30 de jun de 2009

O Jogo de Poker


“Duas cartas, auuuuuuuuuu!!”
“Será que você poderia deixar os uivos de lado? Alem de torturar nossos ouvidos ainda entrega seu jogo, sempre uiva por mais tempo quando tem boas cartas. O que foi dessa vez? Uma trinca?”
“Que há velhinho? Para de implicar com ele. Ou você acha que o barulho que faz sugando sangue por esse canudinho é legal? Pega leve, irmão.”
“Muito interessante ser você a dizer “pega leve”. Não somos nós que destruímos a mesa quando perdemos o jogo e nem somos nós a trapacear.”
“Auuuuuu, Ei, cabeça de pudim, você pode falar difícil mas também tem suas manias. Não é muito agradável de ver você se remendar a toda hora.”
Essa troca de gentilezas era normal nas reuniões semanais. Todos desabafavam criticando aos outros e nisso imitavam os seres humanos comuns e insignificantes. A sala onde se encontravam para o poker semanal era alugada por $1.000 por mês e ficava nos fundos de um deposito. Podiam se divertir a vontade sem medo de serem interrompidos. O vigia que lhes alugava o lugar era de confiança, nunca perderia a grana extra mesmo que isso significasse ter que limpar a sujeira antes do amanhecer. Fora difícil arrumar um lugar onde pudessem se reunir. Pensaram em fazer um rodízio entre suas casas, mas depois de poucas reuniões desistiram. O castelo de Dracula era bem confortável e haviam aposentos até demais, mas suas três noivas infernizavam os jogadores. Exigiam atenção a todo o momento e reclamavam sem parar da fumaça dos charutos. Sem contar que eram péssimas donas de casa e só sabiam servir drinks à base de sangue e canapés de tarântulas. O laboratório do Dr. Jekyll, emprestado por Mr. Hide, tinha um cheiro permanente de produtos químicos e os ataques de cólera de Mr. Hide, quando se via descoberto blefando, transformavam o lugar numa bomba relógio. Depois que o lugar pegara fogo pela terceira vez, Dr. Jekill proibira a entrada de todos, inclusive de Mr. Hide. O Lobisomem morava em uma casa na beira da floresta e até era agradável com a floresta próxima e o ar da montanha, mas cheirava a carniça. Sem contar que o coitado se distraia a toda hora farejando os animais que andavam por perto e era preciso lhe por a coleira para mantê-lo no jogo. Frankenstein Jr. morava em palacete em ruínas e apesar de ser o anfitrião perfeito eram obrigados a jogar em silencio e quase às escuras. Os moradores da vila próxima estavam sempre de olho no lugar e era só enxergarem movimento vinham com seus forcados e tochas. Sendo assim eles faziam uma vaquinha e se rendiam aos tempos, pagavam pelo seu divertimento.
“Dá pra você parar de se coçar. Coceira é que nem bocejo, pega.” – E Totó, apelido carinhoso dado pelos amigos, deu uma bela coçada atrás de sua orelha com um rosnado de prazer.
“Caro amigo, me incomoda tanto quanto a você, mas os pontos são novos e coçam uma barbaridade. Tive que troca-los essa semana, os antigos estavam em péssimo estado. Você sabe como sou exigente com minha higiene, infelizmente a coceira acompanha o processo. – Frank controlou um novo acesso de coceira e ocupou suas mãos ajeitando a gravata borboleta.
“Somos imortais, mas vejam as mil inconveniências de nossas vidas. Olhe o que tenho que aguentar. Minhas noivas não me permitem mais buscar sangue fresco. Dizem que isso acabaria com nossa vida social. HÁ! E ainda por cima tenho que sair de casa a toda hora, pois elas enchem o castelo com suas reuniões da Avon. Me diga, porque elas precisam de tantos cremes? Cremes para rugas, cremes firmadores, creme contra olheiras, cremes, cremes, cremes!” – Dracula olhou para cada amigo com inveja, dos quatro era o único comprometido. E eram três noivas. TRÊS!
