19 de out de 2010

O Amigo


Ela ouviu a ultima reclamação com o rosto composto, a pura imagem da resignação. Era sempre assim. Ele aprontava e ela levava a culpa. Fora assim a vida toda. Desde pequena, menina comportada e tímida, se via em meio às situações mais constrangedoras pela conduta perversa deste que se dizia tão seu amigo. “Vou estar sempre ai seu lado.” Ou “vamos ser unidos para sempre” ou “só você parece me ver como sou” ele sempre dizia estas coisas e a convencia que juntos eram melhor que separados, que unidos eram mais fortes, que este vinculo os fazia especiais, mas não era como ela se sentia na maior parte das vezes. Lembrava-se com clareza quando ele quebrara a jarra de cristal de sua avó e a culpa acabara sendo sua já que ele como sempre se escondeu em um canto e com seu sorriso meio de culpa, meio de graça, assistindo a bronca e o castigo que se seguiu sem remorsos. Ele era assim, não exatamente ruim, mas maldoso com certo charme. E ela sempre o perdoava. E ele sempre voltava a aprontar como se para sempre estivesse na infância.
Ela cresceu e seguiu o seu caminho. Ele a seguiu. Como sempre. Parecia incapaz de viver sem a sua presença e também parecia incapaz de viver sem atrapalhar cada passo de seu caminho. A seguiu pela faculdade, roubando seus trabalhos, escondendo seus livros, a atrasando para encontros, a embaraçando nas festas a fazendo beber demais e quase a fazendo perder a própria formatura. Tentou mudar de cidade, arrumou um emprego e tentou a tal vida nova que tantos experimentam e dizem maravilhas, mas não passou muito tempo antes de ele chegar de mala e cuia e se instalar em seu quarto de hospedes tornando sua vida absolutamente impossível novamente.
Sentia muitas vezes que sua vida pertencia mais a ele que a si mesma. E ele a usava sempre da maneira errada. Tentava ajudar, ou dizia que o fazia, como no colégio quando dizia que explicaria à professora que fora ele que perdera seu livro, mas se esquecia e ela acabava levando pontos negativos. Ou na faculdade quando se prontificava para entregar seu trabalho e ela descobria, muito depois do prazo vencido que ele o esquecera em cima da geladeira. No trabalho era ainda pior, vinha com seu animo contagiante dizendo que ela relaxasse e fosse tomar uma cerveja com os amigos que ele revisaria seu relatório e no dia seguinte ela tinha que encarar um diretor furioso com um relatório onde nenhuma conta fazia sentido.
Procurou um terapeuta para tentar lidar com o fato de ser incapaz de mandá-lo embora. Foram muitas sessões, mais do que ela julgou serem preciso para lida com seu apego a ele, mas um dia seu terapeuta pareceu mais serio que de costume e em vez de sua posição relaxada, sentava na beira da poltrona como se hoje fosse ele que precisasse desabafar.
“Doutor, o que é? O senhor parece ter algo importante a dizer.”
“Na verdade tenho. Você vem me ver há um ano e já tentei, indiretamente, de todas as maneiras lhe dizer o que acontece com você, mas parece que você sempre deturpa o que falo para que se ajuste à sua ilusão. Preciso agora ser duro e direto com você e quero que escute bem.”
“ Sempre escuto, doutor.” E se preparou para o que quer que viesse.
“Minha cara, você tem um amigo imaginário.”
Ela ficou muito quieta olhando para ele como se estivesse na verdade há quilômetros de distancia. Olhou para as mãos. Recostou-se. Coçou a cabeça e disse.
“Então, doutor. O senhor precisa me ajudar com meu amigo. Hoje ele entregou todas minhas contas erradas e quase fui demitida. Não sei mais o que fazer com ele. O que o senhor acha?”
“Acho que precisamos de mais sessões, minha cara.”

** Em homenagens a minha querida amiga Luciana que tem um amigo imaginário muito atrapalhado.
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2 comentários:

Monstrinha disse...

hahahahahahaha
ADOREI!

Um final realmente imprevisível. Acho que uma amizade dessas pode ser bem dvertida ás vezes!

Anônimo disse...

Minha Linda e Doce Andréa!!!!!!
Adoooooooorei a "homenagem".....
Melhor do que ter amigos imaginários, e tem em minha vida; pessoas reais como vc :) Bjos!