faço pela metade ou com meio coração. Meu trabalho é uma extensão de mim mesma, do que eu sou e represento, mas não precisa ser assim, porque é sofrer desnecessariamente. Querer que meu trabalho reflita meu eu é absurdamente exasperante já que existem tantos fatores e pessoas envolvidos. Cada um que afeta meu trabalho pode ser uma peça que se encaixa no quebra cabeças ou uma peça duplicada que só me dará dor de cabeça. Nos últimos tempos as peças duplicadas tem se multiplicado de maneira irritante o que me tira do sério e eu de cabeça quente sou um problema para muitos. Hoje resolvi fazer o melhor, não o MEU melhor, mas o melhor que posso com as ferramentas que tenho. Pode não ser O melhor, mas pelo menos parece ser o que as pessoas esperam. Elas não querem que tudo seja perfeito, elas apenas desejam que se faça da maneira mais obvia e simples o que poderia ser feito com perfeição. Não desejam uma maquina bem azeitada e que com o tempo funcione perfeitamente, querem imediatamente um Gol 1.0 que precisa de esforço para subir a ladeira. Como diz minha mãe, é apenas um emprego, então é justo que eu dê o que esperam de mim e mais do que justo que isso me dê menos preocupações e mais tempo livre. Nem sempre as pessoas querem o melhor, na maior parte das vezes elas somente querem o obvio.

11 de mar de 2008

Closed Eyes

Fecho os olhos em busca de inspiração. Por trás de minhas pálpebras fechadas sinto a pagina em branco brilhando, me esperando, me desafiando. Continuo de olhos fechados buscando por sons, tentando achar aquele que me dirá algo mais alem do obvio. Escuto o sussurrar da TV de minha mãe no quarto ao lado, o girar macio e refrescante de meu ventilador, o exaustor do laptop sempre incansável, o bater ritmado da musica eletrônica na academia atrás de casa. Quase posso ver, de tanto ter visto, a dezena de pessoas nas esteiras, o chiar das esteiras é obvio, no andar recém construído que fica de viés com minha janela. Vozes masculinas anunciam “AIKIDO”, em um brado que já estou acostumada, vindo da sala de aula no primeiro andar. No repentino silencio que se segue escuto a respiração cheia de calor de minha companheira peluda que dorme ao meu lado. No silencio lembro daqueles meus companheiros que se foram e me fazem tanta falta, quero ouvir suas respirações também e escutar seus latidos pedindo atenção, mas isso é passado.
Fecho os olhos em busca de algo que não sei o que é, aquele algo que é a diferença entre duelar com a pagina em branco ou bailar com ela. Nem sempre sei o que vai sair, acho que nunca o sei, mas tento ser honesta com a pagina para que ela sempre me receba bem. Uma folha em branco pode ser um desafio ou uma libertação e muitas vezes os dois e aprendi a não forçar a mão em algo que a pagina não quer ver escrita em sua alvura.
Abro os olhos e vejo tudo que amo à minha frente. Meu laptop aberto em sua mesinha portátil sobre minhas pernas esticadas sobre meu edredom favorito que cobre minha cama. A TV, muda, no canal de Mangas, meud DVDs preferidos em seu suporte, meus livros em suas estantes, meus companheiros peludos entrando e saindo do quarto em seus passeios noturnos, os incógnitos em suas esteiras alem de minha janela entre as cortinas quadriculadas de brando e azul, o ventilador amigo em seu bailado constante, os animais de pelúcia, as bolas de New York, as caixas de presente que viraram decoração, meus trecos mais queridos estrategicamente enfiados entre tudo que mais gosto.
Abro os olhos para descobrir que quem quiser me conhecer somente precisa sentar onde estou e olhar em volta.
Fecho os olhos novamente, não para buscar algo, mas somente para apreciar mais esse momento simples que me enche de contentamento.

10 de mar de 2008

Tidbits

Drenagem linfática, aplicação de enzimas, dieta de folhas e água, cremes de 150 reais, etc, etc... Vejo as mulheres mais tempo tentando entrar numa calça 38 do que tentando arrumar suas vidas. O pior é que nunca as vejo mais belas, somente mais cadavéricas. Devemos poder ser belos e saudáveis e felizes com isso, não neuróticos em busca de um ideal inalcançável. Tentar atingir a perfeição física sem a mental é o mesmo que colher a flor sem perfume ou o fruto sem sabor. Somos imperfeitos, é parte de nosso charme, é o que faz com que sejamos indivíduos. Malditas cirurgias plásticas e seus batalhões de barbies.

