28 de jun de 2009


Sentada em frente à janela ela recordava. Não havia muito mais a fazer. Seus pés doíam terrivelmente e suas pobres pernas mal agüentavam lava-la da sala ao quarto e vice versa. Tinha a TV por companhia, mas pouco entendia do que se passava hoje em dia, era tudo tão diferente, tão distante daqueles anos dourados onde o mundo era sua casa e a companhia sua família. Os primeiros anos foram terrivelmente difíceis, sem descanso, sem dinheiro, sozinha em uma terra estranha. As longas horas diárias de treino, os pés ensangüentados, a dura disciplina imposta e as noites solitárias imaginando se em sua terra natal alguém sentia sua falta. Mas isto também logo ficou no passado. Seus pés pararam de sangrar, seus músculos se fortaleceram, a dança ganhou sua mente e soterrou a saudades de uma vida para qual nunca voltaria. Os anos se passaram felizes. Os palcos sempre pareciam os mesmos, os camarins um mar de tutus, risos e os ocasionais ataques histéricos esperados no ramo, mas as noites lhes pertenciam, as cidades se abriam para seus espíritos jovens e a vida era tão excitante quanto poderia ser. Amores vieram e se foram, amizades se perderam entre disputas por papeis, mas outras foram ganhas ao dividir a paixão pela dança. E assim, num piscar de olhos ela estava velha demais para o palco. Na mesma companhia ensinou jovens que como ela saiam dos quatro cantos do mundo para descobrir se sua paixão pela dança era tão forte e persistente quanto a dela. Mas o tempo para isso também passou. Agora era velha demais até mesmo para assistir aos balés que dançara. Seus ossos cansados não lhe permitiam o prazer de sentar por horas vendo anjos voarem envoltos em cetim e tule. Mas ela ainda recordava e que amiga é a memória quando já não podemos por nossos meios alcançar o que nos completa. Sentada em frente à janela ela recordava. A imagem refletida no vidro não tinha rugas, não se curvava contra a vontade pelo peso dos anos. Não. A imagem refletida tinha olhos brilhantes, corpo esbelto, vestia-se de cetim e tule e sabia voar como um anjo. Essa imagem lhe contava historias numa voz sem tremor e com o leve sotaque russo que o mundo nunca lhe tirara, lhe contava das coisas que havia esquecido e das que ainda se lembrava, falava da vida sempre no presente ignorando que o tempo passara e continuaria a passar, porque nada importava a não ser recordar como se o ontem fosse sempre. E era assim, ouvindo sua imagem refletida, que se tornava jovem novamente e quase esquecia que já não podia dançar.
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2 comentários:

João Carlos Freitas disse...

Ôpa, seria uma honra!
Vou linkar o seu também...

E, obrigado pela visita!

Um forte abraço!

João Carlos Freitas disse...

Ah, aproveitei e deixei pra você um Selo-Prêmio lá no meu blog.

"O prêmio em si representa a união entre os blogueiros!"