10 de jul. de 2009

O Despertar (4° Parte)


O sol já tocava a linha do horizonte quando retornaram à aldeia e suas irmãs à esperavam já com suas tendas armadas perto do portão principal. Raramente as guerreiras aceitavam a hospitalidade dos moradores das cidadelas por onde passavam, isso gerava ciúmes desnecessários entre os moradores e as deixava mais lentas com todos os cuidados com que as cercavam. Estavam ali para lutar e terminada a missão voltariam para a estrada que as levaria para a próxima cidade. E a próxima.
Kália agradeceu Analice por ter sido sua guia e a mandou para casa, mas a meninas somente se afastou e se sentou à um canto, observando ainda.
“Vocês prepararam vigias para a noite?” Kália perguntou à suas irmãs de irmandade
“Claro que sim. Teremos homens postados a cada 100 metros por toda a muralha, mas sabe que só podemos contar com eles para dar o alarme, sabe eu tem mais medo do escuro que criancinhas. Teremos duas de nós nas torres da mansão e o resto esperando pelo alarme. E acho que é só. Agora temos que esperar.” Teresia era a mais velha, com 42 anos, e acompanhava Kália desde sua primeira missão. Nunca quisera liderar, mas era uma segunda em comando como nenhuma outra.
Kália somente acenou concordando com Teresia e foi para sua tenda descansar. Tinha poucas horas para repor a energia gasta na longa viagem. Hoje provavelmente lutariam e teria que matar novamente. Os anos, os últimos 15, foram uma longa sucessão de batalhas, lagrimas, exaustão e morte. Às vezes somente desejava uma primavera de paz no castelo da irmandade, mas a humanidade parecia nunca se cansar de fazer a guerra, mesmo quando uma quase destruíra o mundo.
O colchonete fino sobre o chão duro não era confortável, mas Kália estava acostumada com toda sorte de desconforto. O sono veio como sempre cheio de presságios. Era como se fosse uma pré batalha, um preview do que se seguiria logo mais. Não havia paz para Kália, nem durante o sono.
Analice, sentada bem encostada na tenda, ouvia os murmúrios de Kália durante o sono. Pobre guerreira, mas velaria seu sono, pediria aos Deuses que dessem descanso ao corpo e paz à mente daquela que viera para velar por suas vidas.
A lua surgiu no céu, alva e brilhante e ao longe se podiam ouvir gritos e o ronco de motores possantes.
Continua...
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9 de jul. de 2009

Fenômeno

Parece mais um balé. Os pés voam sabendo exatamente onde devem pisar e quanta força usar. Com uma fluidez impossível de se prever gira e toca, toca e segue como se não houvessem obstáculos. Em câmera lenta é como ver o mistério revelado, mas sem nunca entendê-lo. O grito preso na garganta é liberado não uma, mas varias vezes e o sorriso no rosto tão conhecido aquece o coração. É mais que o renascer da Fênix, é o amor pelo jogo posto em ação, é a chance plenamente aproveitada, é o cala a boca para quem disse “ele morreu”. Dá prazer de ver. O puxão de orelha dado com um sorriso no rosto, o incentivo gritado com paixão, a lição dada e aprendida, o comemorar em grupo, os braços abertos para a torcida em rendição total. É a entrega. É o retorno. É a alegria. É Ronaldo.

O Despertar (3° Parte)


Analice observava Kália atentamente. Procurava guardar cada gesto, o modo de andar, a mão pousada levemente sobre o punho da espada, os cabelos curtos voando livres ao vento, a cicatriz que cortava o rosto que deveria ter sido belo demais. Era uma linha fina que lembrava um raio, começava acima de sua orelha direita e descia até o canto de sua boca lhe dando um ar perpetuamente sarcástico. Analice nunca vira ninguém tão bela.
“Que tanto olha, garota?” Kália sabia exatamente o que, mas gostava de testar as meninas que tanto queriam sua vida.
“Sua cicatriz. Dói?”
“Não. Não agora, mas durante anos doeu e muito.” Admirou que a garota fosse honesta em sua curiosidade. Poucos eram. O poder da irmandade era muito para ser recebido com franqueza.
“Você chorou quando te machucaram?” a menina continuou a perguntar, mas baixando os olhos. Parecia ter perdido o medo, mas a timidez havia voltado.
“Claro que chorei. Doeu muito, mais ainda quando limparam meu ferimento. Parecia que meu rosto todo estava pegando fogo.” Kália se aproximou da menina que acariciava o arco sem perceber.
“Você prefere o arco ou a espada?”
“A espada.” Respondeu Kália sentando ao lado da garota. “Mas o arco já me salvou muitas vezes, ele pode parar o inimigo quando ainda está longe e se forem muitos é uma vantagem abate-los antes que cheguem a você.”
“Porque somente as filhas de guerreiras podem ser guerreiras? Não acho justo...” Analice deixou escapar antes de pensar, mas Kália somente riu.
“Seria mesmo injusto se fosse verdade. “
“Não é? Mas todos dizem...” Analice estava surpresa.
“As pessoas falam o que acreditam ser verdade, mas isso não torna verdadeiras suas palavras. É somente mais comum que filhas de guerreiras sigam os passos das mães, mas temos muitas entre nós que vieram de vilas como você e muitas que nasceram dentro da irmandade que se casam, tem filhos e vivem dentro dos muros como você.”
“Então eu poderia ser uma guerreira?” Perguntou Analice vislumbrando um novo mundo à sua frente.
“Não é tão simples assim, mas sim, poderia. Dentro de certas circunstancias poderia. E agora vamos voltar que logo anoitece e preciso me reunir com minhas irmãs para decidir o que fazer.”
Kália não queria dizer à menina que somente poderia fazer parte da irmandade, sendo que não nascera nela, se fosse escolhida por uma guerreira para ser sua aprendiz. Nunca quisera esta responsabilidade e não começaria agora quando tinha tantas duvidas. As famílias geralmente se sentiam honradas quando suas filhas trilhavam este caminho, mas não todas. Não aquelas onde as filhas eram peças importantes na sobrevivência da família, quando seu par de mãos fazia diferença na hora de colher e na hora de tratar dos animais.
Continua...
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6 de jul. de 2009