“È velhinho, elas te pegaram pelas bolas. Falando em bolas, você as usa ou elas só ficam penduradas como enfeite?” – Mr. Hide riu alto de sua grosseria, mas riu só. Totó, que era quem sempre ria de suas piadas, estava ocupado procurando uma pulga em sua pata. Frank e Dracula só o olharam como sempre faziam, cheios de impaciência. – “Aí, velhinho. Brincadeira. Mas falando em cremes, Jekyll se deu bem com essa nova onda. Deu pra fazer cirurgia plástica e inventou um novo implante de silicone que infla e desinfla ao gosta da freguesa. E tá ganhando uma fortuna com os cremes pra rugas. É isso ai irmão, não são só tuas mulheres que tão doida, não.
“Pois é, e até os homens se renderam à essa moda. Já ouviram falar que até se depilam hoje em dia? Até pensei em ir num desses salões novos e fazer essas depilações à lazer. Que vocês acham? Meu pelo anda sem brilho, opaco, não pega bem com as lobas do meu pedaço.” – Tôto recolheu suas duas cartas e uivou de novo.
“Deixe disso, caro colega. É preciso se aceitar. Veja eu, cada pedaço do meu corpo veio de um ser humano diferente. Não posso usar uma bermuda em um dia de sol porque uma de minhas pernas é musculosa e peluda e a outra é fina e pelada. Uma desgraça. Mas, mesmo assim eu me orgulho de mim mesmo. Alimento meu cérebro que é o que sustenta este corpo. Viver com o que temos e fazer o melhor que pudermos, esse é o caminho. – Mas apesar das palavras, Frank levantou a calça e olhou as canelas com tristeza.
“O fato é que somos monstros ultrapassados. Se saio com minha capa, riem de mim na rua. Eu... arghhh, arghhhhh! Arghhh?? – Dracula engasgou ao puxar o liquido pelo canudinho , mas um bom tapa nas costas dado por Frank o fez cuspir a pelota de sangue que se alojara em sua garganta. – Grato, amigo. Este sangue é de segunda. Está cheio de pelotas. Três noivas e nenhuma delas tem tempo para me conseguir um sangue decente.”
“Nada mais é decente hoje em dia. Precisei de um couro cabeludo novo, fui ao necrotério para conseguir um escalpo e sai de mãos vazias. Tantos cadáveres e nenhum decente. Dois tinha mechas no cabelo. MECHAS! Outro era careca. Outros três pareciam sofrer de uma caspa terrível que parecia tão viva quanto eles mortos. E quatro, QUATRO, tinham mousse no cabelo. Me recuso a usar um escalpo de um homem que se sujeitou a passar mousse.”
“Auuuuuu, amém a isso, companheiro. Pedi outro dia pra uma amiga me levar no Pet Shop pra um banho. Saí de lá parecendo um Lulu da Pomerania. Não podia nem reclamar senão me chamavam a carrocinha, mas, cara, foi um tal de shampoo, rinse, perfume, secador, fiquei uma semana pra perder a escova que me fizeram. “
“Vocês tão reclamando de barriga cheia. Pelo menos ainda tem bastante liberdade. O Jekyll só me deixa sair pra nosso jogo de Poker, o resto do tempo tá sempre cheios de desculpas. “Desculpa, Hide, tenho uma lipoaspiração hoje.”, “Hoje não dá, tenho mais de 3 litros de implante pra colocar.” E eu, trouxa, fico quieto porque senão nem o jogo de poker ele libera. O cara só quer saber de grana. – e voltando ao jogo - Pago.”
“Eu também.”
“Tô fora, a mesa tá muito alta pro meu joguinho.”
“Au, au, tô dentro.
O despertador tocou às 4 da manhã e Dracula se despediu com tristeza. Iria ter que aguentar as reclamações das noivas pelo resto da semana. Abraçou os amigos e alçou vôo rumo ao oeste. Hide ficou emburrado, queria uma ultima rodada, mas lembrou que Dr. Jekill tinha uma lipo pelo manhã e se foi chutando tudo pelo caminho. Totó deu uma lambida em Frank e saiu num trote rápido até o poste mais próximo para se aliviar, depois seguiu caminho pensando que era hora de outra visita ao Pet Shop. Talvez dessa vez pedisse uma tosa completa. As pulgas o estavam deixando louco. Frank ficou parado na calçada olhando os amigos se dispersando. Ajeitou sua gravata borboleta, seus suspensórios e prendeu as abotoaduras, vestiu o paletó Armani e em passos largos tomou o caminho de casa. Nessas horas ele quase desejava ouvir os gritos da multidão ensandecida seguido do brilho das tochas.
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Um comentário:

jogodopoker disse...

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