1 de dez de 2008

Resposta ao comentário anônimo.

Caro anônimo, deixe sempre seu email.

Quanto à meu livro e musica preferido... Uau, você pegou uma pessoa difícil para responder uma pergunta tão fácil. Tenho escritores de todos os tipos para todas as ocasiões, alguns livros que amo nunca tentei um segundo do mesmo autor, e outros autores eu coleciono os livros obsessivamente.
Da-se o mesmo com musica. Algumas bandas me agradam sempre e outros são passageiros ou se restringem a uma ou outra musica.
Sendo assim sua resposta é bem mais longa do que espera.

Autores:
Os seguintes autores são meus guias ou simplesmente meu divertimento.
Stephen King, Charles Dickens, Shakespeare, Jane Austen, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Meg Cabbot, Alexandre Dumas, Ayn Rand, Janet Evanovich, Patrick O'Brian, Lemony Snicket, JK Rowling, as irmãs Brontë e, claro, Agatha Christie.
Existem outros, existem muitos livros que amo como How to kill a Mockingbird e Rebecca que releio até suas paginas caírem.
Alem destes tenho pilhas de livro pipoca, principalmente suspense e policiais que devoro com prazer.

Musica:
No momento meu MP3 está tocando sem parar Richard Ashcroft, Paolo Nutini e algumas de Natasha Bedingfield com ênfase em Richard Ashcroft principalmente Music is Power. O que nunca sai do MP3 é Red Hot Chili Peppers, não vivo sem eles. Tenho também um longo relacionamento com Simple Red, The Who, Rolling Stones e Beatles. Adoro Aretha Franklin quando estou escrevendo contos suaves, Carmina Burana para os góticos e Red Hot Chili Peppers para quase todos os outros. Pode jogar Foo Fighters na frigideira também. E adoro ópera e clássicos.

Kiss
Com a mão esquerda na tala e remédio pra inflamação do tendão.
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30 de nov de 2008

A Primeira


O pulso irradia uma dor imensa para todo o braço. O sinusite faz o nariz parecer cheio de algodão, a garganta dói assim como o ouvido esquerdo e nem falo da cólica porque passe a noite a ignorando porque o resto já é por demais desconfortável. Levanto no sábado sonhando com um dia de sofá e comida que desça sem esforço e então me lembro que algo importante vai acontecer nessa tarde. Lembro de minha querida amiga Vivian dizendo “Não vá esperando demais, são somente crianças.” Mas eu espero. O banho me devolve um pouco da cor e me deixa disposta para enfrentar as próximas horas. Me arrumo como posso e pego a chave do carro das mãos de mano Urso com um suspiro cansado. O transito é infernal, me faz odiar essa insanidade natalina, e demoro quase uma hora para chegar ao colégio onde se apresentará a peça. No auditório as famílias se reúnem e todos conversam entre si. Sento-me na terceira fila sozinha. Ninguém me conhecem alem de Vivian que está por trás provavelmente dando o ultimo retoque nas crianças. A coordenadora por fim aparece, acompanhada por minha amiga, e ambas falam algumas palavras. Vivian me embaraça quase até as lagrimas quando me apresenta e todos se viram para me olhar a aplaudem. Sorrio sem jeito sabendo que estou roxa e quando mais roxa me penso, mais roxa fico. Por fim a peça começa e eu rio mesmo sabendo cada palavra, já que eu que as escrevi. Rio do riso dos outros e rio de prazer. Tudo acaba rápido e mal abraço Vivian já fujo, será que todo autor tem medo de ouvir o que dizem de sua obra? Mas o riso me disse o que eu precisava saber, riso de adultos levados à ele por atores mirins e minhas palavras. O transito já não me incomoda, meu pulso machucado é ignorado assim como a cólica e a rinite. Sorrio até chegar em casa e devo confessar que ainda estou sorrindo.

Meu primeiro beijo me deixou tremula e extasiada. Meu primeiro emprego me fez ver um futuro até então inimaginável. Meu primeiro carro me deu liberdade. Meu primeiro conto me fez, felizmente, insana. Minha primeira peça, encenada por vozes inocentes e doces, me fez ver uma luz no fim de um túnel longo demais.
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28 de nov de 2008

Sentença


O edifício de consultórios era muito parecido com os outros em que estivera no ultimo mês. Salas esterilizadas, recepcionistas de sorriso vazio, longa espera pelo mesmo resultado. Ele se prometera que era a ultima vez. Todos até agora concordavam que sua expectativa de vida era de no máximo um ano. O que mais o incomodava era a voz impessoal que tentava parecer empática, mas que se você fosse atento o suficiente, somente parecia robótica e repetitiva. A recepcionista deste consultório não parecia nada diferente, pediu para ele aguardar com a indiferença destas profissionais e voltou a ler a revista de fofoca enquanto mascava seu chiclete. Alguns rostos a sua volta eram parecidos ao seu, pálidos e sombrios, a espera do fim. Outros, apesar de claramente sofridos, tinham uma aparência pacifica e de quase contentamento. Foi chamado somente com dez minutos de atraso e entrou no consultório mais pessoal que já vira em sua vida. As paredes eram de um tom alegre de amarelo, não o amarelo ovo, mas como as dunas do deserto batidas pelo sol. A parede ao fundo ela tomada por uma enorme janela, a oposta onde a porta se encontra era coberta por fotos de pessoas com sorrisos plácidos, famílias felizes, pescarias e muitos cães, a da direita era uma imensa estante coberta de livros de cima abaixo e a maior parte deles era de ficção, a ultima era reservada aos diplomas e muitos troféus de golfe. Na mesa enorme à frente da janela o medico menos ortodoxo o esperava. Era oriental, não mais de 1,65 mt de altura, usava uma calça jeans muito desbotada e uma camisa daquelas que turistas compram no Hawai, com abacaxis e palmeiras, para terminar usava um tênis amarelo ovo. Seu sorriso era acolhedor e nada profissional. Contou três piadas antes mesmo de abrir os exames de seu paciente. Examinou tudo meticulosamente, mas não parou de falar em tom de botequim “Você pesca? Nunca? Deve ir, posso te indicar um ligar ótimo. Gosta de Golfe? Nunca aprendeu? Parece chato, mas é uma arte.” Por fim terminou com os exames e encarou o paciente com tranqüilidade. “Sei que o senhor busca uma outra resposta, mas infelizmente eu tenho somente a mesma que já ouviu. Quanto tempo lhe deram?” O paciente disse que um ano e a isso o medico estalou a língua e deu uma risada divertida. “Há! Um ano! Quanta coisa se pode fazer em um ano... Mas um ano é uma estimativa tão boa quanto cinco ou dez. Já vi gente desenganada ignorar que lhe diziam que deviam morrer em 6 meses e teimaram em viver vários anos felizes. Eu lhe indico o mesmo tratamento que os outros, mas incluiria também acupuntura, varias estadas em spas, drenagem linfática deixa a gente todo lisinho, e se possível um passeio pela Europa na primavera. Já esteve na Europa na primavera? Morrer é o custo para estar vivo, meu caro, o segredo é como passamos o tempo que nos resta.” A consulta durou mais de uma hora. O paciente ouviu cada vez com mais prazer as piadas entre as sugestões de tratamento e quando saiu viu no reflexo da porta um rosto tranqüilo e quase contente. Durante dez anos ele voltou àquele consultório. Muitos meses eram bons, outros ruins, alguns péssimos, mas ele nunca esquecia o que o seu querido médico sempre lhe dizia: Viver, às vezes, é somente uma questão de vontade.
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27 de nov de 2008

Linhas

Hoje ele estava incrivelmente feliz. A noticia na TV que lhe dava o status de doente lhe abria portas que nunca imaginara ver destrancadas. Dizem agora que 20% da população brasileira é esquizofrênica. São egoístas, imorais e homicidas. Chamam de doença o que ele sabe ser somente um completo desrespeito pelas leis e pelo próximo. Desde o dia que nasceu nunca houve ninguém para lhe dizer que havia uma linha que nunca deveria ser ultrapassada. Seus pais, extremamente pobres, nunca disseram não, não sabiam quando dize-lo na verdade. Houve muitas ocasiões onde seu pai tentou apelar para a força bruta na tentativa de vê-lo se endireitar, quando roubou a primeira vez, quando chegou em casa chapado de crack, quando surrou até quase até a morte um garoto inocente mas homossexual, quando trocou por drogas os poucos bens da família, mas não havia nada mais alem das surras e a revolta que elas lhe provocavam. Não havia a sua volta um exemplo a seguir, somente podridão e ele gostava disso. Chafurdava na lama se sentindo poderoso por incutir o medo em quem cruzasse seu caminho. Não era assim por ser pobre, pois na verdade nunca lhe faltara nada, tomava o que queria. Não era assim por falta de amor, pois foi amado até onde foi possível. Não era assim por ter sofrido, pois em sua curta vida só fizera sofrer aos outros. Era assim porque o mundo já não ensina nada aos jovens. Desde que nascem são livres para acreditar que o mundo lhes pertence sem terem que dar nada em troca. E hoje ele, alem de não ter que pagar por nada do que tomava do mundo, ainda tinha uma desculpa para ser como era. Esquizofrênico, era isso o que diria se fosse pego. Levantou a arma e apontou para o gerente da lanchonete que tremia. O homem chorava e ele ria. Ambos sabiam que ele apertaria o gatilho conseguindo o que queria ou não. O riso era de vitória, mas ele também nunca aprendeu que existem pessoas que não temem e que saem de seu caminho para ajudar inocentes que ainda se lembram que linhas não devem ser cruzadas. Sentiu uma dor aguda e antes que pudesse matar o velho filho da puta à sua frente, viu o revolver cair de sua mão que já não o obedecia. De suas costas saiu uma senhora de meia idade, com uma bengala ensangüentada nas mãos. O rosto enrugado estava duro e chocado. Ele morreu alguns minutos depois. Tinha 13 anos. Ela nunca se arrependeu. Já fora assaltada 4 vezes, espancada uma vez e levara um tiro na perna no ultimo assalto que a fazia arrastar a perna de maneira dolorosa. Não, ela não se arrependeu, mas sofreu o resto da vida por tirar uma vida. Era ainda das que haviam aprendido a respeitar as linhas.
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26 de nov de 2008

