31 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (parte 4)

Hoje em dia sabemos que o mundo todo está ativo novamente. Se pudéssemos voar longas distancias veríamos vilas espalhadas pelos quatro cantos do globo As ruínas das grandes metrópoles ainda estão por ai, uma ferida eterna que serve como um lembrete para cada um de nós, mas procuramos levar nossas vidas em campos mais férteis e sem a lembrança constante dos fantasmas que ainda rondam estas ruínas.
Não desprezamos as muitas conquistas dos séculos anteriores à grande guerra, mas escolhemos com sabedoria o que queremos de volta em nossa nova realidade. Por um tempo, logo no inicio, homens loucos por um retorno à um estilo de vida que nem mesmo conheceram, tentaram produzir gasolina usando velhas destilarias, na ânsia por experimentar a velocidade que tanto ouviram falar, outros se preocuparam com pólvora para munição de armas que nem mesmo sabiam fabricar, outros queriam glamour e fotografias e filmes em um mundo revestido pela poeira de séculos. Logo estes poucos loucos foram trazidos à razão. Precisamos de arado e não de automóveis, precisávamos de telhados contra as chuvas e não de armas e a razão venceu sem muita luta.
Nos dias de hoje mantemos nosso padrão de vida extremamente simples. Andamos pelo mundo à pé, à cavalo ou em carroças. Usamos gado puxando os arados que revolvem a terra e plantamos as sementes nos ajoelhando na terra. Não usamos dinheiro, vivemos à base de troca de mercadorias e cada vila tem um deposito onde cada morador doa o que pode para o fundo comum e o usamos para negociar com as outras vilas por produtos que não produzimos. Temos tecelãs, ferreiros, barbeiros, médicos, pedreiros, arquitetos, engenheiros, artistas, perfumistas, inventores, cabeleireiras, parteiras. E também temos encanamento, energia solar, asa delta, navios, prensas para nossos livros, engenhocas fúteis, jogos, e geladeiras. Da energia solar tiramos somente o necessário, que é basicamente para as geladeiras e luzes de emergência. Gostamos mais das velas, talvez nossos descendentes tenham passado tanto tempo na escuridão que nos passaram seu temor pela luz e alem disso com muitas luzes acesas mal vemos as estrelas e, sinceramente, porque alguém gostaria de suplantar o brilho destas?
Nós, as guerreiras, não temos um lar fixo. Muitas comunidades cresceram longe dos castelos e por isso corremos o mundo onde nossa presença é necessária para restabelecer a ordem e com isso passamos a maior parte de nossas vidas nas estradas. Mas nos períodos calmos, quando somos feridas ou quando nossos braços não mais arcam com o peso da espada, então voltamos para o castelo onde nascemos e lá ajudamos a cuidar dos filhos de outras guerreiras e finalmente descansamos.
Esse é o retrato generalizado de meu mundo. Talvez agora eu deva lhe contar mais historias. Historias de minha vida e de como me tornei uma guerreira.

29 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 3)


