28 de jul de 2009

Pandora


Tenho muitas caixas. Sempre tive fascinação por elas. Podem ser de madeira, de papelão, vidro, porcelana, pequenas, grandes ou minúsculas, não importa. Nelas eu escondo partes de mim que ninguém, nem mesmo quem as abra, consegue enxergar. Caixas podem guardar meus sapatos, os apetrechos de meus gadgets, brincos e colares, outras caixas que um dia trouxeram presentes preciosos para mim, cartas de tempos onde envelopes e selos eram itens preciosos em meus dias, lembranças de viagens ou simplesmente meu estoque secreto de chocolates. Pode abri-las se quiser, os segredos não estão à vista, estão sim impregnados nos objetos ali guardados. Ao manuseá-los posso ver e sentir coisas que ninguém além de mim pode. É como o famoso guarda-roupas que leva a Nárnia, a porta para a terra encantada se abre para aquele que sabe o que procura, mesmo que este não esteja ciente disso. Os tempo difíceis vem e vão, mas tenho sempre minhas caixas, meu passaporte para este mundo mágico onde lembro porque minha vida vale a pena.
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Wind


Every now and then the world changes. Sometimes is imperceptible, too subtle and we think it’s just a wind, but a wind that blown continually can bend trees and destroy roofs. I feel a wind, but I don’t know if it will tear us apart or herd us together. I hope for the best. I hope for the last. I don’t have much fate in mankind, but maybe, just maybe, this time we will do the right thing. The wind blown and the sky send us alarming messages. Are we doing our last ride in this planet? Are we finally made the earth so mad with our poor job at keeping it alive that we will be history before our time? I don’t know… I just feel the wind and wonder.
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26 de jul de 2009

Jodi Picoult


My Sister’s Keeper pode ser chamado de drama para quem teve uma vida repleta de momentos Kodak, para quem vive no planeta terra como eu é uma historia fácil de visualizar. O que é certo e o que é errado? Não falamos aqui dos sete pecados capitais, mas sim da vida imperfeita de cada um de nós. Então, o que é certo e o que é errado? O que em nós nos torna mais capazes de decidir que outros? Nosso amor nos torna instantaneamente puros ou somente faz com que cometamos grandes erros justificados?
Acho que filhos únicos devem ter menos duvidas do que aqueles que dividem o amor dos pais entre um ou mais irmãos. Por mais que se professe o amor igualitário é obvio, e quem tem irmãos sabe, que existe sempre o preferido, seja somente por inclinação do coração ou por motivos que pareçam justificados. Como pode um coração comprometido decidir por aquele que é menos amado? E ser menos amado nos torna menos humanos ou ainda mais capazes de amar e nos sacrificar por saber o peso que o amor, ou a falta dele tem? Quem pode decidir o que se pode fazer ou não por amor? E o quanto somos capazes de fazer?
Existe no mundo um milhão de incógnitas, somos somente capazes de imaginar o que faríamos frente a certas situações. Podemos somente pedir que na hora de decidir possamos tomar a decisão certa, se não a perfeita a que preserve nosso eu, nossa identidade.
Jodi Picoult nos dá uma pequena amostra dessa realidade onde a única coisa perfeita é que nenhum de nós é perfeito e podemos no fim, ao longo da estrada de nossa vida ou ao menos no fim dela, nos perdoar por isso.
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O Despertar (12° Parte)


A sala de Donata era mais uma sala de estar que um gabinete de trabalho. Num canto se podia ver um baú cheio de brinquedos e no sofá e poltronas vários trabalhos de tricô e crochê em vários estágios. Ela sempre fora uma mãe para todas à sua volta, crianças a procuravam para julgar suas brigas, adolescentes para que explicasse o caos que seus hormônios tornavam suas vidas e guerreiras feitas vinham chorar em seu ombro suas duvidas, pedir ajuda para traçarem seus planos ou simplesmente para tomar seu chocolate quente. E sua sala se mostrava tão acolhedora quanto sua pessoa.
“Empurre os livros e agulhas e sente, vamos esperar Anya chegar.” Donata avisou Kália.
“Você não me disse que havia chamado minha mãe. Acho que prefiro não vê-la agora. “ E se preparou para sair.
“Deixa de ser uma pirralha e senta. Você e ela são as mais experientes guerreiras na casa no momento. Preciso de vocês duas não importa o que sinta.”
Kália se sentou com um suspiro. Como sempre os sentimentos tinham que ser deixados de lado porque antes de ser mulher precisava ser uma guerreira.
“Eu entendo seu rancor, Kália, mas um dia vai precisar esquecer e seguir em frente. Sua mãe sempre foi uma guerreira por inteira, mas isso não diminui o amor que tem por você.”
“Eu fui um erro em sua vida, não fruto de amor, mas de uma noite mal calculada.”
“Não somos todas nós, filhas de guerreiras, fruto de um momento? Algumas de nós somos mais maternais, outras não, mas nenhuma guerreira deixou de considerar um filho ou filha uma benção. Você precisa esquecer Kália, não foi Anya que a separou dele, ela foi contra a decisão de chama-la, assim como eu. Por ela você estaria casada vivendo naquele vinhedo e povoando o mundo de pequenos seres remelentos.”
Kália levantou pronta a tirar exigir uma explicação de Donata, pois a ordem de voltar, deixando sua felicidade para trás, partira de Anya, mas não teve tempo, sua mãe entrou na sala sem bater.
“Aqui estou Donata. Bom dia, filha.” Anya beijou Kália timidamente, como esperando que esta se esquivasse e se surpreendeu quando esta não o fez.
“Sentem-se as duas. Precisamos conversar. Tenho recebido relatos preocupantes, ou melhor dizendo, os que tenho recebido o são e os que não tenho me deixam ainda mais preocupada.”
“Donata, sabe que às vezes as noticias demoram a chegar.” Anya observou.
“E realmente as coisas andam mais agitadas que o normal, mas o que a leva a achar isso alarmante?” Emendou Kália.
“Somos uma casa das mais famosas, muita gente sai de seu caminho só para vir descansar das missões aqui. Recebemos grupos diariamente, novas aprendizes também chovem à nossa porta, tanto que temos que envia-las para outras casas ou não damos conta. N entanto em quatro semanas mal ouvimos falar do mundo lá fora e quem chega, viajantes vindo comprar nosso mel e nossas infusões, nos falam de cavaleiros de negro que viajam às centenas e de casas da Irmandade destruídas e guerreiras assassinadas à traição.”
“Deve ser exagero, sai de minha casa há dois mês e tudo estava normal.” Kália disse mas ficou pensando em como em dois meses de andanças não cruzara com nenhum outro grupo de guerreiras.
“Viajo a três meses já em voltar para a minha casa e confesso que encontrei poucas irmãs pelo meu caminho.” Anya contou enrugando a testa.
“Vejo pela cara das duas que começam a perceber que algo anda mal para a Irmandade. Vocês são as melhores guerreira que conheço, quero que escolham as melhores guerreiras e vejam se há fundamento no que andam contando por ai. Se existe algum tipo de plano contra a Irmandade precisamos tomar providencias urgentes. Um plano contra nós é um complô contra a Lei.”
“Tenho dez guerreiras comigo, mas algumas precisam de repouso.” Kália falou alto, mas já pensando em quem levaria consigo.
“Também estou desfalcada.” Anya mordeu o dedo e olhou para Donata sabendo que esta devia ter planejado já algo.
“Tenho cem guerreiras em treinamento em minha casa, posso garantir que vinte estão mais que maduras e já participaram em mais de uma missão, trinta estão prontas para enfrentar sua primeira missão e temos três grupos, fora o de vocês duas que estão aqui há bastante tempo, portanto todas recuperadas e prontas para a batalha.”
“Então convoque todas para uma reunião após o jantar. Formaremos o grupo hoje e estudaremos nossa rota amanhã. Preciso ainda de uns dias para me recuperar de vez e depois pegamos a estrada. Vou falar com minhas irmãs agora, se não se importam.” Kalia saiu após as duas outras lhe darem permissão.
“E ela nem percebe.” Sorriu Donata
“O que?” Anya se inclinou para frente, mas ainda surpresa de ver a filha tão segura de si. Tantos anos perdidos, já nem a conhecia mais.
“Nem percebe que é uma líder. Ignorou a nos duas como se não fossemos guerreiras muito antes dela. Se não ficasse tão preocupada em imaginar o que teria sido poderia ver o que pode se tornar. Um dia ela vai enxergar, Anya. Ela é a melhor entre todas que já vi.”
Continua...
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Darkness