O Despertar (2° PArte)


Analice não pôde evitar de derramar algumas lagrimas ao ver os animais assim apodrecendo ao sol, desperdiçando a carne que alimentaria a aldeia e poluindo a água, era triste demais, mas os aldeões sabiam que aquela era a prova do crime e que a guerreira precisava ver para julgar. A menina sentou em uma pedra, com o grande arco aos pés e observou enquanto a mulher checava os animais e depois seguia os rastros do outro lado do rio. Analice ouvira o barulho das motocicletas rondando os muros da vila e ouvira os gritos do bando que se divertira com a carnificina, lembrava-se de pensar que finalmente teriam uma guerreira em sua vila e logo se arrependera do pensamento, mas não pudera deixar de se sentir animada.
“Garota, vem cá.” A guerreira chamou e lá foi a menina, pulando de pedra em pedra carregando o grande arco.
“Sim, senhora.” Ela se apresentou à frente da mulher.
“Meu nome é Kália, não senhora.”
“Sim, senhora.” Assentiu a garota corando ao cometer o erro novamente, mas a guerreira somente sorriu.
“O que guardam nestes barracões tão longe da vila?”
“Coisas velhas. Carros quebrados, motocilcetas sem motor, gerador velho. Tudo que precisa esperar a visita do recuperador.”
Recuperadores eram raros e caros. Andavam pelo mundo com seus caminhões cheios de peças consertando o que podiam. Aventuravam-se pelas ruínas das cidades antigas e das usinas em busca de material e gasolina, mas eram tão poucos que uma vila podia passar anos sem vê-los.
Kália foi até o galpão e viu que o bando não havia forçado o cadeado. Ainda voltariam, com certeza. Nunca deixavam de revirar cada local desprotegido e se o galpão fora poupado é porque estavam por perto. Ainda.
Estavam perdendo o medo. Os ataques às vilas haviam aumentado muito nos últimos anos e era cada vez mais freqüente uma guerreira chegar a uma aldeia e encontra-la ainda sitiada. Num passado não muito distante era preciso caçá-los às vezes por meses, mas agora pareciam esperar por estes combates, testando as fraquezas da irmandade, sua agilidade em chegar aos confins do mundo a tempo de salvar vidas e posses.
Kália tinha 30 anos e já estava cansada. Não se lembrava da ultima vez em que tivera um mês sem uma missão. Não se lembrava de ter dormido na mesma cama por mais que poucas semanas. Por vezes até esquecia que era mulher. Via como a menina a olhava e não sabia se sua vida teria sido melhor como uma frágil camponesa, como a menina estava fadada a ser. Era tarde demais, de qualquer maneira, para mudar sua vida. Era parte da irmandade e nem podia imaginar viver de outra maneira do que no lombo de um cavalo ou sobre uma motocicleta, quando podia por suas mãos em uma. Não podia imaginar viver sem liberdade. E nem sem sua espada.
Continua...
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5 de jul. de 2009

Novo Conto e Conto Delivery

Faz tempo que não escrevo um conto para o blog, então aqui vai. A primeira parte está ai embaixo. Viu? Ai mesmo.
Para aqueles que não gostam de acompanhar pela telinha é só deixar o email que vou reativar o Conto Delivery, cada nova parte escrita será enviada pelo email.
Espero que gostem.
Love and Kisses

O Despertar (1° Parte)


O arco era grande demais para seus braços ainda infantis, mas o carregava assim mesmo. A guerreira caminhava à sua frente a passos largos. Analice sempre quisera ver uma e agora ali estava, bem a sua frente, e não conseguia despregar os olhos da figura altiva mesmo que isso a fizesse tropeçar a cada poucos metros. E novamente seu pé se enroscou em uma raiz e a pobre garota foi ao chão. Abraçou o arco com força protegendo o precioso objeto e esperou pelo impacto. Braços fortes a seguraram a centímetros do chão e ela esperou pela reprimenda que com certeza viria. Sua mãe sempre a chamava de desajeitada e talvez estivesse certa em fazê-lo.
“Calma garota, cuidado por onde anda. Me dê o arco, é muito grande para você.”
Mas Analice, sem achar voz para responder somente abraçou o arco com força.
“Teimosa. Se cair novamente posso não te pegar a tempo. Pode ficar por aqui se quiser, não precisa me acompanhar.”
Analice, sem responder, continuou a acompanhar a guerreira que suspirou alto e sorriu. Ela via meninas assim por todas as vilas em que passava, encantadas com sua espada, seu arco, suas roupas de boa qualidade. Nenhuma delas via as cicatrizes na pele e na alma que devia carregar por toda uma vida.
Esse era um mundo ainda procurando por uma nova identidade. Depois das guerras, da revolta das mães, das bombas, do século abaixo da terra, dos anos procurando por uma forma de viver entre escombros, poucos se sentiam confortáveis com suas vidas. As historias do passado eram mantidas vivas e todos sabiam do conforto e tecnologia partilhados por seus ancestrais. Muitos acreditavam que deviam voltar às cidades, revitalizar os arranha-céus, reviver as usinas, mas a maior parte tinha medo. A maioria se sentia segura atrás dos muros altos das vilas em volta dos castelos que agora pontilhavam o mundo. Nos últimos séculos ainda era a maneira mais segura de se proteger com tantos bandos à procura dos fracos e desgarrados.
As guerreiras existiam desde o fim do mundo. Depois das bombas as mães tomaram o controle do que restara e as ancestrais destas mulheres eram agora a lei na terra semi-selvagem que herdaram. Delas era a ultima palavra e delas vinha a sentença e a punição. Não havia segunda chance, àquele que desobedecia a lei era esperada somente a morte.
Analice olhava para a guerreira com esperança e espanto. A mulher usava camisão de algodão branco, calça de couro e bota alta do mesmo material. Analice nunca vira roupas tão bem feitas, mas sabia que as guerreiras sempre ganhavam o que havia de melhor pela proteção que ofertavam. Nunca cobravam pelos seus serviços, mas eram tratadas como realeza, aceitavam as ofertas com graça, mas nunca levavam mais do que julgavam que uma vila podia oferecer.
Chegaram ao rio que separava os campos da vila da imensidão além e lá encontraram os amimais que o bando atacara nas ultimas semanas. Eles não levaram o gado, não se deram a esse trabalho, simplesmente mataram algumas cabeças e retiraram a carne que desejavam e voltavam quando precisavam de mais. Era por isso que a guerreira viera, o roubo era um dos piores crimes, pois ignorava a posse de outros e o respeito que cada ser humano deve ao outro.
CONTINUA...
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2 de jul. de 2009

