8 de fev. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 9)

Os primeiros dias do merecido descanso de Anya foram um tanto confusos. Foi preciso procurar substitutas para suas missões e se acostumar novamente com a rotina que era bem diferente da de um acampamento. Como há muito tempo suas temporadas no castelo se resumiam a uma ou duas noites era tratada como uma visitante e, portanto não participava das tarefas obrigatórias às residentes e agora era preciso encaixá-la no quadro de rodízio de tarefas. Provisoriamente Anya ficou na cozinha, onde nunca existiam ajudantes suficientes, até que escolhesse uma posição em aberto que gostaria de ocupar durante sua estadia. Para as guerreiras, quando residentes, nenhum trabalho era imposto, mas era obrigatório que se responsabilizasse por algum trabalho que contribuísse para a vida comum.
Anya descobriu novamente o quanto gostava da vida agitada do castelo. Nunca haviam mãos suficientes para o tanto que havia a ser feito e o ruído de risadas enchiam o ar a todo momento. Garotas de todas as idades seguiam as guerreiras de passagem implorando por historias e velhas senhoras, carregando as cicatrizes das batalhas com orgulho, se sentavam também para ouvir e derramavam lagrimas escondidas relembrando quando ainda podiam manejar a espada. O refeitório era uma algazarra organizada, ninguém nunca faltava a uma refeição pois sempre era possível se encontrar com irmãs que há muito não se via. O refeitório era quase como um centro de controle do castelo pois era o único lugar onde se reuniam todas ao mesmo tempo.
Em seu primeiro dia Anya se viu rodeada de muitas irmãs da época de treinamento e se viu rindo e conversando como há muito não fazia. Em suas visitas rápidas quase nunca descia ao refeitório, pois o cansaço vencia a fome e passava sua estadia em um sono comatoso para ganhar a estrada novamente de alforje cheio e coração vazio. Agora, vendo tantos rostos conhecidos e sentindo o carinho nos abraços e beijos, se arrependia do isolamento em que andara vivendo.
Era hora do almoço e Anya trazia travessas fumegantes da cozinha parando a todo momento para ser abraçada e receber boas vindas. No grande refeitório reinava um clima festivo que era normal para quem estava acostumado, mas incrivelmente excitante para os que não conheciam estas guerreiras intimamente. Aqui elas eram somente mulheres e se comportavam como tal, aproveitando ao maximo o período de calma, trocando receitas, contando novidades e piadas.
“Anya? Anya Mia?”
Anya se voltou para dar de cara com uma jovem quase dez anos mais jovem que ela. Cabelos ruivos, pele sardenta e o sorriso mais luminoso do mundo. Ela se lembrava de um sorriso assim em um bebê reconchudo que aprendera a andar rápido para poder segui-la. Lembrava de como se sentira em ser o objeto de adoração de alguém e de como a criança crescera sempre seguindo seus passos. A jovem a sua frente ainda não tinha cicatrizes, devia ter uns 20 anos e era estranho que nenhuma marca ainda tingisse sua pele.
“Marissa? É Marissa, não?”
“HÁ! Então você se lembra? Sou eu mesma e não posso nem dizer como estou encantada em revê-la. Acho que fazem uns bons anos que não consigo nem mesmo botar meus olhos em você. Às vezes me diziam que você estava no castelo e confesso que espiava em cada quarto só pra ver você mesmo que dormindo, já que era impossível pega-la acordada. Mal abria os olhos e já pulava no seu cavalo e, vrummm, à galope. Puxa!! Mas é bom vê-la de novo! Ainda mais acordada e... puxa, eu falo muito, não é?”
Anya gargalhou com vontade. Era a mesma Marissa. Sempre com mil palavras na boca e o coração tão quente quanto o fogo em seus cabeços
“Oh, Marissa” E Anya a abraçou com carinho. A sensação foi a mesma de quando Marissa era criança. O corpo quente e amável, a sensação de ser adorada mesmo sem merecimento. Era bom e parecia aquecer seu coração cansado.
“Você vai ficar não vai? Não pode continuar de batalha em batalha sem para. Deixa eu cuidar de você, juro que logo perde essas olheiras e põem um pouco de gordura nesses ossos.”
“Vou ficar sim e quero saber tudo que andou acontecendo desde que parou de se agarrar em minhas pernas.”
“Não muito. Eu...”
O rosto de Marissa ficou muito vermelho e seus olhos se encheram de lagrimas.
“Você vai ter vergonha de mim, Anya, não vai querer ser vista ao meu lado. Eu.. Eu fui recusada como guerreira.”

7 de fev. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 8)

“Anya!”
“ANYA MIA!”
“MIA!”
Anya acordou de seu devaneio para ver sua madrinha fingindo uma carranca. Sempre que retornava ao seu castelo costumava se perder em recordações. Era o único lugar onde sabia poder descansar seu corpo e mente. Sua minha casa. Era onde repousavam seus sonhos e seus pais.
“Mia, será que alguma vez na vida você vai responder da primeira vez que eu chamar?”
“Acho que nunca, minha querida madrinha.” E abraçou com carinho aquela que era sua ultima ligação com o passado.
“O que te deixou assim tão avoada, Mia.”
“Estava lendo meu diário. Lembra como eu costumava escrever? Tinha ambições de completar um livro com nossas historias.”
“Sempre achei uma ótima idéia. Você sabe que muitos contam nossas historias, mas ou exageram ou nos tiram o mérito. Porque parou?”
“Tia, há quanto tempo não tenho uma folga?” Olhou a tia que só levantou as sobrancelhas com um sorriso irônico. “Não adianta me olhar com essa cara. Não tô reclamando, foi a vida que escolhi, mas não sou a única em nosso castelo, porque sempre eu sou enviada em TODAS as missões?”
Anya, a mais velha, deixou o sorriso morrer e olhou a afilhada com certa tristeza. Depois da morte de seus pais quase nada restara a Anya Mia senão a espada e a lei. Como sua madrinha, Anya Lia tentara suprir as carências afetivas que sabia Mia sentia, mas a menina em poucos anos se transformara em uma moça reservada e distante. Nos dias de hoje Anya Mia era quase uma lenda entre as guerreiras. Todos sabiam que empunhara a espada no dia que sua mãe morrera, aos 11 anos, e nunca mais a soltara. Enquanto outras se tornavam guerreiras ativas aos 20 anos, Anya Mia com 16 já era escolhida como batedora experiente e muitas vezes como isca. Sua mão nunca tremera na hora de aplicar a lei. Parecia ter gelo nas veias e fogo nos olhos e sua presença em batalha era garantia de vitória. Seu corpo era um mapa de cicatrizes, mas milagrosamente nenhum dos seus ferimentos nunca a deixou de cama por mais de dois dias. E agora, finalmente uma mulher feita, com 28 anos de idade e 16 de batalhas, Anya estava cansada e olhava para o passado com saudades e talvez um pouco de ressentimento.
Anya, a mais velha, via tudo isso em seu rosto pálido de olheiras profundas, na postura cansada dos ombros, no massagear constante do braço da espada.
“Mia, você construiu sua fama. Sabe que se for dado a escolher qualquer guerreira quer lutar ao seu lado. Você se tornou uma lenda, querida. Bem sabe que se pedir poderá tirar um ano de férias merecidas, mas você pede? Não, Mia, você nunca pede porque não consegue ficar sem lutar. Do que tem medo?”
“Medo? Não tenho medo, madrinha, mas lutar é somente o que eu sei fazer.”
“Isso não é verdade. Você sabe escrever com sua alma e não a vejo pegar o papel e pena há tempo demais. A ultima vez que me deu seu diário para ler eu imaginei que em pouco tempo em vez de um caderno existiriam vinte, mas você simplesmente desistiu de tentar achar tempo para isso. Você também forja uma espada como ninguém, mas não a vejo em uma forja há dez anos. Sem contar que tece melhor do que muitas tecelãs, mas prefere se contentar com o que te oferecem em vez de parar um pouco e produzir algo maravilhoso que te ponha um sorriso no rosto. O fato é, Mia, que você luta para não pensar. Não sei do que foge ou porque, mas qualquer atividade que dê tempo ao seu cérebro é descartada. E não culpe aos outros por usarem seus dotes com a espada, você nunca disse não e sempre foi permitido às guerreiras escolher quando tem mais de dez anos de luta como você.”
Anya, a nova, escondeu o rosto nas mãos e se perguntou se ainda saberia chorar. Desde que seu pai morrera parecia estar seca de lagrimas e a dor daqueles que acudia eram tão comuns que aprendera a bloquear toda empatia e fazer a única coisa que podia para consolá-los. Ela lutava.
Mas agora... Tão cansada...
“Madrinha, peça para nossas superioras que me dêem permissão para ficar em meu castelo por um tempo. Já não agüento o cheiro de sangue. Preciso me sentir viva novamente.”
“Claro, querida.” Anya, a velha, ainda tinha lagrimas e as derramou discretamente enquanto abraçava sua afilhada.
Para uma guerreira era preciso ferir para fazer o bem, matar para viver e isso cobra um alto preço. A alma fica pesada, o coração insensível e a mente agitada. É preciso que uma guerreira pare constantemente para redescobrir como sentir e talvez, se tiver sorte, a amar.