Look over your shoulder before opening your door; you never know what will be lurking in the shadows waiting to steal your soul, your dreams, your life. In the shadows live the doubts and the thoughts that in day light we dismiss with a smile. In the shadows are our repressed desires waiting to collect the fee for stupid decision and lack of courage. It’s not monsters what you need to be afraid of, you need to run from thoughts never spoken, love never delivered, kind acts never put in action. The shadows are full of parts of you denied to live and they are hungry. So look over your shoulder before entering your home and shed a tear to placate the gods, maybe they shine a light and turn the shadows in nothing more than past.
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23 de jul de 2009

O Despertar (11° Parte)


Kália acordou ainda com Analice nos braços. Sua primeira reação foi se afastar da garota, mas essa proximidade era relaxante de alguma maneira. Só experimentara uma intimidade assim doce uma vez na vida e a lembrança ainda a sustentava depois de tanto tempo. Apertou mais Analice em seus braços e esta abriu os olhos sonolentos.
“Mãe?”
Logo percebeu seu erro, mas voltou a fechar os olhos aproveitando a segurança que aqueles braços fortes lhe davam. Dentro deste circulo podia quase esquecer que agora sua vida era tão incerta quanto às chuvas de verão.
Logo após a batalha, a noite fatídica onde sua mãe fora morta diante de seus olhos, Analice adoecera. Febril rolava de um lado para outro em pesadelos cada vez mais assustadores e em nos raros momentos em que saia desse torpor maligno se via cercada pelas guerreiras que cuidavam para que seu corpo recuperasse a força e sua mente a lucidez. Quando voltou a si foi fácil perceber que nenhuma das pessoas que fizera parte de sua vida até então estava disposta a ceder que fosse um canto de seu coração a ela. Ouviu Kália discutindo com o conselheiro da cidadela o seu destino e foi com alivio que em uma discussão mais acalorada escutou a guerreira anunciando que a levaria com ela. Era o que sempre quisera. Oh, Deus, era o que sempre sonhara.
Analice sonhara sim com este destino, mas nunca imaginara que caminhos teria que percorrer, o que teria que perder para que se tornasse realidade. Ficava agora dançando na ponta da navalha, indecisa entre a satisfação da liberdade adquirida tão sonhada e a dor por esta ser somente possível devido a trágica perda daquela que a pusera no mundo. Nada é simples, parece que sempre temos um preço a pagar por qualquer prazer, parece que sempre existira uma clausula em letra diminuta ao pé do contrato onde nos é oferecida a felicidade.
Neste estado de eufórica melancolia Analice partiu com as guerreiras sem nunca olhar para trás, para as portas que se fechavam para uma vida que já não lhe pertencia. Foram longos dias na garupa de Kália ou no lombo de um dos cavalos. Dias em que o silencio a levava de volta ao momento que desejava esquecer. Foi uma viajem repleta de culpa e beleza, medo e deslumbre, ansiedade e fascinação. Ao cruzar os portões da casa da Irmandade foi como se houvessem a absolvido do pecado de desejar outra vida sem pensar nas conseqüências. Ao cruzar aqueles portões aceitou seu destino.
Em seu sono ainda haviam lamentos e lagrimas, mas agora, acordada, sentindo os braços de sua mestre a amparando, somente o que havia era realização e paz.
“Não finja que dorme Analice, vi muito bem que acordou. Precisamos arrumar algo para comer, acho que dormimos um dia todo. Vamos, levantando. Pegue sua mochila e vamos nos lavar antes de descer.”
“Sim, senhora.” E Analice sorriu, ainda não conseguia chama-la de Kália
As outras já haviam levantado e arrumaram o quarto antes de se banharem e vestirem. Logo andavam pelos corredores sem fim até um refeitorio tão grande que mais parecia um salão de baile com mesas sem fim e grandes tachos sob o fogo constante cheios de comidas deliciosas.
“Aqui dorminhocas.” Chamou Teresia do canto do refeitório vazio.
“Nem precisava chamar, parece que somos as únicas a levantar tarde.” Cami completou.
“Acho que somos as únicas que chegaram recentemente, pelo que soube somos as primeiras em três semanas a chegar. Antes de nós vieram Frida e suas guerreiras de uma missão em Los Feliz e depois nada até agora.” Contou Eledia.
“Isso é estranho, vou averiguar. Geralmente chegam e saem grupos quase todos os dias. Quem é mesmo a Mãe desta casa?” perguntou Kália.
“Há! Você vai gostar dessa, a velha Mãe morreu faz seis meses e a nova é Donata a gorda.” Teresia sorriu de prazer.
Haviam duas Donatas na casa que Kália cresceu, a gorda e a magra. A magra era uma Donata sempre mal humorada de cor esverdeada e voz de taquara rachada. A gorda tinha a voz doce como mel, podia-se escutar seu riso por toda a casa todos os dias e era uma mãe para todas mesmo quando ainda não tinha idade para isso. Agora já devia ter seus 50 anos e finalmente assumia o posto para o qual tinha nascido, o de Mãe em uma casa da Irmandade.
“KÀLIA!” Gritou a voz conhecida e lá veio Donata a gorda com seu sorriso e seu cheiro de açucar e canela. Os braços portentosos enlaçaram Kália que se deixou perder no abraço com imenso prazer. Esta mulher adorável havia sido o mais quase uma mãe para ela.
“Donata, que felicidade te encontrar aqui.”
“Ah, minha menina, nem sabe como fiquei feliz quando me disseram que você havia chegado.”
“Mas porque não me procurou antes?”
“Você precisava de descanso e eu quando começo a falar não paro.” E sua risada rica encheu o refeitório deserto. “Mas depois que se alimentar precisamos falar. Pode ir me encontrar na minha sala?” O sorriso se foi e Kália viu, sob a aparência sempre fresca de Donata, a preocupação que empalidecia sua pele.
Continua...
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21 de jul de 2009

Crying


Existe uma beleza singela nas lagrimas de um homem. Para nós mulheres chorar é fácil, deixamos nossas emoções sempre à flor da pele. Choramos de raiva, de dor, de emoção, de alegria, de TPM. Lagrimas infinitas pavimentam nossas vidas, mas não a dos homens. Quando o homem chora é tão obvia a verdadeira identidade da emoção que não podemos fazer mais nada a não ser nos maravilhar por esta explosão de franqueza. Não há fraqueza neste momento, somente a dor verdadeira, perfeita em toda sua beleza, pois até a dor e o desespero tem sua beleza. Posso contar nos dedos as vezes, em meus quase 46 anos, em que vi um homem chorar e em todas as vezes meu coração se encheu de ternura e descobri nestes homens algo que até então ignorava. Não choram para quebrar barreiras, nem para provocar pena, nem mesmo para terminar uma briga, choram porque o poço transbordou e não há absolutamente nada mais a fazer para manter o equilíbrio senão lavar a alma deixando verter o rio que corre desde seus corações.
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O Despertar (10° PArte)