Adoro aqueles desenhos japoneses de heróis, vampiros e afins. Os tais Manga. Tenho o canal Animax e quando tudo parece muito chato na TV me mudo para lá me divertindo com a sexualidade exagerada, as roupas futuristas, os olhos grandes e a mitologia toda. Para mim os cabelos são um show à parte, nem tanto os das meninas, mas sim dos garotos. São tão estruturados e maravilhosamente absurdos. Completamente absurdos.
Entro no metrô e me sento com meu livro já aberto. Levanto os olhos automaticamente na próxima parada para scanear a multidão que entra e o vejo. Oriental, extremamente bonito, alto, olhos amendoados vindos de alguma mistura de sangue. E os cabelos... Ahhhh, os cabelos. Talvez tenha levado dias até atingir a perfeição. Mechas de negro lustroso quase azuladas em pé em todas direções, mas harmoniosamente. Lindo! Fiquei esperando que tirasse uma espada de sua mochila ou que falasse um daqueles diálogos que mal entendo. Fiquei fascinada. Não pude tirar os olhos dele. Daqueles cabelos. Ele se foi uma estação antes da minha e só então eu percebi que sorria. Meu primeiro Manga em carne e osso!

Sinopses sempre me ajudaram a escolher filmes. Me davam o tom, o tema e a quantidade de sangue que eu veria (nunca neguei ser sanguinária). Hoje em dia não sei quem as escreve, mas imagino que beba muito e fume um baseado atrás do outro. As sinopses se tornaram uma breve declaração de intenção. O filme deveria ser assim, pela mente dopada do sinopcista (inventei a palavra agora?), e até admiro o dopado filho da puta que me engana, pois sua visão é sempre melhor do que o filme, mas se eu colocar a mão em algum deles com certeza o encherei de porrada.

9 de mar de 2008

DVDs

Rebecca: Hitchcock me fascina, sempre contando suas historias da maneira mais bela mesmo que entremeadas de sangue, sordidez e traição. Em preto e branco vemos a jovem de origem humilde e o rico aristrocrata dançarem a musica de sempre. Vemos o nobre cavalheiro salva-la de uma vida de humilhação com um casamento inesperado e vemos, por fim, a chegada da jovem esposa à mais bela mansão que possa existir. Mas há sempre Rebecca. Ou pelo menos sua sombra que ainda paira sobre tudo e todos. A primeira esposa, morta tragicamente, foi tudo que nossa jovem nunca vai ser. Magnificamente bela, sofisticada, encantadora. A cada vez que ouvimos o nome de Rebecca sabemos que será mais um prego cravado no coração da jovem. O senhor the Winter parece viver envolto em sombras e ficamos sempre a pensar (a não ser que tenha lido o livro 500 vezes como eu e visto o filme mais umas tantas) que ele também nunca esquecera aquela que vive na memória de tantos como o epítome da perfeição. Passeamos pelas nuances de cinza à procura da verdade, à procura de Rebecca e por fim a encontramos. Vemos o fim chegar com a sensação que não houve vitória, que segredos às vezes devem continuar a ser segredos e que o amor não deve ser questionado, mesmo quando não é devidamente demonstrado.

4400: Não sei em que canal este seriado passa, mas arrisquei pega-lo em DVD porque sinceramente cada dia os filmes estão piores e os seriados muito mais interessantes. 4400 conta a historia de 4400 desaparecidas em varias datas nos últimos 60 anos, mas que retornam ao mesmo tempo durante um fenômeno completamente alien. Nenhum deles tem qualquer lembrança do que lhes aconteceu durante os anos que estiveram desaparecidos, voltam com muito para absorver e muito para lamentar. São estranhos no mundo em que nasceram e quando começam a demonstrar que voltaram com “algo” mais, são vistos com mais desconfiança ainda. O Piloto é muito interessante e o primeiro episodio continua pelo mesmo caminho. Semana testo mais alguns episódios. Se não partirem para a embromação de Lost vai ser bem interessante.