6 de fev. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 7)

A praça parecia pequena para o numero de combatentes. As guerreiras foram aos poucos exterminando cada um daqueles que ousaram não fugir. Meu pai lutava ao lado de minha mãe como um louco e eu, escondida em sua oficina os via com olhos maravilhados. Pareciam deuses banhados pela luz daquele entardecer.
Por um acaso do destino os dois se viram separados do resto das guerreiras e cercados por muitos homens. Eles então deram-se as costas, encostando-se um ao outro em busca de proteção. Vi como trocavam palavras apressadas que me pareceram desesperadas e meu coração se comprimiu como se já soubesse o que eu iria presenciar. Os homens caíram sobre eles e vi minha mãe ser agarrada e jogada ao solo enquanto meu pai lutava para chegar até ela. Ela não foi somente assassinada, em poucos segundos pouco sobrava dela que fosse reconhecível. Meu pai gritava e brandia sua espada, mas era já tarde demais. Meu pobre coração se quebrou e eu agarrei a espada que meu pai fizera com carinho como presente de inverno para minha mãe e me lancei à luta.
Talvez Deus proteja os inocentes ou talvez os insanos tenham uma força vinda do desespero, o fato é que eu lancei a terra cada homem do bando que cruzou meu caminho. Minha espada, a espada de minha mãe, entrava em seus corpos com facilidade e eu sentia uma alegria imensa a cada vez que isso acontecia. Meu pai gritava para que eu retrocedesse, mas não havia volta.
O destino deu suas cartas novamente e desta vez nos sorriu, o jogo virou e logo nos vimos rodeados de guerreiras. A luta terminou. Tudo terminou..
Um grupo de guerreiras saiu no encalço dos que fugiram e voltaram uma semana depois com rostos cansados, corpos doloridos, roupas em farrapos e espadas sujas de sangue. Cada um deles havia sido caçado e nossos mortos haviam sido vingados, mas isso me deu pouca alegria. Enterramos nossos mortos em uma espécie de letargia, era como se já não fossemos nós mesmos, mas sim espectros vagando por lugares conhecidos em uma vida que nunca retornaria. Meu pai murchou ante meus olhos e talvez não tenha enlouquecido completamente pois eu ainda vivia, mas eu tinha que lembra-lo constantemente disso.
Entrei para a guilda na mesma noite que as guerreiras voltaram de sua caçada. Meu pai chorou de tristeza e de orgulho na noite em que realizamos os ritos de minha admissão, mas não protestou, já não havia força nele para isso. Ele me presenteou com a espada que eu manchara de sangue mal saíra da forja e me disse palavras que levei em meu coração pelo resto da vida.
“Honre sua mãe e sua guilda. Não deixe que o sangue que manchou esta espada manche também sua alma. A conserve limpa e afiada e faça o mesmo com sua mente. Leve para sempre a lembrança de que seus pais para onde for, mas nunca se lembre deles em sua hora mais negra. Pense em mim e nas horas que passamos na forja e lembre-se de sua mãe como a luz de nossas vidas. Você já não me pertence, assim como ela nunca me pertenceu, mas eu sempre serei seu até depois de minha morte. Te saúdo, guerreira.”
Lembro de como ele se ajoelhou à minha frente e beijou o punho de minha espada no sinal mais antigo de respeito e submissão às guerreiras.
Ele viveu ainda por muitos anos, já não era o mesmo homem e era difícil colocar um sorriso em seu rosto, mas continuou um ferreiro admirável e até sua morte me presenteou com uma espada a cada ano e a cada visita que eu lhe fazia entre minhas viagens de aprendizado, me dava mimos como adagas, facas, punhais, todos regiamente trabalhados. Era sua maneira de me dizer que se orgulhava de meu caminho. Havia pouco que eu pudesse para retribuir sua eterna dedicação, mas conseguia faze-lo sorrir quando passava tardes com ele forjando o aço e contando das terras que havia atravessado.
Ele se foi em um entardecer de outono, muito parecido com aquele em que minha mãe se foi. O sol morria no horizonte manchando a terra e enquanto segurava minha mão e dava seu ultimo suspiro, chamou por aquela com quem finalmente iria se reunir “Helena!”. Pelo seu sorriso sei que ela o atendeu.

5 de fev. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 6)