Nasceu em uma noite de tempestade, mas nasceu em silencio. Enquanto a noite uivava fora do castelo, dentro era somente silencio. Kália dormia. Alem dos portões o mundo estava em guerra. Novamente. Uma nova onde de crimes parecia varrer os continentes e cada guerreira dava o melhor de si e até um pouco mais. Anya mal se recuperou e saiu no lombo de um cavalo ainda com o corpo sangrando e gemendo do parto. Não amamentou sua filha, nunca viu o primeiro sorriso que muitos diziam ser gazes, mas muitos juravam ser a amostra da natureza doce da menina. Nunca soube que a primeira palavra que Kália disse foi bubbles e que a repetiu por dias até aprender a dizer Bianca, o nome de umas das cadelas do castelo. Anya nunca viu como o coração suave se entristeceu quando começou a perceber que entre tantas que a cercavam não pertencia a ninguém. Kália floresceu somente para murchar quando percebeu que não havia ninguém a quem dar seu amor e aquela que a ensinaram a chamar de mãe parecia sempre ocupada demais para a fazer sua filha. Não que tenha sido uma infância infeliz, não. No castelo havia amor de sobra, companheiras sempre dispostas a brincar, animais de todos os tipos, fartura, grandes professoras, melhores ainda cozinheiras, mas era uma família grande demais para um coração que pedia intimidade.
Se houvesse nascido em uma família normal, dentro dos muros de uma cidadela, provavelmente cresceria para ser uma médica ou veterinária, sempre pronta a ajudar, casaria e teria filhos amando a todos a sua volta com um coração que somente crescia com o passar dos anos. Mas não havia sido assim. Todos sempre esperavam que filhas de guerreiras se tornassem guerreiras e assim eram criadas como os animais de fazenda, sem muitos agrados, consciente sempre que estavam destinadas a servir ao mundo, nunca a si mesmas. Sem chance de exercitar a enorme compaixão de seu coração se viu presa a um destino que seguiu, mas que questionava a cada passo do caminho.
Com seis anos já treinava com a espada, com dez já lutava corpo a corpo melhor que muitas guerreiras adultas, com quinze manejava o arco com perfeição. Toda a dedicação que poderia ser voltada para outros seres humanos foi canalizada para se tornar o que nunca quis ser. Era a única coisa que podiam ensinar no único lugar que podia chamar de lar.
Com treze anos começou a sair em missões. Cuidava dos acampamentos, fazia a vigília, cuidava das armas. Com quinze anos assistiu a morte de sua mais amada professora, aquela que lhe havia ensinado os segredos da espada, em meio a confusão acabou liderando a batalha e desde esse dia sempre que era chamada era para liderar.
Com vinte anos teve o primeiro momento de descaso de que podia se lembrar. A infância parecia tão distante agora que aqueles primeiros anos inocentes eram como um conto de fadas às avessas. Viajou por terras que sempre percorrera, mas nunca apreciara e se instalou por em uma cidadela onde algumas guerreiras haviam escolhido como morada após largarem a espada. Lá elas eram ferreiras, parteiras e veterinárias, fazendo o bem para o povo e enchendo os bolsos ao mesmo tempo. A cidadela era famosa pelos vinhedos que a cercavam, o vinho produzido era um dos melhores do mundo, a paisagem era algo para se sonhar para sempre. E foi lá que Kália conheceu o amor. Ele tinha 25 anos e era um gênio na produção de vinhos. Crescera entre as uvas, ajudando a plantar e a colher, sabia como devia ser o sabor em cada quadrante plantado e aprendera a misturar os sabores, a ver o vinho envelhecer sem pressa e fora sem pressa também que conquistara Kália. Soubera ver alem do semblante sombrio e triste. Vira muito alem da figura temida da guerreira, sentira a solidão e o vazio que somente esperava ser preenchido.
Ele a cortejara com delicadeza, sentindo que qualquer movimento mais agressivo a assustaria e um dia foi compensado por sua paciência quando sob as estrelas e aquecidos pelo brilho de uma fogueira ela baixou suas barreiras e entregou seu coração. Dos beijos tímidos às caricias ousadas os passos foram curtos e rápidos. Ele, em sua primeira noite de amor, a primeira de Kália, encheu seus ouvis e coração com promessas de amor e suplicas para que fizesse da cidadela sua casa.
Kália finalmente parecia em paz e feliz com a vida que parecia se desenhar à sua frente, mas logo veio o chamado. Era preciso voltar, com urgência. O mundo estava em guerra. Novamente. E entre a cruz e a caldeira fez a única coisa que estava acostumada a fazer. Obedeceu. O caminho da cidadela até sua casa da irmandade parecera curto demais. Ainda haviam lagrimas a serem derramadas, mas empunhou a espada e esqueceu que um dia pretendera ser feliz.
A Irmandade nunca impedira uma guerreira de sair da ordem, de viver como ditava o coração, mas se esta guerreira fosse do calibre de Kália a Irmandade usaria de todas as armas para mantê-la, mesmo que sacrificando a felicidade da mesma.
Continua...
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19 de jul de 2009

Janela


Sinto falta do céu quando deito. O inverno faz que minha janela esteja sempre fechada para a noite que amo. Não posso mais me deitar olhando as estrelas ou o rastro que a lua faz no céu em seu lento caminhar. Sinto falta da brisa beijando meu corpo quando o ar é morno demais para que me cubra e do acordar com os primeiros raios de sol e somente então fechar as persianas para impedir o mundo de entrar em meus sonhos que ainda vivem.
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O Despertar (9° Parte)


“Olá, Anya.” Teresia cumprimentou e puxou Analice para dentro do quarto deixando mão e filha no corredor.
“Sei que está cansada, filha, mas poderia sentar por alguns minutos comigo? Tanto tempo se passou desde que te vi a ultima vez.”
“Cinco anos. Desde a batalha de Chicago.”
De comum acordo andaram até um nicho na parede com uma grande janela que olhava para um jardim que desafiava o frio da montanha. Sentaram em silencio por alguns instantes, simplesmente aproveitando esse momento raro de estarem unidas sem ser em batalha.
“Soube que tomou uma aprendiz.” Anya disse com um sorriso.
“Acabei de chegar e as fofocas já correm soltas.”
“Somos mulheres antes de tudo, Kália, e adoramos uma fofoca. Pelo menos a maior parte de nós. Não nos sobra muito para fazer alem de treinar, curar nossas feridas, nos apaixonar de vez em quando, criar nossas filhas e claro, comentar sobre tudo isso ocorrendo na vida dos outros.” Riu e cutucou Kália que somente levantou os cantos da boca. “Não quer me contar?
“Mãe, não tem nada para contar. A menina não tinha ninguém, o conselho da cidadela não parecia nada ansioso em achar uma nova casa para a garota e eu me senti responsável. Eu deixe a mãe dela morrer. Que mais podia fazer?”
“Kália, querida, você não foi feita para educar uma criança. É rebelde demais. Sempre foi. Como pode ensinar esta garota a ser uma guerreira quando sempre teve tantas duvidas? Ou será que finalmente se acomodou à essa vida?”
“Você nunca entendeu, não é? Amo essa vida, mas é a única que conheci. Como guerreiras não nos é dada a chance de experimentar outra vida, ou seguimos esta ou a outra, e a decisão deve ser feita cedo demais...”
“Ainda pensa nele?”
“Do que você está falando?” Kália virou o rosto escondendo lagrimas que nunca derramava, somente as deixava aflorar para secar ainda no leito de seus olhos, esquecidas, prisioneiras como ela.
“Você sabe muito bem. Ninguém a forçou a escolher, poderia ter casado e tido filhos, poderia ter sido feliz ou não. Poderia até mesmo tê-lo tomado como amante por um ano em vez de algumas noites.”
“Eu poderia ter feito muitas coisas, mãe, mas nenhuma delas pareceria certa, assim como esta vida não me parece, mas como você sempre diz, alguém tem que fazer o serviço sujo.” E Kália deu de ombros.
“E o que a menina é para você? Somente um peso a mais além do da sua espada? Não pode continuar levando a vida assim, filha.”
“Não diga que agora se importa, Anya, não parecia interessada no que seria de mim quando correu o mundo entre batalhas e me deixou para ser criada na Casa da Irmandade.” E Kália levantou e correu para o seu quarto como se mil demônios a seguissem. Sabia que Anya não a seguiria.
Encontrou Analice ainda acordada, sentada na cama à sua espera. A menina, apesar de mais corada pelo banho e massagem, ainda parecia prestes a se fazer em pedaços. Era como se somente as roupas a mantivessem inteira, como uma boneca de pano.
“Você precisa dormir agora, garota. Se quiser ser uma guerreira tem que começar por saber aproveitar cada minuto de descanso. Eles nunca são suficientes.”
“Eu... eu tenho medo de dormir e não lembrar onde estou. Tenho medo de sonhar de novo e...” Um soluço a balançou e abraços os joelhos se fazendo o menor possível sob olhar da guerreira.
Kália sabia o que era se sentir só, estivera assim a vida toda, cercada de pessoas que a queriam bem, mas essencialmente só. Sentou ao lado da menina e passando um braço desajeito pelo seu ombro, a deitou na cama e se ajeitou ao seu lado.
Muitas horas depois, quando a noite já havia pintado de negro cada canto do quarto, Kália acordou e ainda tinha Analice nos braços. E esta dormia em paz. Com um suspiro fechou os olhos novamente e dormiu com o coração muito mais leve do que costumava ser.
Continua...
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18 de jul de 2009


A coisa que mais odeio é quando estou pela rua e tenho aquela idéia perfeita para um post. Às vezes é algo por que passo, às vezes é uma idéia que surge do nada, às vezes é um trecho de conversa que escuto, mas não importa o que seja, mesmo que eu repita a idéia essencial como uma cantiga em minha cabeça, inevitavelmente eu a esqueço ao cruzar a porta de casa. Algumas vezes consigo recuperar aquela idéia relembrando meu caminho, mas geralmente eu simplesmente deixo para lá. Odeio perder uma boa idéia, mas aprendi que elas vêm e vão e não adiantar persegui-las porque depois que desaparecem viram fantasmas dos quais somente ouço o ranger das correntes. São tantas coisas que podem se transformar em palavras que não temo ficar sem tema, mas não me envergonho de dizer que lamento a perda com mais tristeza do que poderiam imaginar. Acho que este é um adeus à estas idéias perdidas no caminho, é um agradecimento por me fazerem ciente de que podem aparecer em qualquer lugar, a qualquer momento, durante a mais prosaica das tarefas.
Acho que vou comprar um mini gravador.
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O Despertar (8° Parte)