Boas intenções

Ele era um homem bondoso, sempre pronto a ajudar o próximo, mais do que feliz em dar sua opinião para o aprimoramento da alma alheia. Sempre se preocupava com os conhecidos desempregados e procurava coloca-los em boas posições, era o acaso que fazia que estes empregos fossem sempre inferiores à capacidade da pessoa, mas como ele fazia questão de frisar, era preciso abaixar a cabeça, ter humildade e agradecer a Deus pelo que era colocado à sua frente. Gostava também de apontar aos amigos os erros cometidos em suas famílias, como os filhos eram mal educados, as esposas confiantes e profissionalmente independentes demais e como isso os fazia menos homens. Nunca se esquivava de seu dever de denunciar às autoridades o que sabia errado, fosse o riso dos jovens na rua (para que rir deste jeito, só podiam estar drogados), os automóveis mal estacionados, uma pessoa a seu ver suspeita andando pela sua rua. Os policiais de seu bairro conheciam seu nome. Sim, e como conheciam. Fazia questão também de ajudar os necessitados, os procurava pelo bairro, tentando se aquecer debaixo de seus cobertores de papel, e fazia sermões longos sobre a necessidade de se tornarem produtivos e depois lhes presenteava com orações que escrevia em letra pequena em pedaços de papeis rasgados de sacos de pão. Era um homem muito bondoso e preocupado com o próximo. Como todos nós o faremos, um dia bateu as botas e seu primeiro pensamento consciente no pós-vida foi que o paraíso o esperava. Com um sorriso seguiu em direção à luz que tanto falavam. O imenso corredor trazia pôsteres de ambos os lados com fotos de sua vida. Cenas que relembrava muito bem e das quais se orgulhava. O rosto triste dos amigos por ele lhes abrir os olhos quando à sua insignificância, o desespero de um mendigo ao ver uma oração em vez de um pão, o rosto cansado de sua mulher que fora humilde a vida toda e o servira tão bem. Logo o chão também estava coberto com estes momentos que eram o orgulho de sua existência e quando pensava que explodiria de felicidade com este reconhecimento dos céus, um alçapão se abriu e o engoliu para sempre. O corredor, numa explosão de luz, perdeu sua decoração e ficou branco e esterilizado esperando o próximo da lista. No ar, por um breve momento, pode-se sentir o cheiro nauseante do enxofre.
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25 de nov de 2008

Ao fim... o que realmente importa?

Ela tinha medo sempre. Não medo do escuro ou dos raios da tempestade, mas um medo irracional de ver a vida passar sem ter feito algo digno de nota. Esse medo a fazia pesar cada passo, atrasando seus dias em busca do sucesso em cada gesto. Tentava ser perfeita sem perceber que sua busca somente a tornava lenta. Vigiava cada minuto que passava em busca daquele que transformaria sua vida. Nessa vigília incessante perdia chances de se transformar, de se reinventar, de descobrir um caminho realmente glorioso para sua vida. A longa espera a fez uma figura patética, sempre a sombra imóvel por trás daqueles que não se deixam prender por anseios, mas sim são levados por eles a correr em busca de aventuras e sucesso. O melhor que se pode dizer dela é que nunca parou de procurar por aquele momento, aquele gesto perfeito que faria tudo valer a pena. Conheço muitas pessoas que procuram sempre fazer a coisa certa. Nunca se atrevem a confrontar ninguém. Sempre mudam de opinião para ficar com a maioria. Esperam sempre pelo momento mágico em que serão elevados como por encanto. A vida para eles é longa, tranqüila. Não existem baixos e nem altos. Nem exultação e nem desespero.

Quando se olha para trás é importante ver montes, planícies, montanhas e não somente um deserto árido onde se respira somente sonhos nunca alcançados. É importante olhar para trás e lembrar do desespero, do amor, da tristeza, da paixão, do carinho. É importante olhar para trás e sentir que em sua vida houve de tudo um pouco e que cada lagrima foi contrabalançada por um sorriso.

24 de nov de 2008

Lembrete a mim mesma

Junte uma palavra à outra com cuidado. Dê-lhes um bom motivo para que dancem juntas antes mesmo de tocar a melodia. Faça com que tenham paixão mesmo que o papel seja somente branco. Aqueça os sentimentos que as carregam para que deixem aqueles que as lerão trêmulos e sedentos por mais. Amacie as palavras duras, faça mais acidas as juras de amor, exponha os medos como se fossem ervas daninhas crescendo ao sol e esconda os dons para os olhos mais treinados. Deixe mensagens para serem decifradas somente por aqueles que conhecem a mão que escreve. Ponha tudo de si em cada historia, mas seja completamente impessoal com seus personagens. Revele-se sem medo com a certeza de que nunca ninguém saberá onde termina seu eu mais intimo e começa a ficção. Explore todos os sentimentos, aqueles que conhece e muito mais aqueles que pode adivinhar no rosto dos que o cercam todos os dias, dos que contam suas desgraças na tela da TV e daqueles que sentam, mudos e anônimos, em bancos de praça e sarjetas pela cidade. Junte uma palavra à outra sempre que for possível, ou melhor, o faça todos os dias mesmo que seus membros estejam doloridos e sua cabeça pareça cheia somente da idiotice e mesmice de seu dia a dia. Faça. Escreva sem medo. É somente quando escreve que se sente plena e feliz, quando sabe que todos os fios da teia estão bem presos em suas mãos. Abra uma nova pagina. Assim.... Boa menina...
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15 de nov de 2008

A Névoa


Do horizonte o manto branco vem cobrindo a cidade. Ninguém sabe o que pode ser, ninguém quer pensar nas possibilidades. Do alto dos edifícios as pessoas comentam como caminha lento e determinado, esse manto que agora parece dourado ao pôr do sol. Alguns sugerem um novo fenômeno, resultado do aquecimento global, da poluição, dos buracos na camada de ozônio. As pessoas esperam. É como se soubessem que tudo mudará depois que ele passar. Eu olho da minha janela e vejo a massa, que mais parece algodão doce, se aproximar, ela engole o chão e o céu, mas não apaga o sol. Não é uma névoa comum. Eu sinto. Não sei como será quando a noite cair. As pessoas já começaram a se desesperar a algumas horas. Do alto as vejo correndo como formigas no fim do verão, tentando achar um caminho para fugir do que quer que esteja vindo.

Era ainda cedo quando a internet saiu do ar e logo os celulares e os telefones fixos já não funcionavam também. As TVs ainda transmitiram até depois do almoço, aproveitando cada segundo que lhes restou para espalhar um terror que naquele momento nem se podia imaginar. Pela primeira vez em décadas eles estavam certos. Nesse ponto os escritórios já estavam vazios e as ruas cheias. A cidade parou. As pessoas tão acostumadas a depender de seus carros, relutavam em abandoná-los e eram alcançadas pela névoa. Fiquei na minha janela vendo o manto branco se estender. Vi pessoas correrem para ele como se fosse o caminho da liberdade, mas não vi ninguém sair de lá.

Já não vejo nenhum raio de sol, ele finalmente se pôs, talvez cansado dos gritos que tomaram o lugar das buzinas e do ruído dos motores. Não quero sair de casa para me desesperar na companhia de estranhos. Se não posso dizer adeus aos que amo, prefiro ficar e rezar para que estejam tão calmos como eu. Sim, porque é possível se desesperar em uma calma absoluta. Dou as costas à janela e olho para minha casa como se fosse pela primeira/ultima vez. Em minha cabeça lembro pedaços de “The Mist” do meu amado Stephen King e tantos outros contos e filmes que falam de horrores desconhecidos. Minha janela já se embaça com a proximidade da neblina que é muito mais densa do que imaginava. Deito em minha cama e espero. Fecho os olhos e sinto o ar gelando a minha volta e sei que a névoa me abraça. De certo modo é reconfortante.


Acordo e é dia. Meu corpo ainda está gelado apesar da manta e edredom que me cobrem. Pela janela vejo um céu azul como há muito tempo não podia nem sonhar ver em minha cidade. A parede de névoa ainda está lá, mas se afastando lentamente. Não fico colada às janelas, nem mesmo escovo os dentes ou alivio minha bexiga dolorida, corro escada abaixo para saber para que mundo acordei.

Somos poucos. Tão poucos. Andamos nos olhando entre desolados e maravilhados. Não podemos perceber nada em comum entre nós alem do fato de estarmos vivos. Somos brancos, negros, amarelos, jovens, velhos e crianças. Temos todas as idades, cores e tamanhos. O ar cheira a terra num mundo de concreto, existem flores brotando por entre o asfalto e dizem que os rios correm limpos e cheio de peixes. Para onde foram todos que não somos nós?

Faz um mês que a névoa limpou o mundo. E ele agora é lindo novamente.
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8 de nov de 2008

Godbye Nani


Nana,

O que sobra de mim chora. Parece sempre que já não restam lagrimas, mas me surpreendo em senti-las correr livres pelo meu rosto cansado. É como se eu fosse menos eu mesma sem você e os outros que antes se foram pelo mesmo caminho recheado de salsichas. Não sinto meus braços e nem pernas, é como se eu fosse um tronco dolorido com dedos fantasmas que digitam meu adeus.
Eu sei que está cercada de seus amigos agora e que recuperou suas pernas e seu coraçãozinho já não pula incerto quando se anima. Sei que deve estar correndo entre eles feliz, mas, filha, eu morri mais um pouco hoje.
Um coração aos pedaços ainda é um coração? A tristeza infinita tem um fim? Quanto agüenta ainda bater um coração que não tem motivos para se surpreender?
Nana, mamãe te ama para sempre. O pouco que me resta nunca vai esquecer e não terá medo de recordar. Fui uma melhor humana em sua companhia, aprendi a amar melhor, a me resignar com menos revolta, a viver momentos simples com alegria extrema.
Desculpe se não pude conter suas dores e curar seus tumores, Deus me deu fé, mas infelizmente não colocou em minhas mãos a mágica que te faria perfeita novamente, me deu apenas um coração forte o suficiente para estar ao teu lado até o ultimo segundo.
Espero que no seu céu canino sua cama seja macia, o ar sempre fresco, a chuva caia refrescante e que existam flores que exalem meu cheiro para que não me esqueça.
Fica com Deus.
Eu, por aqui, fico somente mais triste.
Te amo.
Sua humana.
Mamãe
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1 de nov de 2008

Pessoas que ultrapassam a faixa amarela me irritam.