O pedido


Ele olhou as horas pela décima vez em cinco minutos. Ela estava atrasada. Como sempre. O garçom já viera três vezes oferecer algo para beber, mas estava nervoso demais para começar sem ela. Tinha medo de relaxar demais e esquecer as palavras que ensaiara ou, pior ainda, dizê-las da maneira errada e isso ela nunca perdoaria. Olhou para o relógio novamente e os ponteiros pareciam ter corrido mais meia hora enquanto divagava.
Porque ela nunca conseguia chegar na hora?
Ouviu uma comoção na entrada do restaurante elegante e lá vinha ela, reclamando em voz alta como sempre. Como sempre também seu decote estava muito baixo, a saia muito curta e o cabelo muito esticado. Ainda se lembrava de quando ela era mais natural, do cabelo um pouco ondulado que se enrolava em seus dedos, do rosto com pouca maquiagem e da atitude modesta. Como mudara em poucos anos. A amava ainda, mas às vezes era difícil reconhecer a mulher que lhe despertara o sentimento. Como agora.
Ela vinha por entre as mesas reclamando alto, requebrava demais sobre os saltos demasiadamente altos e olhava para todos os homens do recinto em busca de aprovação para sua presença provocante. Sentou sem ao menos lhe beijar e logo começou a reclamar de seu dia e do transito que enfrentara para chegar até ali. E o que havia dado na cabeça dele para jantar nesse restaurante fora de moda?
Ele a olhava pensando no anel em seu bolso e no champanhe que deveria vir junto com a sobremesa. Ele a amava. Ainda. Tentou sorrir e falar dos planos para o fim de semana, mas ela ainda não terminara. Reclamou do cardápio, da carta de vinhos, do terno que ele usava.
Não havia meio de interromper a reza depois que ela pegava o rosário. Ele respirou fundo e lentamente tirou a pequena caixa do bolso. Deliberadamente a levantou á altura do rosto e imediatamente sentiu a paz o envolver. Finalmente silencio. Ela o encarava de olhos arregalados e boca aberta em um sorriso vitorioso.
Vitorioso. Não feliz.
Ele abriu a pequena caixa e todas as luzes reluziram no belo diamante. Ouviu o ar escapar do peito da mulher a sua frente. Quem era ela mesmo? Fechou a caixa, a colocou de volta no bolso, levantou e deixou o restaurante.
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1 de jul. de 2009

É só o carteiro...


Sempre gostei de escrever cartas, o que nunca soube foi onde termina-las. Eram paginas e paginas para várias pessoas pelo Brasil e pelo mundo. Lembro como era excitante chegar em casa para encontrar um envelope com meu nome e endereço e correr para olhar o verso e ver quem se dera ao trabalho de me responder tão rápido. Porque era um trabalho; Hoje em dia as pessoas pegam seu email, encaminham algumas piadas e acham que estão em contato. Quando minha paixão por escrever começou era preciso realmente estar interessado na vida de alguém para se corresponder constantemente. Era preciso primeiramente escrever. Encher paginas rabiscadas até achar a formula certa para a missiva. Escolher um papel de carta de boa qualidade, decorado ou não e depois, de mão descansada, passar a limpo com carinho, pois letra ilegível é uma grosseria para o destinatário. Pronta a carta pode-se passar para o envelope, escreve-se o endereço com muita atenção e não esquecer de anotar o remetente no verso. Agora, mais um detalhe, é preciso selo e uma caixa de correio, mas eu nunca confiei em caixas de correio que ficam sozinhas na rua sem um guarda para cuidar da minha correspondência, portanto era preciso ir até uma agencia dos correios. E assim lá viajava a carta, para Curitiba, Rio de Janeiro, São Jose dos Campos, Salvador, Londres, Paris. E somente em pensar que minhas palavras caminhavam assim pelo mundo já era como uma aventura. Podia quase ver em minha mente a carta emocionada por atravessar o atlântico e seu tremor de emoção ao chegar à Londres em plena primavera quando sairá daqui com as folhas a se ruborizar. Mas talvez a emoção maior fosse receber a resposta, depois de dias ou semanas, e perceber que cada palavra minha havia sido lida com emoção e interesse.
Ainda escrevo da mesma maneira. Ainda escrevo e releio cada linha e “passo a limpo” antes de enviar o tão rápido e às vezes impessoal e-mail. Não abrevio as palavras e nunca uso essas expressões que a NET inventa para simplificar o que não deve ser simplificado. Penso que foram as cartas que me tornaram uma escritora, com sua constante exigência de tornar o dia a dia interessante para o leitor. Sou eternamente grata a elas e às pessoas que pacientemente liam minhas infindáveis missivas.
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30 de jun. de 2009