Já faziam 10 dias desde que deixaram a cidadela. Haviam contornado uma grande cidade em ruínas e agora se aproximavam da casa da Irmandade de Andes Verdes na base das grandes montanhas. Era uma casa majestosa aninhada na base da montanha cujos picos eram eternamente nevados. A enorme construção era caiada de branco e o telhado de um vermelho vivo fazendo com que fosse vista às vezes à um dia de distancia. Nela viviam mais de 100 guerreiras em treinamento constante e mais as hospedes, como Kália e suas irmãs, que procuravam por descanso após uma missão. Para estas estava reservada toda uma ala onde o conforto era maior que em todo o resto. Aqui vinham repousar e se curar aquelas que andavam pelo mundo sem descanso.
Kália sentia as pernas doerem, o estomago estalar e as mãos arderem ao receberem o ar gelado. Mal conseguia acelerar a estúpida motocicleta. Haviam ficado com três delas deixando as outras para a cidadela, uma forma de compensá-los pela perda de 6 de seus habitantes. Estavam acostumadas à morte, mas aquelas haviam sido desnecessárias, se pelo menos o conselheiro as houvesse obedecido e não abrisse o maldito portão.
Andava devagar para não cansar os cavalos que a seguiam, Cami e Teresia vinham logo atrás dela com as outras duas motos e as outras seguiam à cavalo. Os três cavalos extras vinham com seus pertences e os presentes que haviam ganho como recompensa. Botas longas de couro nobre, camisões de linho grosso para o frio, malhas de lá tingidas e tecidas com esmero e compotas das mais variadas espécies. Um rico presente.
Kália sentiu os braços ao redor de sua cintura perdendo a força e fez um sinal para pararem.
“Ah, Kália, já está tão perto, que dá quase para sentir o cheiro dos bolos do chá da tarde, para que parar agora?” Cami estava ávida por um longo banho e uma sauna seguida de massagem para aliviar suas dores.
“Analice está dormindo de novo e vai acabar caindo da moto.”
“Não estou dormindo não, juro!” A menina tinha os olhos vermelhos e fundos e a palidez de seu rosto era extrema.
“Garota, vá para o cavalo com Inês, é mais confortável e ela pode te segurar que eu aqui.” Kália tentou pela centésima vez.
“NÃO!” e Analice apertou os braços ao redor de Kália.
“Vamos embora, Kália, faz dez dias que você tenta tirar a menina da garupa.” Teresia disse impaciente com a teimosia de Kália. Quando ela perceberia que a menina só se sentia segura com ela? “Vamos dar um jeito nisso, Analice.” Teresia tirou de sua mochila um grande chale de um material fino e delicado, Enrolou até que parecesse uma corda e passou ao redor de Kália e Analice amarrando com firmeza. “Pronto, fofinha, agora pode dormir que não vai cair.”
“Obrigada Teresia.” A menina sorriu já fechando os olhos.
“De nada, fofinha.” E indo para sua moto estapeou a testa de Kália numa reprimenda.
“Ouch! Vamos de uma vez.” E Kália ligou a moto e sem esperar pelas outras acelerou rumo ao seu destino.
Ainda demoraram 3 horas para chegarem aos portões. O caminho até a ala reservada a elas pareceu eterno, com postulantes as parando para saber do resultado da missão ou simplesmente para apertar a mão de Kália que tinha uma reputação maior que sua pouca idade. Finalmente chegaram aos seus aposentos, um enorme quarto com camas acolhedoramente acomodadas em nichos para dar um mínimo de privacidade para suas ocupantes. Algumas se jogaram do jeito que estavam nos lençóis limpos e adormeceram imediatamente, mas Kália e Teresia sabiam, depois de tantas batalhas que ao acordar sentiriam os corpos ainda mais doloridos e que um banho e uma massagem antes de dormir acabariam com muito do desconforto da viagem.
Analice sentou na beira de uma cama vazia olhando para Kália. Iria aonde ela fosse mesmo que seu corpo se recusasse a trabalhar, se arrastaria pelos corredores como um verme se preciso. Não havia outro lugar seguro no mundo que não a seu lado.
“Se quiser dormir pode ficar aqui, fofinha, senão venha com a gente e logo vai se sentir melhor.” Teresia ofereceu estendendo uma mão enquanto na outro carregava sua mochila e a de Analice.
A menina olhou de Teresia para Kália como se esperasse por uma resposta em vez de ser ela a dever uma.
“Essa rabugenta também vem, pode ficar sossegada.” E com isso Analice se levantou e tomou a mão de Teresia. Kália seguiu as duas sem expressão.
A sala de banhos era composta de três salões, o central com uma piscina de água sempre tépida, uma sala com vários chuveiros individuais e outra com mesas para massagem separadas por cortinas diáfanas. Teresia levou Analice para os chuveiros e ajudou a garota a se livrar das roupas sujas, a menina estava tão cansada que esqueceu da vergonha e deixou a mulher mais velha cuidar dela como se fosse uma boneca. Kália se livrou das roupas como se não houvesse ninguem à sua volta, seu corpo, perfeitamente modelado, era tão cheio de cicatrizes que Analice soltou um “oh” cheio de espanto e pena, mas Teresia lhe cobriu a boca e virou seu rosto.
“Não falamos de nossas cicatrizes, querida, e não gostamos que encarem. É uma coisa que vai ter que se acostumar.”
“Mas ela tem tantas....” Analice diz baixinho.
“Todas temos, por dentro e por fora.” Teresia enfiou a menina no box e abriu o chuveiro. Levou bem uma meia hora esfregando a garota que parecia ter terra em cada dobra de seu corpo e depois de enrolá-la em uma toalha a mandou esperar em um dos inúmeros bancos ao redor da piscina.
A menina obedeceu sem tirar os olhos da sala dos chuveiros, com medo de perder Kália que ainda estava no banho, mas logo lá veio ela, enrolada em um roupão macio seguida de Teresia que estendeu a mão para Analice e a levou até o outro lado para as mesas de massagem. Deitaram lado a lado, deixando as cortinas entre elas abertas e relaxaram sob as mãos experientes das massagistas que usavam óleos de ervas especiais para aliviar as dores da viagem, acabar com a febre dos ferimentos e relaxar o espírito. Saíram sonolentas e prontas para pelo menos 12 horas de sono.
Os corredores pareciam infindáveis para Analice e somente soube que chegavam quando esbarrou em Kália que estacara para encarar uma mulher que parecia à espera delas na porta de seu quarto.
“Olá, Kália, vejo que não teve ferimentos graves. Fico feliz. Não me dá um abraço?”
Kália continuou devagar até a mulher e a abraçou com força.
“Oi, mãe.”
Continua...
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16 de jul de 2009

Para você


Cada palavra quer ser lida. Cada conto quer ser degustado com prazer. Escrevo porque preciso, é uma compulsão que me faz feliz. A única coisa que desejo, que espero, é que estas palavras conquistem um ser humano que seja e que façam com que ele sonhe, sinta medo, chore e espere por mais. Não me importam as criticas, o que me importam são as palavras gentis de pessoas que amam as palavras tanto quanto eu. Então. Para você. Obrigada. As lagrimas que derramei hoje foram de coração cheio de TUAS palavras e de prazer por ter feito com que ansiasse por estas que se derramam de minha mente insana. Obrigada homem sem nome. Somos, nestes tempos difíceis, felizes por sabermos que alguém nos aprecia.
Kisses.
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O Despertar (7° Parte)