Não é somente uma sugestão, nem mesmo é um pedido. É uma ordem. NÃO ultrapasse a faixa amarela. Mas não é o bastante. As pessoas parecem gostar de se colocar em perigo somente para dar trabalho aos outros, como aqueles idiotas que se arriscam nas geleiras e acabam virando picolé para todos depois dizerem que foi uma tragédia. Não. Na verdade foi uma completa IDIOTICE! As pessoas gostam de ultrapassar a faixa amarela principalmente quando existe uma platéia para vê-los dar o idiótico passo. Vocês podem até pensar que falo de jovens, cujos hormônios fazem idiotices sem nem mesmo a conivência do dito jovem, mas existem irresponsáveis de todas idades. Ontem mesmo, no metrô, um senhor de seus 60 anos, porte militar, cabelo escovinha ultrapassava, com um olhar arrogante, a faixa amarela que separa a todos do perigo. Ficou tão na ponta da plataforma que eu imaginei sua barriga sendo arrancada pelo trem que se aproximava. Pena, não foi desta vez. Mas o impacto da velocidade e do vento o jogou para trás uns 4 passos e lá ele ficou completamente revoltado por essa afronta. Reclamou em voz alta como se algum funcionário invisível do metrô o houvesse empurrado à força alem da linha de segurança.
Pessoas que ultrapassam a linha amarela me irritam, profundamente, porque em 99,99% das vezes não estão preparadas para enfrentar as conseqüências de sua idiotice.
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19 de out de 2008

Regras da Sedução

Ela ficou esperando pelo príncipe encantado durante toda a noite. O moreno alto e razoavelmente bonito, mas usando óculos, não tirava seus olhos dela, mas não era o tipo de homem que iria impressionar suas amigas. Repeliu todas tentativas que ele fez de se aproximar, recusou o drink, lhe deu as costas quando a cumprimentou, fingiu não o ver quando dançou a sua frente. A noite já se aproximava do fim e ele ainda a encarava, com olhos grandes e negros que pareciam espetá-la como um alfinete mal colocado. O homem com quem ela sonhava apareceu e lhe deu o mesmo tratamento que ela dispensara ao seu Romeu. Ela tentou de tudo. Exagerou na dança sexy arrancando riso dos que assistiam, tentou lhe pagar uma bebida que nem foi dispensada, mas devidamente ignorada. Apelou para a agressão e derramou bebida em sua calça, limpando pornograficamente com um guardanapo o colo molhado. Ele nem agradeceu, somente a chamou de desastrada e saiu carregando consigo uma menina sem graça que havia ficado a noite toda completamente na sua. Suas amigas riram dela sem dó fazendo com que finalmente se sentisse humilhada. Olhou para o moreno quase belo e viu em seu rosto uma expressão que, anuviada pelos vapores da bebida que ingerira e na ânsia de não terminar a noite sozinha, não reconheceu. Caminhou até ele tentando ser sexy, mal sabia que somente parecia desesperada, e finalmente lhe disse que aceitava uma bebida. Ele não lhe disse uma palavra. Pediu a bebida e como um perfeito cavalheiro a ofereceu com aquela mesma expressão no rosto que começou a deixá-la inquieta, mas ele não lhe deu tempo para pensar, disse boa noite e foi embora com passos largos e firmes. Tivera a noite toda para reparar nas pernas longas, no peito largo, nos olhos negros por trás das lentes, mas não virá nada. Agora era tarde demais, mas não para reconhecer a expressão com que se despedira. Era uma expressão mista de pena com embaraço e foi com essa ultima lembrança que ela teve que dormir.
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14 de out de 2008

Ausência

Ele é alto, magro e extremamente gentil. Tem toda calma do mundo para ouvir a historia de minhas dores e os lamentos pelo meu corpo preguiçoso. Ele sorri com freqüência, acena com a cabeça interessado. Sem energia, cansaço vindo da tensão, períodos de preocupação prolongados. Ele entende e pode ajudar. Acupuntura liga botões que se desligaram quando sobrecarregados e desligam outros que não deveriam ficar ligados por tanto tempo. Ele me explica que é possível reprogramar meu corpo para que a carga diária pese menos em meus ombros, é possível reorganizar esta maquina. Perfeito! Deito com nervos retesados de segunda-feira e penso que ele terá trabalho para me manter nessa posição por uma hora. Impossível! Algumas agulhas depois e já brinco com as correntes da persiana acima da minha cabeça e rio sem freio de suas piadas que ficam mais engraçadas ainda pelo jeito doce de seu sotaque chinês. Ele me deixa só na penumbra e olho com curiosidade para todas as agulhas que parecem flutuar sobre meu corpo. Carpenters toca sem parar ao fundo, sempre as mesmas musicas, se repetindo como um eco do passado. E meus olhos se fecham. Sinto que ele retorna muitas vezes. Gira as agulhas como se fossem brinquedo e algumas queimam e ardem sob suas mãos. É normal, ele diz. Acordo muito tempo depois. Ele me pergunta como me sinto e não sinto nada. Todo meu cansaço se foi, a tensão que corria até a ponta de meus dedos, a energia negativa que varre o trabalho todo dia, tudo desapareceu. Tudo. Não sinto medo do amanhã, nem o desejo de vê-lo chegar. Não sinto carinho pelo rosto sorridente que me olha e nem esperança. Não anseio pela minha casa e nem pela minha família. Sou uma casca vazia que somente pensa friamente no que é possível se fazer quando todos os botões estão desligados. Não existe pudor ou moral ou medo de conseqüências. Somente a liberdade de não se ter nenhum sentimento. Agradeço efusivamente, pois sei que é importante fingir que todos os sentimentos ainda estão no lugar, e saio para a rua respirando um ar mais puro, pois não existem expectativas. Da minha natureza amorosa nada resta, meu novo eu pode cometer o ato mais odioso sem piscar. Eu agora posso até mesmo matar sabendo que não derramarei nem uma lagrima. Nem uma lagrima.

(Somente a metade é verdade. Eu acho...)
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13 de out de 2008

Não tema, trema...


Eu não quero esquecer o trema. Não interessa que não o uso com a freqüência (com trema) que deveria. O fato é que o trema é um dos únicos acentos que acho delicioso (por ser tão maravilhosamente inútil), parece uma cobertura de bolo bem mais saborosa que o recheio. Essa mudança nas regras da escrita já me dá nos nervos antes mesmo de entrar na moda. Eu que sempre fui péssima em português agora também vou ficar desatualizada, pois as únicas regras que consigo guardar já não valerão para nada. Estão tirando os únicos assentos que sei aonde vão e vão tornar coco e coco a mesma coisa e nunca vou saber do que é a merda do frappé (com acento). Melhor pedir sempre de chocolate ou morango. Acho que odeio mudanças (não as feitas por caminhões). Lembro quando um diretor veio todo animado dizer que iam trocar meu computador e que o novo que teria um mouse. “Mouse?!” Grito eu indignada, “não quero mouse, sei exatamente o que fazer SEM o mouse, tirem esse treco daqui e não me incomodem mais!” O mouse venceu ao final e hoje me pergunto o que seria de mim sem ele. Não estou comparando o trema ao mouse, mas me ressinto de me separar de amigos que há tão pouco tempo aprendi a respeitar. Sempre fui mais de números que de letras (samurai do Excel) e ainda me surpreendo quando dizem que eu escrevo bem, afinal não consegui aprender no colégio nem uma regra básica dessa língua infernal (pra que eu tenho que saber o que é pretérito imperfeito se já é passado?). Dou graças a Deus pelo corretor de textos e pelo mano Urso que me ensina (com cara de Santo Urso/pecador pagando pecado) enquanto corrige meus textos cheios de erros prosaicos. Depois de velha preciso somente escutar uma vez, ou no máximo duas, para guardar para sempre certas esquisitices que tornam a prosa inteligível. Enfim.... Nem sei porque estou tão irritada com o novo código, talvez porque somente agora consiga entender algo do velho? Enfim 2 a missão... vou esperar mano Urso me contar o que devo ou não fazer de agora em diante, mas tenho certeza que nunca deixarei de usar o trema, mesmo que ele somente venha à vida quando sugerido pelo corretor de texto.
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10 de out de 2008

Caixinha de enxaqueca


Vivemos numa era de extremismos onde todos pregam o comedimento. Parece-me sempre que estou assistindo a um filme japonês com péssima dublagem onde as bocas falam muito mais do que o som que delas parece sair. Ouço as idéias mais idiotas ofertadas como prêmios Nobel e fico pensando se houve qualquer outra era em nossa historia onde tantos ignorantes dominaram o mundo. Não falo somente de nossos políticos, que ao redor do globo parecem competir pelo premio de maior charlatão do mundo, mas também das ditas celebridades, atores, cantores, escritores, diretores, e outros ores que ditam as tendências para o mundo. E que tendências.... Somos tratados como tolos, e a maioria da população o é, mas não existem mais aqueles poucos nichos criados especialmente para aqueles que gostam de usar a caixinha cinzenta que está presa dentro da cabeça e que em muitos serve somente para medir o tamanho da dor de cabeça. Tudo nos é apresentando como se fossemos lerdos demais e a maioria se torna lerda, esperando que digam o que deve ser feito, como e quando. Do meio dos pobres seres que somente usam a cabeça para as enxaquecas e daqueles que tentam nadar contra a corrente emburrecedora tentando aumentar a cada dia sua capacidade cerebral, surgem estes cartoons cujas bocas pronunciam em japonês o que as vozes dizem em norueguês. Ninguém entende, mas é melhor segui-los. Ou não? Não sei o que leva o mundo a andar para o lado que anda, não entendo e talvez nem queira. Acho que prefiro criar na tela branca do meu laptop o que gostaria de ver quando ando pela rua. Gente pensante desapegada de modismos, que questiona o que vê e ouve e que sorri com mais sinceridade, pois sabe de onde vem a graça. Gente com senso de humor e maior ainda senso de justiça. Gente honesta e cheia de brios que não tem medo de expor suas idéias mesmo quando elas vão contra a maré. Gente que eu gostaria de conhecer.
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23 de set de 2008

A Arte da Sedução

Ele estava parado do outro lado da sala. Pela expressão de seu rosto aquela sala lotada de gente, bem vestida e perfumada, poderia bem ser qualquer estação do metrô ou mesmo um elevador lotado. Parecia entediado ou simplesmente indiferente a todos os olhares femininos que tentavam capturar os seus. Não era belo da maneira moderna em que homens parecem mais garotos, mas sim másculo, rosto de ângulos retos, olhos profundos com leves rugas de riso ao redor, boca cheia e que poderia ser cruel ou extremamente sensual. Não parecia interessado em nada, não até que ela entrou. Ao contrario dele parecia extremamente interessada nas pessoas, mas com o distanciamento de quem estuda e não se relaciona. Passeou pela multidão com olhos atentos e parou em um canto com um sorriso nos lábios e os olhos meio serrados, como uma gata olhando para o pires de leite que logo beberia. Girava a cabeça devagar, escutando trechos de conversas, deixando transparecer o que lhe faziam sentir no brilho dos olhos e na curva da boca pintada de um rosa quase transparente. Ele estava diretamente a sua frente, perfeitamente visível por sua altura e porte, mas mesmo assim ela não o olhava. Isso o incomodou, sem que soubesse por que, queria que ela o achasse tão interessante quando aos outros que observava. Ele se aproximou devagar, rodeando como se ela fosse uma presa, andando devagar, dando-lhe tempo de ver que ela captara sua atenção, mas os lábios sorriam da conversa que escutava, sem esconder, entre duas loiras siliconadas e seus acompanhantes. Ele parou a sua frente de testa franzida, se perguntando o que havia nela que o atraia e porque o incomodava que o deixasse em paz como queria que os outros fizessem. E ela o olhou finalmente. E lhe sorriu. Não se apresentou como todas, esperando apressar o passo, mas esperou que ele lhe estendesse a mão e lhe dissesse seu nome e somente então lhe deu o seu como se fosse um presente. E então, como se ele fosse um velho conhecido, lhe contou o que escutava, o que via e o que pensava e ele riu enxergando pelos seus olhos o absurdo das pessoas. A festa chegava ao fim e ele a convidou para irem a um café onde ela poderia contar mais das coisas loucas que passavam por sua cabeça. Na reclusão de seu carro ele reparou como seu perfume combinava com ela e como parecia tão relaxada, sem esperar nada deste encontro a mais do que o café oferecido. Ele a quis naquele momento. Desejou possuir não somente seu corpo, mas o que havia em sua mente. E foi somente então que ela perguntou, denotando pela primeira vez que o havia notado antes que ele lhe oferecesse a mão: “O que fazia tão emburrado naquele canto?” E ele sabia que só havia uma resposta: “Acho que esperava por você.”