As colônias se formaram naturalmente. Saídos das profundezas os grupos se mantiveram juntos no primeiro momento. A terra era um lugar estranhamente alienígena e por alguns anos ninguém se arriscou a montar acampamento longe da entrada dos túneis. Nem todos tiveram sorte nestes primeiros anos. Alguns saíram da escuridão para se deparar com desertos onde a água era escassa demais ou em terrenos absolutamente estéreis. Estes desafortunados foram os primeiros a se aventurar à procura de um lugar mais promissor e também os primeiros a ter a confirmação que sobreviventes agora começavam a repovoar a terra. Os primeiros encontros foram cheios de apreensão por ambos os lados, mas misturados com um alivio que logo colocou sorrisos em bocas e estendeu mãos em cumprimentos quase esquecidos.
No começo os abrigos eram sempre provisórios. Todos tinham medo de enterrar raízes que logo poderiam ser arrancadas, mas a ameaça parecia adormecida para sempre e logo vilas foram erguidas em torno de castelos medievais. De certo modo minha irmandade teve muito a ver com a escolha deste estilo de vida. Pelo que se conta, e lá se vão bem uns cinco séculos desde este reinicio, cada comunidade nascida embaixo da terra foi liderada pelas mães e posteriormente por suas descendentes mulheres. Elas cuidaram para que nada da historia se perdesse, foram as guardiãs dos livros reunidos com tanto cuidado, foram as arbitras de tantas disputas e foram elas que propuseram que se tentasse um modo de vida medieval que funcionaria perfeitamente nessa nova terra mais ampla e isenta de tecnologia. Estas mulheres foram responsáveis pela criação da irmandade que hoje governa o mundo. A minha irmandade. Contam ainda que as primeiras guerreiras saíram pelo mundo em busca de novas comunidades para dividir experiências e conhecimento. Dizem que assim tudo começou. A lei veio pouco mais tarde.
Quando a prosperidade e normalidade chegou às vidas dos sobreviventes e seus descendentes, também chegaram aqueles que não queriam gastar o suor do rosto com seu sustento. Nem bem os castelos e suas vilas foram erguidos e logo assaltos e assassinatos começaram a pipocar em uma mensagem clara. O bem sobrevive a tudo, mas o mal também. Antes que houvesse tempo para tais tipos se sentirem confortáveis a irmandade criou a lei. Viver e deixar viver. Dizem que para meio entendedor meia palavra basta, mas existem sempre aqueles que cem palavras não vão convencer. Para estes a irmandade reserva a espada. Ladrões, assassinos, usurpadores, charlatões e delinqüentes não tem espaço no mundo, ou morrem por nossa espada ou se contentam em viver bem longe de nossos olhos.
Cada castelo nesse mundo é nossa casa. Cada aldeia em volta dele é nossa responsabilidade. Não ganhamos nada alem de cama para dormir, comida para alimentar e algodão e couro para nossas roupas. Não somos ricas, temos tudo que é preciso. Não somos donas de nossa vontade, andamos o mundo protegendo os inocentes. Somos filhas de nossas mães e somente isso importa. Temos um destino a cumprir, não é raro nos rebelarmos contra ele, mas nunca lhe damos às costas. Somos guerreiras afinal.

27 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 2)


Meu nome é Anya. Nasci em um dos castelos da irmandade no que já foi conhecido como América do Sul. Não sei dizer direito em que antigo pais está situada a irmandade a que pertenço, mas temos neve ao sul, desertos ao norte e podemos ir de um oceano a outro em uma ou duas semanas de cavalgada, dependendo de sua pressa e de quanto seu traseiro está acostumada à uma sela.
Nasci quando o mundo já havia saído da escuridão há muito tempo. Já não havia perigo em colher frutos das arvores ou de se plantar sementes na terra e nem mesmo de se tomar água de um riacho. O que chamam de radiação já se dispersara. Já não se falava mais dos que haviam vivido na escuridão dos túneis e muitos nem conheciam suas historias de como haviam ido parar lá, alguns até mesmo ignoravam a grande guerra e se cruzavam com os destroços que a antiga civilização deixara simplesmente lançavam um olhar de tímida estranheza. Certas pessoas simplesmente passam pela vida sem fazer perguntas e não sei se isso é ignorância ou sabedoria.
Cresci no castelo cercada por guerreiras. Aprendi desde cedo que éramos nós as responsáveis por fazer cumprir a única lei que as mães trouxeram do mundo antigo e de suas religiões variadas: Respeitar o próximo, independente de credo, cor, idade ou sexo. Desde que as mães se rebelaram nunca mais o poder voltou às mãos dos homens, éramos nós, o antigo chamado sexo frágil, que carregávamos espadas e usávamos roupas de guerra. Éramos nós que mantínhamos a lei e não permitíamos que os oportunistas desfrutassem do trabalho alheio. Caçávamos os ladrões e os executávamos sem piedade.
Mas talvez tenha me adiantado demais no longo caminho que percorremos desde que saímos das entranhas da terra.
Não sei quantas gerações nasceram ignorantes do mundo exterior antes que pequenos grupos de aventureiros começassem a procurar seu caminho para sol. Muitos nunca voltaram, mas com o tempo alguns conseguiram retornar com noticias, quase mortos pela radiação ainda presente na terra. Quem sabe realmente anos ou séculos se passaram na escuridão: Quantos morreram explorando a superfície ainda podre? Mas o tempo cura todas feridas, até mesmo aquelas causadas pelo homem à terra. Um dia um grupo voltou completo e sadio. A água já corria pura novamente, os frutos cresciam, os animais reproduziam, sabe de onde saídos, a vida voltou à povoar a superfície. E eles subiram.
Acredito que por todo o globo a historia se repetiu. Era o começo novamente e era preciso decidir de que maneira viver neste novo mundo.

