12 de dez de 2011

Meu herói, meu bandido


Quando ele morreu eu rui. Não sabia o que ia ser de mim que tinha ele como estrela guia. Nunca foi um protetor, não era sua natureza, mas sim um palhaço, amigo, dançarino, colega de luta livre, parceiro de poker e muito, muito mais. Era sempre a alma da festa. A luz brilhante na noite. A alma calma em uma casa em chamas. O amor no meio do ciúme. Mas como disse, ele se foi.

No começo eu somente chorei. Foi mais do que perder uma pessoa. Foi perder aquele que sempre me amou pelo que eu era, mesmo que não soubesse exatamente quem eu me tornara. Eu era sua menina. SEMPRE. O que me deixou, no começo não percebi como fardo. Nem mesmo percebi que havia me legado algo a não ser um punhado de fotos, sua carteira de motorista vencida e uma família em pedaços. Não pude esperar meu corpo e alma se recompor da perda sofrida, era preciso seguir em frente. Assim me foi ordenado por mão não tão macia. Era preciso prover, alimentar, cuidar, ser a mão que sempre se estende, ser aquela que nunca diz não, mas a quem é negado muito.

De herói ele aos poucos passou a bandido. Sua partida já não sentida, mas sim ressentida. Minha prisão era sua herança e eu nem mesmo podia gritar com meu algoz. Ele não estava mais a meu alcance. Daquele que eu amava pouco sobrou. Somente a maldita carteira de motorista vencida e um punhado de fotos que já não conseguia olhar.

Olho para trás e tenho saudades de amá-lo infinitamente. De vê-lo por olhos mais inocentes e tímidos. De ainda imaginá-lo meu herói. Sei que nunca poderá me salvar. Minha torre foi construída alta e impenetrável. Parte dela eu mesma levantei. Foram os muros altos que me protegeram durante os anos duros, foram as paredes grossas que me mantiveram em pé num mundo repleto de decepções. Ainda estão frescos na minha memória momentos em que silenciosamente gritei com Deus por ter me roubado aquele que podia me proteger até um dia perceber que eu já era capaz de empunhar minha própria espada, vestir minha própria armadura e ser meu próprio herói. Talvez tenha sido o momento mais solitário de minha vida.

Pai, é hora de fazer as pazes. Já não o quero herói, mas também não o quero bandido. Quero poder somente amá-lo enquanto quebro as paredes da torre que já não pode mais me conter.

Com amor,
Sua filha, Andrea.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo Andréa. Lembrei muito do meu tb.Obrigado ! Leandro