23 de jun de 2009

O espelho

O espelho enorme tomava metade da parede do quarto. Não era somente um objeto de decoração, mas também de adoração. Nele ela se olhava todos os dias e estudava cada curva, alisava cada prega, treinava cada trejeito. Nada era mais importante que aquele espelho. Sua vaidade era motivo de inveja para alguns e de exasperação para outros, mas para si mesma era o fio condutor de sua vida. A cada dia se perdia mais em sua própria imagem. Cada defeito achado na superfície vítrea, real ou imaginário, era prontamente corrigido, não importando o preço a pagar, a dor a suportar. Seios foram inflados, coxas sugadas, estomago definido, orelhas costuradas, nariz afilado, tudo em nome da beleza, tudo em honra à imagem do espelho. A cada dia mais tempo passava contemplando a própria imagem. Perdia a hora para o trabalho, esquecia de seus encontros, não dormia para ver como sua imagem se refletia na escuridão da noite. Da vaidade a obsessão o passo foi curto e definitivo. O espelho a tinha prisioneira. Já não havia noite nem dia, somente a imagem que a olhava com luxuria e nesse olhar ela se perdeu, mergulhou sem pensar em volta. A mão do espelho encontrou a sua e a conduziu. Por um momento eram duas a se olhar com fascinação, uma fria e perfeita, a outra viva e inacabada. Mas foi somente por um momento. A união foi rápida e arrebatadora. Perfeita. Completa. Fria e distante. Em brasas. Em chamas. Finalmente livre. Cinzas. Pó. O espelho vazio parece em paz finalmente.
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Um comentário:

maria guimarães sampaio disse...

Tu escreves, moça! Bem, bonito, emocionante.
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PS. nos comentários lá no continhos também.