Kália não esperou pelas outras, correu sem pensar em seus ferimentos, sem sentir o peso da espada e sem pensar no que faria. Podia ver o fogo tomando as casas e seu coração se encheu de fúria. Longe estava a hora em que se sentira cansada de fazer o sangue jorrar pela terra. Agora tinha sede de sangue. O grito dos inocentes fazia zunir seus ouvidos e dava asas a seus pés.
As casas próximas ao portão estavam em chamas, pessoas corriam para todos os lados aos gritos e alguns poucos tentavam apagar as chamas. Kália parou procurando o intruso, mas este fora infernalmente inteligente em produzir tal pânico tornando impossível localizar um estranho no meio de tantas pessoas correndo, pessoas que Kália nunca vira. Ele poderia ter trocado suas roupas de couro por outras roubadas. Poderia ter se escondido em algum canto escuro esperando o fim da confusão ou ter se arriscado pela noite afora tentando colocar a maior distancia possível entre ele e as guerreiras.
“Senhora!”
Kália se viu frente a frente com o chefe do conselho da cidadela que as havia recebido. Estava pálido e de sua cabeça corria um fio de sangue que corria a face toda. O brilho das chamas fazia o homem parecer amedrontador quando na verdade estava terrivelmente amedrontado.
“Onde ele está? O senhor o viu?” Kália segurou o homem que parecia prestes a desmaiar.
“Eu abri o portão para ver se a luta terminara e ele me bateu com um pedaço de pau e entrou. Matou o homem que estava comigo e correu para a casa mais próxima. Eu tentei gritar, mas...” O homem vacilou em seus braços e Kália o arrastou até um banco ao lado do portão.
“Preciso saber mais, homem, e rápido. Não há tempo a perder a não ser que queira ver toda cidadela em chamas.”
“Não sei mais, o vi sair da casa e logo ela estava ardendo. Deve ter matado todos na casa. Oh, meu deus, Maria e Frido! Meu Deus.... Meu Deus...”
Não adiantava esperar mais, viu suas irmãs chegando carregando as feridas que se apoiaram ao portão ficando de guarda. Kália, Teresia, Inês, Marita, Fres e Lia se separaram e começaram a correr pelas ruas procurando em cada casa, amparando cada ferido.
No meio de todas as vozes Kália ouviu um grito. Uma voz infantil que chamava por sua mãe. Correu em direção da casa e chutando a porta viu o intruso com uma mulher, já morta, em seus braços, o pescoço cortado jorrando sangue pela sala. Agachada a um canto, braços estendidos como se pedisse misericórdia, estava Analice.
O homem jogou a mulher ao chão como se descarta um saco velho e ergueu sua faca para Kália. Era longa, curva e extremamente afiada, mas Kália tinha sua espada e sua adaga. Ele não sairia dali vivo. Ela não deu um passo, não levantou a espada e nem mesmo olhou novamente para Analice. Sua simples presença o deixava em desvantagem, suas roupas, sua herança, sua criação na lei a faziam ser temida e ele tremia. Fácil era matar uma mulher inocente protegida somente pelo amor de uma criança, mas enfrentar uma guerreira em sua plenitude exigia mais coragem que um homem destes possuía.
Mesmo assim ele a atacou primeiro, sua imobilidade o amedrontara a tal ponto, assim recortada à porta com a luz das chamas a lhe pintar de escarlate, que qualquer fim era melhor que os olhos frios da guerreira. Tentou pega-la desprevenida, se jogando ao chão no ultimo minuto para tentar lhe cortar o tendão, mas encontrou somente o vazio. Sentiu o aço frio se afundar em sua coxa lentamente e se virou gritando para vê-la acima dele, olhos de gato, com um sorriso envenenado. Ela retirou a espada tão lentamente quando a enfiara, deixando sua perna em brasa e uma fraqueza profunda que parecia aumentar a cada respirar. Baixando os olhos vu o rio de sangue se misturando ao da mulher. Sangue farto de uma veia vital. E ela ali parada, o encarando como se esperasse por algo.
“O QUE VOCÊ QUER SUA VACA!” E tentou levantar, mas a espada novamente se enterrou em seu corpo devagar, como se fosse uma caricia, agora cortando seu estomago, dilacerando seus intestinos e fazendo com que o sangue subisse até sua boca. “ACABE LOGO COM ISSO, SUA DEFORMADA FILHA DA PUTA!” Mas ela não tinha pressa. A lamina novamente encontrou seu corpo, tão próxima ao coração que ele pensou que enfim deixaria de ver aquela fúria em forma de mulher a lhe encarar como uma deusa vingativa, mas ela aprendera muito bem seu oficio. Ele não morreria rápido, mas desejaria que assim o fosse. E novamente o aço o beijou, gentilmente desta vez, uma fina linha que lhe cortava da orelha ao canto de sua boca. E então ela pareceu satisfeita e se afastou. Tomou a criança nos braços e o deixou para morrer entre o sangue que derramara e o seu que fora derramado.
Continua...
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13 de jul de 2009

Lá vem a noiva

O vestido era branco como a neve. Não creme, nem casca de ovo, mas sim branco. Ela fizera questão disso. O véu longo escondia o rosto bem maquiado e o cabelo firmemente moldado para parecer naturalmente ondulado. As flores de seu buquê caiam em cascata até quase seus pés. O peso era imenso, mas o que importava era o efeito que fariam juntamente com sua calda de mais de cinco metros. O carro longo e reluzente parou à porta da igreja onde um longo tapete vermelho coberto por pétalas brancas esperava a noiva. Exatamente como ela planejara. Suas madrinhas, vestidas todas de um rosa pálido faziam fila de braços dados à padrinhos em impecáveis smokings negros. As portas duplas e colossais se abriram para um poema em seda branca e flores vermelhas. Cada fileira revelava convidados em suas melhores roupas, jóias e sorrisos. Como ela sabia que seria. Atravessou a longa nave em passos lentos e estudados, olhando para cada lado e oferecendo um sorriso perfeito que brilhava tanto quanto as perolas que circulavam o pescoço delicado. E enfim lá estava o altar. O padre ricamente paramentado para a ocasião olhava solene para ela e à frente dele estava aquele que lhe havia propiciado o momento tão sonhado. Como era mesmo o nome dele?
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O Despertar (6° Parte)


A lua já ia alta no céu quando Kália viu as luzes cortando o campo alem do rio. Não demorou para que chegassem até ela o ronco dos motores e os gritos ensandecidos do bando. Olhando para trás viu a cidadela às escuras, como ordenara e as sombras das sentinelas e de suas irmãs nos pontos pré combinados. Sentia nos ouvidos a palpitação de seu coração, era como um tambor que ia aumentando de ritmo até que nada mais podia escutar a não ser essa batida de guerra. O corpo relaxado era um atestado de seu treinamento. A mão leve sobre a espada, os pés afastados, os olhos presos no alvo, mas seu interior em chamas. Era hora da batalha e aquela dentro dela que amava o combate estava viva e esperando ansiosa pelo momento de atacar.
Como Kália previra as motos se dirigiram diretamente para o abrigo antes intocado e logo pode ouvir o barulho de metal contra metal, enquanto arrombavam o cadeado, e o partir da madeira quando desistiram de tentar e atacaram a porta provavelmente com um machado. Eles não viriam à cidadela hoje e Kália não queria esperar.
Com um assobio curto chamou a atenção das outras que em poucos segundos se encontraram com ela no portão principal.
“Teresia, mande um vigia ficar ao portão. Que o tranque assim que sairmos, nada de usar os cavalos agora, preparem-se para correr e o mais silenciosamente possível, isso é para você Cami, nada de sair tropeçando em tudo agora.” Cami acenou um sim envergonhado, ainda se afobava demais na hora de lutar, o medo de mãos dadas com a coragem, mas sabia obedecer ordens ainda mais quando vindas de Kália que não admitia erros. Erros custavam vidas e todas ali sabiam disso muito bem.
Passaram as onze pelo portão que se fechou silenciosamente às suas costas. Kália seguia à frente de olhos na outra margem e nas luzes das motocicletas que iluminavam as figuras ameaçadoras dos bandoleiros. Correram em silencio por 300 metros até o rio e em vez de pular pelas pedras como Kália e Analice haviam feito naquela tarde, entraram na água gelada e deslizaram até a outra margem. Os homens não haviam notado nada, estavam ocupados demais em escolher o que levariam.
Kália os contou rapidamente, eram 14. Não seria difícil abate-los, eram homens brutos, mas que não tinham unidade entre eles. Nestes bandos era cada um por si na hora da batalha enquanto as guerreiras lutavam unidas como uma só mente.
Um deles não se juntou aos outros, ficou recostado na moto fumando e Kália praguejou por não ter levado o arco, seriam vistas antes do que ela pretendera, mas que assim fosse. Fez sinal para as outras, apontando para o homem na moto, e esperaram que ele desviasse a atenção para os companheiros para disparar em direção ao galpão.
O homem na moto sentiu, mais do que viu, o movimento das guerreiras se aproximado, gritou para os companheiros e sumiu por trás do galpão saindo do raio de visão de Kália.
É inútil descrever toda luta, foi como tantas outras. Espadas se chocando, sangue jorrando, gritos, suplicas. Morte. Cami foi ferida no braço e quase perdeu sua espada, mas Teresia, sempre perto da mais nova, aparou com sua espada o golpe que a poderia ter matado. Eledia ficou desacordada uma boa meia hora com a pancada que levou na cabeça, mas suas irmãs lutaram à volta dela protegendo seu corpo de novos ataques. Kália matou quatro deles rapidamente e depois se viu cercada por três mastodontes com pedaços de pau e facas longas, que gostavam de usar para cortar os pescoços de quem dormia. Um deles acertou sua perna com uma paulada que a fez fraquejar, outro lhe cortou o ombro com uma faca curva, mas para ela isso era somente o esperado. Um a um ela os abateu e logo, olhando em volta, viu que a batalha terminara. Agora era contar os corpos, cuidar das feridas e voltar para a casa da irmandade mais próxima para descansar até que a próxima missão a levasse pelo mundo afora.
“Temos 13 corpos, Kália.” Disse Teresia.
“São 14, Te, não 13.”
“Temos somente 13 corpos.”
“Merda! Leve quem estiver ferida de volta para a cidadela, pegue um cavalo para mim e para quem mais puder me acompanhar e vamos atrás dele.”
Nem bem acabara de falar e o sino de alarme da cidadela começou a tocar.
Continua....
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12 de jul de 2009

