23 de ago de 2009

A Casa ao Lado


A loucura corre pelo seu sangue. Não há nada que possa fazer para combatê-la e sabe disso. A cada dia que passa se vê mais e mais parecido com seu pai. O humor que se altera rapidamente, a destemperança, a raiva surda que lhe toma o corpo por qualquer motivo. Enquanto crescia, e via a mãe ser subjugada por gritos e ameaças, pensava que seria tudo diferente quando finalmente fosse um homem, mas hoje, quase um com seus 20 anos, sente no sangue que corre pelas suas veias a mesma loucura que toma conta de seu pai com mais freqüência conforme envelhece. Vê em sua irmã um pouco dessa insanidade também, mas é uma forma mais pura e saudável que se revela em sua rebeldia contra a loucura de ambos. Sim. Ambos tiranos. Ele nunca percebera, mas se tornara pouco a pouco um tirano também, usando a loucura do pai contra mãe e irmã, usando o medo como ameaça, usando a própria loucura a seu favor quando lhe interessava. Mas agora tem medo. O pai é ainda forte e sua loucura o torna ainda mais forte. Ele sabe que o único freio que impede o pai de derramar o sangue dos que estão sob seu julgo é o medo da vizinhança. Apesar de nunca interferirem todos na pequena rua ouviam os gritos do insano com atenção, prontos a ligar 190 se não fossem as portas a serem batidas e os pratos a serem atirados contra as paredes. Ele também tem medo daqueles que o olham com pena, mas também acusação, pois já estão ouvindo os seus próprios gritos, seus rompantes de raiva. Ele acelera o carro com raiva. Seu pai não permite que tenha a chave da garagem e a cada vez que sai com seu carro velho recém comprado precisa esperar que o pai venha, tire seu carro para que ele coloque a lata velha que pôde comprar. E a cada vez o pai explode. Por ser interrompido. Por não ser o único a ter alguma liberdade agora. Pelo prazer de humilhar. Ah, ele tem medo. Medo de não poder dominar como o pai, de sua loucura ser por demais aparente para que consiga casar e ter filhos, um clã para dominar. Ele tem medo de nunca revidar as palavras duras, os insultos gratuitos. Ele tem medo.
A porta da garagem se abre e o pai aparece à porta com o rosto contorcido de ódio, ele deveria saber que acelerar por tanto tempo à porta o deixaria com raiva, mas a loucura está em seu sangue e ela não pensa, somente age. O velho está parado o olhando com certo prazer, na certa imaginando o quanto o torturara. E de repente seu pé cansado solta a embreagem e o carro avança com um tranco atirando o velho garagem abaixo. Ele ouve, mesmo de dentro do carro, o som oco que a cabeça do pai faz ao se chocar ao concreto.
E assim, de repente, todos se vêem livres. O “acidente” é aceito e esquecido rapidamente. Tragédias acontecem. Sua mãe e irmã parecem se iluminar a cada dia, ele finalmente é livre para ir e vir, todos poderiam enfim viver em paz.

Mas a loucura também viaja em seu sangue, ele sabe, não demora para que passe do adolescente genioso para o homem insano. Ele sabe e tem medo.

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