20 de set de 2008

Dever


Recebeu suas ordens com um aceno de cabeça, o rosto sempre o mesmo, duro e decidido, mas por dentro gritava à plenos pulmões em revolta e terror. A sala estava lotada com outros pilotos como ele, todos em suas roupas especiais feitas para suportar a violência da velocidade, que o olhavam com inveja e talvez um pouco de alivio por não terem sido escolhidos.
Deixara sua casa naquela manha com um beijo na testa de sua mulher e vários pelo corpo ainda tão gorducho de seu filho. Pensara que tinha sorte de viver o sonho de muitos, de lutar pela sua pátria e a liberdade do mundo, agora parecia que um pesadelo se insinuava em seu conto de fadas. Não podia mais se ver como o cavalheiro de armadura brilhante que mata o dragão, na verdade se sentia como o feiticeiro cruel que aprecia o sangue inocente desperdiçado. O que pode fazer um homem que jurou obedecer? Como pode dizer que “Não, isso é desumano, nem mesmo pela minha nação, nem mesmo pela minha família. NÃO!”. O dever incutido em cada fibra de seu corpo o fez caminhar até o avião de linhas perfeitas que o aguardava no hangar, uma maquina perfeita de linhas sensuais e apetrechos letais. Duas linhas de homens o esperavam como para dar suas benções, mas o que sabiam eles? Completa ou não a missão ele estaria condenado. Se falhasse seus pares o olhariam com desprezo, se tivesse sucesso seu espírito se quebraria para sempre.
A cabine do avião parecia pequena demais agora, pequena demais para ele e suas duvidas, ele e seus demônios. A ordem fora simples, destruir o esconderijo e tudo à sua volta, a escola, a creche e o centro comunitário onde as mulheres se reuniam para fazer artesanato. Para sua grande nação as perdas são aceitáveis.
A turbina rugiu alto, seu corpo se preparou para ser moldado ao assento pela velocidade. Ele sabia o que fazer e algumas horas depois o fez. Era o seu dever. A merda do seu dever.

15 de set de 2008

Por trás da teia

Estudar as pessoas é quase um sexto sentido. Não sei se é da minha natureza, se é um habito cultivado ao longo dos anos como uma rede de proteção ou se é algo que simplesmente me diverte imensamente. Minha querida e elétrica chefe sempre acha que julgo muito duramente as pessoas, que vejo teias onde nem mesmo existem aranhas, mas mal sabe ela que eu somente vejo um pouco mais longe do que a maioria das pessoas. As intenções de terceiros ficam cada vez mais evidentes para mim com o passar dos anos. Como qualquer outro mortal da pelota gigante eu frequentemente me engano com as primeiras aparências, aquela-coisa-de-todos-usarmos-mascaras-etc-etc-já-cansei-de-falar-nisso, mas o convívio torna as pessoas bastantes transparentes para mim. Não é bem que as pessoas se mostrem mais, mas sim que é mais fácil ver por baixo da fachada que vez por outra cai. São estas quedas que espero, são os olhares francos, apesar de maldosos, captados num relance. São os gestos de raiva quando deveriam ser de admiração ou felicidade, são os punhos fechados quando as mãos deveriam estar relaxadas. São pequenos detalhes que montam quebra-cabeças humanos que para mim são como teias, mesmo que sem aranhas.

9 de set de 2008

30 de ago de 2008

Até breve, Magali


Minha ursinha, perder você é mais um prego cravado em meu coração. Não sei o que resta, resta pouco eu sei. Cada dia tenho menos do que amo e isso me assusta, pois para o que se pode viver senão para quem se ama? Já sinto falta do seu jeito quieto e seus olhos de chocolate. Apesar de ser em outros pés que sempre se aninhava, são os meus que sentem falta do seu calor. Não sei o que aconteceu e peço perdão se deixei que algo te fizesse sofrer. Sinto-me indefesa e impotente perdendo meus mais amados companheiros sem aviso. Culpa minha? Destino? Que destino pode ser tão perverso de me negar mais uns anos de felicidade? Minha ursinha, você foi mais uma luz a iluminar a vida sem graça e mais um motivo para que eu continuasse voltando para casa noite após noite. Seja doce com seu pai e seu filho que a esperam no paraíso, sei que a receberão com latidos e abanos de rabo de felicidade. Eu fico aqui, cuidando de sua mãe, irmão e filha e somente digo: Até breve. Cuida bem de mais esse pedacinho do meu coração que se quebrou e me devolva quando nos encontrarmos novamente.
Te amo,
Mamãe

24 de ago de 2008

Máscaras


Para mim é difícil não observar as pessoas. É como se eu precisasse estudá-las constantemente para entender para onde o mundo está indo. E ele está indo para o buraco. Não é só no rosto que podemos ler quem realmente são aqueles à nossa frente, mas também na postura de seus corpos. Infelizmente, cada vez mais, cada expressão e gesto é estudado. Estudado demais para meu conforto. Não é somente naqueles primeiros momentos, onde todos usamos nossas melhores máscaras para passar uma boa impressão, que vejo dissimulação, é como se todos de repente quisessem ser atores num mesmo cenário. Gestos naturais são cada vez raros e relacionamentos completamente honestos ainda mais. Quando olho à minha volto vejo máscaras e as imagino ressecadas e quebradiças ao sol mostrando a verdade que ninguém quer revelar. O que tanto escondem? Porque poses e bocas e gestos estudados? Será que já não temos face para mostrar? Porque ser político é mais importante que se ser honesto? Onde está a verdade em esconder nossa aversão ou amor? Acho que não nasci para um mundo onde se é preciso ensaiar cada frase dita. Não sou cautelosa o suficiente para pesar minhas palavras a todo o momento, minha sinceridade brusca está desatualizada, meu humor acido está condenado. Mudar? Nem pensar. Em duas semanas chego aos 45 e se a idade te dá algo é a rara oportunidade de se aceitar mesmo que o modelo esteja gasto. Alguém disse que nunca mudamos, somente nos tornamos cada vez mais o que somos. Essa sou eu e deixo as máscaras para os que têm o que esconder. Prefiro meu rosto ao vento, meu humor negro e meus sentimentos claros. Que seja. Desatualizada ou não aqui estou. Sem máscaras.

19 de ago de 2008

A Janela

Começa tudo de novo. A janela aberta me mostra o ultimo andar da academia onde pessoas já cansadas perdem as poucas gramas ganhas em seus almoços. O calor volta e não me dá muito prazer. A não ser pela janela aberta.... Por ela entram sons e odores do mundo que me cerca e não me sinto isolada como quando o inverno me torna prisioneira de meu quarto. Alguém está queimando um sanduíche no tostex, conheço o cheiro, sei que vão ter que raspar a crosta queimada, mas o queijo pelo menos estará derretido. Os carros estão parados nos faróis, escuto as buzinas nervosas e sinto a frustração de seus motoristas na pele. Sei como é ficar presa em ruas sem fim enquanto o santuário de nossa casa parece nunca chegar. As arvores... quanto tempo não as aprecio? Quantos meses de noites olhando para a janela cerrada que me esconde as estrelas e me nega a brisa? O verão parece ter chegado meses antes do tempo e não me agrada, a não ser pela janela aberta. Ver o topo das arvores e sentir a brisa suave me ajudam a sonhar com lugares que há muito não visito, quase posso sentir o cheiro do pasto e ouvir o rugir da cachoeira que embalava tantas noites em tantos fins de semana. E me pergunto... O que seria de mim sem a memória? De onde viria a força para os tempos áridos, os verões impiedosos e os invernos de janelas fechadas? Começa tudo de novo, o bafo do metrô, as roupas que se grudam em meu corpo suado, o cabelo que cai sem jeito como se cansado, o rosto que parece sempre vermelho pelo esforço. Mas a janela, essa moldura para meu mundo noturno, essa porta para meus sonhos, está aberta e, pelo menos por agora, é somente o que importa.

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15 de ago de 2008

Os Pescadores de Perolas


Eu sei o eu vai acontecer, claro que sei, não é assim todo mês? Não me esgueiro pelos cantos, antes de ir para casa, para me dar o prazer de uma espiada disfarçada pela xícara de expresso? Eu sei o que vai acontecer.
Ele sempre me conta um pouco, cantarola uma ária enquanto com mãos expressivas conduz uma orquestra imaginaria. Ele sabe que amo o que faz e o que faz é me dar mais sonhos para sonhar. Quem pode recusar quimeras quando o mundo é um deserto árido e claustrofóbico repleto de seres sem imaginação? Durante o almoço observo enquanto corrimões são envolvidos em redes e tecidos diáfanos despencam do teto de concreto, sorrio por cima de minha alface pensando “Ah, Iacov, o que virá?” Termino o dia com a excitação que somente estas quintas-feiras me dão. Desço já com meu sorriso a postos, pois sei o que vai acontecer.
Uso de minha posição privilegiada de funcionaria para entrar de fininho no que horas antes era uma cafeteria. Os corrimões sumiram, a galeria evaporou, a livraria se encontra perdida em brumas, do nada escorrem fios de brilhantes e perolas que quase roçam minha cabeça. Ignoro as cadeiras, pois para mim não existem assim como o corrimão e a galeria. São somente espectadoras, como aqueles que nelas se sentarão, do drama que logo irá se desenrolar.
Olho o relógio, fumo um cigarro, olho o relógio, tomo um café, olho o relógio, recebo algumas pessoas, olho o relógio, fumo mais um cigarro, olho o relógio, entro e me sento, separada por uma coluna, daquele que é o mestre da musica.
Eu sei o que vai acontecer. A voz querida apresenta o mestre da musica, que me lembra sempre um duque ou conde ou seja lá que titulo que leve as pessoas a querer se curvar e dizer “Sir!” Sua voz imediatamente me transporta para muito longe, tão longe que me esqueço a que mundo pertenço. A musica começa, o que dedilha o piano o faz com maestria e os que juntam suas vozes ao instrumento provocam arrepios em minha espinha. Quando mexo meus pés sinto areia sob eles, quando viro meu rosto sinto a brisa do mar e o grito dos pescadores de perolas voltando para casa ecoa em meus ouvidos.
Tudo termina rápido demais. O amor sobreviveu à intriga, mas não sem pagar um certo preço em sangue. Não é sempre assim? Eu já não sabia que seria assim? Mas o que importa, pelo menos para mim, é que mesmo sabendo o que vai acontecer, mesmo sabendo que por trás da bruma se encontra todo meu cotidiano, ainda saio com o coração leve e agradecido. Trago para casa uma perola que pescador nenhum poderá me dar, a lembrança de mais uma noite mágica com Iacov Hillel e Mauro Wrona. Obrigada.


