2 de fev de 2008

Depois da Escuridão (Parte 5)

Minha mãe não era residente do castelo onde nasci. Seu nome era Helena e estava viajando pelo mundo, como fazem todas guerreira pelo menos uma vez na vida, para aprender o que houvesse para ser ensinado, para ver o que houvesse para ser visto e para contar o que existisse para ser compartilhado. Ela veio do que se conheceu como Europa e lembro ainda de sua voz suave e seu sotaque sedutor. Era uma bela mulher. Seus cabelos eram castanhos, longos e de reflexos acobreados e combinavam perfeitamente com sua pele clara e seus olhos verdes. Seu corpo era como de toda guerreira, musculoso e forte, moldado pelo esforço da cavalgada e pelo exercício com a espada. Tinha a face direita cortada por uma cicatriz, uma linha clara e fina que lhe emprestava um ar misterioso e contemplar seu corpo nu era o mesmo que ler a historia de suas batalhas. Era uma beleza selvagem e talvez eu esteja romantizando demais a mulher que me deu a vida, mas não fui eu a única cativa de seu encanto.
Helena chegou ao sul da América do sul no outono, quando a nove ainda era somente uma promessa. Ela já viajara por todo o mundo e seu coração já ansiava por retornar ao seu lugar de origem. Mesmo na vida que levamos, sempre nas costas de um cavalo, aprendemos a voltar para nosso “lar” o maior numero de vezes possível, mesmo que por uma ou duas noites, para não perdemos a pouca identidade que temos. Helena já não via as paredes de seu castelo de origem há pelo menos três anos e sentia falta dos encontros com suas companheiras, a única família que existia para uma guerreira, das noites em volta da lareira contando historias das estradas por onde andavam e dos casos que resolviam. Há três anos era uma querida visitante, uma amada irmã, uma bem vinda guerreira, mas sempre a estranha que logo seguiria seu caminho. Aprendera muito, fizera algumas amizades, que se o tempo permitisse gostaria de conservar, ganhara mais algumas cicatrizes em batalhas e agora chegava quase no extremo do mundo, seu ultimo destino e então poderia retornar.
O castelo era um dos mais belos que Helena já vira. Estava aninhado aos pés da cordilheira que corta o continente e que por si só é um espetáculo a ser registrado. A vila, aos pés do castelo, era prospera e o povo um dos mais alegres que já vira em suas andanças. Chegou em um entardecer cortado por um vento gelado e foi recebida na aldeia como a uma princesa. Antes de ser conduzida ao castelo por aldeões risonhos e cordiais, foi convidada a se sentar ao redor de uma fogueira e bebeu vinho doce e comeu a carne mais macia que já havia provado. Todos queriam lhe apertar a mão e diziam “obrigada”, sem que ela soubesse o porque. Estava acostumada a ser tratado com toda consideração, afinal era uma das que mantinha a lei viva, mas nunca se sentira tão especial como neste canto afastado do mundo. No castelo não foi muito diferente, suas irmãs da guilda a abraçaram com carinho e lhe prometeram uma estadia relaxante e proveitosa. Naquela noite Helena dormiu como uma criança, com um abandono vindo da certeza de estar segura.
Foi um período mágico. Pela primeira vez ela se sentia mais como mulher do que como guerreira. Ajudou a tecer o algodão, a preparar o vinho, a estocar alimentos para o logo inverno e aprendeu a forjar uma espada e a derreter seu coração.
Toda guerreira sabe que o amor é algo que não cabe em nossas vidas, não se desejamos continuar a ser guerreiras, somos ensinadas a nos proteger, a nos contentar com amantes que não desejem amarras, ao prazer rápido e indolor das relações de ocasião. Mas nem sempre temos coragem de abandonar o sonho secreto de qualquer coração, que é pertencer a alguém que nos ame apesar de tudo e de todos, quando ele nos bate à porta.
Helena bem que tentou, mas o homem que forjava as mais belas espadas também tinha o mais belo coração e ela se entregou a ele da maneira mais completa. Nunca mais voltou ao seu castelo, nunca mais se afastou mais do que alguns dias de seu amado e nunca se arrependeu. Eu nasci dois anos depois do dia de sua chegada.

Um comentário:

Taumaturgo disse...

Olá Déia.
Com saudosismo deixou-me por um tempo. Sempre vinha passear por aqui e ver se estava escrevendo.
Aqui é o dono das antigas casas
www.oceuestacaindo.
www.thegardensecret.
www.guardiaodanoite.
e tantos outros refúgios.