Minha mãe ainda era uma guerreira e, apesar de passar a maior parte das noites com meu pai, chamava de casa o castelo ao pé da montanha. Victor era o nome de meu pai, e assim me chamaria também se houvesse nascido homem, mas nasci mulher e minha mãe me deu o nome de Anya em homenagem a minha madrinha, chefe da guilda de nosso castelo. Seu nome era Anya Lia e o meu Anya Mia e ela sempre me chamou de Mia até o dia de sua morte. Dizia que apesar da homenagem honra-la era muito estranho estar sempre a berrar o próprio nome, e Deus sabe que ela o berrava com freqüência para me repreender pelas minhas traquinagens infantis.
Sempre morei no castelo, apesar de passar meus dias na aldeia e muito desse tempo vendo meu pai forjar espadas para as guerreiras. Adorava ver seu suor lustroso correr pela face afogueada e do reflexo dourado que a forja lançava por todo lado. Sempre me espantava ver seus músculos saltarem como corda cada vez que levantava o martelo e batia no metal quente e mais me surpreendia ver aquele metal disforme se transformar em uma espada reluzente e letal. Ele era um homem especial. Sua força bruta era temida, mas ele preferia usa-la na forja, porem nunca hesitou em lutar lado a lado com minha mãe se preciso. Sua voz era profunda e rica e suas palavras sempre sábias e sabia fazer com que nossa pequena família parecesse perfeita, mesmo que vivêssemos separados, mesmo com minha mãe sempre saindo à galope sem saber se desta vez voltaria viva.
Eu cresci sabendo que um dia teria que tomar uma decisão e para mim não foi fácil pois a vida na vila era tão boa quanto no castelo. Aprendi a forjar quase tão bem quanto meu pai e sabia tecer como uma profissional, mas também sabia lutar em combate corpo a corpo, manejava uma espada desde os 6 anos e era particularmente boa no arco e flecha. Com 12 anos devia escolher se seria uma guerreira e adentraria a irmandade como membro ativo ou se seria simplesmente uma mulher. Talvez eu tivesse optado em ser uma mulher comum não fosse nossa aldeia se tornar alvo da cobiça de homens sem lei.
Me pergunto até hoje por quanto tempo nos observaram, por quanto tempo sonharam em pôr as mãos nojentas em nossas colheitas, quanto tempo nutriram o desejo pelos corpos das mulheres que os desprezavam.
Eles eram numerosos, coisa pouco comum em nossos tempos, pois os bandos costumavam ser formados por poucos homens. Não eram muitos os que tinham coragem de desafiar a lei sabendo que o castigo era a morte. A vigilância constante das guerreiras também tornava difícil que grupos maiores se reunissem, mas de alguma maneira este bando, talvez se aproveitando da vastidão da cordilheira, passara despercebido.
Era o mês de maio e já nos preparávamos para o inverno que estava às nossas portas. O castelo estava cheio de guerreiras finalmente aproveitando um merecido repouso e a vila tinha seus silos e despensas cheios. Os fazendeiros guardavam seus arados e se preparavam para alguns meses de jogos e cantorias e as crianças aproveitavam os últimos dias em que poderiam rolar no solo antes que as guerras de bolas de neve começassem. Tudo parecia perfeito.
Não houve aviso. Estávamos por demais acostumados à paz que o extremo sul do continente nos permitia para manter vigias nos postos. Fomos pegos de calças curtas, como dizem, em um entardecer que parecia à principio perfeito.
O sol morrendo no horizonte nos roubou a visão daqueles que se aproximavam e só os notamos quando já derramavam sangue inocente em nossas portas. O sino de alarme tocou tarde demais. Quando as guerreiras saíram do castelo a vila estava em fogo, os silos e as despensas saqueados e corpos cobriam as ruas antes limpas. Elas eram muitas, mas eles eram simplesmente selvagens. Pareciam saídos de um pesadelo e macularam tudo em que tocaram. Arrancaram o coração dos homens, estupraram mulheres e crianças e os animais que não podiam ser capturados foram mortos com requintes de crueldade.
Foi a ultima vez que olhei para o mundo com olhos inocentes. Foi nesse dia que me tornei a guerreira que serei para sempre.

2 de fev. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 5)

Minha mãe não era residente do castelo onde nasci. Seu nome era Helena e estava viajando pelo mundo, como fazem todas guerreira pelo menos uma vez na vida, para aprender o que houvesse para ser ensinado, para ver o que houvesse para ser visto e para contar o que existisse para ser compartilhado. Ela veio do que se conheceu como Europa e lembro ainda de sua voz suave e seu sotaque sedutor. Era uma bela mulher. Seus cabelos eram castanhos, longos e de reflexos acobreados e combinavam perfeitamente com sua pele clara e seus olhos verdes. Seu corpo era como de toda guerreira, musculoso e forte, moldado pelo esforço da cavalgada e pelo exercício com a espada. Tinha a face direita cortada por uma cicatriz, uma linha clara e fina que lhe emprestava um ar misterioso e contemplar seu corpo nu era o mesmo que ler a historia de suas batalhas. Era uma beleza selvagem e talvez eu esteja romantizando demais a mulher que me deu a vida, mas não fui eu a única cativa de seu encanto.
Helena chegou ao sul da América do sul no outono, quando a nove ainda era somente uma promessa. Ela já viajara por todo o mundo e seu coração já ansiava por retornar ao seu lugar de origem. Mesmo na vida que levamos, sempre nas costas de um cavalo, aprendemos a voltar para nosso “lar” o maior numero de vezes possível, mesmo que por uma ou duas noites, para não perdemos a pouca identidade que temos. Helena já não via as paredes de seu castelo de origem há pelo menos três anos e sentia falta dos encontros com suas companheiras, a única família que existia para uma guerreira, das noites em volta da lareira contando historias das estradas por onde andavam e dos casos que resolviam. Há três anos era uma querida visitante, uma amada irmã, uma bem vinda guerreira, mas sempre a estranha que logo seguiria seu caminho. Aprendera muito, fizera algumas amizades, que se o tempo permitisse gostaria de conservar, ganhara mais algumas cicatrizes em batalhas e agora chegava quase no extremo do mundo, seu ultimo destino e então poderia retornar.
O castelo era um dos mais belos que Helena já vira. Estava aninhado aos pés da cordilheira que corta o continente e que por si só é um espetáculo a ser registrado. A vila, aos pés do castelo, era prospera e o povo um dos mais alegres que já vira em suas andanças. Chegou em um entardecer cortado por um vento gelado e foi recebida na aldeia como a uma princesa. Antes de ser conduzida ao castelo por aldeões risonhos e cordiais, foi convidada a se sentar ao redor de uma fogueira e bebeu vinho doce e comeu a carne mais macia que já havia provado. Todos queriam lhe apertar a mão e diziam “obrigada”, sem que ela soubesse o porque. Estava acostumada a ser tratado com toda consideração, afinal era uma das que mantinha a lei viva, mas nunca se sentira tão especial como neste canto afastado do mundo. No castelo não foi muito diferente, suas irmãs da guilda a abraçaram com carinho e lhe prometeram uma estadia relaxante e proveitosa. Naquela noite Helena dormiu como uma criança, com um abandono vindo da certeza de estar segura.
Foi um período mágico. Pela primeira vez ela se sentia mais como mulher do que como guerreira. Ajudou a tecer o algodão, a preparar o vinho, a estocar alimentos para o logo inverno e aprendeu a forjar uma espada e a derreter seu coração.
Toda guerreira sabe que o amor é algo que não cabe em nossas vidas, não se desejamos continuar a ser guerreiras, somos ensinadas a nos proteger, a nos contentar com amantes que não desejem amarras, ao prazer rápido e indolor das relações de ocasião. Mas nem sempre temos coragem de abandonar o sonho secreto de qualquer coração, que é pertencer a alguém que nos ame apesar de tudo e de todos, quando ele nos bate à porta.
Helena bem que tentou, mas o homem que forjava as mais belas espadas também tinha o mais belo coração e ela se entregou a ele da maneira mais completa. Nunca mais voltou ao seu castelo, nunca mais se afastou mais do que alguns dias de seu amado e nunca se arrependeu. Eu nasci dois anos depois do dia de sua chegada.