A Porta


O que existe atrás da porta é um mistério. É uma porta comum, de madeira escura com fechadura e maçaneta dourada envelhecida. O menino a olha com aquela atração que tudo que é desconhecido nos desperta. Sempre fechada, a porta. A chave ele nunca vira, nem mesmo sabia se era grande ou pequena ou se andava num molho com outras chaves ou solitária. Aquela porta embaixo da escada o fazia sonhar com coisas mágicas e a ter pesadelos com monstros inimagináveis, mas durante o dia somente despertava sua eterna curiosidade. Queria abrir a porta e fazer jorrar a luz do sol em cada canto escuro, mas não podia, pois estava sempre trancada. Mamãe dizia que se guardavam “coisas” ali dentro, mas nunca dizia que coisas eram. Que segredos pediam para ser guardados atrás de portas trancadas? Ouvira um dia seu pai falar de esqueletos em armários, seria isso afinal? Às vezes ele esquecia da porta, passavam meses sem que pensasse nela, mas um dia, atravessando o corredor, lá estava ela parecendo brilhar no corredor escuro. E tudo voltava. Em uma noite de festa, noite em que deveria se retirar cedo e dormir sem incomodar os adultos, se esgueirou até a escada e ficou observando todos se divertirem. Viu sua mãe ir e voltar da cozinha carregando bandejas com coisas apetitosas e seu pai preparando drinks na sala. E então aconteceu o inimaginável. Sua mãe abriu a porta e entrou na sala mágica. Ele não podia respirar. Enfim saberia. Ela saiu com uma caixa nas mãos e foi para a cozinha, momento que ele aproveitou vendo a porta entreaberta para correr escada abaixo e entrar como um tufão no pequeno armário. A luz acesa mostrava prateleiras de copos de cristal, pratos de louça fina e caixas de talheres que reluziam como jóias.
“O que você faz aqui amigão? Não deveria estar na cama?” Sua mãe o pegou no colo e o levou para seu quarto o colocando na cama. “Agora nada de levantar de novo. Boa noite, querido.”
O sono demorou a vir, o mistério se acabara de maneira abrupta e ele lamentava essa perda. Finalmente seus olhos cansaram de olhar a escuridão e logo foi tomado por sonhos de tesouros por trás de portas fechadas que brilhavam à luz de lanternas.
Por muitos anos ainda, depois daquele dia, sua brincadeira preferida era a caça ao tesouro e a caverna onde este se encontrava era bem guardada por uma porta comum, de madeira escura com fechadura e maçaneta dourada envelhecida.
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O Despertar (5° Parte)


Kália acordou com o riso fora de sua tenda. Era um som conhecido que sempre a reconfortava. Era o riso de suas irmãs em volta da fogueira partilhando o jantar ou historias. Em sua vida aprendera a somente relaxar quando cercada por aquelas que combatiam a seu lado e sabe-las deixava sua mente livre para planejar seus próximos passos.
Eles viriam, ela estava certa disso. Uma coisa que aprendera ao longo dos anos é que estes fora-da-lei simplesmente não se contentavam no que pudessem por suas mãos. Queriam tudo. Nunca podiam respeitar os limites dos muros, dos cadeados e da lei.
Kália usou a água que alguém gentilmente havia deixado para se lavar e colocou suas peças de couro mais grosso, apesar de vários remendos ainda ajudavam a aliviar muitos golpes. Por cima de tudo vestiu uma malha fina de metal que lembrava muito às dos cavaleiros da antiguidade. Saiu da tenda e logo o cheiro de guisado de carne a atingiu fazendo seu estomago roncar. Fazia dias que não comiam carne, a viagem até ali fora longa e nos últimos dias haviam comido somente arroz com legumes desidratados. Estava faminta. Suas irmãs a receberam com um prato cheio e um copo de vinho encorpado produzido ali mesmo na cidadela que ela não demorou a secar.
“Já pensou como quer agir quando eles vierem?” Perguntou Cami, a mais nova com 20 anos, ainda sedenta de ação.
“Não devem ser muitos. Dez como nós, no máximo 15. Assim que soubermos por onde atacam saímos e atacamos com força total. Eles já mataram muitas cabeças e levaram parte da safra de arroz da aldeia, não quero esperar que façam mais estrago. É quase inverno e esse lugar é muito próximo da cordilheira, logo não vão poder mais plantar.”
“Qual a ordem? Capturar ou eliminar?” Perguntou Helene que já estivera em muitas missões com Kália.
“Não vejo porque captura-los, sabemos o que fizeram e quando voltarem saberemos que pretendiam continuar o saque. Não estou com paciência para levar um bando de degenerados até a casa da irmandade mais próxima. Isso exigiria vigílias por todas as noites e atenção constante durante a viagem. Votamos? Quem for a favor de não fazermos prisioneiros levante sua espada.”
Onze espadas, de Kália inclusive, se ergueram no ar e o assunto estava decidido sem mais uma palavra. Em um mundo brutal, ainda jovem nesta sua segunda edição após sua quase destruição, não havia espaço para pensar na recuperação de indivíduos que realmente não pareciam interessados em preservar o que haviam duramente conseguido recuperar. Alem do mais dificilmente haveria alguém disposto a largar sua própria sobrevivência para tentar incluí-los numa sociedade que os recusaria assim soubesse de seu passado.
As guerreiras terminaram sua refeição e tomaram seus postos. Kália ficou na casa da torre ao lado do portão principal, olhando a noite e estudando seus contornos.
“Senhora?”
Kalia se virou com a mão na espada para encontrar a jovem Analice parada à porta com um jarro e um prato nas mãos.
“Nunca chegue assim de mansinho por trás de uma guerreira, menina, pode se machucar.”
“Desculpe. Vim lhe trazer suco de limão e um pedaço de torta de morangos. Eu mesma fiz.” Analice colocou sua oferenda sobre a mesa da pequena sala e voltou à sua posição sob o umbral da porta.
“Vá para casa menina. Essa noite é bom ficar abrigada, nunca se sabe o que pode acontecer.” Kália sempre se incomodava com crianças por perto, não sabia como lidar com elas.
“Sim, senhora, mas queria lhe dar isso. Minha mãe diz que protege.” E Analice estendeu à Kália uma fina corrente com uma cruz de madeira. A cruz era lindamente talhada, pequena e perfeitamente polida.
“Sua mãe sabe que você pegou isso?”
“Sim, senhora. Eu pedi a ela.” A garota respondeu ruborizando.
“Olha garota, não tenho tempo agora. Obrigada pela oferta, vou usar mas somente por essa noite. Sei pela sua cara que deve ter pego sem autorização. Fica entre nós, mas amanhã você devolve de onde tirou, ok?”
“Sim, senhora.”
A garota se oi tão silenciosa quanto chegou. Diabos se não daria uma boa guerreira com pés tão leves, mas Kália nunca quisera uma aprendiz. Não seria ela a tirar uma filha de sua casa. Já vira vezes demais isso dar errado para querer tentar.
Continua...
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10 de jul de 2009

Counting


O que faz do tempo tempo? Quanto é muito tempo? Dez anos é demais ou somente uma pequena parte de uma longa vida? O que perdemos em 5 anos? Nada se os próximo 20 forem agitados, provavelmente. O que é uma hora em um longo dia? O que faz de uma noite de insônia uma catástrofe entre tantas outras de bons sonhos? O que são três meses em um longo ano?
Não existe resposta, ou pelo menos não uma satisfatória. Tudo é relativo. Dez anos perdidos em tristeza e desamparo nunca é reposto e 5 anos em paz e conforto podem passar despercebidos em uma vida de emoções. Uma hora de desespero pode anular um ano de felicidade e uma noite de insônia pode simplesmente estragar todo um mês de produtividade.
Temos uma vida regrada por horas, dias, anos, e nunca podemos saber como a conta destes nos afetara ao longo de nossa vida. A conta final, aquela linha que se passa antes da soma geral, é feita tarde demais para que saibamos como fica o balanço geral. Podemos, ao olhar para trás, ter uma vaga idéia quando as lembranças felizes são numerosas, mesmo que em menor numero que as de tristeza. O poder curativo, reconfortante, das belas memórias tem aquela sensacional qualidade multiplicativa que anula muita tristeza ao longo do caminho. Enfim. Anos, dias ou mesmo minutos não pode ser quantificados simplesmente.
Tudo é relativo.
Graças a Deus.
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O Despertar (4° Parte)


