31 de ago de 2009

Goddess


Ela entra na sala quase sorrateira, me olha enigmática e quase sorri. Ronda como se não se interessasse por mim, mas eu vejo que é somente para me distrair. Quando me percebe perdida nas engrenagens de minha mente reclama alto como se houvesse sido abandonada. Eu a chamo suavemente e como sempre ela vem, com seu passo sincopado, sua graça extrema, sua quase realeza. Sobe em meu colo e caninamente me observa, lendo as nuances de meu humor. Um olho azul, um olho verde, esperando que eu diga que não importa, que está tudo bem. Deita ao lado do meu laptop e enquanto procuro as respostas para tantas perguntas ela simplesmente ronrona por estarmos juntas. Logo sinto aquele pequeno formigão dentro de meu cérebro e soluções vem com mais facilidade, a calma sempre à andar na corda bamba acha um divã confortável e se estica, os músculos tensos desfazem os nós enquanto observo a cauda longa e branca lambendo a tela e a cabeça delicada usando meus papeis como travesseiro. Já não quero perder a calma, já não acho aquele email tão injusto, já não penso em responder com fúria. Talvez ela me hipnotize, talvez eu somente me sinta em paz na companhia dos animais, talvez ela seja uma deusa egípcia perdida neste continente. Não sei, não importa. Meu trabalho é mais suave quando ronrona ao meu lado.
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24 de ago de 2009

A Casca da Banana


Os tempos são estes. É preciso sempre se olhar por onde anda, não somente pelas nossas ruas esburacadas, mas principalmente pelas armadilhas que são colocadas em nosso caminho. As pessoas hoje em dia não precisam de incentivo ou motivo para sabotar um amigo, um colega de trabalho e até a própria família. Nunca antes tanto mal foi feito ao próximo pelos motivos mais fúteis. Inveja da recompensa pelo trabalho árduo do seu colega da mesa ao lado, ciúmes da atenção que sua melhor amiga desperta, medo de perder pequenos privilégios quando alguém mais interessado e competente aparece pela frente, simples maldade pela incapacidade de lidar com a felicidade alheia. Claro que as pequenas sabotagens sempre aconteceram, desde os tempos onde o homem grunhia, mas hoje em dia os bons sentimentos parecem ter simplesmente desaparecido. Lidar com as mesquinharias diárias é uma habilidade que não tenho. Desprezo profundamente aqueles que planejam a ruína alheia por não poder competir com sua inteligência e capacidade. Recrimino os que se deixam enganar por subterfúgios por preguiça de investigar melhor aqueles que tanto querem agradar para melhor enganar. Abomino os que não sabem fazer seu caminho sem pisar em outros. Sim, é um mundo cão, mas poderia ser tão melhor se nos importássemos mais com nosso próprio rabo do que com o alheio.
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O Despertar (13° Parte)


