24 de mar de 2007

Sinto-me hoje como se tivesse sido mastigada e cuspida um milhão de vezes. A semana se arrastou em surpresas e preocupações e percebi como a maldita adrenalina nos sustenta nas horas difíceis. Agüentei firme. Até ontem. O fim do dia se esvaiu junto com os restos dessa maldita adrenalina e eu afundei como um pato que comeu cimento pensando ser açucar. A sensação não é de todo ruim para o espírito. O corpo, essa maquina delicada e potente, não concorda com isso. Cada músculo está gritando revoltado e minha cabeça se recusa a pensar com coerência por mais de alguns minutos. Mastigada e cuspida. Espero que depois de semanas de tensão, entre pressentimentos, agouros e ações, agora eu possa voltar à minha rotina ou pelo menos que possa criar uma nova rotina, já que a velha se rasgou e se atirou ao lixo. Não desisti do blog, ainda não, espero que nunca o faça, mas precisei deste descanso, desse intervalo para poder me entregar completamente à neurose, ao medo e ao pânico. Peço perdão aos amigos que permaneceram fieis mesmo quando eu os abandonei sem desculpas. Estou trabalhando, agora mesmo, em um novo conto para o blog e espero assim me retratar. Será um conto longo, em vários capítulos, como costumava postar e espero que possa cativa-los novamente. Mastigada e cuspida eu me despeço. A semana trará o conto e algumas dicas sobre livros e musica que andei estocando para dividir com os amigos.
Abraços. Beijos. Até breve.

19 de mar de 2007

Sem despedida

Ele me chamava de senhorita, talvez lendo minha mão nua, talvez adivinhando meu coração solitário. Algumas vezes, quando tinha tempo e parava para mais do que um BOM DIA! esfuziante, me beijava a mão em uma galanteria de outro século. Elogiava minhas roupas, meu novo penteado, meu sorriso matutino e minha disposição eterna para trocar palavras com ele. Pela manhã usava um roupão atoalhado, quente e um tanto gasto, como ele mesmo e a casa dilapidada por trás do portão. Eu o via logo ao virar a esquina de minha rua, catando as folhas da calçada, uma mão na altura dos rins para equilibra-lo. Ele me esperava na esquina. Olhos brilhantes por baixo de sua boina antiquada. 80 anos? 90? Não sei, mas sei que sua voz ainda era firme e suas palavras sempre polidas e embaladas em frases escritas com letras rebuscadas. Gostava de fantasiar sobre seu passado. Poderia ter sido qualquer coisa, mas o imaginava sempre em um fraque e cartola, pois combinava com seu porte principesco e sua educação britânica. Nos fins de tarde usava um roupão de tecido muito masculino por cima de suas roupas e no rosto, mal aplicada, uma base clara e pó compacto, talvez para cobrir o passar dos anos, talvez para esconder algo pior do que somente a idade. No fim do dia eu sempre parava no seu portão para um breve relato do meu dia. O tempo, o transito e o dia no escritório. Sentia vontade de beija-lo e passar os dedos suavemente pela sua face nobre, mas nunca o fiz. Não o vejo mais. A casa, que antes parecia mal cuidada, agora caminha à passos largos para a ruína completa. As persianas quebradas antes tinham charme, agora só me lembram olhos vazios e sem futuro. O jardim selvagem já não tem a mão gentil para o afagar e parece querer tomar cada canto. Meu coração se aperta quando me aproximo e amaldiçôo os dias em que mudei de caminho e o perdi de vista para sempre. Já não há BOM DIA!, nem beijos delicados em minha mão, não há esperança de retorno e nem de despedida. Meu cavalheiro se foi e, mesmo que ainda viva, não retornará. Eu me sinto um pouco mais solitária.

