18 de fev de 2008

Depois da Escuridão (Parte 16)

Anya foi levada até seu quarto e deixada à sós, mas não por muito tempo. Logo Enair voltou com ungüentos e faixas para seus ferimentos.
“É melhor se despir, sozinha não vai conseguir limpar os ferimentos. Se me permitir, é claro.”
Anya nem respondeu, pois sabia que não conseguiria enfaixar seu braço como deveria. Tirou as roupas e deixou que Enair visse o rasgo largo em seu ombro direito, feito por uma lamina enferrujada nas mãos de um rebelde repulsivo que a atacara pelas costas, e a perfuração em sua coxa direita, feita por um punhal cravado e virado em sua carne como um espeto.
Enair soltou um gemido de pesar. Como Anya chegara tão longe e suportara a dor até agora era uma coisa que não podia entender.
“Preciso limpar profundamente e vai doer. Quer um pedaço de couro para morder?”
“Não é preciso. Já tive ferimentos piores.”
Enair respirou fundo e limpou os ferimentos cuidadosamente com álcool de ervas. Não foi fácil e muito menos indolor. O ferimento da coxa começava a purgar e foi preciso raspar o tecido morto. O do ombro não estava tão mal apesar de ser grande, mas não era tão profundo e não atingira nenhum músculo. Enair então cobriu os ferimentos com um ungüento meio fedido, mas que aliviou milagrosamente a dor que Anya sentia, e os cobriu com bandagens enrolando faixas de algodão para proteger.
“Obrigada.” Anya disse simplesmente e vestiu um camisão de linho fino que usava para dormir e também porque era uma de suas ultimas peças limpa.
“Vou deixa-la agora. Vou deixar estes frascos. Este, verde, vai te prevenir de infecções, é muito amargo, mas eficiente. O do frasco vermelho é um sedativo leve. Uma colher de cada te dará uma noite mais tranqüila. Se acordar no meio da noite tome mais uma colher do verde e outra pela manhã.”
“Obrigada, Enair.”
Ambas inclinaram a cabeça em um boa noite e Anya estava novamente sozinha. Ela tomou o xarope amargo para a infecção, mas guardou o sedativo na sacola de viagem. De jeito nenhum toldaria seus sentidos neste castelo.
Deitou na cama e se concentrou em cada nervo de seu corpo, cada músculo, cada membro, cada órgão. Concentrou-se até que seu corpo pareceu ficar livre de qualquer sensação que não fosse a de não ter peso e forma. Anya existia, mas seu corpo repousava recobrando forças enquanto sua mente vagava. No começo somente ouvia. O vento forçava as persianas, fazendo com que tremessem como castanholas nas mãos de uma dançarina, assobiando pelas frescas, gemendo lamentos. Anya excluiu estes ruídos, não interessavam. Com um pouco mais de esforço começou a escutar o que realmente queria.
Um castelo é como uma câmara de ecos, passos viajam de uma ala a outra e vozes são carregadas pelos corredores. Anya pode contar ouvir muitas vozes, baixar e roucas, como que cansadas, sempre aos sussurros, soando mais como animais do que pessoas. Os passos também não eram os que Anya esperava encontrar em um castelo da irmandade. Eram arrastados e pesados, muito diferente dos passos lépidos e apressados que eram comum nas guerreiras, mesmo as mais velhas.
Este não era um lugar comum. Era como se um manto de desesperança o cobrisse. Não havia espaço para risos ou conversas animadas. Este era um lugar amaldiçoado.

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