26 de jan. de 2008

Depois da Escuridão (Parte 1)

É um pouco difícil contar historias quando o começo parece tão distante, mas posso dizer que tudo começou pelo fim. O mundo entrou em colapso. Guerras pipocaram como chagas, povos bem intencionados se meteram em paises aonde nunca deveriam ter pisado, terroristas usaram qualquer desculpa à mão para justificar sua sede de sangue, tolos tomaram lados sem pesar as conseqüências, ignorantes jogaram pedras sem pensar em seus telhados de vidro, bombas demais foram carregadas em aviões muito mais velozes que a luz. Bombas demais. E todas elas encontraram seu destino.
É preciso explicar que ao mesmo tempo que o mundo desmoronava e os jovens morriam combatendo sem ter a mínima idéia de por que lutavam, as mães de todo mundo se uniram. Elas já não suportavam perder seus filhos, filhas, maridos, irmãos para a megalomania dos poderosos. Tudo que importava para estes era o dinheiro, o petróleo, a maquina da guerra enchendo os cofres, o poder. As mães então encheram as ruas, se transformaram em guerreiras usando seus utensílios de cozinha para por fim àqueles que nunca se importaram realmente com o caminho da humanidade. Foi por muito pouco que não tiveram sucesso. Em seis meses já quase não existiam políticos e ninguém levantava a voz para ocupar o lugar daqueles que pereciam merecidamente pelas mãos de mulheres finalmente livres da sensibilidade que as impedia de matar de maneira fria e impiedosa. As forças armadas caiam como castelos de carta. Seus generais, almirantes e brigadeiros sumiam no meio da noite e covas rasas surgiam dentro e fora de instalações militares. Ninguém questionava. Não eram somente as mães que estavam fartas de homens covardes ditarem o destino de suas famílias. Cada ditador do mundo, cada terrorista covarde, cada fanático foi caçado e exterminado com a mesma piedade que demonstraram pelo mundo em que viveram. As mães começaram tudo, mas não foram elas que acabaram.
Os últimos homens sentados em assentos presidências, por trás de seguranças trêmulos de medo e portões fortificados prestes a desmoronar, apertaram seus botões vermelhos. Mísseis cruzaram o mundo em todas direções e o começo do fim chegou em uma nuvem radioativa que cobriu o sol por mais de 100 anos.
Eu sou filha daqueles que sobreviveram. Sou descendente de uma das mães que mudaram o mundo. Sou uma guerreira e o que faço é manter o novo mundo livre dos tipos que nos levaram à quase destruição completa. Sou fruto daqueles que conseguiram viver na escuridão, que quase enlouqueceram pela falta de ar livre, de arvores com frutos, de grama sob os pés, de chuva fresca no rosto, de amanhecer e anoitecer, de liberdade. Eles viveram em túneis cavados na terra por tempo demais, mas as mães nunca desistiram, nunca os deixaram esquecer que a esperança estava no futuro e que era preciso que houvessem descendentes para que a terra pudesse ser povoada algum dia. No futuro. E com o tempo a insanidade foi vencida, a escuridão se coloriu aos poucos e o amor uniu aqueles que acreditavam nas palavras sabias de mães que já não tinham filhos.
Eu sou o futuro e vou lhes contar as historias que precisam ouvir.

21 de jan. de 2008

Goodbye Lucky


Ele se foi como veio, envolto em magia.
Ele era minha luz, meu amuleto da sorte, o sorriso no dia triste, meu raio de sol em meio à tempestade. Ele era meu companheiro especial. Ele era o cão mais amado do mundo.
Nunca pensei que meu próximo post seria para dizer adeus a outro de meus companheiros, muito menos ao meu mais amado. Queria dizer mil palavras, mas elas me fogem. Somente penso em sua docilidade e seu amor incondicional que me levaram para frente durante os anos difíceis. Não sei se paguei todo o bem que me fez, nem mesmo sei se retribui todo carinho que me dedicou. Espero que sim. Rezo que sim.
Meu coração está em mil pedaços. Não sei como catar os caquinhos espalhados entre minhas lagrimas. Não consigo deixar de sentir que ele deveria ainda estar comigo. Não consigo deixar de chorar.
Lucky... Sortudo ele foi mesmo, pois o busquei em um lar sem amor e o enchi de mimos merecidos. Mas a verdadeira sortuda fui eu. Lucky me deu 9 anos felizes e eu lhe dei meu coração. Não sei como continuar sem sua presença, mas já perdi tanto na vida que devo achar um meio.
Ele era o cão mais sensível do mundo, o mais amável, delicado e paciente. Ele era mágico. Um anjo peludo e fofo que gostava de me acordar com o focinho em meu ombro e os olhos brilhantes nos meus sonolentos. Lucky adorava batatas e banana e comia uvas como se elas estivessem à beira da extinção. Adorava os outros cães e nunca se intimidou com seus rosnados, os beijava com carinho todos os dias e eles fingiam que não gostavam, mas eu sei bem que agora sentem falta de seu jeitinho moleque. Amava carinhos e rolava de barriga para cima puxando minha mão como se dissesse “ coça mamãe!”. Ele também adorava falar, era só provoca-lo um pouco e lá ia ele em sua cantoria que quase parecia humana. Nunca chorou neste mês difícil que passou até ir para o céu, onde batatas e bananas e uvas serão sempre infinitas, aceitou tudo com a calma de sempre, sem dor, sem mostrar nada mais do que amor em seus olhos de chocolate.
Lucky... Eu fui a sortuda, meu filho querido, eu fui a premiada com a sua presença em minha vida, eu ganhei o premio inesperado de poder andar ao seu lado.
Fica com Deus e me espere com a calma de sempre. Meu amor não morre com você, ele se expande para o universo do qual agora você faz parte.
Te amo, filho.