O Jogo de Poker


“Duas cartas, auuuuuuuuuu!!”
“Será que você poderia deixar os uivos de lado? Alem de torturar nossos ouvidos ainda entrega seu jogo, sempre uiva por mais tempo quando tem boas cartas. O que foi dessa vez? Uma trinca?”
“Que há velhinho? Para de implicar com ele. Ou você acha que o barulho que faz sugando sangue por esse canudinho é legal? Pega leve, irmão.”
“Muito interessante ser você a dizer “pega leve”. Não somos nós que destruímos a mesa quando perdemos o jogo e nem somos nós a trapacear.”
“Auuuuuu, Ei, cabeça de pudim, você pode falar difícil mas também tem suas manias. Não é muito agradável de ver você se remendar a toda hora.”
Essa troca de gentilezas era normal nas reuniões semanais. Todos desabafavam criticando aos outros e nisso imitavam os seres humanos comuns e insignificantes. A sala onde se encontravam para o poker semanal era alugada por $1.000 por mês e ficava nos fundos de um deposito. Podiam se divertir a vontade sem medo de serem interrompidos. O vigia que lhes alugava o lugar era de confiança, nunca perderia a grana extra mesmo que isso significasse ter que limpar a sujeira antes do amanhecer. Fora difícil arrumar um lugar onde pudessem se reunir. Pensaram em fazer um rodízio entre suas casas, mas depois de poucas reuniões desistiram. O castelo de Dracula era bem confortável e haviam aposentos até demais, mas suas três noivas infernizavam os jogadores. Exigiam atenção a todo o momento e reclamavam sem parar da fumaça dos charutos. Sem contar que eram péssimas donas de casa e só sabiam servir drinks à base de sangue e canapés de tarântulas. O laboratório do Dr. Jekyll, emprestado por Mr. Hide, tinha um cheiro permanente de produtos químicos e os ataques de cólera de Mr. Hide, quando se via descoberto blefando, transformavam o lugar numa bomba relógio. Depois que o lugar pegara fogo pela terceira vez, Dr. Jekill proibira a entrada de todos, inclusive de Mr. Hide. O Lobisomem morava em uma casa na beira da floresta e até era agradável com a floresta próxima e o ar da montanha, mas cheirava a carniça. Sem contar que o coitado se distraia a toda hora farejando os animais que andavam por perto e era preciso lhe por a coleira para mantê-lo no jogo. Frankenstein Jr. morava em palacete em ruínas e apesar de ser o anfitrião perfeito eram obrigados a jogar em silencio e quase às escuras. Os moradores da vila próxima estavam sempre de olho no lugar e era só enxergarem movimento vinham com seus forcados e tochas. Sendo assim eles faziam uma vaquinha e se rendiam aos tempos, pagavam pelo seu divertimento.
“Dá pra você parar de se coçar. Coceira é que nem bocejo, pega.” – E Totó, apelido carinhoso dado pelos amigos, deu uma bela coçada atrás de sua orelha com um rosnado de prazer.
“Caro amigo, me incomoda tanto quanto a você, mas os pontos são novos e coçam uma barbaridade. Tive que troca-los essa semana, os antigos estavam em péssimo estado. Você sabe como sou exigente com minha higiene, infelizmente a coceira acompanha o processo. – Frank controlou um novo acesso de coceira e ocupou suas mãos ajeitando a gravata borboleta.
“Somos imortais, mas vejam as mil inconveniências de nossas vidas. Olhe o que tenho que aguentar. Minhas noivas não me permitem mais buscar sangue fresco. Dizem que isso acabaria com nossa vida social. HÁ! E ainda por cima tenho que sair de casa a toda hora, pois elas enchem o castelo com suas reuniões da Avon. Me diga, porque elas precisam de tantos cremes? Cremes para rugas, cremes firmadores, creme contra olheiras, cremes, cremes, cremes!” – Dracula olhou para cada amigo com inveja, dos quatro era o único comprometido. E eram três noivas. TRÊS!
“È velhinho, elas te pegaram pelas bolas. Falando em bolas, você as usa ou elas só ficam penduradas como enfeite?” – Mr. Hide riu alto de sua grosseria, mas riu só. Totó, que era quem sempre ria de suas piadas, estava ocupado procurando uma pulga em sua pata. Frank e Dracula só o olharam como sempre faziam, cheios de impaciência. – “Aí, velhinho. Brincadeira. Mas falando em cremes, Jekyll se deu bem com essa nova onda. Deu pra fazer cirurgia plástica e inventou um novo implante de silicone que infla e desinfla ao gosta da freguesa. E tá ganhando uma fortuna com os cremes pra rugas. É isso ai irmão, não são só tuas mulheres que tão doida, não.
“Pois é, e até os homens se renderam à essa moda. Já ouviram falar que até se depilam hoje em dia? Até pensei em ir num desses salões novos e fazer essas depilações à lazer. Que vocês acham? Meu pelo anda sem brilho, opaco, não pega bem com as lobas do meu pedaço.” – Tôto recolheu suas duas cartas e uivou de novo.
“Deixe disso, caro colega. É preciso se aceitar. Veja eu, cada pedaço do meu corpo veio de um ser humano diferente. Não posso usar uma bermuda em um dia de sol porque uma de minhas pernas é musculosa e peluda e a outra é fina e pelada. Uma desgraça. Mas, mesmo assim eu me orgulho de mim mesmo. Alimento meu cérebro que é o que sustenta este corpo. Viver com o que temos e fazer o melhor que pudermos, esse é o caminho. – Mas apesar das palavras, Frank levantou a calça e olhou as canelas com tristeza.
“O fato é que somos monstros ultrapassados. Se saio com minha capa, riem de mim na rua. Eu... arghhh, arghhhhh! Arghhh?? – Dracula engasgou ao puxar o liquido pelo canudinho , mas um bom tapa nas costas dado por Frank o fez cuspir a pelota de sangue que se alojara em sua garganta. – Grato, amigo. Este sangue é de segunda. Está cheio de pelotas. Três noivas e nenhuma delas tem tempo para me conseguir um sangue decente.”
“Nada mais é decente hoje em dia. Precisei de um couro cabeludo novo, fui ao necrotério para conseguir um escalpo e sai de mãos vazias. Tantos cadáveres e nenhum decente. Dois tinha mechas no cabelo. MECHAS! Outro era careca. Outros três pareciam sofrer de uma caspa terrível que parecia tão viva quanto eles mortos. E quatro, QUATRO, tinham mousse no cabelo. Me recuso a usar um escalpo de um homem que se sujeitou a passar mousse.”
“Auuuuuu, amém a isso, companheiro. Pedi outro dia pra uma amiga me levar no Pet Shop pra um banho. Saí de lá parecendo um Lulu da Pomerania. Não podia nem reclamar senão me chamavam a carrocinha, mas, cara, foi um tal de shampoo, rinse, perfume, secador, fiquei uma semana pra perder a escova que me fizeram. “
“Vocês tão reclamando de barriga cheia. Pelo menos ainda tem bastante liberdade. O Jekyll só me deixa sair pra nosso jogo de Poker, o resto do tempo tá sempre cheios de desculpas. “Desculpa, Hide, tenho uma lipoaspiração hoje.”, “Hoje não dá, tenho mais de 3 litros de implante pra colocar.” E eu, trouxa, fico quieto porque senão nem o jogo de poker ele libera. O cara só quer saber de grana. – e voltando ao jogo - Pago.”
“Eu também.”
“Tô fora, a mesa tá muito alta pro meu joguinho.”
“Au, au, tô dentro.
O despertador tocou às 4 da manhã e Dracula se despediu com tristeza. Iria ter que aguentar as reclamações das noivas pelo resto da semana. Abraçou os amigos e alçou vôo rumo ao oeste. Hide ficou emburrado, queria uma ultima rodada, mas lembrou que Dr. Jekill tinha uma lipo pelo manhã e se foi chutando tudo pelo caminho. Totó deu uma lambida em Frank e saiu num trote rápido até o poste mais próximo para se aliviar, depois seguiu caminho pensando que era hora de outra visita ao Pet Shop. Talvez dessa vez pedisse uma tosa completa. As pulgas o estavam deixando louco. Frank ficou parado na calçada olhando os amigos se dispersando. Ajeitou sua gravata borboleta, seus suspensórios e prendeu as abotoaduras, vestiu o paletó Armani e em passos largos tomou o caminho de casa. Nessas horas ele quase desejava ouvir os gritos da multidão ensandecida seguido do brilho das tochas.
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29 de jun. de 2009

