20 de out de 2010

A Cidade


O que se costuma fazer ao sair do escritório é amaldiçoar o transito, os outros seres humanos em seus carros, os transeuntes, os semáforos com soluço e a cidade de São Paulo como um todo. É o costume e completamente compreensível já que a jornada de trabalho é terrível, os chefes completamente idiotas e o salário sempre insatisfatório, mas nem sempre. Nem sempre se vê a cidade com olhos cansados. Alguns dias, como hoje, sua mente vaga tranqüila, sem estresse com a longa linha de veículos à sua frente e enquanto todos encaram raivosos o circulo vermelho no semáforo você se descobre observando as pessoas passando apressadas, mais charmosas nesse dia de sol, mas de vento gelado. Repara na longa escadaria do Gazeta onde alunos do Objetivo sentam trocando informações sobre o nada ou simplesmente dividindo um cigarro. Você vê com inveja o balcão de um café completamente lotado e quase pode sentir o gosto do espresso descendo por sua garganta. Olha para cima e lá estão vasos e mais vasos de plantas transformando um dos poucos edifícios residenciais da Paulista em um jardim botânico. Ri do rapaz de bicicleta que quase atropela um carro por se distrair com uma bunda jeitosa seguida por um par de peitos avantajados. E sem perceber, aquelas centenas de carros que antes eram um obstáculo agora são sua desculpa para apreciar uma cidade que é bela novamente porque você finalmente parou para olhá-la. E lá estava eu, presa no Viaduto Paraiso, olho para a 23 de Maio e não vejo o de sempre, vejo sim duas serpentes correndo em direções opostas, uma vermelha e sedutora, outra branca e tímida. Correm se tocando de maneira insinuante, sabendo que seus caminhos são opostos, mas que por alguns quilômetros podem ver o propósito uma da outra. A cidade é bela hoje.
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19 de out de 2010

O Amigo


Ela ouviu a ultima reclamação com o rosto composto, a pura imagem da resignação. Era sempre assim. Ele aprontava e ela levava a culpa. Fora assim a vida toda. Desde pequena, menina comportada e tímida, se via em meio às situações mais constrangedoras pela conduta perversa deste que se dizia tão seu amigo. “Vou estar sempre ai seu lado.” Ou “vamos ser unidos para sempre” ou “só você parece me ver como sou” ele sempre dizia estas coisas e a convencia que juntos eram melhor que separados, que unidos eram mais fortes, que este vinculo os fazia especiais, mas não era como ela se sentia na maior parte das vezes. Lembrava-se com clareza quando ele quebrara a jarra de cristal de sua avó e a culpa acabara sendo sua já que ele como sempre se escondeu em um canto e com seu sorriso meio de culpa, meio de graça, assistindo a bronca e o castigo que se seguiu sem remorsos. Ele era assim, não exatamente ruim, mas maldoso com certo charme. E ela sempre o perdoava. E ele sempre voltava a aprontar como se para sempre estivesse na infância.
Ela cresceu e seguiu o seu caminho. Ele a seguiu. Como sempre. Parecia incapaz de viver sem a sua presença e também parecia incapaz de viver sem atrapalhar cada passo de seu caminho. A seguiu pela faculdade, roubando seus trabalhos, escondendo seus livros, a atrasando para encontros, a embaraçando nas festas a fazendo beber demais e quase a fazendo perder a própria formatura. Tentou mudar de cidade, arrumou um emprego e tentou a tal vida nova que tantos experimentam e dizem maravilhas, mas não passou muito tempo antes de ele chegar de mala e cuia e se instalar em seu quarto de hospedes tornando sua vida absolutamente impossível novamente.
Sentia muitas vezes que sua vida pertencia mais a ele que a si mesma. E ele a usava sempre da maneira errada. Tentava ajudar, ou dizia que o fazia, como no colégio quando dizia que explicaria à professora que fora ele que perdera seu livro, mas se esquecia e ela acabava levando pontos negativos. Ou na faculdade quando se prontificava para entregar seu trabalho e ela descobria, muito depois do prazo vencido que ele o esquecera em cima da geladeira. No trabalho era ainda pior, vinha com seu animo contagiante dizendo que ela relaxasse e fosse tomar uma cerveja com os amigos que ele revisaria seu relatório e no dia seguinte ela tinha que encarar um diretor furioso com um relatório onde nenhuma conta fazia sentido.
Procurou um terapeuta para tentar lidar com o fato de ser incapaz de mandá-lo embora. Foram muitas sessões, mais do que ela julgou serem preciso para lida com seu apego a ele, mas um dia seu terapeuta pareceu mais serio que de costume e em vez de sua posição relaxada, sentava na beira da poltrona como se hoje fosse ele que precisasse desabafar.
“Doutor, o que é? O senhor parece ter algo importante a dizer.”
“Na verdade tenho. Você vem me ver há um ano e já tentei, indiretamente, de todas as maneiras lhe dizer o que acontece com você, mas parece que você sempre deturpa o que falo para que se ajuste à sua ilusão. Preciso agora ser duro e direto com você e quero que escute bem.”
“ Sempre escuto, doutor.” E se preparou para o que quer que viesse.
“Minha cara, você tem um amigo imaginário.”
Ela ficou muito quieta olhando para ele como se estivesse na verdade há quilômetros de distancia. Olhou para as mãos. Recostou-se. Coçou a cabeça e disse.
“Então, doutor. O senhor precisa me ajudar com meu amigo. Hoje ele entregou todas minhas contas erradas e quase fui demitida. Não sei mais o que fazer com ele. O que o senhor acha?”
“Acho que precisamos de mais sessões, minha cara.”

