
Ele me chamava de senhorita, talvez lendo minha mão nua, talvez adivinhando meu coração solitário. Algumas vezes, quando tinha tempo e parava para mais do que um BOM DIA! esfuziante, me beijava a mão em uma galanteria de outro século. Elogiava minhas roupas, meu novo penteado, meu sorriso matutino e minha disposição eterna para trocar palavras com ele. Pela manhã usava um roupão atoalhado, quente e um tanto gasto, como ele mesmo e a casa dilapidada por trás do portão. Eu o via logo ao virar a esquina de minha rua, catando as folhas da calçada, uma mão na altura dos rins para equilibra-lo. Ele me esperava na esquina. Olhos brilhantes por baixo de sua boina antiquada. 80 anos? 90? Não sei, mas sei que sua voz ainda era firme e suas palavras sempre polidas e embaladas em frases escritas com letras rebuscadas. Gostava de fantasiar sobre seu passado. Poderia ter sido qualquer coisa, mas o imaginava sempre em um fraque e cartola, pois combinava com seu porte principesco e sua educação britânica. Nos fins de tarde usava um roupão de tecido muito masculino por cima de suas roupas e no rosto, mal aplicada, uma base clara e pó compacto, talvez para cobrir o passar dos anos, talvez para esconder algo pior do que somente a idade. No fim do dia eu sempre parava no seu portão para um breve relato do meu dia. O tempo, o transito e o dia no escritório. Sentia vontade de beija-lo e passar os dedos suavemente pela sua face nobre, mas nunca o fiz. Não o vejo mais. A casa, que antes parecia mal cuidada, agora caminha à passos largos para a ruína completa. As persianas quebradas antes tinham charme, agora só me lembram olhos vazios e sem futuro. O jardim selvagem já não tem a mão gentil para o afagar e parece querer tomar cada canto. Meu coração se aperta quando me aproximo e amaldiçôo os dias em que mudei de caminho e o perdi de vista para sempre. Já não há BOM DIA!, nem beijos delicados em minha mão, não há esperança de retorno e nem de despedida. Meu cavalheiro se foi e, mesmo que ainda viva, não retornará. Eu me sinto um pouco mais solitária.