O sol já tocava a linha do horizonte quando retornaram à aldeia e suas irmãs à esperavam já com suas tendas armadas perto do portão principal. Raramente as guerreiras aceitavam a hospitalidade dos moradores das cidadelas por onde passavam, isso gerava ciúmes desnecessários entre os moradores e as deixava mais lentas com todos os cuidados com que as cercavam. Estavam ali para lutar e terminada a missão voltariam para a estrada que as levaria para a próxima cidade. E a próxima.
Kália agradeceu Analice por ter sido sua guia e a mandou para casa, mas a meninas somente se afastou e se sentou à um canto, observando ainda.
“Vocês prepararam vigias para a noite?” Kália perguntou à suas irmãs de irmandade
“Claro que sim. Teremos homens postados a cada 100 metros por toda a muralha, mas sabe que só podemos contar com eles para dar o alarme, sabe eu tem mais medo do escuro que criancinhas. Teremos duas de nós nas torres da mansão e o resto esperando pelo alarme. E acho que é só. Agora temos que esperar.” Teresia era a mais velha, com 42 anos, e acompanhava Kália desde sua primeira missão. Nunca quisera liderar, mas era uma segunda em comando como nenhuma outra.
Kália somente acenou concordando com Teresia e foi para sua tenda descansar. Tinha poucas horas para repor a energia gasta na longa viagem. Hoje provavelmente lutariam e teria que matar novamente. Os anos, os últimos 15, foram uma longa sucessão de batalhas, lagrimas, exaustão e morte. Às vezes somente desejava uma primavera de paz no castelo da irmandade, mas a humanidade parecia nunca se cansar de fazer a guerra, mesmo quando uma quase destruíra o mundo.
O colchonete fino sobre o chão duro não era confortável, mas Kália estava acostumada com toda sorte de desconforto. O sono veio como sempre cheio de presságios. Era como se fosse uma pré batalha, um preview do que se seguiria logo mais. Não havia paz para Kália, nem durante o sono.
Analice, sentada bem encostada na tenda, ouvia os murmúrios de Kália durante o sono. Pobre guerreira, mas velaria seu sono, pediria aos Deuses que dessem descanso ao corpo e paz à mente daquela que viera para velar por suas vidas.
A lua surgiu no céu, alva e brilhante e ao longe se podiam ouvir gritos e o ronco de motores possantes.
Continua...
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9 de jul de 2009

Fenômeno

Parece mais um balé. Os pés voam sabendo exatamente onde devem pisar e quanta força usar. Com uma fluidez impossível de se prever gira e toca, toca e segue como se não houvessem obstáculos. Em câmera lenta é como ver o mistério revelado, mas sem nunca entendê-lo. O grito preso na garganta é liberado não uma, mas varias vezes e o sorriso no rosto tão conhecido aquece o coração. É mais que o renascer da Fênix, é o amor pelo jogo posto em ação, é a chance plenamente aproveitada, é o cala a boca para quem disse “ele morreu”. Dá prazer de ver. O puxão de orelha dado com um sorriso no rosto, o incentivo gritado com paixão, a lição dada e aprendida, o comemorar em grupo, os braços abertos para a torcida em rendição total. É a entrega. É o retorno. É a alegria. É Ronaldo.

O Despertar (3° Parte)


Analice observava Kália atentamente. Procurava guardar cada gesto, o modo de andar, a mão pousada levemente sobre o punho da espada, os cabelos curtos voando livres ao vento, a cicatriz que cortava o rosto que deveria ter sido belo demais. Era uma linha fina que lembrava um raio, começava acima de sua orelha direita e descia até o canto de sua boca lhe dando um ar perpetuamente sarcástico. Analice nunca vira ninguém tão bela.
“Que tanto olha, garota?” Kália sabia exatamente o que, mas gostava de testar as meninas que tanto queriam sua vida.
“Sua cicatriz. Dói?”
“Não. Não agora, mas durante anos doeu e muito.” Admirou que a garota fosse honesta em sua curiosidade. Poucos eram. O poder da irmandade era muito para ser recebido com franqueza.
“Você chorou quando te machucaram?” a menina continuou a perguntar, mas baixando os olhos. Parecia ter perdido o medo, mas a timidez havia voltado.
“Claro que chorei. Doeu muito, mais ainda quando limparam meu ferimento. Parecia que meu rosto todo estava pegando fogo.” Kália se aproximou da menina que acariciava o arco sem perceber.
“Você prefere o arco ou a espada?”
“A espada.” Respondeu Kália sentando ao lado da garota. “Mas o arco já me salvou muitas vezes, ele pode parar o inimigo quando ainda está longe e se forem muitos é uma vantagem abate-los antes que cheguem a você.”
“Porque somente as filhas de guerreiras podem ser guerreiras? Não acho justo...” Analice deixou escapar antes de pensar, mas Kália somente riu.
“Seria mesmo injusto se fosse verdade. “
“Não é? Mas todos dizem...” Analice estava surpresa.
“As pessoas falam o que acreditam ser verdade, mas isso não torna verdadeiras suas palavras. É somente mais comum que filhas de guerreiras sigam os passos das mães, mas temos muitas entre nós que vieram de vilas como você e muitas que nasceram dentro da irmandade que se casam, tem filhos e vivem dentro dos muros como você.”
“Então eu poderia ser uma guerreira?” Perguntou Analice vislumbrando um novo mundo à sua frente.
“Não é tão simples assim, mas sim, poderia. Dentro de certas circunstancias poderia. E agora vamos voltar que logo anoitece e preciso me reunir com minhas irmãs para decidir o que fazer.”
Kália não queria dizer à menina que somente poderia fazer parte da irmandade, sendo que não nascera nela, se fosse escolhida por uma guerreira para ser sua aprendiz. Nunca quisera esta responsabilidade e não começaria agora quando tinha tantas duvidas. As famílias geralmente se sentiam honradas quando suas filhas trilhavam este caminho, mas não todas. Não aquelas onde as filhas eram peças importantes na sobrevivência da família, quando seu par de mãos fazia diferença na hora de colher e na hora de tratar dos animais.
Continua...
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6 de jul de 2009

O Despertar (2° PArte)


Analice não pôde evitar de derramar algumas lagrimas ao ver os animais assim apodrecendo ao sol, desperdiçando a carne que alimentaria a aldeia e poluindo a água, era triste demais, mas os aldeões sabiam que aquela era a prova do crime e que a guerreira precisava ver para julgar. A menina sentou em uma pedra, com o grande arco aos pés e observou enquanto a mulher checava os animais e depois seguia os rastros do outro lado do rio. Analice ouvira o barulho das motocicletas rondando os muros da vila e ouvira os gritos do bando que se divertira com a carnificina, lembrava-se de pensar que finalmente teriam uma guerreira em sua vila e logo se arrependera do pensamento, mas não pudera deixar de se sentir animada.
“Garota, vem cá.” A guerreira chamou e lá foi a menina, pulando de pedra em pedra carregando o grande arco.
“Sim, senhora.” Ela se apresentou à frente da mulher.
“Meu nome é Kália, não senhora.”
“Sim, senhora.” Assentiu a garota corando ao cometer o erro novamente, mas a guerreira somente sorriu.
“O que guardam nestes barracões tão longe da vila?”
“Coisas velhas. Carros quebrados, motocilcetas sem motor, gerador velho. Tudo que precisa esperar a visita do recuperador.”
Recuperadores eram raros e caros. Andavam pelo mundo com seus caminhões cheios de peças consertando o que podiam. Aventuravam-se pelas ruínas das cidades antigas e das usinas em busca de material e gasolina, mas eram tão poucos que uma vila podia passar anos sem vê-los.
Kália foi até o galpão e viu que o bando não havia forçado o cadeado. Ainda voltariam, com certeza. Nunca deixavam de revirar cada local desprotegido e se o galpão fora poupado é porque estavam por perto. Ainda.
Estavam perdendo o medo. Os ataques às vilas haviam aumentado muito nos últimos anos e era cada vez mais freqüente uma guerreira chegar a uma aldeia e encontra-la ainda sitiada. Num passado não muito distante era preciso caçá-los às vezes por meses, mas agora pareciam esperar por estes combates, testando as fraquezas da irmandade, sua agilidade em chegar aos confins do mundo a tempo de salvar vidas e posses.
Kália tinha 30 anos e já estava cansada. Não se lembrava da ultima vez em que tivera um mês sem uma missão. Não se lembrava de ter dormido na mesma cama por mais que poucas semanas. Por vezes até esquecia que era mulher. Via como a menina a olhava e não sabia se sua vida teria sido melhor como uma frágil camponesa, como a menina estava fadada a ser. Era tarde demais, de qualquer maneira, para mudar sua vida. Era parte da irmandade e nem podia imaginar viver de outra maneira do que no lombo de um cavalo ou sobre uma motocicleta, quando podia por suas mãos em uma. Não podia imaginar viver sem liberdade. E nem sem sua espada.
Continua...
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5 de jul de 2009