12 de mar de 2007

Forget me not

Dizem que não sei perdoar, porque digo que perdôo, mas nunca esqueço. Talvez seja verdade, talvez não, acho estou ficando é mais esperta, pois quando esquecemos damos a chance do mesmo individuo nos ferir novamente da mesma maneira. Confiar tem seus limites. Você pode perdoar o erro, a quebra de confiança de um ente querido, mas se entregar novamente é pura burrice. Somos todos imperfeitos, eu pelo menos sei que sou, e também sei que cometo sempre os mesmos erros, peco os mesmos pecados, tropeço nos mesmos degraus. Não me engano pensando que sou somente eu a ter tantos defeitos, ao meu redor tenho provas desse circulo vicioso. São nossas fraquezas, mas em certas pessoas estas fraquezas ferem. São estas pessoas que mais se julgam no direito de ser perdoadas e muitas vezes nem mesmo sabem, ou admitem, que erraram. Por isso perdôo e por isso não esqueço a faca fincada “acidentalmente” em minhas costas. Talvez esquecer fosse melhor, não questionar quando alguém te dá um presente depois de ter conscientemente deixado de te dar uma chance, não se ressentir da alegria de alguém por você ter caído em sua teia de chantagem emocional, não chorar depois que alguém pede desculpas por ser estupidamente egoísta, mas continuando a ser. Ainda não me sinto pronta a esquecer. Perdoar é fácil. Seguir a vida é fácil. Esquecer é impossível.

11 de mar de 2007

Memória

Quando ela abriu os olhos foi como se fosse pela primeira vez. Não podia se lembrar de como chegara neste quarto esterilizado de hospital. Nem mesmo podia se lembrar do nome pelo qual devia atender. Seu corpo parecia inteiro. Podia mexer pés, pernas, braços e até movimentar o tronco, que mesmo dolorido respondia a seus comandos. Apesar da falta completa de memória, que deveria preocupar ou apavorar qualquer um, ela estava calma. Na verdade sentia um alivio extremo. Fechou os olhos e soltou um suspiro que parecia estar preso em seu peito há muito tempo. Era estranho sentir tanta paz em meio à nuvem que toldava suas lembranças, mas ela não sentia vontade de se redescobrir. Este branco total. O dia se passou entre cochilos e visitas de médicos e enfermeiras que tentavam consola-la e anima-la sem perceber que ela não precisava disso. Estava perfeitamente feliz. Nada é perfeito e, para provar que a felicidade dura pouco, o dia seguinte foi como a tempestade que destrói a colheita, afoga o gado e derruba a casa. Ela acordou para ver a face de um homem debruçado sobre ela. Seu rosto carregava mais irritação do que preocupação. Em seu encalço entraram cinco crianças de idades variadas, mas todas com péssima educação. Ela fechou os olhos para eles e tentou também fechar a mente, mas os gritos infantis e as reclamações de seu marido trouxeram de volta tudo que tão alegremente esquecera. “Mamãe preciso disso, daquilo, quero, me dê, AGORA! AGORA!” e “porque você é tão desastrada? Sabe quanto vou gastar de hospital por causa de sua estupidez? Levante logo e vamos pra casa que as crianças tem fome e eu preciso passe minhas camisas e arrume a bagunça dos últimos dias.” Os médicos nada puderam fazer a não ser libera-la. Chegando em casa ela se lembrou do tombo que levara. A queda pela escada, empurrada por um marido irritado e desequilibrada por filhos endiabrados a quem o marido proibia punir. Ela voltou a seus afazeres, mas seu coração ansiava pelo esquecimento dos últimos dias, da tranqüilidade e paz que não existiam em sua vida. Durante uma semana ela tentou esquecer dos breves momentos de felicidade, mas foi impossível. Um dia, depois de seu marido sair para trabalhar e enquanto os filhos se ocupavam em destruir a casa, pegou um martelo e se nocauteou com um belo golpe. Dessa vez ela ficaria um bom tempo no hospital e com certeza não recuperaria a memória. Com certeza.

8 de mar de 2007

Dias Dourados

Sinto falta de dias dourados. Os de hoje em dia parecem sempre cobertos por fuligem e fatiga. Falta verdade e esperança nas manhãs e romance e sonhos nos entardeceres. O sol se ergue violento e se põem como uma fornalha tirando qualquer tentação de se admirar sua trajetória. As estações se confundem estragando outonos e primaveras, tornando confusos verões e invernos. O sol se ergue sem magia nessa metrópole de futuro incerto, simplesmente nasce sem enfeitar seus raios de rosa e morre sem dourar o horizonte. Talvez ele tenha se cansado de nossos olhares de relance para sua majestade, talvez não consigamos mais ver a beleza que parece morna e apagada por trás da poluição ardente. Não sei... Mas sinto falta dos dias dourados, quando esquecia do sono para ver os dedos delicados do astro rei se estendendo em minha direção, acariciando meu rosto , nascendo o dia que parecia sempre uma promessa de perfeição. Sinto falta do horizonte em fogo dos finais de tarde, da brisa que parecia trazer o chiar do sol se apagando no oceano distante. Sinto falta de quando os dias possuíam nuances e as noites cheiravam a ar fresco. O verão cada vez mais longo me faz viajar cada vez mais ao passado, onde a vida era mais simples, mais honesta, menos perigosa e repleta de dias dourados.