Pescadores de Perolas no Centro da Cultura Judaica, Domingo, 17/08, 19h00.

14 de jul de 2008

Uma Questão de Negócios


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O sorriso era amistoso, apesar dos dentes que brilhavam por entre os lábios serem tão afiados e a mão que a convidava a sentar ser tão branca que a luz vinda da lareira parecia atravessá-la.
Em sua cabeça ela ouviu as linhas da historia infantil “Para que dentes tão grandes, vovózinha?”, “Para te comer, minha netinha!”. Reprimiu a custo uma risada nervosa que sabia que teria se espalhado em ecos infinitos pela parede do castelo.
- Suas referencias são maravilhosas. Governanta na casa do Duque D e também na casa do Lorde L e assistente pessoal do Primeiro Ministro J. O que a fez sair destes empregos? - A voz do Conde era melodiosa e um tanto quanto melancólica.
- Bem, não haviam desafios e com o tempo eu senti necessidade de mudar, mas sai em bons termos de todos. Posso dizer que tenho a honra de constar na lista de pessoas de confiança de meus antigos empregadores. – Ela não o olhava nos olhos. Os dele pareciam ser feitos de fogo liquido em um continuo redemoinho e mais do que a intimidavam, a faziam temer ser hipnotizada e levada alem da sanidade.
- Ah.... lhe faltava aventura, presumo. Algo mais do que o mundano, algo alem da rotina.
- Não....Sim... Quer dizer, todos esperamos por um pouco de emoção em nossas vidas, não é? Algo que faça nosso sangue correr.... - Se arrependeu das palavras logo que as disse. Mencionar sangue para um Conde pálido, de dentes afiados, em um castelo decrépito era um risco grande demais.
- Sim. O sangue, tudo sempre se resume a ele. O queremos frio em nossas veias para tomar decisões. O queremos quente para saborear melhor as paixões. O queremos correndo, como fogo liquido, para nos excitar diante do perigo. – E os dentes brancos e estranhamente sedutores morderam os lábios vermelhos.
- Bem, o senhor me desculpe, mas acho que foi um erro essa entrevista. O castelo é muito distante e...
- Não, por favor, não se negue. Não vê que sofro? - e ele realmente parecia cansado e abatido. - Minha casa ancestral é uma ruína. Meus servos não têm uma mão firme que os comande e não faço uma refeição decente há séculos.
- O senhor come? - ela perguntou curiosa.
- A curiosidade maior que o medo....- e ele sorriu animado. - sabe quem sou e ainda assim.... mas, respondendo a sua pergunta. Sim. Eu como. Sopas, vitaminas e afins. É preciso imaginação para preparar minhas refeições, mas minha maior preocupação é com o castelo. Não vejo porque tenho que viver em meio à teias de aranhas e pó secular. Nem entendo porque me visto à rigor se minha casa parece prestes a desabar. Preciso de ajuda. – e seu rosto se torceu angustiado.
- Mas...mas... o risco... sei que disse que gostaria de mais aventuras, mas trabalhar aqui... com o senhor...
- Minha cara, os tempos modernos são incríveis. Posso não conseguir uma governanta, mas tenho TV à cabo e conexão rápida para a Internet. Faço compras online como qualquer um e os bancos de sangue estão sempre prontos a me atender à qualquer hora. Posso até mesmo escolher o tipo sangüíneo que prefiro. O- é uma iguaria, mas ultimamente anda em falta no mercado. Portanto o único risco que correria aqui seria tropeçar nas teias de aranha e cair escada abaixo. Já há muito tempo que não ataco pescoços. O ultimo bom dentista que conheci faleceu em 1930 e o que veio depois quase me pôs a perder um canino. Imagina o que é um canino para mim?
- Mas o castelo é imenso! Eu sozinha não daria conta.
- Tenho muitos servos. Inúteis todos eles, mas a meu comando te obedecerão cegamente. Reinsfield! - ele chamou sem levantar a voz e quase de imediato um homem maltrapilho entrou meio curvado. - Reinsfield, de hoje em diante você e os outros obedecerão essa senhorita cegamente. Aquele que ousar encostar a mão nela ou lhe faltar com o respeito sofrerá dois séculos de torturas. E, pelo amor de Deus, tome um banho e vista-se decentemente. Pode ir.
- Sim, mestre. - E tão silenciosamente como havia surgido ele se foi.
- Vê? Rios de dinheiro, a vida eterna e se contentam em andar pelas sombras vestindo farrapos. Preciso de você para que trazer o mundo moderno para minha realidade.
- Conde, não nos apressemos. Nem mesmo falamos sobre remuneração e nem nos benefícios. Apesar de ansiar por uma vida mais aventureira não serei leviana no que diz respeito à minha carreira. - antes de tudo ela era uma mulher muito pratica.
- Seu salário será de 10.000 libras por mês, folgas aos domingos e duas férias, de quatro semanas cada, por ano onde poderá desfrutar de minhas propriedades na Reviera, Escócia, Grécia, Estados Unidos, Itália, França, Irlanda e se não estou enganado existe também uma fazenda no Brasil. Claro que citei somente os lugares que imagino possam atraí-la, mas pode escolher entre qualquer uma das minhas propriedades.
Ela quase não respirava. Não era somente a riqueza nunca sonhada, mas também o desafio e a aventura que lhe faltavam. Era como uma negociação qualquer, mas com tantas possibilidades....
- Não me faça sofrer mais, desde que vi seu currículo que sonho com uma casa brilhante onde possa receber sem vergonha. Se a proposta não lhe é atraente me diga, minha fortuna está em suas mãos. - Ele tinha lagrimas sangüíneas nos olhos e seus caninos agudos mordiam os lábios de ansiedade.
- A proposta é ótima, senhor Conde. Só o que me atrevo a dizer é que, apesar de gostar de aventuras, dormir em um castelo com seus servos e suas noivas.... o senhor as tem ainda, não? As vi em muitos filmes e elas não parecem do tipo de obedecer à regras, mesmo impostas pelo senhor.
- Ah, sim, minhas noivas. Criaturas tolas. Poderiam ter feito dessa casa o castelo mais rico do mundo, mas só dormem nas masmorras em meio à sujeira e na companhia dos ratos. Você está certa. Tenho uma casa, nem 500 metros daqui, seria a casa do administrador se eu o tivesse. É sua. Amanha mesmo mando plantarem alho em toda sua volta e pedirei ao padre da vila que benza seu terreno. Vê meu desespero? Só quero ser normal...- Uma lagrima vermelha se desprendeu dos olhos e correu a face triste.
Ela se levantou e lhe estendeu a mão diminuta. O negocio estava selado. No dia seguinte ela se mudou para a casa cercada por plantações de alho e onde o terreno tinha sido aspergido com água benta. Logo o castelo ganhou vida. Reformas foram feitas, moveis novos comprados, cortinas e roupas de cama, mesa e banho encomendadas. E ela, a pequena governanta, era a rainha, somente ela geria toda fortuna acumulada por séculos. As pessoas vieram, governantes, diplomatas, nobres, todos para conhecer o castelo que saíra das brumas para o esplendor. Ela, feliz como nunca, passava horas inventando pratos líquidos para o deleite de seu patrão. Ele, remoçado, lhe adivinhava os desejos e a cobria de presentes.
No fim, foi tudo somente uma questão de negócios.

7 de jul de 2008

O dia que assassinaram Hamlet

Não. Não o assassinato esperado. Não o final sangrento e cataclísmico de sempre de Shakespeare. Não. Se assim fosse eu não teria ficado com gosto de figo estragado com patê de ameba na boca.
Se fosse por minha vontade cortaria todo o primeiro ato para os 5 minutos em que Wagner Moura não ficou pulando pelo palco como um ornitorrinco bêbado. Nestes minutos ele esteve bem, dramático e cômico sem apelação, mas foram somente 5 minutos das quase duas horas do primeiro ato.
Shakespeare pode ser atualizado, simplificado, adaptado, mas se você quiser se manter fiel ao texto não tente transformar suas belas palavras em gritos exagerados e loucura desvairada. Em certos momentos o discurso insano de Hamlet é até incompreensível pois Wagner Moura grita tanto que seu sotaque baiano ganha e só o que se pode imaginar é que definitivamente este Hamlet não bate bem da bola.
Rainha Gertrudes é carioca, com certeza, Ss e Rs tão carregados que quando se diz no reino da Dinamarca dá para rir como se fosse piada. Rei Claudius pensa estar em novela cômica da globo e em vez de insidioso parece patético, em vez de maquiavélico parece ridículo, em vez de rei parece chefe do jogo do bicho. Seus gritos, como os de Hamlet, em vez de mostrarem ira ou medo somente evidenciam descontrole e mais, evidenciam o fato de que o ator perde suas falas a todo o momento, cuspindo entre os gritos até achar a palavra certa.
Horacio se dá bem, contido, amigo e confidente, sobressai em meio à confusão não vulgarizando um personagem amado por todos.
Ofélia é bela, doce e sempre no tom certo, sei que já vi esta menina em algum lugar e espero que ela tenha mais sorte numa outra peça, pois sua presença é reconfortante dentre o caos generalizado.
Polônios pensa estar no Show dos trapalhões. O personagem que deveria ser bajulador, cheio de si e de sua importância se torna, nesta leitura, somente um falastrão ridículo que quer por força arrancar risadas mesmo quando o drama corre solto.
Hamlet é um drama, com momentos de extrema comicidade, mas este que vi é somente um pastelão inspirado em um clássico.
Saí ao fim do primeiro ato sem um segundo de hesitação. Para mim Hamlet foi assassinado bem antes do tempo.
Quem teve o bom senso de ler a peça ou de assistir o filme de Kenneth Branagh sabe que Hamlet é dor e rancor, mesclado com o riso do disfarce forçado e finalizado com lagrimas sinceras pela queda de um reino onde a honra ficou esquecida num passado longínquo.
The rest is silence.

Domingo, 06/07/2008, Teatro FAAP, 18h00 (deselegantemente começou às 18h20.