Columbo: Para quem é da minha idade nem precisa de apresentação, para os jovens: peguem um Monk sem neuroses, ponham uma capa amassada nele, um sorriso sempre meio tímido, um carro caindo aos pedaços e uma mente quase sádica (teoria de meu irmão) e pronto.
Columbo, tenente da homicídios, é um dos seriados mais divertidos para mim. O episodio sempre começa com o assassinato. Sabemos quem é o assassino, porque o fez, como matou e como cobriu seus rastros. A próxima cena nos mostra a cena do crime já tomada pela policia e logo chega nosso querido Columbo, charuto barato na mão, olhos remelentos, roupa amassada e sempre faminto. Na primeira entrevista com o assassino ele instintivamente o reconhece e estão vemos uma corrida entre o gato e o rato, mas sabemos que Columbo nunca larga o osso antes de roelo. Mano Urso diz que Columbo é um sádico que persegue o assassino impiedosamente se fingindo de bobo e saindo e retornando sem aviso quando o outro começa a se sentir seguro. Ele tem razão. Adoravelmente e encantadoramente sádico é um dos detetives de meu coração.

Dating Game

Duvido que exista um homem que não saiba todas as regras. Duvido que eles não saibam todos os truques. Podem se deixar levar, mas já não viram esse ato mais vezes do que o necessário? Já não assistiram a 200 filmes onde todas regras e truques são explicados exaustivamente?
Em minha adolescência eu tinha uma amiga que me contava a mesma historia a cada vez que arrumava um novo amor. Ela fazia todos os movimentos certos, seduzia, molhava os lábios, batia os cílios e acho que até enrubescia a seu bel prazer e quando era beijada sempre se mostrava surpresa e perguntava “Oh, porque fez isso?” Como se não fosse isso o que esperava. Eu nunca entendi essa necessidade de enfeitar tanto, mas parece que esse era seu truque, se funcionava eu não sei, mas posso dizer que os novos namorados dela sempre pareciam confusos.
Outra coisa que nunca entendi é a regra do sexo somente depois do terceiro encontro. Não estão todos os envolvidos cientes disso? Sendo assim faz alguma diferença quando você satisfará o desejo do rapaz? Homens não te convidam para sair pela primeira vez porque você os diverte ou pela sua capacidade cerebral ou porque torcem pelo mesmo time. Homens te convidam para sair porque querem transar e se você tiver sorte ele, ao fim da noite, da primeira, terceira ou décima, ele vai querer mais do que isso e muitas e muitas vezes.
Não se pode culpar nossos queridos espécimes masculinos, afinal se as saias estão cada dias mais curtas, as calças cada vez mais baixas e os decotes cada vez mais reveladores é exatamente para exalta-los sexualmente. Eles sabem. Vocês sabem. Todos sabem. Portanto para que tantas regras e truques?
Ouço no ônibus e metrô, todos os dias, ambos os lados da mesma historia. Infelizmente ninguém confessa sua completa ignorância sobre o que estão procurando ou, aqueles que conseguiram encontrar, onde foi que acertaram. Talvez se fossemos mais honestos com nós mesmos não seriam necessárias tantas regras e muito menos tantos truques, porque às vezes o que precisamos mesmo é somente um corpo que desejamos, uma mão ansiosa correndo pela nossa pele e uma boca ardente que nos leve à loucura.
O processo que nos leva da paixão para o esquecimento ou ao amor é o mesmo. Precisa-se arriscar, mas se estiver sempre jogando, atirando para todos os lados como um pistoleiro bêbado, nunca vai ver os sinais, porque eles estão ai para quem quiser ver. No primeiro encontro ou no quinto, com bater de cílios ou cantada explicita, se essa for a tampa da sua panela tudo ficará bem.

5 de mar de 2008

Tidbits

Tem dias que são difíceis. Sinto meus olhos se enchendo de lagrimas a todo instante sem nem mesmo saber o por que. Não que não hajam porquês, mas sim por serem muitos. Cada porque vem logo depois do outro e me atira uma pedra pequena e pontuda que machuca e irrita e não consigo fazer os porquês irem embora. Odeio esses dias quando os porquês parecem todos eriçados e loucos para dar uma pinicada em minha pobre pessoa. É um daqueles dias...