Novo Conto e Conto Delivery

Faz tempo que não escrevo um conto para o blog, então aqui vai. A primeira parte está ai embaixo. Viu? Ai mesmo.
Para aqueles que não gostam de acompanhar pela telinha é só deixar o email que vou reativar o Conto Delivery, cada nova parte escrita será enviada pelo email.
Espero que gostem.
Love and Kisses

O Despertar (1° Parte)


O arco era grande demais para seus braços ainda infantis, mas o carregava assim mesmo. A guerreira caminhava à sua frente a passos largos. Analice sempre quisera ver uma e agora ali estava, bem a sua frente, e não conseguia despregar os olhos da figura altiva mesmo que isso a fizesse tropeçar a cada poucos metros. E novamente seu pé se enroscou em uma raiz e a pobre garota foi ao chão. Abraçou o arco com força protegendo o precioso objeto e esperou pelo impacto. Braços fortes a seguraram a centímetros do chão e ela esperou pela reprimenda que com certeza viria. Sua mãe sempre a chamava de desajeitada e talvez estivesse certa em fazê-lo.
“Calma garota, cuidado por onde anda. Me dê o arco, é muito grande para você.”
Mas Analice, sem achar voz para responder somente abraçou o arco com força.
“Teimosa. Se cair novamente posso não te pegar a tempo. Pode ficar por aqui se quiser, não precisa me acompanhar.”
Analice, sem responder, continuou a acompanhar a guerreira que suspirou alto e sorriu. Ela via meninas assim por todas as vilas em que passava, encantadas com sua espada, seu arco, suas roupas de boa qualidade. Nenhuma delas via as cicatrizes na pele e na alma que devia carregar por toda uma vida.
Esse era um mundo ainda procurando por uma nova identidade. Depois das guerras, da revolta das mães, das bombas, do século abaixo da terra, dos anos procurando por uma forma de viver entre escombros, poucos se sentiam confortáveis com suas vidas. As historias do passado eram mantidas vivas e todos sabiam do conforto e tecnologia partilhados por seus ancestrais. Muitos acreditavam que deviam voltar às cidades, revitalizar os arranha-céus, reviver as usinas, mas a maior parte tinha medo. A maioria se sentia segura atrás dos muros altos das vilas em volta dos castelos que agora pontilhavam o mundo. Nos últimos séculos ainda era a maneira mais segura de se proteger com tantos bandos à procura dos fracos e desgarrados.
As guerreiras existiam desde o fim do mundo. Depois das bombas as mães tomaram o controle do que restara e as ancestrais destas mulheres eram agora a lei na terra semi-selvagem que herdaram. Delas era a ultima palavra e delas vinha a sentença e a punição. Não havia segunda chance, àquele que desobedecia a lei era esperada somente a morte.
Analice olhava para a guerreira com esperança e espanto. A mulher usava camisão de algodão branco, calça de couro e bota alta do mesmo material. Analice nunca vira roupas tão bem feitas, mas sabia que as guerreiras sempre ganhavam o que havia de melhor pela proteção que ofertavam. Nunca cobravam pelos seus serviços, mas eram tratadas como realeza, aceitavam as ofertas com graça, mas nunca levavam mais do que julgavam que uma vila podia oferecer.
Chegaram ao rio que separava os campos da vila da imensidão além e lá encontraram os amimais que o bando atacara nas ultimas semanas. Eles não levaram o gado, não se deram a esse trabalho, simplesmente mataram algumas cabeças e retiraram a carne que desejavam e voltavam quando precisavam de mais. Era por isso que a guerreira viera, o roubo era um dos piores crimes, pois ignorava a posse de outros e o respeito que cada ser humano deve ao outro.
CONTINUA...
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2 de jul de 2009

O pedido


Ele olhou as horas pela décima vez em cinco minutos. Ela estava atrasada. Como sempre. O garçom já viera três vezes oferecer algo para beber, mas estava nervoso demais para começar sem ela. Tinha medo de relaxar demais e esquecer as palavras que ensaiara ou, pior ainda, dizê-las da maneira errada e isso ela nunca perdoaria. Olhou para o relógio novamente e os ponteiros pareciam ter corrido mais meia hora enquanto divagava.
Porque ela nunca conseguia chegar na hora?
Ouviu uma comoção na entrada do restaurante elegante e lá vinha ela, reclamando em voz alta como sempre. Como sempre também seu decote estava muito baixo, a saia muito curta e o cabelo muito esticado. Ainda se lembrava de quando ela era mais natural, do cabelo um pouco ondulado que se enrolava em seus dedos, do rosto com pouca maquiagem e da atitude modesta. Como mudara em poucos anos. A amava ainda, mas às vezes era difícil reconhecer a mulher que lhe despertara o sentimento. Como agora.
Ela vinha por entre as mesas reclamando alto, requebrava demais sobre os saltos demasiadamente altos e olhava para todos os homens do recinto em busca de aprovação para sua presença provocante. Sentou sem ao menos lhe beijar e logo começou a reclamar de seu dia e do transito que enfrentara para chegar até ali. E o que havia dado na cabeça dele para jantar nesse restaurante fora de moda?
Ele a olhava pensando no anel em seu bolso e no champanhe que deveria vir junto com a sobremesa. Ele a amava. Ainda. Tentou sorrir e falar dos planos para o fim de semana, mas ela ainda não terminara. Reclamou do cardápio, da carta de vinhos, do terno que ele usava.
Não havia meio de interromper a reza depois que ela pegava o rosário. Ele respirou fundo e lentamente tirou a pequena caixa do bolso. Deliberadamente a levantou á altura do rosto e imediatamente sentiu a paz o envolver. Finalmente silencio. Ela o encarava de olhos arregalados e boca aberta em um sorriso vitorioso.
Vitorioso. Não feliz.
Ele abriu a pequena caixa e todas as luzes reluziram no belo diamante. Ouviu o ar escapar do peito da mulher a sua frente. Quem era ela mesmo? Fechou a caixa, a colocou de volta no bolso, levantou e deixou o restaurante.
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1 de jul de 2009

É só o carteiro...


Sempre gostei de escrever cartas, o que nunca soube foi onde termina-las. Eram paginas e paginas para várias pessoas pelo Brasil e pelo mundo. Lembro como era excitante chegar em casa para encontrar um envelope com meu nome e endereço e correr para olhar o verso e ver quem se dera ao trabalho de me responder tão rápido. Porque era um trabalho; Hoje em dia as pessoas pegam seu email, encaminham algumas piadas e acham que estão em contato. Quando minha paixão por escrever começou era preciso realmente estar interessado na vida de alguém para se corresponder constantemente. Era preciso primeiramente escrever. Encher paginas rabiscadas até achar a formula certa para a missiva. Escolher um papel de carta de boa qualidade, decorado ou não e depois, de mão descansada, passar a limpo com carinho, pois letra ilegível é uma grosseria para o destinatário. Pronta a carta pode-se passar para o envelope, escreve-se o endereço com muita atenção e não esquecer de anotar o remetente no verso. Agora, mais um detalhe, é preciso selo e uma caixa de correio, mas eu nunca confiei em caixas de correio que ficam sozinhas na rua sem um guarda para cuidar da minha correspondência, portanto era preciso ir até uma agencia dos correios. E assim lá viajava a carta, para Curitiba, Rio de Janeiro, São Jose dos Campos, Salvador, Londres, Paris. E somente em pensar que minhas palavras caminhavam assim pelo mundo já era como uma aventura. Podia quase ver em minha mente a carta emocionada por atravessar o atlântico e seu tremor de emoção ao chegar à Londres em plena primavera quando sairá daqui com as folhas a se ruborizar. Mas talvez a emoção maior fosse receber a resposta, depois de dias ou semanas, e perceber que cada palavra minha havia sido lida com emoção e interesse.
Ainda escrevo da mesma maneira. Ainda escrevo e releio cada linha e “passo a limpo” antes de enviar o tão rápido e às vezes impessoal e-mail. Não abrevio as palavras e nunca uso essas expressões que a NET inventa para simplificar o que não deve ser simplificado. Penso que foram as cartas que me tornaram uma escritora, com sua constante exigência de tornar o dia a dia interessante para o leitor. Sou eternamente grata a elas e às pessoas que pacientemente liam minhas infindáveis missivas.
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