6 de jul de 2008

O Morto

- Morto?
- Morto!
- Mas morto… Como?
- E eu que sei! Se nem sei quem é o morto!
- Mas ele tá no seu sofá, Ana!
O dia acabava de amanhecer e o sol mal chegava no hall minúsculo do apartamento onde as duas mulheres falavam aos sussurros. A sala se abria aos seus olhos incrédulos e o morto estava instalado, confortavelmente, em um dos sofás baixos e modernos. Era obvio, pelo estado catastrófico do aposento, que a festa da noite anterior tivera mais convidados do que o pequeno aposento comportava. Copos e restos de salgadinhos por todos os cantos, cheiro de cerveja derramada e suor de muitos corpos em uma noite de verão.
- Só o sofá é meu, Denise, não o morto. Alias nem sei quem é ele. Você lembra com quem ele veio?
- Lembrar? Não lembro nem com quem EU vim, depois de tanta Vodka e ainda mais com você me tirando da cama às 5 da manhã de Domingo. Eu tinha acabado de deitar.
- E quem eu ia chamar? A policia? Alem do mais foi você que me convenceu a me dar essa festa pra inaugurar o apartamento. E vê só como terminou? Essa sujeira, copo pra todo lado e um morto no meu sofá.
- Tá bom, eu divido a culpa sobre a festa, mas eu sai daqui antes do morto morrer.
- Como você sabe? Nem eu vi o morto morto. Eu....
- Você o que? Aha, Ana!!! Você foi pro quanto com alguém antes da festa acabar, não é? Eu sabia!!! Foi o Mario?
- Não, e isso não interessa. O que interessa é: O que eu faço com esse morto?
- Bom, precisamos nos livrar dele. Vamos deixar ele num banco de praça e pronto.
- E como a gente faz isso?
- Carregamos como se estivesse bêbado, já vi isso num filme. Nessa hora não tem ninguém na rua e é só largar o coitado em alguma praça.
- Tá bom. Vamos nessa.
Carregar o morto era mais difícil do que parecia, mas as duas conseguiram entrar com ele no elevador. Quando as portas se abriram no subsolo deram de cara com o zelador, de olhar sonolento e aparência desleixada.
- Morto?
- Como assim, morto? – Ana perguntou tentando parecer ingênua.- Ele tá só bêbado.
- Tá não, moça. Esse ai tá morto. Vai levar pra onde.
- Não sei.... – Ela entregou resignada
- Larga em alguma esquina. Logo acham ele.
- Mas, seu Zé, mal estamos conseguindo segurar ele agora. Enfiar ele no carro e tirar vai ser mais difícil ainda.
- Eu ajudo, deixa só avisar a patroa que vou sair.
Ele se foi e voltou depois de 5 minutos seguido de uma mulher baixa e morena que devia ser a patroa.
- Morto, né? Foi na festa que a moça deu? Bebida ou droga?
- Não sei, nem sei quem é ele. – respondeu Ana sem graça.
- Ahh, esses morto são os pior.
O marido se despediu da esposa e enfiou o morto no carro de Ana sem compaixão. Acharam uma praça deserta facilmente e descarregaram o morto o sentando em um banco. Ficaram os três olhando para o homem sem perceber que duas velhas senhoras se aproximavam com seus poodles.
- Ih!!! Morto? – perguntou a mais velha das velhas
- Claro que tá morto, que pergunta besta, Madalena. – respondeu a mais nova das velhas.
Os três, Ana, Denise e o zelador deram um pulo e encararam as duas velhas que se aproximaram do morto sem hesitação.
- Morto arrumadinho... Tava numa festa, é? Foi drogas ou sexo? – Disse a mais velha.
- Tá na cara que foi sexo, é sempre sexo nesses dias. Com qual das duas foi? – Perguntou a mais nova olhando de Ana para Denise.
- Nenhuma, nem sabemos quem é o morto. Ele amanheceu morto, só isso. – Denise começou a perder a calma. – Olha, precisamos ir....
As duas senhoras deram de ombros e continuaram a investigar o defunto enquanto os três se viravam para voltar ao carro. Uma viatura da policia estava parada, bem atrás do carro de Ana e dois policiais saltavam olhando para eles. Aproximaram-se conversando, com copos de café nas mãos e andar cansado.
- Morto é? – Perguntou o mais baixo.
- Mortinho. – Respondeu a mais velha das velhas.
- Mas falaram que não foi sexo. – Disse a mais nova delas.
- Deve ter sido drogas, então. – Disse o mais alto dos policiais.
- Não tem cara de drogado, só de safado. Ainda acho que foi sexo. – Disse a mais nova das velhas.
- Já disse que não foi sexo. – Gritou Ana irritada.
- A senhora conhece o morto? – Perguntou o mais alto dos policiais.
- Nunca vi o morto vivo, se o senhor quer saber.
- E vocês, conheciam o morto? – Perguntou o mais baixo olhando para Denise e o zelador que acenaram um rápido não.
- Então é melhor que a gente chame o rabecão pra levar o pacote. Alguém quer acompanhar o defunto? – Ofereceu o mais baixo.
Os três recusaram e as duas senhoras também, com certa tristeza, já que tinham que passear com seus cães. Os policiais, alto e baixo, deram de ombros e foram para o carro chamar o rabecão. Ana, Denise e o zelador foram andando bem devagar até o carro, esperando pelo momento em que os mandariam parar, mas ninguém o fez. Entraram no carro e partiram dando a volta na praça devagar como se não tivessem pressa. Os policiais acenaram adeus e as duas velhas, agora sentadas flanqueando o morto, também.
Na garagem do edifício a esposa do zelador os esperava e desejou um bom dia “pras moças” enquanto arrastava o marido para trocar a lâmpada da cozinha e reclamava que a maquina de levar tinha pifado de novo.
Ana e Denise voltaram para o apartamento e ficaram paradas no hall olhando uma para a outra sem entender o que havia se passado nas ultimas horas e como haviam saído de tudo sem um arranhão. Talvez seja assim com mortos anônimos, fica obvio para todos que ninguém é culpado, sendo assim só nos restam perguntas prosaicas e de interesse geral. “Foi bebida, drogas ou sexo?”

3 de jul de 2008

A Viúva

O caixão parecia pequeno demais para o homem que ele fora. Poderoso e temido agora ocupava um espaço restrito, mesmo que acolchoado de cetim. Os homens usavam ternos que custavam o salário de um ano de muitas pessoas e as mulheres desfilavam pretinhos não tão básicos assim. Todos vinham prestar suas homenagens diante do morto e, de passagem, lhe jogavam uma ou duas palavras de consolo. Ninguém lhe dava muita atenção, não chegava a ser ignorada, mas era como se fosse a quinta coadjuvante em um filme de terceira categoria. Todos sabiam que seu casamento fora uma fachada, ela tinha boa linhagem e dinheiro de família e ele havia prezado demais as aparências para largá-la por uma de suas varias amantes. Ela nunca tivera força suficiente para deixá-lo, fora criada para obedecer e assim o fizera. Aceitara tudo como parte do pacote assim como aceitara o dinheiro fácil e a posição social inclusos. Olhou o rosto endurecido pela morte à sua frente e não sentiu nada a não ser um alivio divertido. Ouvia os comentários pelo enorme salão, a ultima fofoca de como ele a deixara sem nada, de como fundira sua fortuna à dele, de como passara para o nome de amantes e partidários todos seus bens quando pressentira a morte. O jovem advogado que cuidara de tudo estava postado a um canto, a olhando vez por outra com um sorriso no rosto. A hora chegou e o caixão baixou ao solo lavado por lagrimas de mil amantes e de partidários políticos que perdiam seu benfeitor. Ela não chorou. Na verdade sorriu olhando para o céu azul de inverno e escandalizou a todos partindo antes do fim da cerimônia, balançando a bolsa pequena como em um piquenique e assobiando uma antiga canção. A casa, que sempre lhe parecera gélida, agora a recebeu cálida e confortável. Da biblioteca, refugio de seu pobre e morto marido, vinha o som de uma musica suave e o crepitar do fogo na lareira. Ela abriu a porta e lá estava ele. O jovem advogado que fora eleito como seu carrasco. Ele a tomou nos braços e ensaiou uma valsa enquanto riam do mundo. Na lareira os documentos que a sentenciavam à miséria queimavam e sobre a mesa o antigo testamento, dos tempos de recém casados, lhe dava o mundo. Valera a pena esperar. Foram dois longos anos para que o veneno lhe torcesse as cordas duras do coração de aço, mas ele sucumbira. Ela não cometeria o mesmo erro duas vezes. O jovem advogado a levaria em uma longa viagem por lugares exóticos e com certeza a pediria em casamento. Mas talvez ele não voltasse...

30 de jun de 2008

Madame Butterfly

Militar Americano filho da puta baseado no Japão seduz jovem inocente e se casa sabendo que a cerimônia é invalida em seu país. Após um bom divertimento retorna à pátria com promessa vazia de voltar para a esposa-gueixa. Três anos depois o casamenteiro sacana que a casará com o americano filho da puta tenta empurrá-la para rico nobre japonês que somente permanece casado enquanto a noiva é fresca. Cônsul americano bondoso se compadece de esposa-gueixa abandonada quando vai ler a carta onde americano filho da puta finalmente demonstra toda sua canalhice. Esposa-gueixa revela filho mestiço e pede que Cônsul bondoso avise americano filho da puta que ela o espera com sua cria. Nobre japonês safado e casamenteiro sacana tentam dobrar esposa-gueixa abandonada quando navio de americano filho da puta atraca no porto, partem amargos por não completar seus intentos. Esposa-gueixa, filho-mestiço e criada-sábia esperam toda a noite em vão pelo retorno do cretino. Americano filho da puta aparece casado e pede que cônsul bondoso convença esposa-gueixa e entregar filho para ele e esposa-oficial. Esposa gueixa comete harakiri e todos choram lagrimas de crocodilo sobre o corpo da inocente, mas criada-sábia e cônsul bondoso sinceramente sentem sua trágica partida. Americano filho da puta parte com filho-mestiço e esquece que um dia pisou no Japão.

Madame Butterfly é uma belíssima opera, me deixou sem fôlego e com o gosto amargo na boca que um bom drama deve deixar. Figurino riquíssimo, palco e iluminação perfeitos e personagens carismáticos, infelizmente as cadeiras rangedoras do Teatro Municipal muitas vezes abafaram as vozes lindíssimas dos cantores.

Mesmo assim voltarei, mesmo sabendo que a próxima ópera talvez esteja cheia de personagens pérfidos e inocentes imolados. É disso que é feita a bela ópera, de grandiosidade, drama, sangue e beleza.

Obrigada pela oportunidade, Diógenes, no palco você é tão belo como o é quando está ao meu lado. Kiss.