31 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (parte 4)

Hoje em dia sabemos que o mundo todo está ativo novamente. Se pudéssemos voar longas distancias veríamos vilas espalhadas pelos quatro cantos do globo As ruínas das grandes metrópoles ainda estão por ai, uma ferida eterna que serve como um lembrete para cada um de nós, mas procuramos levar nossas vidas em campos mais férteis e sem a lembrança constante dos fantasmas que ainda rondam estas ruínas.
Não desprezamos as muitas conquistas dos séculos anteriores à grande guerra, mas escolhemos com sabedoria o que queremos de volta em nossa nova realidade. Por um tempo, logo no inicio, homens loucos por um retorno à um estilo de vida que nem mesmo conheceram, tentaram produzir gasolina usando velhas destilarias, na ânsia por experimentar a velocidade que tanto ouviram falar, outros se preocuparam com pólvora para munição de armas que nem mesmo sabiam fabricar, outros queriam glamour e fotografias e filmes em um mundo revestido pela poeira de séculos. Logo estes poucos loucos foram trazidos à razão. Precisamos de arado e não de automóveis, precisávamos de telhados contra as chuvas e não de armas e a razão venceu sem muita luta.
Nos dias de hoje mantemos nosso padrão de vida extremamente simples. Andamos pelo mundo à pé, à cavalo ou em carroças. Usamos gado puxando os arados que revolvem a terra e plantamos as sementes nos ajoelhando na terra. Não usamos dinheiro, vivemos à base de troca de mercadorias e cada vila tem um deposito onde cada morador doa o que pode para o fundo comum e o usamos para negociar com as outras vilas por produtos que não produzimos. Temos tecelãs, ferreiros, barbeiros, médicos, pedreiros, arquitetos, engenheiros, artistas, perfumistas, inventores, cabeleireiras, parteiras. E também temos encanamento, energia solar, asa delta, navios, prensas para nossos livros, engenhocas fúteis, jogos, e geladeiras. Da energia solar tiramos somente o necessário, que é basicamente para as geladeiras e luzes de emergência. Gostamos mais das velas, talvez nossos descendentes tenham passado tanto tempo na escuridão que nos passaram seu temor pela luz e alem disso com muitas luzes acesas mal vemos as estrelas e, sinceramente, porque alguém gostaria de suplantar o brilho destas?
Nós, as guerreiras, não temos um lar fixo. Muitas comunidades cresceram longe dos castelos e por isso corremos o mundo onde nossa presença é necessária para restabelecer a ordem e com isso passamos a maior parte de nossas vidas nas estradas. Mas nos períodos calmos, quando somos feridas ou quando nossos braços não mais arcam com o peso da espada, então voltamos para o castelo onde nascemos e lá ajudamos a cuidar dos filhos de outras guerreiras e finalmente descansamos.
Esse é o retrato generalizado de meu mundo. Talvez agora eu deva lhe contar mais historias. Historias de minha vida e de como me tornei uma guerreira.

29 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 3)


As colônias se formaram naturalmente. Saídos das profundezas os grupos se mantiveram juntos no primeiro momento. A terra era um lugar estranhamente alienígena e por alguns anos ninguém se arriscou a montar acampamento longe da entrada dos túneis. Nem todos tiveram sorte nestes primeiros anos. Alguns saíram da escuridão para se deparar com desertos onde a água era escassa demais ou em terrenos absolutamente estéreis. Estes desafortunados foram os primeiros a se aventurar à procura de um lugar mais promissor e também os primeiros a ter a confirmação que sobreviventes agora começavam a repovoar a terra. Os primeiros encontros foram cheios de apreensão por ambos os lados, mas misturados com um alivio que logo colocou sorrisos em bocas e estendeu mãos em cumprimentos quase esquecidos.
No começo os abrigos eram sempre provisórios. Todos tinham medo de enterrar raízes que logo poderiam ser arrancadas, mas a ameaça parecia adormecida para sempre e logo vilas foram erguidas em torno de castelos medievais. De certo modo minha irmandade teve muito a ver com a escolha deste estilo de vida. Pelo que se conta, e lá se vão bem uns cinco séculos desde este reinicio, cada comunidade nascida embaixo da terra foi liderada pelas mães e posteriormente por suas descendentes mulheres. Elas cuidaram para que nada da historia se perdesse, foram as guardiãs dos livros reunidos com tanto cuidado, foram as arbitras de tantas disputas e foram elas que propuseram que se tentasse um modo de vida medieval que funcionaria perfeitamente nessa nova terra mais ampla e isenta de tecnologia. Estas mulheres foram responsáveis pela criação da irmandade que hoje governa o mundo. A minha irmandade. Contam ainda que as primeiras guerreiras saíram pelo mundo em busca de novas comunidades para dividir experiências e conhecimento. Dizem que assim tudo começou. A lei veio pouco mais tarde.
Quando a prosperidade e normalidade chegou às vidas dos sobreviventes e seus descendentes, também chegaram aqueles que não queriam gastar o suor do rosto com seu sustento. Nem bem os castelos e suas vilas foram erguidos e logo assaltos e assassinatos começaram a pipocar em uma mensagem clara. O bem sobrevive a tudo, mas o mal também. Antes que houvesse tempo para tais tipos se sentirem confortáveis a irmandade criou a lei. Viver e deixar viver. Dizem que para meio entendedor meia palavra basta, mas existem sempre aqueles que cem palavras não vão convencer. Para estes a irmandade reserva a espada. Ladrões, assassinos, usurpadores, charlatões e delinqüentes não tem espaço no mundo, ou morrem por nossa espada ou se contentam em viver bem longe de nossos olhos.
Cada castelo nesse mundo é nossa casa. Cada aldeia em volta dele é nossa responsabilidade. Não ganhamos nada alem de cama para dormir, comida para alimentar e algodão e couro para nossas roupas. Não somos ricas, temos tudo que é preciso. Não somos donas de nossa vontade, andamos o mundo protegendo os inocentes. Somos filhas de nossas mães e somente isso importa. Temos um destino a cumprir, não é raro nos rebelarmos contra ele, mas nunca lhe damos às costas. Somos guerreiras afinal.

27 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 2)


Meu nome é Anya. Nasci em um dos castelos da irmandade no que já foi conhecido como América do Sul. Não sei dizer direito em que antigo pais está situada a irmandade a que pertenço, mas temos neve ao sul, desertos ao norte e podemos ir de um oceano a outro em uma ou duas semanas de cavalgada, dependendo de sua pressa e de quanto seu traseiro está acostumada à uma sela.
Nasci quando o mundo já havia saído da escuridão há muito tempo. Já não havia perigo em colher frutos das arvores ou de se plantar sementes na terra e nem mesmo de se tomar água de um riacho. O que chamam de radiação já se dispersara. Já não se falava mais dos que haviam vivido na escuridão dos túneis e muitos nem conheciam suas historias de como haviam ido parar lá, alguns até mesmo ignoravam a grande guerra e se cruzavam com os destroços que a antiga civilização deixara simplesmente lançavam um olhar de tímida estranheza. Certas pessoas simplesmente passam pela vida sem fazer perguntas e não sei se isso é ignorância ou sabedoria.
Cresci no castelo cercada por guerreiras. Aprendi desde cedo que éramos nós as responsáveis por fazer cumprir a única lei que as mães trouxeram do mundo antigo e de suas religiões variadas: Respeitar o próximo, independente de credo, cor, idade ou sexo. Desde que as mães se rebelaram nunca mais o poder voltou às mãos dos homens, éramos nós, o antigo chamado sexo frágil, que carregávamos espadas e usávamos roupas de guerra. Éramos nós que mantínhamos a lei e não permitíamos que os oportunistas desfrutassem do trabalho alheio. Caçávamos os ladrões e os executávamos sem piedade.
Mas talvez tenha me adiantado demais no longo caminho que percorremos desde que saímos das entranhas da terra.
Não sei quantas gerações nasceram ignorantes do mundo exterior antes que pequenos grupos de aventureiros começassem a procurar seu caminho para sol. Muitos nunca voltaram, mas com o tempo alguns conseguiram retornar com noticias, quase mortos pela radiação ainda presente na terra. Quem sabe realmente anos ou séculos se passaram na escuridão: Quantos morreram explorando a superfície ainda podre? Mas o tempo cura todas feridas, até mesmo aquelas causadas pelo homem à terra. Um dia um grupo voltou completo e sadio. A água já corria pura novamente, os frutos cresciam, os animais reproduziam, sabe de onde saídos, a vida voltou à povoar a superfície. E eles subiram.
Acredito que por todo o globo a historia se repetiu. Era o começo novamente e era preciso decidir de que maneira viver neste novo mundo.