These are a few of my favorite things.


Gosto de flores que não pareçam cultivadas, daquelas que se misturam em um buquê de mil cores e podem ser entregues com uma simples fita a amarrar seus caules. Sinto-me no campo e se fechar meus olhos posso ouvir o canto dos pássaros e o ruído do riacho por trás da fazenda. Quase posso sentir os raios do sol a me beijar a pele e a brisa que carrega da montanha um toque de gelo.
Gosto de pilhas de livros de todos tamanhos que chegam em caixas direto de outros paises para meu prazer. Gosto de pega-los um a um e olhar suas capas coloridas, passar meu dedo pelos títulos em relevo e ler e reler as contracapas em busca de seus segredos. O próximo passo é olhar minha estante tão eclética, que dá abrigo à meus amados livros, e arrumar espaço para os novos amigos na estante dos não lido. Às vezes tento conta-los, mas paro quando penso que podem ser menos do que gostaria de ter.
Gosto de cobertores macios que posso enrolar em volta de meu corpo enquanto escrevo. Se possível de cores vibrantes que espantem o frio e agradem aos olhos. Estar aconchegada me faz pensar em braços ao meu redor e cantigas sussurradas para eu dormir.
Gosto de caixas de todos tipos e tamanhos. Lembram-me segredos que todos temos, mas nunca sabemos como guardar. Eu as tenho por todo lado, grandes caixas coloridas repletas de fotografias, pequenas caixas delicadas repletas de brincos, caixas de sapato cobertas de tecido estufadas de cartas de um passado sempre pronto a ser revivido. Tenho caixas que escondem caixas em seu interior e outras que nunca nem mesmo foram abertas. As tenho porque adoro a ordem que elas evocam e a simplicidade de sua beleza.
Gosto de silêncio na madrugada, daquela hora em que parece que o mundo todo dorme. A tela do laptop ilumina o quarto e faz parecer que a qualquer minuto posso ser sugada para meus devaneios insanos. Uma ave pia perdida, um carro passa sem destino, o vigia apita avisando que estamos em segurança e eu martelo o teclado correndo atrás de meus pensamentos.
Flores, livros, caixas e silencio, These are a few of my favorite things.
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28 de jun. de 2009