7 de mar de 2007

Hell

Não posso nem pensar nos meus próximos dois dias. Não por causa da reunião no Morumbi, que sempre me deprime por causa do transito intenso e do calor que sei que vou passar. Não por causa das pendências que ficam cada vez mais pendentes e irritantes com o passar dos dias. Não por causa da rinite idiota e maldosa que me impede de escrever o tanto que gostaria e de curtir meus scrapbooks. Não. Tudo isso já faz parte do dia a dia. É esperado que a rotina seja irritante e nem tão rotineira assim. O que me perturba, me irrita, me ensandece, é saber que terei dois dias infernais por causa de Bush. O idiota mais famoso do universo não só vem poluir o ar já carregado com sua presença como também vem para se hospedar próximo de meu trabalho e sabe o que isso significa? Centenas de policiais importunando trabalhadores que não conseguirão chegar em seus empregos no horário, transito caótico, ou melhor, mais caótico, irritação constante gerada pela presença perniciosa da besta quadrada. Na verdade duas bestas. Lula trás este presente para São Paulo. Bush. Me pergunto o que não poderia se fazer com todo o dinheiro gasto nesta visita de 24 horas do bobo alegre. Precisamos mesmo que este bully venha por seus olhos sobre nossa já esgotada terra? Oh hell! Amanhã eu não acordarei de bom humor...

3 de mar de 2007

Retorno

Chamemos de férias, mas não posso dizer que me sinto descansada. O verão, que devia trazer pensamentos luxuriantes, só me cansa e aborrece. Pode me chamar de ranzinza, mas se você não mora na beira do oceano ou ao lado de uma cascata de águas frescas, não há do que se alegrar. Todos meus sentidos se ressentem deste calor infernal. Comecemos pelo tato. Não é possível acariciar pele que não esteja úmida, e não do orvalho da madrugada ou da garoa do outono, mas do suor nada agradável provocado pela estufa em que vivemos. Não se pode sentir prazer em tocar o gelado pois logo ele se amorna de maneira inconveniente e não se pode passar as mãos pelo cabelo recém lavado e arrumado pois ele estará mole e pegajoso. Audição. Todo som parece exausto. Até mesmo o canto dos pássaros é distante e abafado. O asfalto chia como ovos na chapa e a musica tocada ou o dialogo na TV é sempre acompanhado pelo ruído incessante das pás do ventilador. Paladar. Alem de sorvete o que nos dá prazer? A boca seca o dia todo, litros de água lavando nossas entranhas sem resultado, nada de lasanha aos domingos e alface passa a ser um prato muito interessante. O chocolate derrete antes de tocar sua boca e nada de chás e chocolate quente para induzir o sono. Olfato. Que olfato? O aparelho respiratório do ser humano normal entra em colapso com a poluição crescente, o meu simplesmente deixa de existir me deixando com a sensação de um peixe em um aquário sem saber respirar debaixo da água. Sem contar que o odor que cobre a cidade, quando consigo senti-lo, é de exaustão completa. Nem preciso comentar a tragédia dos desodorantes vencidos no ônibus em qualquer hora do dia, ou a mistura explosiva de suor e perfume nos elevadores. Visão. O que dizer da moda que explode pelo corpo das mulheres como um vírus de mau gosto? Não posso negar que ao mesmo tempo em que me dói ver que o bom senso das mulheres afundou mais que o Titanic também me diverte. O que seria da tortura diária da ida e volta ao trabalho sem o pior desfile de moda do mundo? Então... É isso que estive fazendo nos últimos 15 dias. Tentando conviver com uma estação que me desagrada, tentando sobreviver sem respirar, tentando achar graça em um trabalho que já não oferece desafios, tentando achar um caminho só de sombras.