26 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 1)

É um pouco difícil contar historias quando o começo parece tão distante, mas posso dizer que tudo começou pelo fim. O mundo entrou em colapso. Guerras pipocaram como chagas, povos bem intencionados se meteram em paises aonde nunca deveriam ter pisado, terroristas usaram qualquer desculpa à mão para justificar sua sede de sangue, tolos tomaram lados sem pesar as conseqüências, ignorantes jogaram pedras sem pensar em seus telhados de vidro, bombas demais foram carregadas em aviões muito mais velozes que a luz. Bombas demais. E todas elas encontraram seu destino.
É preciso explicar que ao mesmo tempo que o mundo desmoronava e os jovens morriam combatendo sem ter a mínima idéia de por que lutavam, as mães de todo mundo se uniram. Elas já não suportavam perder seus filhos, filhas, maridos, irmãos para a megalomania dos poderosos. Tudo que importava para estes era o dinheiro, o petróleo, a maquina da guerra enchendo os cofres, o poder. As mães então encheram as ruas, se transformaram em guerreiras usando seus utensílios de cozinha para por fim àqueles que nunca se importaram realmente com o caminho da humanidade. Foi por muito pouco que não tiveram sucesso. Em seis meses já quase não existiam políticos e ninguém levantava a voz para ocupar o lugar daqueles que pereciam merecidamente pelas mãos de mulheres finalmente livres da sensibilidade que as impedia de matar de maneira fria e impiedosa. As forças armadas caiam como castelos de carta. Seus generais, almirantes e brigadeiros sumiam no meio da noite e covas rasas surgiam dentro e fora de instalações militares. Ninguém questionava. Não eram somente as mães que estavam fartas de homens covardes ditarem o destino de suas famílias. Cada ditador do mundo, cada terrorista covarde, cada fanático foi caçado e exterminado com a mesma piedade que demonstraram pelo mundo em que viveram. As mães começaram tudo, mas não foram elas que acabaram.
Os últimos homens sentados em assentos presidências, por trás de seguranças trêmulos de medo e portões fortificados prestes a desmoronar, apertaram seus botões vermelhos. Mísseis cruzaram o mundo em todas direções e o começo do fim chegou em uma nuvem radioativa que cobriu o sol por mais de 100 anos.
Eu sou filha daqueles que sobreviveram. Sou descendente de uma das mães que mudaram o mundo. Sou uma guerreira e o que faço é manter o novo mundo livre dos tipos que nos levaram à quase destruição completa. Sou fruto daqueles que conseguiram viver na escuridão, que quase enlouqueceram pela falta de ar livre, de arvores com frutos, de grama sob os pés, de chuva fresca no rosto, de amanhecer e anoitecer, de liberdade. Eles viveram em túneis cavados na terra por tempo demais, mas as mães nunca desistiram, nunca os deixaram esquecer que a esperança estava no futuro e que era preciso que houvessem descendentes para que a terra pudesse ser povoada algum dia. No futuro. E com o tempo a insanidade foi vencida, a escuridão se coloriu aos poucos e o amor uniu aqueles que acreditavam nas palavras sabias de mães que já não tinham filhos.
Eu sou o futuro e vou lhes contar as historias que precisam ouvir.

21 de jan. de 2008

Goodbye Lucky


Ele se foi como veio, envolto em magia.
Ele era minha luz, meu amuleto da sorte, o sorriso no dia triste, meu raio de sol em meio à tempestade. Ele era meu companheiro especial. Ele era o cão mais amado do mundo.
Nunca pensei que meu próximo post seria para dizer adeus a outro de meus companheiros, muito menos ao meu mais amado. Queria dizer mil palavras, mas elas me fogem. Somente penso em sua docilidade e seu amor incondicional que me levaram para frente durante os anos difíceis. Não sei se paguei todo o bem que me fez, nem mesmo sei se retribui todo carinho que me dedicou. Espero que sim. Rezo que sim.
Meu coração está em mil pedaços. Não sei como catar os caquinhos espalhados entre minhas lagrimas. Não consigo deixar de sentir que ele deveria ainda estar comigo. Não consigo deixar de chorar.
Lucky... Sortudo ele foi mesmo, pois o busquei em um lar sem amor e o enchi de mimos merecidos. Mas a verdadeira sortuda fui eu. Lucky me deu 9 anos felizes e eu lhe dei meu coração. Não sei como continuar sem sua presença, mas já perdi tanto na vida que devo achar um meio.
Ele era o cão mais sensível do mundo, o mais amável, delicado e paciente. Ele era mágico. Um anjo peludo e fofo que gostava de me acordar com o focinho em meu ombro e os olhos brilhantes nos meus sonolentos. Lucky adorava batatas e banana e comia uvas como se elas estivessem à beira da extinção. Adorava os outros cães e nunca se intimidou com seus rosnados, os beijava com carinho todos os dias e eles fingiam que não gostavam, mas eu sei bem que agora sentem falta de seu jeitinho moleque. Amava carinhos e rolava de barriga para cima puxando minha mão como se dissesse “ coça mamãe!”. Ele também adorava falar, era só provoca-lo um pouco e lá ia ele em sua cantoria que quase parecia humana. Nunca chorou neste mês difícil que passou até ir para o céu, onde batatas e bananas e uvas serão sempre infinitas, aceitou tudo com a calma de sempre, sem dor, sem mostrar nada mais do que amor em seus olhos de chocolate.
Lucky... Eu fui a sortuda, meu filho querido, eu fui a premiada com a sua presença em minha vida, eu ganhei o premio inesperado de poder andar ao seu lado.
Fica com Deus e me espere com a calma de sempre. Meu amor não morre com você, ele se expande para o universo do qual agora você faz parte.
Te amo, filho.