Sentada em frente à janela ela recordava. Não havia muito mais a fazer. Seus pés doíam terrivelmente e suas pobres pernas mal agüentavam lava-la da sala ao quarto e vice versa. Tinha a TV por companhia, mas pouco entendia do que se passava hoje em dia, era tudo tão diferente, tão distante daqueles anos dourados onde o mundo era sua casa e a companhia sua família. Os primeiros anos foram terrivelmente difíceis, sem descanso, sem dinheiro, sozinha em uma terra estranha. As longas horas diárias de treino, os pés ensangüentados, a dura disciplina imposta e as noites solitárias imaginando se em sua terra natal alguém sentia sua falta. Mas isto também logo ficou no passado. Seus pés pararam de sangrar, seus músculos se fortaleceram, a dança ganhou sua mente e soterrou a saudades de uma vida para qual nunca voltaria. Os anos se passaram felizes. Os palcos sempre pareciam os mesmos, os camarins um mar de tutus, risos e os ocasionais ataques histéricos esperados no ramo, mas as noites lhes pertenciam, as cidades se abriam para seus espíritos jovens e a vida era tão excitante quanto poderia ser. Amores vieram e se foram, amizades se perderam entre disputas por papeis, mas outras foram ganhas ao dividir a paixão pela dança. E assim, num piscar de olhos ela estava velha demais para o palco. Na mesma companhia ensinou jovens que como ela saiam dos quatro cantos do mundo para descobrir se sua paixão pela dança era tão forte e persistente quanto a dela. Mas o tempo para isso também passou. Agora era velha demais até mesmo para assistir aos balés que dançara. Seus ossos cansados não lhe permitiam o prazer de sentar por horas vendo anjos voarem envoltos em cetim e tule. Mas ela ainda recordava e que amiga é a memória quando já não podemos por nossos meios alcançar o que nos completa. Sentada em frente à janela ela recordava. A imagem refletida no vidro não tinha rugas, não se curvava contra a vontade pelo peso dos anos. Não. A imagem refletida tinha olhos brilhantes, corpo esbelto, vestia-se de cetim e tule e sabia voar como um anjo. Essa imagem lhe contava historias numa voz sem tremor e com o leve sotaque russo que o mundo nunca lhe tirara, lhe contava das coisas que havia esquecido e das que ainda se lembrava, falava da vida sempre no presente ignorando que o tempo passara e continuaria a passar, porque nada importava a não ser recordar como se o ontem fosse sempre. E era assim, ouvindo sua imagem refletida, que se tornava jovem novamente e quase esquecia que já não podia dançar.
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27 de jun. de 2009

Anônimo


Todo dias, às 7:30 ele se sentava à mesma mesa, ajeitava os talheres, rearranjava os condimentos e pedia uma xícara grande de café puro. Suas costas estavam sempre paralelas ao encosto, mas não se recostava. Bebia seu café sem desviar os olhos da mesa à sua frente. Não os matinha baixos, simplesmente olhava sempre para o mesmo ponto um pouco acima de sua xícara, aquele ponto onde alguém havia desenhado um smiley de sorriso triste. Não dava bom dia e nem até logo, mas sempre deixava uma gorjeta generosa. Andava sempre apressado mesmo quando não tinha pressa e olhava a todo tempo para o relógio mesmo não estando atrasado. Todo dia ele entra pela mesma porta às 7:30 e nunca ninguém soube seu nome, se tinha família, se era feliz e nem mesmo se apreciava o café ou se era somente um habito como tantos que temos. Para onde ia dali ninguém nunca se interessou em saber, sumia entre o mar de ternos que cobrem as avenidas pela manhã. Era mais um entre tantos anônimos que percorrem as ruas como sombras e somente ganham identidade ao se sentar em frente aos seus postos de trabalho ou ao adentrar seus lares. A cidade nos engole a todos, esta maravilhosa e selvagem selva de pedra que aceita os insultos dos ressentidos assim como o amor dos agradecidos pela sua acolhida. Somos um produto deste século insano onde a cada dia mais, nos importamos menos. Somos todos anônimos mesmo não nos dando conta disto.
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26 de jun. de 2009

On Fire


Tenho febre. Não é somente minha pele que arde. Sinto minha mente em fogo e tenho dificuldade em fazer meus pensamentos entrarem na ordem certa. Meu rosto cora, meus lábios queimam, meus olhos ardem, meu cérebro encena mil historias inacabadas. As possibilidades são tantas agora... De todos meus delírios há um que me encanta e caminho para ele de braços abertos. Nele sou completa. Finalmente. Porque temer a fraqueza quando ela me trás tanta satisfação? A cama reclama de meu corpo que se contorce sem descanso a procura daquele lugar mágico onde a insanidade é pura e perfeita. Sinto cada nervo deste corpo cansado em estado de alerta, como se esperassem que eu fosse saltar do meu leito e ganhar o céu gelado em asas angelicais. Sou somente pensamento agora. Nada me atinge. Nada me doma. A liberdade é tão completa que todas palavras são minhas e nunca as amei tanto.
Tenho febre. Meu corpo dói, mas minha alma está livre.
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25 de jun. de 2009

It

Ela entra faceira. Boina branca, cabelo curto e bem tingido de um louro escuro, vestido clássico, casado comprido de tweed rosado, luvas negras de couro, sapatos confortáveis de salto grosso, elegantemente altos. Para mim ela não tinha idade. E nem o mundo. Poderia ser Paris nos anos 50, talvez Florença nos anos 40. Ela fora bela, extremamente bela. Estava escrito no sorriso gentil e seguro, no andar ondulante apesar de cuidadoso, no corte de suas roupas e na maquiagem leve no rosto levemente enrugado. 60 ou 70 anos? Talvez, mas para mim parecia uma ninfa em um bosque, uma dama da corte percorrendo os jardins de Versailles. Certas pessoas tem esta sorte, de serem extremamente interessantes não importando o quanto envelheçam, mantendo seu “it” vivo. Eterno. Estes personagens inspiram mais do que algumas palavras em um blog, fazem com que almejemos a mesma serenidade e sabedoria tão impressas naquele rosto majestoso. Falta pouco para meus 46 anos, uma dupla de meses e uns dias, e eu não ligo para a idade que chega, mas espero, oh eu realmente espero, que daqui a 30 anos alguém me olhe como a olhei hoje.
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24 de jun. de 2009

