21 de jul de 2009

O Despertar (10° PArte)


Nasceu em uma noite de tempestade, mas nasceu em silencio. Enquanto a noite uivava fora do castelo, dentro era somente silencio. Kália dormia. Alem dos portões o mundo estava em guerra. Novamente. Uma nova onde de crimes parecia varrer os continentes e cada guerreira dava o melhor de si e até um pouco mais. Anya mal se recuperou e saiu no lombo de um cavalo ainda com o corpo sangrando e gemendo do parto. Não amamentou sua filha, nunca viu o primeiro sorriso que muitos diziam ser gazes, mas muitos juravam ser a amostra da natureza doce da menina. Nunca soube que a primeira palavra que Kália disse foi bubbles e que a repetiu por dias até aprender a dizer Bianca, o nome de umas das cadelas do castelo. Anya nunca viu como o coração suave se entristeceu quando começou a perceber que entre tantas que a cercavam não pertencia a ninguém. Kália floresceu somente para murchar quando percebeu que não havia ninguém a quem dar seu amor e aquela que a ensinaram a chamar de mãe parecia sempre ocupada demais para a fazer sua filha. Não que tenha sido uma infância infeliz, não. No castelo havia amor de sobra, companheiras sempre dispostas a brincar, animais de todos os tipos, fartura, grandes professoras, melhores ainda cozinheiras, mas era uma família grande demais para um coração que pedia intimidade.
Se houvesse nascido em uma família normal, dentro dos muros de uma cidadela, provavelmente cresceria para ser uma médica ou veterinária, sempre pronta a ajudar, casaria e teria filhos amando a todos a sua volta com um coração que somente crescia com o passar dos anos. Mas não havia sido assim. Todos sempre esperavam que filhas de guerreiras se tornassem guerreiras e assim eram criadas como os animais de fazenda, sem muitos agrados, consciente sempre que estavam destinadas a servir ao mundo, nunca a si mesmas. Sem chance de exercitar a enorme compaixão de seu coração se viu presa a um destino que seguiu, mas que questionava a cada passo do caminho.
Com seis anos já treinava com a espada, com dez já lutava corpo a corpo melhor que muitas guerreiras adultas, com quinze manejava o arco com perfeição. Toda a dedicação que poderia ser voltada para outros seres humanos foi canalizada para se tornar o que nunca quis ser. Era a única coisa que podiam ensinar no único lugar que podia chamar de lar.
Com treze anos começou a sair em missões. Cuidava dos acampamentos, fazia a vigília, cuidava das armas. Com quinze anos assistiu a morte de sua mais amada professora, aquela que lhe havia ensinado os segredos da espada, em meio a confusão acabou liderando a batalha e desde esse dia sempre que era chamada era para liderar.
Com vinte anos teve o primeiro momento de descaso de que podia se lembrar. A infância parecia tão distante agora que aqueles primeiros anos inocentes eram como um conto de fadas às avessas. Viajou por terras que sempre percorrera, mas nunca apreciara e se instalou por em uma cidadela onde algumas guerreiras haviam escolhido como morada após largarem a espada. Lá elas eram ferreiras, parteiras e veterinárias, fazendo o bem para o povo e enchendo os bolsos ao mesmo tempo. A cidadela era famosa pelos vinhedos que a cercavam, o vinho produzido era um dos melhores do mundo, a paisagem era algo para se sonhar para sempre. E foi lá que Kália conheceu o amor. Ele tinha 25 anos e era um gênio na produção de vinhos. Crescera entre as uvas, ajudando a plantar e a colher, sabia como devia ser o sabor em cada quadrante plantado e aprendera a misturar os sabores, a ver o vinho envelhecer sem pressa e fora sem pressa também que conquistara Kália. Soubera ver alem do semblante sombrio e triste. Vira muito alem da figura temida da guerreira, sentira a solidão e o vazio que somente esperava ser preenchido.
Ele a cortejara com delicadeza, sentindo que qualquer movimento mais agressivo a assustaria e um dia foi compensado por sua paciência quando sob as estrelas e aquecidos pelo brilho de uma fogueira ela baixou suas barreiras e entregou seu coração. Dos beijos tímidos às caricias ousadas os passos foram curtos e rápidos. Ele, em sua primeira noite de amor, a primeira de Kália, encheu seus ouvis e coração com promessas de amor e suplicas para que fizesse da cidadela sua casa.
Kália finalmente parecia em paz e feliz com a vida que parecia se desenhar à sua frente, mas logo veio o chamado. Era preciso voltar, com urgência. O mundo estava em guerra. Novamente. E entre a cruz e a caldeira fez a única coisa que estava acostumada a fazer. Obedeceu. O caminho da cidadela até sua casa da irmandade parecera curto demais. Ainda haviam lagrimas a serem derramadas, mas empunhou a espada e esqueceu que um dia pretendera ser feliz.
A Irmandade nunca impedira uma guerreira de sair da ordem, de viver como ditava o coração, mas se esta guerreira fosse do calibre de Kália a Irmandade usaria de todas as armas para mantê-la, mesmo que sacrificando a felicidade da mesma.
Continua...
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