O refeitório se achava lotado e todas falavam ao mesmo tempo. Eram mais de cem mulheres se perdendo em mil suposições até que entraram as três que lhes dariam as respostas. Donata veio na frente seguida de Anya e Kália, mas foi para a ultima que as duas mais velhas deixaram a cadeira central e, portanto o papel centralizador desta reunião. Donata tocou o sino que pedia silencio imediato e todas obedeceram deixando morrer rapidamente as suposições.
“Peço a todas que escutem atentamente. Kália, que muitas aqui conhecem pessoalmente, mas que certamente todas conhecem a reputação, falara em nome da Irmandade.” Donata fez um gesto cedendo a Kália a palavra.
“As que me conhecem sabem que sou direta, portanto vamos aos fatos. Existe um rumor que a Irmandade está sob ataque. Quem é nosso oponente não sabemos e nem mesmo se estes ataques são verdadeiros ou somente rumores infundados, mas é fato que nenhuma de nós tem visto caravanas da Irmandade com a freqüência que deveríamos. É preciso averiguar a verdade e se houver qualquer fundamento no que ouvimos não será um grupo pequeno que escapara para contar a verdade às nossas Mães. Conto com o bom senso de cada uma para julgar a própria aptidão para a tarefa, temos neste salão guerreiras experientes, mas nem todas, por mais que desejem, estão em condições de participar de uma jornada que pode ser árdua e onde enfrentaremos forças desconhecidas. Quanto às novatas, peço que se aconselhem com suas treinadoras antes de aceitar uma tarefa que pode estar acima de suas forças. Não questionarei a decisão de cada uma, mas cobrarei o maximo daquelas que aceitarem se juntar a mim. Não é a primeira vez que a Irmandade é atacada, e Oxalá seja somente um rumor infundado, e nem será a ultima, mas desta vez cabe a nós procurar pela verdade antes de combater os culpados. Peço a todas agora que se retirem e tomem sua decisão, em uma hora aquelas que cruzarem esta porta farão parte da caravana. Obrigada a todas.”
O salão se esvaziou em absoluto silencio. Kália permaneceu em pé no centro da mesa observando cada guerreira.
“Muito bem, filha, suas palavras foram diretas. Espero me aceite como a primeira em sua caravana.” Anya falou com um sorriso orgulhoso.
“Anya, não acho sensato que vá, se estamos sob ataque precisamos que as mais experientes das mães permaneçam em seguranças. Lembre-se do que aconteceu no século passado.” Donata a avisou.
“Não vou deixar minha filha se arriscar sozinha numa missão tão perigosa.”
“Isso nunca a preocupou antes.” Kália respondeu meio alheia, mas demonstrando como os anos de abandona a haviam marcado.
Donata segurou a mão de Anya fazendo morrer nos lábios desta o protesto que nascia. Não era hora agora de tentar concertar uma relação, nem mesmo de protestar contra uma verdade. Por mais que Donata amasse Anya, sabia o quanto o abandono da mãe tornara Kália incompleta e insegura durante a maior parte de sua vida.
Não haviam se passado 15 minutos desde que Kália dispensara as guerreiras quando as primeiras passaram novamente pela porta e não pararam de chegar em um fluxo constante. Até a ultima delas.
Continua...
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23 de ago de 2009

A Casa ao Lado


A loucura corre pelo seu sangue. Não há nada que possa fazer para combatê-la e sabe disso. A cada dia que passa se vê mais e mais parecido com seu pai. O humor que se altera rapidamente, a destemperança, a raiva surda que lhe toma o corpo por qualquer motivo. Enquanto crescia, e via a mãe ser subjugada por gritos e ameaças, pensava que seria tudo diferente quando finalmente fosse um homem, mas hoje, quase um com seus 20 anos, sente no sangue que corre pelas suas veias a mesma loucura que toma conta de seu pai com mais freqüência conforme envelhece. Vê em sua irmã um pouco dessa insanidade também, mas é uma forma mais pura e saudável que se revela em sua rebeldia contra a loucura de ambos. Sim. Ambos tiranos. Ele nunca percebera, mas se tornara pouco a pouco um tirano também, usando a loucura do pai contra mãe e irmã, usando o medo como ameaça, usando a própria loucura a seu favor quando lhe interessava. Mas agora tem medo. O pai é ainda forte e sua loucura o torna ainda mais forte. Ele sabe que o único freio que impede o pai de derramar o sangue dos que estão sob seu julgo é o medo da vizinhança. Apesar de nunca interferirem todos na pequena rua ouviam os gritos do insano com atenção, prontos a ligar 190 se não fossem as portas a serem batidas e os pratos a serem atirados contra as paredes. Ele também tem medo daqueles que o olham com pena, mas também acusação, pois já estão ouvindo os seus próprios gritos, seus rompantes de raiva. Ele acelera o carro com raiva. Seu pai não permite que tenha a chave da garagem e a cada vez que sai com seu carro velho recém comprado precisa esperar que o pai venha, tire seu carro para que ele coloque a lata velha que pôde comprar. E a cada vez o pai explode. Por ser interrompido. Por não ser o único a ter alguma liberdade agora. Pelo prazer de humilhar. Ah, ele tem medo. Medo de não poder dominar como o pai, de sua loucura ser por demais aparente para que consiga casar e ter filhos, um clã para dominar. Ele tem medo de nunca revidar as palavras duras, os insultos gratuitos. Ele tem medo.
A porta da garagem se abre e o pai aparece à porta com o rosto contorcido de ódio, ele deveria saber que acelerar por tanto tempo à porta o deixaria com raiva, mas a loucura está em seu sangue e ela não pensa, somente age. O velho está parado o olhando com certo prazer, na certa imaginando o quanto o torturara. E de repente seu pé cansado solta a embreagem e o carro avança com um tranco atirando o velho garagem abaixo. Ele ouve, mesmo de dentro do carro, o som oco que a cabeça do pai faz ao se chocar ao concreto.
E assim, de repente, todos se vêem livres. O “acidente” é aceito e esquecido rapidamente. Tragédias acontecem. Sua mãe e irmã parecem se iluminar a cada dia, ele finalmente é livre para ir e vir, todos poderiam enfim viver em paz.