1 de dez. de 2007

O Cão Mais Chato do Mundo


Não, Peter!
Chega, Peter!
Para, Peter!
Frases curtas e comuns em minha casa por quase 17 anos. Peter chegou como uma bola dourada de orelhas marrons e olhos amorosos. Desde o primeiro dia considerou o meu lar o seu. Nenhum gemido de saudades por seus pais ou irmãos escapou naquela primeira noite. Lembro como se fosse ontem como o coloquei atrás de minha cabeça no meu travesseiro e do gemidinho que deu no meio da noite. O levei no seu “banheiro”, caminhando pelo corredor curto com ele bem encostado no meu rosto, o cheiro de filhote fresco ainda impregnado em sua pelagem macia. O coloquei no chão em cima do jornal e depois de terminada sua sessão xixi, levantou o focinho diminuto e ficou me encarando. Acho que para ele o curto corredor parecera uma viagem. O peguei no colo dizendo palavras doces que ficaram perdidas pois já dormia novamente.
Cogitamos muitos nomes. Como fora dado como presente de dias mães para a minha, precisávamos nos curvar à sua escolha, mas não sem luta. Peter foi o nome escolhido e o que mais se ouviu dentro de casa por muitos anos.
Já um adulto ele ganhou uma companheira, única lembrança decente de um ano trágico, e logo mais muitos filhotes pipocavam pela casa. Mas era sempre Peter o senhor do lar. Sempre tratou os outros cães como se fossem cães, já que ele nunca se considerou um. Sua energia foi sempre inesgotável e somente este ano se lembrou de envelhecer. O cão chato, mas apaixonado por seus humanos, de repente perdeu a voz potente e começou a tropeçar nas pernas sempre prontas à galopar pela casa. De filhote passou a velho cão, passando a latir menos, a nos perturbar com pouca freqüência. Nos últimos meses ele entregou seu corpo a meus cuidados, finalmente percebendo que já não podia mais pular em nossos braços. Na ultima semana já nem mais percebia com que carinho eu afagava seu dorso cansado.
Dia 30 de novembro, um ontem que para mim ainda é hoje, ele se entregou a o que quer que exista após a morte e eu fico pensando em quanta saudade de sua voz rouca vou sentir.
Ele era o cão mais chato do mundo, mas o mais apaixonado também. Eu o entreguei para seu descanso com o peito dolorido e a casa parece silenciosa demais, mesmo com meus outros cinco cães me rodeando cheios de preocupação e tristeza. Apesar do cansaço, pois há varias noites não durmo cuidando para que seu fim seja delicado e confortável, não consigo dormir. Tenho medo de que no meio da noite minha mão procure por sua cabeça, como tantas vezes nos últimos tempos, e ache somente o chão que já não está coberto por seu colchão e cobertor.
Peter era o cão mais chato do mundo, mas o mundo não é perfeito e muito menos eu, assim, eu o amo como se houvesse sido.
Bom descanso, meu velho amigo, que Deus o guarde até que possa me receber ai do outro lado. Já sinto sua falta. Com amor. Sua humana, Andréa C

29 de nov. de 2007

”Âme Kalulua, mendigo capaz de produzir incomparáveis belezas. O rei, fascinado, resolve dar ao mendigo a chance de morar em seu palácio e ser muito rico. Mas a riqueza de Âme está em si mesmo. Âme é trancafiado em uma cela até que ceda às ordens do rei e crie todas as maravilhas que puder. Diante do infortúnio, o mendigo inventa para si um mundo mágico onde se concentra toda a beleza - que precisa ser efêmera - para que ele viva!”

Você pode ler a descrição acima, mas nunca estará preparado para a mágica do espetáculo apresentado pela Cia Polichinelo de Teatro de Bonecos.

A luz diminui enquanto 3 figuras em roupas negras caminham pelo meio da platéia portando cajados com pontas que iluminam seus rostos fantasmagoricamente. Suas vozes chegam doces aos nossos ouvidos. Eles prometem uma historia. Eles a contam. E nos enfeitiçam.
No palco, em um cenário medieval, se descortina o drama. Meus olhos não mentem e vejo as figuras encapuzadas de preto por trás dos bonecos absurdamente expressivos, mas meu cérebro foi fisgado. O que registro é somente o que eles planejaram. Os bonecos, de bocas imóveis e rodas por pés, me parecem reais e me perco em seus mistérios sem medo.
Na escuridão eles criam sonhos que nunca acreditei serem possíveis. Seguro a respiração a cada vez que a luz se apaga, sabendo que do negro manto algo colorido e espantoso nascerá e voará em direção ao meu coração.
Cedo demais eles retornam com seus cajados para nos dizer que o fim é iminente, mas que nunca é certo. Para mim, que em pé bato palmas até minhas mãos doerem, existem algumas coisas certas. E estou aqui batendo palmas para uma delas.
Tenho a sorte de conhecer os quatro responsáveis por este espetáculo (vantagens de funcionaria do mundo das artes) e finalmente entendo como puderam tornar esse sonho realidade. Certas pessoas simplesmente tem o coração no lugar certo e sempre vão fazer o possível para que outros vejam um pouco alem do mundano.
Como diria Âme, é somente preciso olhar com os olhos da alma. Eu olhei. E você?

Para os interessados a Cia Polichinelo fará novo espetáculo, A Lenda das Lagrimas, no Sábado às 17 horas no Centro da Cultura Judaica (Rua Oscar Freire, 2500-ao lado do metrô Sumaré). O ingresso cabe no bolso de qualquer um, 1 kl de alimento ou 1 livro em bom estado. Reserve seu ingresso.

5° Ciclo Multicultural do Centro da Cultura Judaica

26 de nov. de 2007


Borboletas no estomago. Eu as sinto, acho que todos nós, os escolhidos, assim nos sentimos nessa noite de domingo. É como um carnaval fora de época. Uma páscoa colorida e exótica. Um natal adiantado e extremamente cintilante.
Na verdade o dia ainda não terminou. A curta viagem de casa até meu destino é feita sob o pôr do sol, entre carros cheios de pessoas pensando em terminar seu fim de semana, mas para mim, e os outros que caminham comigo neste barco de velas estufadas pelo vento da insanidade sadia, é só o começo. Somos insanos, sim. Nosso trabalho é fazer com que outros, perfeitos desconhecidos, se sintam bem, se sintam em sintonia com a cor, a forma perfeita (e a imperfeita), o movimento, a nuance da luz. Com a arte.
Hoje todos nós, e nossas borboletas estomacais, estamos nas pontas dos pés, com todos sentidos alertas, vibrando como a lamina de uma espada de samurai. Hoje é um dia esperado e temido, Um erro, um esquecimento e tudo pode desmoronar como um castelo de cartas. Esperamos que cerca de 700 pessoas terminem o dia pensando em nós, pensando em nosso trabalho e no prazer, talvez efêmero, que lhes demos. Esperamos fazer brotar o riso e o sorriso doce frente às pequenas maravilhas que conseguimos reunir. Somo insanos em esperar tanto, mas o somos com prazer e para dar prazer.
Desde a porta de entrada minha boca se torce num sorriso. Tudo vai dar certo. Tudo DÁ certo. Meus músculos faciais doem, meus lábios já beijaram tantos rostos que meu batom é só uma lembrança, assim como são lembranças as preocupações, os ataques de pânico e o estresse tremendo das ultimas semanas.
Musica, cor, palavras de boas vindas e agradecimento, dança, movimento e beleza suspensos por cordas em um vão coalhado de luz, drinks luxuriantes e petiscos servidos como se fossem jóias, exposições de todos os tipos e para todos os gostos, pessoas em um vai e vem que lembra a maré.
A noite finalmente chega ao fim, mas não a euforia coletiva que nos toma por termos conseguido cumprir nossas metas. O momento é devidamente, e repetidamente, fotografado. Tenho certeza que nosso grito de guerra poderá ser imaginado por qualquer um que veja nossas bocas abertas e nossos olhos brilhantes impressos para sempre em papel fotográfico.
Morfeu me chama de entre os lençóis, sua voz doce me pede que esqueça, por enquanto, o sucesso da noite. Amanhã, que já é hoje, o relógio me avisa, será o dia de comemorar realmente o inicio do 5° Ciclo Multicultural.
Para cada um de vocês, insanos maravilhosos e incansáveis, responsáveis por não somente uma noite divina, mas uma semana inesquecível, meu carinhoso boa noite. Que os louros de suas glorias não espetem suas cabeças durante o repouso mais que merecido.
Beijocas de sua companheira de trabalho.
Andréa Claudia Migliacci