** Em homenagens a minha querida amiga Luciana que tem um amigo imaginário muito atrapalhado.
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4 de out de 2010

Alex


A tristeza exige ser sentida, vivida, mastigada e ingerida até a última gota. Damos muitos nomes a ela, depressão, ressaca, mal humor, mas no fim é somente a maldita tristeza que veio nos prestar sua visita. Ela é como aquela tia velha, meio inconveniente, enrugada, mas que nos dá uma sensação de reconhecimento, sangue de nosso sangue, que mesmo contra a vontade nos deixa um vazio quando parte. Não há nada de errado em senti-la, ela existe para que saibamos o que é ser feliz, que muitas vezes é somente a ausência dessa tia que nos belisca as bochechas e solta gases no meio do jantar de família.

O que chamamos de depressão nada mais é que uma TPM do espírito, é quando nossa mente está “naqueles dias” e dramatiza tudo. Cada gesto parece exagerado, cada palavra um ataque pessoal e os minutos se arrastam em uma cena de novela mexicana eterna. Eu sei. Estive lá muitas vezes. Não vou minimizar a coisa e dizer para você simplesmente sair dessa porque não é assim que funciona. Não é a toa que essa TPM de espírito baixa como caboclo em centro espírita. Algo está errado, fora do lugar, incomodando. Nem sempre se descobre o que é, nem sempre é obvio, às vezes é somente insatisfação pelo rumo de nossa vida, outras porque olhamos fundo nos olhos das pessoas a nossa volta e não as reconhecemos, como se descobríssemos de repente que o que queremos não está ali. Às vezes é o inicio de uma nova era e essa TPM é na verdade um aviso para que se prepare para chacoalhar seu traseiro.

É fácil falar, sei eu que sempre falo demais, mas é tudo verdade. Nada é eterno, nem a tristeza do momento, nem a inocência do passado e muito menos a sabedoria do futuro que acaba sempre afogada em lembranças da infância quando ficamos velhos. Isso vai passar. Eu juro.

Escrevo isso como um beijo de mãe, aquele que se dá no joelho esfolado de uma criança. Não é um remédio, mas lembra como a dor parecia diminuir? Lembra como, sentado no colo materno, ouvia as palavras tão usadas, mas que consolavam e aliviavam sua dor? É isso. Esse é meu beijo, minha canção de ninar, meu sopro depois do mertiolate, meu eu te amo.

Estou aqui. Como sempre. Shhhhh, já vai passar, vou assoprar para não doer, vou cantar para você dormir. Shhhh.... Dorme nenê. Não há nada embaixo de sua cama. Estou aqui. E te amo.

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