24 de jun de 2008

Sapatos

Coloquei seus sapatos e eram muito confortáveis. Deram-me a sensação de poder e bem estar que só um bom par de sapatos pode dar. Ofereci os meus pensando estar sendo justa, afinal se eu posso me ver em seus sapatos porque ela não pode provar os meus? Já esperava sua recusa, mas mesmo assim me causou embaraço, ela nem mesmo quis entender o porquê de eu reclamar da dor que me davam quando o dia era longo e os metros compridos demais. Disse simplesmente que não lhe serviam, apesar dos dela me servirem muito bem, e que não entendia o porquê das minhas reclamações sendo que eu mesmo comprara o pobre par. Achei que devia explicar que infelizmente eram o único par que pude conseguir e que haviam parecido bem melhores na vitrina do que posteriormente em meus pés, mas ela não entende sendo que nunca os precisou vestir. Devolvi-lhe os seus sem inveja. Prefiro os meus que apertam nos lugares errados e estão frouxos onde deveriam ser firmes do que sapatos que me dão tanto conforto que evitam que eu veja a dor alheia.

20 de jun de 2008

Um pequeno milagre...

Um milagre não é algo absurdo. É somente aquele algo que você desesperadamente espera acontecer se tornando realidade. Milagres podem ser pequenos, mínimos, médios, grandes ou imensos, mas se você não ficar com os olhos abertos pode se passar por um simples acaso, um ato do dia a dia, uma pequena sorte que chega na hora certa. Eu espero por um. Não rezo por ele, não anseio e nem me desespero, mas simplesmente espero que dessa vez esse pequeno milagre que espero venha como um presente pelos anos que esperei em vão. Pode ser que no fim ele venha em outra forma e o aceitarei de braços abertos, mesmo que não com um sorriso, mas sim com lagrimas lavando meu rosto cansado.

17 de jun de 2008

Noites Melancólicas


Dizem que ele surge em noites de neblina, quando o mar parece mais um céu cheio de nuvens. Dizem que é amaldiçoado e que ver sua silhueta é mau agouro. Mas isso é somente o que dizem. A lenda fala de um capitão cruel e de torturas sem fim, de porões de paredes tingidas de sangue e saques onde uma musica diabólica embalava piratas durante assassinatos e estupros. Quando ele surge no horizonte pode-se ver seu capitão em pé na proa, uma figura negra de cabelos longos que os dedos da neblina acariciam quase com carinho. Do navio só podemos adivinhar as formas elegantes e a potencia de seus canhões que estão sempre expostos por entre as portinholas abertas. Vemos também a sombra das velas negras que se debatem ao vento fantasma que não agita a neblina. É a imagem mais bela que pode surgir sobre esse mar céu da meia-noite, imagem que deveria inspirar enlevo e não temor, mas o ser humano parece sempre preferir acreditar no mal em vez do bem e isso talvez se deva à degeneração de nossa espécie. Eu , quando o imagino em meus sonhos, prefiro acreditar que este navio fantasma surge do fundo do oceano nas noites melancólicas. Nestas noites ele passeia pelo mar onde antes reinava, lembrando do balanço das ondas e dos portos onde outrora ancorava. Vagueia exalando suspiros entre as tabuas lustrosas e embalando uma tripulação de espectros que olha para o horizonte sem rancor. Não há porque ter medo, em noites melancólicas somente as boas lembranças conseguem emergir e apesar de nos causar saudade elas não produzem mal maior do que algumas lagrimas derramadas por um coração enternecido.

16 de jun de 2008

Regras

Ele sempre vivera segundo regras. Primeiro foram seus pais que diziam que tudo dependia dele se comportar segundo o esperado. Depois viera a escola com suas regras e códigos de conduta que só ele se importava em seguir, afinal era o que se esperava dele. À anos e anos de estudo seguiram-se anos e anos de trabalho onde ser político foi mais importante que ser eficiente, mais isso é o que todos esperam de todos, certo? Sua vida era perfeita, todos invejavam seus ternos de bom caimento, suas namoradas perfeitamente platinadas, seu cargo de titulo pomposo e seu apartamento luxuosamente decorado, mas ninguém o conhecia realmente. Por trás de todas regras estocadas nas estantes de sua memória, de sua personalidade programada para nossos dias, existia um coração jovem e apaixonado à procura de uma saída para sua existência robótica. Seu trabalho o levava aos lugares mais remotos e belos do mundo, mas sempre olhava para tantas maravilhas como uma criança com o rosto colado à vitrine de uma loja de doces e sem um centavo no bolso. Nunca se deu ao prazer de subir ao alto da Torre Eifell ou de caminhar pela muralha da China ou andar pela Praça Vermelho ou mesmo de sentar em um café e sonhar em Casablanca. Sempre concentrado em seu dever e nunca se dando o prazer de ser simplesmente mortal. Seu caminho era sempre em frente e seu coração sempre pesado até que um dia, ao passar por um campo de flores selvagens que viviam sem regras e sem cuidados, sentiu todas amarras se partindo como se as pequenas flores entoassem cânticos mágicos que abriram todas malditas comportas que encarceravam seus sentimentos. A penúltima pessoa que o viu conta que corria nu pelo campo rindo como uma criança, sem medo e sem vergonha, simplesmente livre. A ultima pessoa que o viu conta que vive em uma felicidade serena em uma cabana de conto de fadas na beira de uma floresta e que ri com freqüência, conversa com todos que encontra, ama profundamente as mulheres que lhe cruzam o caminho, aprecia imensamente cada pequena maravilha que encontra e não segue absolutamente nenhuma regra.

15 de jun de 2008

Quando velhos falam


Dividir experiências e memórias é o que nos resta. Não que não haja algo mais, mas se não tivermos para quem contar o que trazemos no peito o que fazer com toda essa bagagem? Vemos nossas mães e avós relembrando os velhos tempo, historias que já conhecemos, mas que sempre trazem algum detalhe novo, alguma pequena melhoria no roteiro. Não é somente para nosso entretenimento que cada momento de peso em suas vidas é repetido, mas, mais do que tudo, para lhes lembrar que suas vidas tiveram momentos marcantes, que suas vidas não foram em vão vividas. Nossos pais e avós nos lembram constantemente do que aprenderam nos tempos em que honra, dedicação e respeito queriam dizer algo mais que palavras vazias. Tentam, através de suas experiências, nos ensinar que somos responsáveis pelo que acontece ao nosso redor e que nossos erros podem ser concertados ou pelo menos minimizados se ousarmos nos responsabilizar por eles. Mães, pais, avós e avôs nos brindam constantemente com perolas que ignoramos por serem tão constantes. Falhamos em perceber que no meio do borbulhar constante de recordações está a chave para descobrirmos quem somos, pois de suas experiências resultou nossa educação, falha ou não. Passamos tempos demais tentando ignorar o que os velhos falam quando deveríamos lhes emprestar um instante nossos ouvidos e nos maravilhar por quantas mudanças foram capazes de passar, a quantos revezes sobrevieram e quantos amores lhes foram negados. Entender suas vidas é acharmos soluções para as nossas, pois cada vez que lamentam não ter seguido um caminho é como uma placa luminosa nos dizendo “Não desperdicem suas oportunidades. Não ignorem seus desejos”.

14 de jun de 2008

No Puppet Here

O exterior não é nada. Somos fantoches com mil fios em mãos diferentes e com diferentes agendas. Navegamos pela vida esperando suprir as expectativas alheias e nos esquecemos de nossas próprias. Cada um quer um pedaço de nossa alma e seus propósitos são sempre egoístas. Mesmo quando nos recompensam é somente como um afago na cabeça de um cão, continue fiel, caro amigo, mas obediente, sempre obediente. É chamado de rebelde aquele que não aceita os puxões que lhe dão e caminha somente na direção que sabe ser a certa. Não há porque ter medo, fazer o seu melhor sem ser capacho de ninguém é perfeitamente aceitável, mas vem com uma certa carga, uma certa tarja negra onde se lê “difícil”. Aceite e continue cortando as cordas que tentam lhe prender, pois o único laço aceitável é aquele que você mesmo faz e onde se lê “fidelidade” e esse laço o damos somente para aqueles que ganharam nosso respeito. Somos o que somos, bons ou ruins, mas quando bons podemos nos dar ao luxo de fincar o pé nas coisas em que acreditamos sabendo que o retorno que damos, nossa dedicação e inteligência compensam todo o resto. I’m a rebel, but I like it.

2 de jun de 2008

Inocência

As pessoas insistem em amadurecer e de certa maneira é a ordem natural das coisas, mas existem partes de nós que podem manter a inocência se ao menos lhes dermos uma chance. Gosto de ainda me surpreender como quando ainda tinha pernas pouco firmes e olhos arregalados para o mundo. Gosto de rir com abandono e de adorar um animalzinho fazendo papel de bobo. Adoro ser meio palhaça e de mostrar a língua para as costas de quem não gosto em vez de me morder de raiva. Me divirto com dancinhas idiotas para fazer rir aos outros e em falar como o exterminador do futuro só porque as mesmas frases de sempre parecem mais divertidas assim. Mantenho algo vivo dentro de mim desde a infância e nem mesmo faço força, somente não quero me separar do que me faz tão inocentemente feliz. Todos finais de semana me sento ao lado do meu irmão no sofá de casa e exercitamos o que temos de melhor, nosso lado completamente insano, escrachado, palhaço e irreverente. Falamos com liberdade, sem medo, aliviados de termos ainda com quem dividir o que temos de melhor. Nossa inocência. Não sei o quanto isso é saudável, mas o fato é que com 45 anos não tenho rugas, apesar de todas dores de cabeça que a vida me dá, e vejo cada cor como ela é e cada imagem com tudo que ela traz de mágico. Olho uma flor ainda tentando entender como pode algo tão belo nascer da terra, quase mordo minhas orelhas tentando entender a maravilha que é um avião, acho cada animal do mundo um milagre dos mais belos e ainda estendo a mão para cada um que encontro mesmo quando me dizem que eles podem morder. Manter o coração batendo não depende do nível de colesterol, do controle da pressão ou da alimentação saudável, mas sim da capacidade de manter dentro dele um santuário à criança que todos um dia fomos.

