11 de mar de 2007

Memória

Quando ela abriu os olhos foi como se fosse pela primeira vez. Não podia se lembrar de como chegara neste quarto esterilizado de hospital. Nem mesmo podia se lembrar do nome pelo qual devia atender. Seu corpo parecia inteiro. Podia mexer pés, pernas, braços e até movimentar o tronco, que mesmo dolorido respondia a seus comandos. Apesar da falta completa de memória, que deveria preocupar ou apavorar qualquer um, ela estava calma. Na verdade sentia um alivio extremo. Fechou os olhos e soltou um suspiro que parecia estar preso em seu peito há muito tempo. Era estranho sentir tanta paz em meio à nuvem que toldava suas lembranças, mas ela não sentia vontade de se redescobrir. Este branco total. O dia se passou entre cochilos e visitas de médicos e enfermeiras que tentavam consola-la e anima-la sem perceber que ela não precisava disso. Estava perfeitamente feliz. Nada é perfeito e, para provar que a felicidade dura pouco, o dia seguinte foi como a tempestade que destrói a colheita, afoga o gado e derruba a casa. Ela acordou para ver a face de um homem debruçado sobre ela. Seu rosto carregava mais irritação do que preocupação. Em seu encalço entraram cinco crianças de idades variadas, mas todas com péssima educação. Ela fechou os olhos para eles e tentou também fechar a mente, mas os gritos infantis e as reclamações de seu marido trouxeram de volta tudo que tão alegremente esquecera. “Mamãe preciso disso, daquilo, quero, me dê, AGORA! AGORA!” e “porque você é tão desastrada? Sabe quanto vou gastar de hospital por causa de sua estupidez? Levante logo e vamos pra casa que as crianças tem fome e eu preciso passe minhas camisas e arrume a bagunça dos últimos dias.” Os médicos nada puderam fazer a não ser libera-la. Chegando em casa ela se lembrou do tombo que levara. A queda pela escada, empurrada por um marido irritado e desequilibrada por filhos endiabrados a quem o marido proibia punir. Ela voltou a seus afazeres, mas seu coração ansiava pelo esquecimento dos últimos dias, da tranqüilidade e paz que não existiam em sua vida. Durante uma semana ela tentou esquecer dos breves momentos de felicidade, mas foi impossível. Um dia, depois de seu marido sair para trabalhar e enquanto os filhos se ocupavam em destruir a casa, pegou um martelo e se nocauteou com um belo golpe. Dessa vez ela ficaria um bom tempo no hospital e com certeza não recuperaria a memória. Com certeza.

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