18 de nov. de 2007

Ela fazia tudo sempre igual, como a tal da musica de Chico Buarque, mas parecia que não conseguia ser tão eficiente. No começo achou que seguir uma rotina levaria à perfeição, mas acabou somente a levando ao tédio. A vida inteira se esforçara para ser especial, mas parecia que era somente comum. Via pela TV um mundo maravilhoso e excitante do qual queria fazer parte e ao deitar, ao apagar da TV, chorava pelos sonhos impossíveis que tecia embalada pelas novelas. A cada dia ficava mais difícil aceitar que nunca seria famosa, nunca estaria na capa de uma revista, nunca haveriam fotógrafos a seguindo pela rua. Os Reality Shows tornavam tudo ainda mais difícil, muitos eram como ela, pessoas comuns que chegavam à fama como num passe de mágica. Porque não ela? Os dias passavam lentos, em sua simplicidade, lentos demais, anônimos demais. E então aconteceu. Num dia quente de verão ela voltava para casa correndo, apressada para a novela das oito que começava às nove, quando viu saindo de um hotel o seu mais querido astro. Ele estava vestido simplesmente e parecia apressado, mesmo assim ela o abordou insistente. Pediu um autografo e começou a murmurar palavras de adoração desconexas, mas ele tentou se afastar sem atende-la. Agarrou sua blusa e aumentou a intensidade dos pedidos o que o deixou mais nervoso. “Escute, me desculpe, mas meu filho está no hospital e tenho pressa. Fica para outro dia.” Ele sacudiu o braço se livrando de suas mãos súplices e correu para a beira da calçada em busca de um táxi. Ela ficou parada por somente um segundo e neste segundo sua boca se torceu em um esgar maldoso, seus olhos se apertaram com ódio pelo mundo que a recusava. Ela não se apressou, andou até ele de forma lenta e decidida. De sua bolsa tirou o sapato de salto alto que usava no trabalho e com uma determinação que lhe faltava para tudo na vida, o atacou. Muito longe podia ouvir gritos e só parou quando quatro policiais a jogaram no chão e a algemaram. Seu querido astro jazia em uma poça de sangue, morto pela loucura egoísta de uma fã. Seu filho o esperaria em vão em seu leito de hospital e sua mulher passaria a se deitar em uma cama grande demais para sua tristeza. Mas ela, ah ela... Conseguira o que tanto buscara. Por quase um mês estampou todas as capas de revista, foi a chamada principal dos sites de noticias e falou em microfones de todas redes de TV nacionais e até algumas internacionais. Decidiu escrever um livro sobre sua vida medíocre e viver eternamente como celebridade. Pena que um político resolveu transar com uma garota de programa durante uma noite em uma boate de sexo explicito onde vários celulares registraram a cena. Ela foi esquecida, mas não pela justiça. Ela agora faz tudo sempre igual, como aquela tal, é perigoso fazer diferente na cadeia.

15 de nov. de 2007

Quando Atlas levantou o mundo em seus braços com certeza alguém tentou se sentar em cima da bola gigante para aproveitar a carona.
Existe uma grande diferença entre pessoas poderosas e pessoas com poder. Pessoas chegam ao poder por diversos meios e os mais intrigantes caminhos, mas isso não quer dizer que tenham dentro delas o poder para estar lá. Para chegar ao topo costumam usar qualquer artifício, como subir nos ombros de um amigo poderoso ou pisar nos corpos crédulos dos infelizes que cruzam seu caminho ou mesmo usar de chantagem, furto de idéias e às vezes até um pequeno assassinato. È o mundo cão com o qual acostumamos a conviver, mas isso não quer dizer que seja preciso aceita-lo. Incomoda-me enormemente ver pessoas “com poder” abusando de suas posições pelo simples prazer de diminuir os outros. Parecem sempre adorar apontar os erros alheios, mas se negam a aceitar recriminações, mentindo e jogando seus erros para outros, aqueles pobres coitados em quem gostam de pisar. Essas pessoas gostam de falar alto, o famoso ganhar no grito, por falta total de base em suas idéias. Também adoram usar o “eu” em todas as frases. Eu fiz, eu consegui, mas sempre esquecem dos que foram realmente responsáveis pelo sucesso. Quando são magnânimos e cumprimentam alguém por seu trabalho, tem sempre o cuidado de usar um tom condescendente que mais diminui do que eleva. Pessoas com poder são sempre perigosas, pois somente desejam mais poder em vez de realização. Os poderosos, os poucos e reais que existem no mundo, exigem tanto dos outros quanto de si mesmos e sabem que não chegaram ao topo sozinhos, por isso premiam, festejam o sucesso alheio e incentivam aqueles que estão em posição inferior com sinceridade. Mesmo quando comem seu rabo os verdadeiros poderosos o fazem com tato, minimizando a magoa causada com um “e agora deixemos isso para trás”. Quando se dizem decepcionados despertam nos outros a vontade de lutar e estendem a mão quando é preciso. Infelizmente muitos poderosos são magnânimos e se cercam de pessoas que buscam o poder e voltamos ao inicio...
Vejo cada dia mais pessoas com poder por todo lado e é isso que me leva a apreciar cada vez mais os poderosos de mentes afiadas e instinto preciso e isso me leva a desejar ser sempre a eminência parda por trás do poderoso, o facilitador, o assistente insubstituível e anônimo, que realmente se importa e realmente trabalha por um bem comum e não somente para beneficio próprio. I’m a facilitator and I don’t mind it.

9 de nov. de 2007

O Comercial.
Mulher tipo executiva liga pra o marido “Amor, estou atrazada, me faz um favor? Liga o forno e passa SBP na casa?” É vista em seguida comprando flores e chegando em casa com um sorriso no rosto;
Marido tipo executivo atende telefone “Oi amor, claro que sim.” E depois de ligar o forno passa SBP na casa onde filhos felizes se comportam como diminutos seres humanos.
Agora.... A realidade.
Mulher tipo executiva, desgrenhada de cansaço e com cara de poucos amigos, com a meia desfiada e tentando acertar uma unha lascada com os dentes, liga para o marido.
“Roberto? Faz um favor?”
Homem tipo executivo em fim de dia, suado, moído, meio barbudo, com uma cerveja na mão, responde distraído enquanto procura por algum tipo de esporte na TV.
“Quem é?
“Como assim quem é, seu tapado. É sua mulher; Vê se liga o forno pra esquentar a comida que a empregada deixou e passa a porra do SBP na casa que tá cheio de mosquito e eu não quero pegar dengue.”
“Marta? Você não tá em casa?”
“Claro que não, seu lerdo, tava numa reunião com o incompetente do meu chefe. Como assim eu não tô ai?”
“Achei que você tava na cozinha, ouvi uns barulhos por lá. Quer dizer que o jantar vai atrasar? Mas eu to com fome, Marta...
“Você nem pensou em ver se era eu na cozinha? E se for um ladrão? E onde estão as crianças?”
“Eu gritei que cheguei e você não respondeu achei que tava de TPM. E como podia ser ladrão se eu achava que era você na cozinha? Sua irmã deixou as crianças aqui e disse que você tá criando deliquentes. Como é que liga o forno?”
“Roberto, você é um asno. E quem é minha irmã pra falar mal dos nossos filhos? E a culpa é sua que é um molenga e não dá o exemplo pra eles. E quer ir na cozinha ver quem ta lá? E manda as crianças calarem a boca que dá pra escutar os gritos daqui.”
Um minuto de silencio pesado com recheio de fundo de gritos histéricos infantis.
“Roberto? Roberto! ROBERTO!!!”
“Marta? O cachorro abriu o forno e comeu o jantar.”
“Ahiiiiiiii...”
“Você trás uma pizza, Marta?”
“Roberto, juro que...”
“Juro que passo o tal do SBP. Passa aonde mesmo? Onde aperta esse treco?”
“...”
“Marta?”