1 de jun de 2008

Bloody Depression

Ele pegou o lenço de linho egípcio e delicadamente secou o sangue que escorria de seus lábios. Se alimentar era um assunto tão incomodo em certos dias que quase não valia à pena o esforço. Achar sangue jovem não era difícil, nem mesmo era preciso utilizar seu famoso olhar hipnotizante, era necessário somente estalar os dedos e mostrar os caninos afiados que logo uma legião de jovens lhe oferecia os pescoços sem nem mesmo pedir pela vida eterna. Tão tedioso.... Alem do mais todo esse assunto de sangue era por demais nojento para ele. O liquido viscoso e seu cheiro acre, o pensamento sempre constante de quantas doenças sugava de pescoços nem sempre limpos. Porque as pessoas pareciam menos limpas hoje do que no século 18? Elas cheiravam melhor e não eram ensebadas como seus antepassados, mas pareciam sempre mais podres, menos decentes, mais decadentes. Ele ainda lembrava quando era jovem e achava o mundo um lugar fantástico, via cada transformação como um milagre até que ele mesmo se transformara na criatura que era agora. E os anos se transformaram em décadas e em séculos e nada mais parecia fantástico. Houve época que caçar era um prazer, mergulhava seus dentes em pescoços mais sujos, mas mentes mais brilhantes e o que via naqueles instantes era assustador e maravilhoso. Hoje não havia o perfume forte para esconder a falta de higiene e todos faziam bom uso do sabonete, mas as mentes eram embotadas e os últimos pensamentos tão rasos quanto as poças nas ruas pavimentadas. O sangue de hoje fora razoavelmente limpo, mas a garota parecia viver de vento e, portanto seu sangue fraco não o sustentaria muito tempo. Ele não gostava das magras, eram sempre insípidas e preocupadas com sua aparência até o ultimo segundo “Morrerei magra!” pensavam elas com uma alegria estúpida. E haviam os que se enchiam de drogas e nem mesmo tinham a consideração, quando se atiravam em seus braços, de avisar que sua refeição viria com um nauseante premio extra. Limpou novamente a boca carnuda, olhou para o lenço para sempre maculado e com um suspiro desejou ser mortal para poder partir deste mundo que já não o seduzia mais.

29 de mai de 2008

Bondade

A bondade não tem cheiro, idade ou beleza, mas pode ser vista no brilho de uma lagrima, em um sorriso complacente, no olhar doce, nas mãos amigas. A bondade não tem cor, nem religião e muito menos língua. A bondade mora dentro do peito onde todos somos iguais, feitos de carne, banha, músculos, veias e órgãos. A mão que se estende pode nem sempre estar limpa, mas se está estendida a tome, pois quem a estende merece ao menos essa delicadeza. A bondade não tem carteira, ela independe de status e carreira, é algo muito precioso para poder ser guardado em cofres e muito simples para adornar pescoços em correntes de ouro. A bondade é artigo raro, cada vez mais difícil de se encontrar, mas mesmo exposta não é reconhecida por corações endurecidos pela fúria do século 21. Não sei se o que está pequena é a mente dos humanos ou se somente seu espírito que se desintegra a cada dia, mas o fato é que julgamos o próximo por padrões que não queremos nos ver impostos e nos fazemos de cegos quando o pacote não é tão belo quanto o recheio. A bondade existe, meus amigos, mas é ignorada, pois os que ainda se incomodam em demonstrá-la somente a podem ofertar em pequenas doses. Quer a minha mão? Ou meu ombro amigo? É só o que tenho para dar, mas é mais do que muitos podem lhe oferecer.

27 de mai de 2008

O homem Verde

Ele era feito de dias e noites, de terra e ar, de folhas e frutos. Tinha no lugar de coração um rubi gigante que brilhava incessantemente dentro de seu peito. Era um homem, sim, mas tão diferente dos outros de sua raça quanto um leão o é de um simples gato. Ele gostava de olhar o mundo, mas nunca era observado, se mesclava à vegetação que dançava ao seu redor e chorava sementes pelo caminho que a humanidade tomava. As flores que nasciam de seu pranto viviam eternamente, murchando e revivendo para espanto daqueles que as viam brotar por entre o asfalto ou no meio do deserto. Pois ele andava.sem descanso e também sem descanso deitava sementes pelo caminho, mas quando olhava para trás via somente mãos ávidas arrancando as margaridas, pés sujos espezinhando as hortênsias, corações gelados passando sobre as rosas e olhos vazios ignorando os girassóis. Ele continuou a andar, mas cada vez mais longe dos homens, tomou posse de um monte e lá vive em meio às flores e arvores esperando que um dia alguém com um coração de carne e sangue sinta prazer no éden que planta com suas lagrimas.

25 de mai de 2008

Homens


Não é preciso muito para agradar um homem. Também não é preciso muito para desagradá-lo. Por mais que se fale as mulheres ainda continuam querendo discutir a relação, continuam insistindo em falar dos sentimentos, continuam perguntando se estão gordas, se a roupa nova cai bem e se notaram seus penteados novos. NÃO! Homens não notam nada à não ser que sejam obrigados. Eles não querem falar de seus sentimentos e nem mesmo discutir para onde vai a relação, se não for para a cama, não lhes interessa. Homens são criaturas simples, deixem que eles vejam seu futebol, que joguem poker com os amigos uma vez por semana ou simplesmente vão encher a cara com os amigos no bar. Um pouco de liberdade é tudo que eles precisam para agradá-los. Homens somente são realmente homens quando podem interagir com sua própria espécie. As mulheres precisam aprender que exigir que um homem lhes dê completa atenção é a melhor forma de fazer com que eles façam exatamente o contrario. Quem suporta viver voltado somente para uma pessoa? Perpetuamente colado como um monstro de duas cabeças com mentes tão distintas que o fim é uma cabeça tentando devorar a outra. Não. Homens precisam de espaço, de cumprimentos simples e óbvios, de sexo honesto e comprometido e de riso. Mulheres que perdem o bom humor durante um relacionamento estão fadadas ao fracasso. Por um sorriso em lábios masculinos é tão divertido quanto fazer rir à uma criança. É fácil e pode lhe dar mais recompensas do que todo biquinho do mundo.

22 de mai de 2008

O meu está pela metade.

Existem coisas que me irritam, e isso não é novidade já que muito me irrita nos dias de hoje, mas certas pessoas com sua filosofia de botequim pegam em um nervo que desperta meu lado homicida. Os malditos livros de auto-ajuda são prato cheio para essas pessoas que adoram vomitar as frases batidas e os pensamentos rasos. “Para você o copo está meio cheio ou meio vazio?” Ah... Esta perguntinha me faz afiar facas imaginarias e carregar minha magnum 44 fantasma, é típico de pessoas que dizem achar que o copo está sempre meio cheio, mas são elas mesmas sempre meio vazias. Para deixar o registro, para mim o copo está pela metade e direi que está meio vazio se quero que o encham e que está meio cheio se já atingi meu limite. Todo mundo que lê esse tipo de livros compulsivamente nunca chega aonde quer, parece que o simples fato de se importarem tanto em seguir os ensinamentos vazios atrasa seus passos. Pensamento posivivo, my ass! É muito bom estar de bem com a vida, sorrindo á toa, pensando que tudo VAI melhorar, mas ser assim 7 dias por semana 24 horas por dia é tão irreal quanto coelhinho da Páscoa botar ovo (não, crianças, ele não bota ovo, os pega pronto de um ganso de chocolate). Um depressãozinha não faz mal à ninguém e nem um pouco de pessimismo, vejo todos os dias os otimistas com caras espantadas por não verem seus sonhos realizados. Ser realista quanto às possibilidades de merdas acontecerem é sadio e evita muita dor de cabeça futura. Portanto... Não importa como você vê seu copo, o que importa é como, no final das contas, fica o balanço de sua vida.

5 de mai de 2008

Hora do ensaio


“Andréa! Você já vai?”
Vejo a companhia toda reunida para o começo dos ensaios e fico mais do que tentada a mandar as obrigações que gritam por mim em casa e me deixar ficar. Minha passagem pela cafeteria foi proposital, sabia que estariam ensaiando para a próxima opera e sempre gosto de roubar um pouquinho da próxima apresentação. Doses homeopáticas que me enchem o coração de algo como chocolate derretido com fios de marshmallow.
Ele pede que um deles cante minha ária favorita de La Boheme. Choro, como sempre. Lagrimas que se derramam sozinhas pulando de meus olhos que piscam incontrolavelmente. Quero vê-los cantar, seus rostos alegres nesse momento de descontração, o recreio do ensaio, como jogadores de futebol que descansam batendo bola na praia.
Vejo que ele me olha, sorri, sabe muito bem que amo o que vejo e escuto. Posso não saber se é a melhor atuação que pode haver, pode até mesmo não ser, mas quem liga quando se tem o coração cheio de chocolate derretido com marshmallow?

27 de abr de 2008

Para Recuperar Recido do Imposto 2007

Como eu, muitos perderam seus recibos e ficam desesperados, pois a partir deste ano não se entrega declaração sem o ultimo recibo.
Aqui vocês tem um link da receita onde somente com seu nome, cpf e CNPJ da fonte pagadora, é possivel recuperar o numero do recibo.
Receita Federal - Recuperação de Recibo 2007

Boa Sorte!

23 de abr de 2008

Não Transforme o Pinto em Galinha Cega


Um bom papo pode salvar seu dia. O engraçado é que pode surgir de qualquer lugar e você somente precisa ficar atento para lhe dar a devida atenção. Um bom papo é como um pinto novo (o animal, seus mentes poluídas) fica ciscando e ciscando esperando o momento propicio para crescer. É preciso cuidado para não transformar o pinto em galinha, ou melhor dizendo, o papo em fiasco. As duas partes devem estar interessadas. Sempre! Não é educado forçar o papo, como aquela mulher cheia de sacolas do metrô que insiste em te contar cada pequeno incidente de seu dia ou aquele pentelho da fila do banco que quer saber absolutamente toda sua vida e nem percebe como você aperta a bolsa pensando em seqüestro relâmpago. Também é absolutamente inútil tentar ressuscitar papo morto, quando ele falece deixa o coitado descansar e no maximo faz uma pequena prece por ele. O papo do tipo que salva seu dia é aquele inesperado, uma conjunção de idéias e planetas talvez. Sua parte é alimentar de maneira suave, sem se esforçar, porque o cosmos está a seu favor. Simplesmente relaxe e aproveite, pode ganhar pouco com um bom papo, talvez somente um sorriso de alguém doce ou, se tiver sorte, algo muito mais importante. Eu hoje ganhei os dois.

14 de abr de 2008

New Game

Eu sei que você me olha. Especialmente quando pensa que não vejo. Sei que gosta quando pinto os olhos e os delineio para que fiquem maiores e mais verdes que nunca. Eu sei. Mas faz muito tempo desde que tive certezas, muito tempo desde que desejei a presença e o toque de outro ser. Fico na duvida se seus olhos carregam somente curiosidade ou se traem desejos que não tem coragem de expressar. Não escuto sua voz, nem mesmo sinto seu corpo próximo ao meu, mas mesmo assim eu sei que você me olha. Eu sei. A cada vez que viro meu rosto te vejo me observando e me sinto mais consciente de mim mesma. E meus rosto ganha cores que pensei já não serem naturais e meu coração se acelera e meu sorriso se abre. Não sei se as noites tem estado carregadas de magia ou se sou eu que ando nas nuvens por estes dias, mas eu sei, ah, eu sei, que seus olhos me seguem mesmo quando não deveriam e que parece querer estar no lugar daquele que me abraça e me beija em um simples cumprimento. Já faz tanto tempo que já não sei de mais nada, desaprendi a arte de flertar, esqueci de que posso jogar redes de malhas finas e inesquecíveis, mas que parecem ter se expandido por si só e te prendem a mim pelos seus olhos. Que me seguem. Por onde eu vá. Seus olhos. Eu sei.