“Senhor! Sua moeda...” E ele a pega com uma cara mais que surpresa por eu não só ter me abaixado para recolher a moeda como a devolvida em sua plenitude de 10 centavos. “Moça! Moça! Seu lenço.” Eu corro os dez passos que nos separam na calçada esburacada para entregar o belo lenço de seda que escorregara de sua bolsa, parecia um daqueles lenços para se amarrar na bolsa ou charmosamente nos cabelos. Eu ponho minha mão no seu ombro e ela me olha espantada e depois absolutamente surpresa por eu lhe pôr o lenço nas mãos. Ouvi uma meia dúzia de obrigadas e parti ouvindo ela e sua companheira comentando meu ato tão natural para mim.
O que há com o mundo? Será tão estranho assim que a educação me leve a devolver os itens que vejo perdidos bem a minha frente?

A menina sentada no degrau parecia emburrada demais para esse fim de dia tão belo. Ao seu lado um cãozinho fofo e branco a olhava segurando a própria coleira. Vez por outra ela o olhava sem perder a carranca e ele abanava o rabo como louco a espera de, talvez, uma palavra amiga. Diminui o ritmo dos meus passos, logo irritada pelo desprezo da menina pelo animal mais do que amoroso. Atravesse a rua, sem necessidade, para passar em frente ao cão e lhe fazer um agrado, ele o merecia. Quando estava quase lá a menina o olhou novamente e ele alem de abanar o rabo o colocou lá para o alto enquanto sua cara ainda descansava entre as patas dianteiras. E ela riu. E ele pulou em seu colo e os dois se transformaram bem à minha frente. Ela agora era uma encantadora garota com seu cão fiel no colo, perfeitos para qualquer catalogo que ilustre a perfeição. Seu dia pode ter sido uma merda, mas se prestar atenção ao rabo amigo que abana pode mudar repentinamente.

O conto está ai embaixo.

Depois da Escuridão (Parte 17)

Abriu os olhos, deixando que seu corpo despertasse lentamente. Não se passara muito tempo desde que Enair se fora, mas para Anya fora como uma noite toda bem dormida. Levantou testando os músculos cansados e a resistência dos curativos de seus ferimentos. Lavou o rosto com a água fria e vestiu-se de negro, para melhor se mesclar com a noite. Sua roupa era de um tecido macio e um tanto elástico, que apesar de fino era muito quente. Servia perfeitamente para o que Anya tinha em mente.
Enair podia estar sendo sincera dizendo que prezava sua segurança, mas uma guerreira está acostumada a encarar com seus próprios olhos o perigo e ficar sentada esperando que outros decidissem seu destino não era do seu agrado.
Anya era uma boa alpinista a fachada rugosa de um castelo não a assustava. Abriu a janela com certa dificuldade, parecia estar fechada a dois séculos e meio pelo menos, e sentou no beiral com as pernas para fora planejando o caminho que seguiria parede abaixo. Descer não foi um grande problema. Havia apoio suficiente no encaixe entre as grandes pedras, mas o vento quase a derrubou uma boa meia dúzia de vezes, sem contar que a cada segundo seus movimentos ficavam mais limitados de tão enregelada se encontrava.
Quando o solo já se encontrava encantadoramente próximo ela notou as sombras escuras que rondavam o pátio abaixo. Talvez se elas a tivessem notada teriam sido obvias, mas eram como animais silenciosos e atordoados que caminhavam sem cessar de um lado para outro perdidos em um circulo vicioso que só fazia sentido para suas almas mortas.
Anya continuou sua descida com mais cuidado e tão logo tocou o chão se esgueirou para um canto coberto de hera. No seu canto escuro esperou seus olhos se ajustarem a escuridão e seus sentidos despertarem para a noite. Eram mulheres o que ela tomara por animais. Muito provavelmente as guerreiras que deveriam povoar este castelo, mas ela não as sentia conscientes de sua humanidade, continuavam a lhe enviar vibrações animais e ausência de sentimentos coerentes.
Agora, assim próxima à elas, podia ouvir rosnados baixos e se lembrou dos mutantes sempre presentes nos vilarejos afastados. Os seres disformes de mente ou corpo que ainda carregavam as escaras da guerra já esquecida por muitos. Mutantes. Todas elas. E parecia que agora a farejavam.
Os rosnados se tornaram uivos, as sombras sob os capuzes se transformaram em rostos lupinos e isentos de lucidez. Anya estava encurralada.