
Sempre espero que Stephen King me decepcione. Quase aconteceu com The Colorado Kid, mas acabei entendendo o que ele pretendera com o livro, provar uma teoria, e ele consegue, como sempre. Mas para mim foi um livro fraco e esperei pelo próximo com a sensação de pesar de quem perde um grande amigo. CELL chegou em paperback e o ignorei, um novo Stephen King, grande tentação, possível grande decepção? Medo me fez investir nos antigos King, aqueles com mais edições do que a idade de meus cães, mas CELL continuava na prateleira piscando para mim irreverente. “Me leve... Sou seu... Medo de que, já não nos conhecemos há tanto tempo?” E eu não resisti. Resisti por quase um mês, o deixando de molho na prateleira dos não lidos, mas é um King não lido e parece pulsar cada vez que meus olhos passam sobre ele. O pego. Mastigo a primeira pagina devagar, receosa, sem nunca ter lido sua contracapa para saber que tipo de King era este. Na décima pagina já me agito, é um King, sim, e com gosto de The Stand, apocalíptico, enigmático. Não sei quantos dias levei para lê-lo. Três ou quatro, não mais do que isso, e relendo às vezes capítulos inteiros à procura de pistas, revendo emoções, chorando pelos mortos. Como todo King este me deixou exausta, sofri com cada personagem e a cada morte dolorosa me lembrava de seu conselho aos novos escritores em seu livro On Writing “Kill your darlings! Kill your darlings!”, não somente no sentido de silenciar um personagem, mas de ter coragem de cortar o supérfluo que por vezes nos parece tão bonito, mas é somente floreio desnecessário. Ainda estou exausta. Há dois dias tento abrir um novo livro e não tenho coragem. Tenho medo de tirar de minha cabeça o horror, o amor, o sentimento, a possibilidade assustadora do futuro, a jornada imprevisível, as medidas extremas que podemos tomar quando desafiados, a coragem que nasce no coração dos abandonados, o pulsar que só Stephen king consegue dar. Sem contar que peguei uma certa aversão pelo meu celular.