Mas a loucura também viaja em seu sangue, ele sabe, não demora para que passe do adolescente genioso para o homem insano. Ele sabe e tem medo.

22 de ago de 2009

Maze


Algumas vezes minha mente fica em branco. É como se os dias fossem tão cheios que dentro de mim tudo para esperando por dias menos tensos, dias onde posso deixar a mente vagar pelo meu mundo particular, este Xangrilá onde as manhãs cheiram a lavanda, as tardes a jasmim e as noites a almíscar e relva fresca. Não parecem haver muitos destes dias ultimamente, eles parecem mais pequenas montanhas russas que me levam da mais profunda frustração à perfeita excitação pelo desconhecido. É como se estivesse entre dois mundos e somente quando escolher em qual deles quero fazer minha jornada, só então, talvez, eu descubra para onde a vida me leva. Não é tão ruim assim, mas é surpreendente. Em uma idade em que a maioria das pessoas já escolheu seu caminho e se encontra entediado com a rotina eu me reviro entre destinos excitantes e completamente inesperados. Não. Não é nada mal.
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1 de ago de 2009

Moon


Grito um “até amanhã” quando acelera rua acima e como sempre ele acena. Fico ao portão observando a noite que desce rápido sobre a cidade. A neblina é densa, como se fossem seis da manhã e não seis da tarde. Escuto os sons que parecem sempre ampliados magicamente nos fins de semana, a ausência do transito insano tornando minha pequena rua um salão de ecos que chegam a mim com perfeita clareza. E então ela surge por detrás da neblina, como num passe de mágica, como se estivesse ela a me espiar e não eu a encarar embevecida seu brilho alabastrado. De minha garganta sai a nota sem começo nem fim, o uivo que faz desaparecer a calçada em que piso, o portão ao qual me encosto. Sob meus pés sinto o frescor do relvado selvagem, pela minha pele passeia a brisa com cheiro verde e gosto de liberdade. Corro entre arvores que escondem o mundo, mas ainda posso ver a lua que parece mais próxima e intima do que nunca. Sinto a presença de outros que correm ao meu encontro, somos uma matilha agora, cortando a mata até chegar à campo aberto, subindo pela encosta pedregosa e finalmente chegando ao topo do penhasco onde ela nos aguarda. Seu brilho nos devolve nossa individualidade, mas estreita os laços que nos levaram até este momento. Nossos lamentos enchem a noite, são carregados pelo vento até mundos distantes, até onde nossos corpos permanecem congelados enfeitiçados pela lua que nos prende até que nossas gargantas estejam em carne viva, nossos corpos enregelados pela noite e nossa homenagem finda. E então o concreto está novamente sob meus pés e a grade do portão suporta meu peso. Abaixo os olhos me roubando da luz preciosa e entro em minha casa onde tudo é familiar e seguro. Subo as escadas procurando o silencio de meu quarto, levando uma garrafa de água para apagar o fogo que corre em minha garganta.
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