14 de out de 2008

Ausência

Ele é alto, magro e extremamente gentil. Tem toda calma do mundo para ouvir a historia de minhas dores e os lamentos pelo meu corpo preguiçoso. Ele sorri com freqüência, acena com a cabeça interessado. Sem energia, cansaço vindo da tensão, períodos de preocupação prolongados. Ele entende e pode ajudar. Acupuntura liga botões que se desligaram quando sobrecarregados e desligam outros que não deveriam ficar ligados por tanto tempo. Ele me explica que é possível reprogramar meu corpo para que a carga diária pese menos em meus ombros, é possível reorganizar esta maquina. Perfeito! Deito com nervos retesados de segunda-feira e penso que ele terá trabalho para me manter nessa posição por uma hora. Impossível! Algumas agulhas depois e já brinco com as correntes da persiana acima da minha cabeça e rio sem freio de suas piadas que ficam mais engraçadas ainda pelo jeito doce de seu sotaque chinês. Ele me deixa só na penumbra e olho com curiosidade para todas as agulhas que parecem flutuar sobre meu corpo. Carpenters toca sem parar ao fundo, sempre as mesmas musicas, se repetindo como um eco do passado. E meus olhos se fecham. Sinto que ele retorna muitas vezes. Gira as agulhas como se fossem brinquedo e algumas queimam e ardem sob suas mãos. É normal, ele diz. Acordo muito tempo depois. Ele me pergunta como me sinto e não sinto nada. Todo meu cansaço se foi, a tensão que corria até a ponta de meus dedos, a energia negativa que varre o trabalho todo dia, tudo desapareceu. Tudo. Não sinto medo do amanhã, nem o desejo de vê-lo chegar. Não sinto carinho pelo rosto sorridente que me olha e nem esperança. Não anseio pela minha casa e nem pela minha família. Sou uma casca vazia que somente pensa friamente no que é possível se fazer quando todos os botões estão desligados. Não existe pudor ou moral ou medo de conseqüências. Somente a liberdade de não se ter nenhum sentimento. Agradeço efusivamente, pois sei que é importante fingir que todos os sentimentos ainda estão no lugar, e saio para a rua respirando um ar mais puro, pois não existem expectativas. Da minha natureza amorosa nada resta, meu novo eu pode cometer o ato mais odioso sem piscar. Eu agora posso até mesmo matar sabendo que não derramarei nem uma lagrima. Nem uma lagrima.

(Somente a metade é verdade. Eu acho...)
.

Nenhum comentário: