21 de jun de 2009

O Pedido

Ela não gostava de sair tarde do trabalho. O centro da cidade perdia aquele ar comercial e as sombras transformavam o que antes parecia um bairro charmoso em um antro para almas perdidas. Tinha medo. A cada passo imaginava o que a esperava na próxima esquina, no próximo beco e foi exatamente no próximo beco que escutou a voz que chamava “socorro!” tão baixo que se perguntou se não seria o medo a fazendo imaginar coisas. Mas a voz veio novamente e ela ficou parada na boca do beco, pernas congeladas que não escutavam a ordem de seu cérebro para correr. Seu instinto de sobrevivência a mandava fugir, mas aquela parte, que ainda sobrevive em muitos de nós, que se sente compelida a ajudar quem suplica a mandava enfrentar seus medos e entrar no beco escuro. “Socorro!” Novamente veio a voz ainda mais fraca, nem masculina, nem feminina, somente velha, alquebrada, ressecada como pergaminho no deserto. Deu dois passos e ouviu um som agudo que a fez retroceder e percebeu que o som vinha de sua própria garganta, era um gemido de pavor, um som mais assustador que o pedido que ouviu novamente. “Socorro!” Bateu os pés no chão como uma criança, tentando destravar o que a prendia e entrou no beco segurando a respiração, sem saber se o que a esperava não seria o fim de sua pacata vida. Viu o vulto recostado na parede ao fundo do beco, uma mera trouxa de roupas velhas e sujas. “Socorro!” Ela se ajoelhou à frente do vulto. Já não parecia tão escuro ali, a claridade da rua a deixava ver a face enrugada e pálida e até mesmo ver o lento subir e descer do peito cansado. “O que posso fazer por você, meu velho? Chamo uma ambulância?” O velho sorriu de maneira poética, era um sorriso de quem vê a promessa de descanso não muito distante. “Não, filha, estou morrendo. Não demora agora.” Ela puxou o celular para chamar a policia, os bombeiros ou qualquer um que pudesse dar um fim mais digno para o homem, mas uma mão encarquilhada a parou. “Não. Não chame ninguém, não faço questão de uma cama limpa quando passei metade da minha vida na sujeira. Não tenha pena, eu não fiz nada para mudar isso.” Ele se calou e levou a mão ao peito. Ela nunca presenciara a morte e não sabia o que fazer.
“Por favor, me deixe chamar alguém.”
“Não, eu não preciso de ajuda. Preciso que leve ele daqui.”
Ele lhe estendeu uma caixa cheia de trapos dentro e ela pensou que a morte acabara por lhe tirar a razão, mas então sentiu movimento sobre usas mãos.
“Agora vá, corra daqui. É muito perigoso. VÁ!” Ele gritou com o resto de suas forças.
Ela não esperou, correu segurando a caixa e chorando, chorando e correndo, correndo e pensando que deixara um homem para morrer no beco mais imundo da cidade. Um táxi passava e ela gritou em alivio. Dentro do carro, a caixa repousando em seu colo, ela sentiu novamente movimento e ao levantar a tampa viu o mais belo e triste filhote. Ao chegar em casa o banhou e lhe deu de comer. Fez uma cama ao lado da sua com edredons velhos e cantou cantigas de ninar para o cão dormir. Estava feliz por ter tido coragem de enfrentar seu medo para escutar aquele ultimo pedido.
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Um comentário:

maria guimarães sampaio disse...

PÔ, essamenina... você arrasou! Que conto formidável. E depois eu ainda penso ser capaz de fazer continhos para cão dormir.