Imaginação

Acreditar ou não talvez não seja questão de fé, mas sim de imaginação. Para se acreditar em qualquer coisa, seja em fadas, magos ou dragões, é preciso se conseguir imaginar em um mundo onde estes seres sejam possíveis. Mas dentre os crédulos, onde me incluo com prazer com minha imaginação superfaturada, existem dois tipos, os que se envolvem tanto em suas fantasias que já não as usufruem e sim as transformam em obsessões e os que como eu deixam a mente voar para qualquer lado que lhe apeteça sabendo que por mais que sonhe com tapetes mágicos seus pés estão realmente plantados no chão. Não sei dizer como vivem as pessoas que não tem imaginação, sem poder voar até a lua ou navegar em noite de lua pelo Nilo ou se apaixonar perdidamente pela pessoa certa ou voar nas costas de um dragão até o topo do mundo. Como se faz para sobreviver sem o alivio das aventuras mentais, das fantasias eróticas, dos romances oníricos? Como se faz para atravessar a vida somente fincado na terrível realidade de que a vida é simples e básica e quase nunca excitante para 90% das pessoas? Acho que por isso escrevo, não somente para tirar da minha mente tudo que minha imaginação produz (e que provavelmente escaparia por minhas orelhas se não as pusesse no papel), mas também para que os parcos de imaginação possam ter algo para mastigar quando passarem por acaso por este blog ou se colocarem as mãos em paginas de meus contos que rodam por mãos amigas. Para os cegos mentais mando meu amor, minha insanidade e cada post escrito, cada conto guardado, cada palavra ainda presa em minha mente febril.
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23 de jun. de 2009

O espelho

O espelho enorme tomava metade da parede do quarto. Não era somente um objeto de decoração, mas também de adoração. Nele ela se olhava todos os dias e estudava cada curva, alisava cada prega, treinava cada trejeito. Nada era mais importante que aquele espelho. Sua vaidade era motivo de inveja para alguns e de exasperação para outros, mas para si mesma era o fio condutor de sua vida. A cada dia se perdia mais em sua própria imagem. Cada defeito achado na superfície vítrea, real ou imaginário, era prontamente corrigido, não importando o preço a pagar, a dor a suportar. Seios foram inflados, coxas sugadas, estomago definido, orelhas costuradas, nariz afilado, tudo em nome da beleza, tudo em honra à imagem do espelho. A cada dia mais tempo passava contemplando a própria imagem. Perdia a hora para o trabalho, esquecia de seus encontros, não dormia para ver como sua imagem se refletia na escuridão da noite. Da vaidade a obsessão o passo foi curto e definitivo. O espelho a tinha prisioneira. Já não havia noite nem dia, somente a imagem que a olhava com luxuria e nesse olhar ela se perdeu, mergulhou sem pensar em volta. A mão do espelho encontrou a sua e a conduziu. Por um momento eram duas a se olhar com fascinação, uma fria e perfeita, a outra viva e inacabada. Mas foi somente por um momento. A união foi rápida e arrebatadora. Perfeita. Completa. Fria e distante. Em brasas. Em chamas. Finalmente livre. Cinzas. Pó. O espelho vazio parece em paz finalmente.
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22 de jun. de 2009

Silencio

Eu sinto falta do silencio. Sinto falta daquele zunido nos ouvidos conseqüência do silencio absoluto. Minha vida é o caos da metrópole. O telefone que toca, a TV ligada muitas vezes até quando durmo, o MP3 sempre plugado para não ouvir o motor dos carros e o grito zangado das buzinas, é o alarme do celular às seis e meia da manhã, a campainha no domingo às nove, o zunir da impressora ao longo do dia. Às vezes o que quero é somente o silencio. O doce silencio onde a brisa faz musica e as folhas flutuam até o chão na melodia. Não é fácil de se conseguir, não nesta cidade, não cercada por casas e edifícios onde cães latem, pais gritam, filhos respondem e TVs transmitem todo o lixo do mundo. Tenho guardado comigo momentos onde, sentada no beiral de uma janela olhando a noite, via somente estrelas em vez de arranha-céus. O zunido do silencio está ali, junto com o coaxar dos sapos, do uivo de um cão do mato, do canto da cigarra , da água batendo na pedra e escorrendo pelo riacho, não muito longe dali. Eu sei que estes momentos pertencem ao passado, mas não existe uma noite insone em que eu não sonhe com eles. Me pergunto aonde minha vida me leva e se em meu caminho ainda encontrarei o silencio que tanto busco.
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21 de jun. de 2009

O Pedido

Ela não gostava de sair tarde do trabalho. O centro da cidade perdia aquele ar comercial e as sombras transformavam o que antes parecia um bairro charmoso em um antro para almas perdidas. Tinha medo. A cada passo imaginava o que a esperava na próxima esquina, no próximo beco e foi exatamente no próximo beco que escutou a voz que chamava “socorro!” tão baixo que se perguntou se não seria o medo a fazendo imaginar coisas. Mas a voz veio novamente e ela ficou parada na boca do beco, pernas congeladas que não escutavam a ordem de seu cérebro para correr. Seu instinto de sobrevivência a mandava fugir, mas aquela parte, que ainda sobrevive em muitos de nós, que se sente compelida a ajudar quem suplica a mandava enfrentar seus medos e entrar no beco escuro. “Socorro!” Novamente veio a voz ainda mais fraca, nem masculina, nem feminina, somente velha, alquebrada, ressecada como pergaminho no deserto. Deu dois passos e ouviu um som agudo que a fez retroceder e percebeu que o som vinha de sua própria garganta, era um gemido de pavor, um som mais assustador que o pedido que ouviu novamente. “Socorro!” Bateu os pés no chão como uma criança, tentando destravar o que a prendia e entrou no beco segurando a respiração, sem saber se o que a esperava não seria o fim de sua pacata vida. Viu o vulto recostado na parede ao fundo do beco, uma mera trouxa de roupas velhas e sujas. “Socorro!” Ela se ajoelhou à frente do vulto. Já não parecia tão escuro ali, a claridade da rua a deixava ver a face enrugada e pálida e até mesmo ver o lento subir e descer do peito cansado. “O que posso fazer por você, meu velho? Chamo uma ambulância?” O velho sorriu de maneira poética, era um sorriso de quem vê a promessa de descanso não muito distante. “Não, filha, estou morrendo. Não demora agora.” Ela puxou o celular para chamar a policia, os bombeiros ou qualquer um que pudesse dar um fim mais digno para o homem, mas uma mão encarquilhada a parou. “Não. Não chame ninguém, não faço questão de uma cama limpa quando passei metade da minha vida na sujeira. Não tenha pena, eu não fiz nada para mudar isso.” Ele se calou e levou a mão ao peito. Ela nunca presenciara a morte e não sabia o que fazer.
“Por favor, me deixe chamar alguém.”
“Não, eu não preciso de ajuda. Preciso que leve ele daqui.”
Ele lhe estendeu uma caixa cheia de trapos dentro e ela pensou que a morte acabara por lhe tirar a razão, mas então sentiu movimento sobre usas mãos.
“Agora vá, corra daqui. É muito perigoso. VÁ!” Ele gritou com o resto de suas forças.
Ela não esperou, correu segurando a caixa e chorando, chorando e correndo, correndo e pensando que deixara um homem para morrer no beco mais imundo da cidade. Um táxi passava e ela gritou em alivio. Dentro do carro, a caixa repousando em seu colo, ela sentiu novamente movimento e ao levantar a tampa viu o mais belo e triste filhote. Ao chegar em casa o banhou e lhe deu de comer. Fez uma cama ao lado da sua com edredons velhos e cantou cantigas de ninar para o cão dormir. Estava feliz por ter tido coragem de enfrentar seu medo para escutar aquele ultimo pedido.
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20 de jun. de 2009

Engano

“O que você vê?”
Ela o olhou em silencio por um longo tempo. Via muitas coisas, mas não havia nenhuma que gostaria de partilhar com ele. Era uma mão cheia de calos e sangue. O que fazia ali um homem dono uma vida tão violenta? Que esperava ele saber quando era obvio que causava dor e morte todos os dias? Ela via uma vida solitária e triste.
“E então? O que vê? Existe uma parceira pra mim nessa vida?”
Sim, ela via. Uma parceira. Mas como seria essa mulher para acolher uma vida de morte e destruição? Que casal formariam e o que espalhariam pelo mundo?
“Não. Não existe companheira para você. Sua paixão será sua perdição. Fique longe das mulheres.”
Era o máximo que podia fazer. Que seguisse seu caminho em solidão.
O homem saiu cabisbaixo. Era triste não ter ninguém para dividir as noites frias. Era mais triste ainda saber que a velhice chegaria em noites ainda mais frias e ele estaria só. Sua vida era tão cheia de sangue e violência que ao chegar em casa sentia-se vazio. Fora consultar a vidente na esperança que em seu futuro houvesse alguma espécie de sentimento nobre que compensasse sua vida insípida e dura. Mas deveria ter imaginado. Trabalhando há mais de vinte anos em um matadouro, vendo a morte brutal e se banhando em sangue todos os dias, quem o desejaria?
Enquanto ia assim, desamparado e perdido, nem reparou na mulher parada à porta do açougue e que o olhava com ternura. Há 20 anos ela esperava a hora certa de lhe falar e hoje parecia também não ser um bom dia. Ela tentaria lhe falar na próxima vez que ele viesse lhe fazer uma entrega.
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18 de jun. de 2009

Nada mais. Nada menos também.


Pessoas que se dão tremenda importância me são completamente desinteressantes. Parece para mim que mais elas se acham, menos elas são. Sou do tipo que se posso usar duas palavras provavelmente usarei quatro para dar mais cor, mas nunca dez. Talvez seja isso que me torne menos culta, bem menos intelectual em minha feliz ignorância de certos fatos e ditos, mas não nasci para a genialidade, nasci para a esperteza das ruas talvez. O que sei aprendi sozinha ou usando minha enciclopédia ambulante (mano Urso em todo esplendor) e gosto das coisas assim. Sei de tudo um pouco, de algumas coisas sei muito e de muito poucas sei absolutamente tudo e é muito mais do que muitos vão saber durante todas suas vidas. O reconhecimento que desejo, seja em meu trabalho diurno ou em meu prazer noturno (escrever, somente escrever, seus depravados!) é o mesmo que qualquer ser humano deve almejar e em meu prazer noturno eu dispenso as criticas de quem me julga pobre demais para seus cérebros. Não sou intelectual ou colecionadora de frases celebres. Sou uma contadora de historias com orgulho. Do meu querido leitor o que peço é amizade, um pouco de compaixão por esta alma torturada e olhos atentos para ler cada palavra que quero sorvidas com paixão. Essa sou eu. Nada mais. Nada menos também.
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