4 de nov. de 2007

Podia ler suas mentes com a mesma facilidade com que lia um livro. Para ele era natural, seu povo nascia com este sentido assim como nós, pobres mortais nascíamos com nossos cinco mal usados. Sentava nos telhados durante as madrugadas aprendendo o que movia os seres humanos comuns. Eram tão estranhos seus pensamentos, cheios de ódio, sexo e mentiras. Mesmo lendo tanta futilidade em suas mentes não podia deixar de se sentir fascinado por este povo auto-destrutivo e violento. É desnecessário contar toda sua historia agora, eu a tenho em paginas e paginas que um dia, quando o mundo puder entender uma criatura assim fascinante, espero publicar. Talvez a vejam como ficção e será melhor assim. Ele procurava por alguém, mas seu encontro com Cat estava marcado para futuro próximo. Não hoje. Hoje ele ouvia atento e tentava entender como um povo tão egoísta conseguia sobreviver. De seu lugar no alto do telhado de uma casa em uma rua tranqüila, ele esperava e ouvia e lia mentes que divagavam em pensamentos estúpidos. Ele tentava, muitas vezes, interferir nestes pensamentos, mandar mensagens positivas que aliviariam suas vidas, mas as pessoas resistiam. Pareciam gostar de se sentir miseráveis e transformavam boas noticias em más num piscar de olhos. Uma promoção se transformava num transtorno pelo trabalho a mais que traria. Um novo namoro gerava somente duvidas em vez de perspectivas. Uma gravidez se transformava em preocupação com o peso em vez de uma benção. Ele pensava que todos seres humanos simplesmente careciam bom senso. Já pensava em se recolher quando ouviu, em sua cabeça, um cantarolar suave e meio desafinado. “Não, não era assim. Como era mesmo?” e o cantarolar continuou agora mais firme “Ah, é isso.” Ele sorriu da felicidade que o pensamente da mulher, a simples satisfação de achar o tom certo de uma melodia. Ela subia a rua com um passo gingado que combinava com a musica em sua cabeça e parecia simplesmente alegre nessa hora perdida da noite. Carregava uma sacola pesada e seu rosto parecia cansado por um dia caprichosamente difícil. Ele sentiu, mesmo sem ver, a presença do outro que também a observava, mas não com a sua intenção benigna. O outro saiu das sombras e a atacou quando ela estava no ponto mais escuro da rua. Ele pulou do telhado em um movimento fluido e aterrizou sem que um som o revelasse. Com uma só mão agarrou o outro e o jogou do outro lado da rua onde ele permaneceu sem se mover. Ela o olhava sem medo, somente arfando pelo susto de momento antes. “Obrigada.” Ele acenou com a cabeça e sorriu sem dizer uma palavra. Ela retribuiu o sorriso e olhou para o outro agora fora de combate. “Você é algo assim como um super herói? Voando de telhados e nocauteando bandidos? Não... Você não falaria, mesmo se fosse. Obrigada assim mesmo.” Ela o olhou novamente, sorriu, recolheu suas coisas espalhadas e partiu cantarolando suavemente. Ela a seguiu até sua casa pelos telhados, enviando mensagens de segurança para ela e sentou até o amanhecer em frente à sua casa pensando que era isso que o fascinava nos seres humanos. Viviam em estado de alerta, suas vidas valiam menos que o papel onde seu dinheiro era impresso e mesmo assim... mesmo assim haviam os que ainda podiam cantarolar uma musica suave na escuridão da noite.

2 de nov. de 2007

Existe algo de impressionantemente belo na violência da natureza. Não consigo temê-la, nem mesmo recuar um passo à vista de sua ira. Ao contrario do homem, a natureza solta seus demônios de maneira graciosa e mesmo quando mata, danifica ou destrói, é passível de admiração. Vejo, da minha janela aberta, a tempestade apagar o mundo conhecido e toldar tudo com um manto liquido. Em poucos segundos o vento trás até mim a água pura e me molha da cabeça aos pés. Sinto-me purificada. Pode parecer estranho esta fascinação por uma violência incontrolável e imprevisível, mas sinto, a cada tempestade, como se algo maligno fosse retirado de minha alma e se desintegrasse no vento. É como se eu precisasse destes fenômenos para estripar o que há de potencialmente perigoso em mim. Sei que sou capaz de atos terríveis não fosse o freio da humanidade imposto por séculos e séculos à raça humana, mas sei que somente eles ainda me deixariam com sede de sangue. É preciso uma boa tempestade para que eu me contente com um doce e saboroso chocolate.

12 de out. de 2007

Pela porta entreaberta somente uma réstia de luz entrava. Mas não. Algo mais se insinuava por entre as sombras como brisa. O som da melodia a despertou de um sono monótono onde por cobertas tinha suas preocupações e sonhos despedaçados. Não se levantou e nem mesmo abriu os olhos. Deixou que a musica entrasse por seus poros e inundasse seus sentidos. O piano e o violino duelavam com maestria num combate sem sangue nem dor e ela deixou as lagrimas fluírem, deixou que soluços cortassem sua garganta num pranto sem motivo, a não ser o de que sua vida era por vezes dolorosa, por vezes absurdamente cheia de encruzilhadas. A musica não tinha fim e talvez nunca tenha tido um começo. Sua impressão era que o céu se abrira e despejara notas mágicas para curar almas sofridas como a sua. Nesta noite não era preciso se ter olhos, somente ouvidos atentos para as maravilhas que o silencio podia trazer. E ela ouvia. E chorava. As lagrimas se acabaram docemente, lavando os restos de magoas que pensava esquecidas. O sono chegou para um coração mais leve e quando o primeiro raio de sol rasgou o céu ela dormia com um sorriso no rosto e músculos relaxados. A musica desapareceu entre os dedos da noite sem ninguém notar, mas os corações doloridos acordaram esperançosos no novo dia que nasceu.

1 de out. de 2007


Satisfação nem sempre vem por algo que você faz. Ela pode ser fruto do orgulho por se fazer parte de algo que é belo e sólido. É muito bom ser reconhecido por algo que se faz, mas é melhor ainda quando colhemos louros por um trabalho suado em equipe onde cada um olha para o outro e diz “bom trabalho” sem esperar por retorno, com uma admiração pura e sincera. É a primeira vez em minha vida que me sinto assim. É também a primeira vez que recebo tantos elogios sem que saiba se os mereço, mas os recebo com o coração leve e a certeza cada vez me esforçarei mais para merecê-los. É engraçado sentir essa coceguinha gostosa chamada “realização”, achei que fosse mito, ou mentirinha contada para nos ajudar a seguir em frente, mas existe de verdade e me traz um sorriso bobo nesse rosto cansado. Não é estranho esperar a vida toda por algo que deveria ser uma constante em nossas vidas? Não é estranho passar a vida fazendo tudo certo sem nunca alcançar a satisfação necessária para encontrá-la quando desistimos de procurar e nos contentamos com o ordinário? A beleza da vida é que o inesperado está sempre nos espreitando e não importa se deixamos de acreditar em fadas ou não, o que importa é que na próxima curva toda sua vida pode mudar e você nunca estará preparado. Nunca.