
Lá fora chove e chove daquele jeito irritante e desconfortável. Você pensa que pode andar essa meia quadra sem o monstrengo do guarda-chuva, mas percebe que cometeu um erro quando sua roupa já está absolutamente empapada pela garoa do inferno. Mas a chuva não é o que me desagrada nos dias chuvosos. Dã!!!! O pior nesses dias são as pessoas. O mundo de hoje parece ter criado uma horda de ogros, caricaturas de seres humanos, preguiçosos compulsivos e pirralhos agigantados.
Chego e pego uma fila ainda pequena (a terceira em espera), que vai me permitir ir sentada. Espero vários e vários minutos até que o ônibus designado para minha fila chegue. Já lá dentro procuro um lugar longe das goteiras (não faz essa cara, tá cheio de goteira nos ônibus) e me ajeito à janela já com meu livro à postos. O motor ronca mais alto e lá vamos nós. Um ogro adolescente se joga ao meu lado me olhando feio porque cheguei antes e ocupei o melhor assento do banco. Outros ogros adolescentes e vários pirralhos agigantados passam grunhindo para mim, que tento me esconder atrás do livro, como se meu direito ao assento em questão pudesse ser questionado. Ignoro a todos com meu mais plácido semblante matutino e me afundo no meu livro, onde uma batalha na Segunda Guerra parece mais atraente que o Vila Gilda. Caricaturas úmidas chacoalham seus guarda chuvas, como se já não bastassem as goteiras, e fazem chover sobre os pobres mortais que conseguiram se sentar às custas de filas e minutos perdidos.
Nota.
Eu sou uma boa cidadã. Costumo me oferecer para carregar objetos alheios, ofereço meu assento para os mais velhos e até sou bem simpática com os idiotas que batem na minha cabeça quando sento no corredor, mas meu pavio não é muito longo, hu hu, na verdade é meio curto. Tá bom, às vezes é mínimo.
Fim da Nota.
Depois de alguns minutos de muda agressão por parte dos ogros em pé eu finalmente abaixo meu livro. Dirijo-me primeiro à mulher que parece não conseguir enfiar seu guarda chuva em nenhum ligar alem de sobre meu banco “Ou você guarda essa joça ou vou enfiá-la pela sua garganta abaixo.” Gentilmente me retorço no banco para olhar para o pirralho atrás de mim em pé nas escadas que parecia achar que minha cabeça era um bumbo “Se você encostar em mim mais uma vez eu vou arrancar o que você considera ser prova da sua masculinidade. Isso quer dizer que eu vou capar você. Entendeu?”
Durante um minuto estupefato o ônibus ficou em silencio, mas logo risos estouraram e até o ogrinho ao meu lado sorriu para mim. Eu, vermelha e sem graça por ter perdido a calma, me enterro em meu livro novamente e me pergunto se não é hora de comprar uma lambreta.