18 de jul de 2011

Mist's Knight

Ele era um velho guerreiro. A estrada era a sua casa há tanto tempo que já não sabia de onde viera e, no seu atual estado, nem para onde ia. De guerra em guerra parecia ter perdido a memória do homem por trás da espada. Não que para os senhores da guerra importasse, cada homem a seu comando era dispensável, só a busca eterna por gloria, terras e tesouros importava.
Mesmo não sabendo quem era, para onde ia e de onde viera aos poucos o guerreiro se deu conta de como vã era essa busca e anos nela somente lhe trouxeram cicatrizes, frieiras e um estômago fraco. E foi assim que um dia ele embainhou a espada e deu as costas à luta. Seguiu por estradas cercadas por campos inférteis que ajudara a esvaziar e por cidades onde os fantasmas daquele que despachara para o alem ainda rondavam. Viu os espíritos inquietos o cercarem, alguns com fúria outros somente com tristeza, e em uma voz quebrada pela falta de uso lhes pediu perdão. Sentou em praças vazias e falou de como havia perdido mais de metade da vida obedecendo a ordens por ser o que fora ensinado a fazer. Contou da vida que não tinha, da bolsa vazia, do corpo maltratado, da espada sangrenta e do cavalo já velho e cansado que o carregava agora pelo mundo por também não conhecer nada alem desse homem sem destino ou memória.
Foram muitas cidades e muitos espíritos, mas no fundo de seu peito, naquele lugar onde dizem estar um coração, ele sabia que era o certo a fazer e de cidade em cidade foi contando suas historias até que entre os espíritos começaram a surgir os vivos, pessoas comuns e simples que a principio se espantavam com esse guerreiro solitário, mas logo se tornavam presas de suas historias e sua voz rouca e triste.
Logo não haviam mais espíritos, estava em terras que já haviam se recuperado da devastação que a maquina da guerra causara há anos e anos. Mas o guerreiro não notava. Para ele ainda eram, todos aqueles que o escutavam, suas vitimas.
Sua figura e sua historia se tornaram conhecidas. Mensageiros eram enviados para avisar de sua chegada e banquetes preparados para acompanhar suas historias. Ele nada bebia ou comia. Vivia de pães e maças e água que comia e bebia enquanto andava entre a neblina nas madrugadas frias. Dormia sobre a palha fresca das estrebarias recusando cama e teto. As pessoas começaram a pensar nele como um homem santo, se penitenciando pelos erros do passado, mas ele somente não mais conhecia cama e ficar cercado por quatro paredes o intimidava, assim como a comida farta não apetecia ao seu estomago fraco, nem o vinho ao seu cérebro confuso.
De uma cidade a outra ia até que um dia não chegou como esperado. Todos o esperavam com o banquete, a fogueira, a palha fresca na estrebaria, o pão recém saído do forno, a maça colhida antes do amanhecer e a água fresca do poço, mas pela pequena estrada lamacenta ele não veio. Até o amanhecer o esperaram e quando nenhum sinal dele tiveram os homens atrelaram seus cavalos, os garotos apanharam seus cães e as mulheres pularam nas carroças e foram a sua procura. Pelo meio da floresta procuraram. Pelas estradas, nos lagos, nos campos cultivados. Nenhum sinal do triste guerreiro. Foram até a ultima cidade onde ele estivera e dali, com os habitantes desta, buscaram novamente.
Nunca mais uma cidade o viu contar suas historias. Ninguém mais o viu curvado sobre o cavalo a caminhar sob o sol. Não sob o sol.
Dizem que nas noites onde a neblina é tão baixa, que parece subir do chão em vez de descer do céu, ele cruza as estradas e sussurra para o vento. Dizem que o pão, as maças e a água que deixam nas entradas das cidades às vezes somem. Alguns dizem que são os vagabundos que as levam, outros sorriem sabiamente ao ver as flores vergadas que nascem no lugar das oferendas. Flores sem nome, tristes e cinzentas como uma noite de neblina. Dizem que se as colocar bem próxima ao seu ouvido pode escutar em sussurros roucos as historias que antes um só homem contava.

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