1 de dez. de 2007

O Cão Mais Chato do Mundo


Não, Peter!
Chega, Peter!
Para, Peter!
Frases curtas e comuns em minha casa por quase 17 anos. Peter chegou como uma bola dourada de orelhas marrons e olhos amorosos. Desde o primeiro dia considerou o meu lar o seu. Nenhum gemido de saudades por seus pais ou irmãos escapou naquela primeira noite. Lembro como se fosse ontem como o coloquei atrás de minha cabeça no meu travesseiro e do gemidinho que deu no meio da noite. O levei no seu “banheiro”, caminhando pelo corredor curto com ele bem encostado no meu rosto, o cheiro de filhote fresco ainda impregnado em sua pelagem macia. O coloquei no chão em cima do jornal e depois de terminada sua sessão xixi, levantou o focinho diminuto e ficou me encarando. Acho que para ele o curto corredor parecera uma viagem. O peguei no colo dizendo palavras doces que ficaram perdidas pois já dormia novamente.
Cogitamos muitos nomes. Como fora dado como presente de dias mães para a minha, precisávamos nos curvar à sua escolha, mas não sem luta. Peter foi o nome escolhido e o que mais se ouviu dentro de casa por muitos anos.
Já um adulto ele ganhou uma companheira, única lembrança decente de um ano trágico, e logo mais muitos filhotes pipocavam pela casa. Mas era sempre Peter o senhor do lar. Sempre tratou os outros cães como se fossem cães, já que ele nunca se considerou um. Sua energia foi sempre inesgotável e somente este ano se lembrou de envelhecer. O cão chato, mas apaixonado por seus humanos, de repente perdeu a voz potente e começou a tropeçar nas pernas sempre prontas à galopar pela casa. De filhote passou a velho cão, passando a latir menos, a nos perturbar com pouca freqüência. Nos últimos meses ele entregou seu corpo a meus cuidados, finalmente percebendo que já não podia mais pular em nossos braços. Na ultima semana já nem mais percebia com que carinho eu afagava seu dorso cansado.
Dia 30 de novembro, um ontem que para mim ainda é hoje, ele se entregou a o que quer que exista após a morte e eu fico pensando em quanta saudade de sua voz rouca vou sentir.
Ele era o cão mais chato do mundo, mas o mais apaixonado também. Eu o entreguei para seu descanso com o peito dolorido e a casa parece silenciosa demais, mesmo com meus outros cinco cães me rodeando cheios de preocupação e tristeza. Apesar do cansaço, pois há varias noites não durmo cuidando para que seu fim seja delicado e confortável, não consigo dormir. Tenho medo de que no meio da noite minha mão procure por sua cabeça, como tantas vezes nos últimos tempos, e ache somente o chão que já não está coberto por seu colchão e cobertor.
Peter era o cão mais chato do mundo, mas o mundo não é perfeito e muito menos eu, assim, eu o amo como se houvesse sido.
Bom descanso, meu velho amigo, que Deus o guarde até que possa me receber ai do outro lado. Já sinto sua falta. Com amor. Sua humana, Andréa C

29 de nov. de 2007

”Âme Kalulua, mendigo capaz de produzir incomparáveis belezas. O rei, fascinado, resolve dar ao mendigo a chance de morar em seu palácio e ser muito rico. Mas a riqueza de Âme está em si mesmo. Âme é trancafiado em uma cela até que ceda às ordens do rei e crie todas as maravilhas que puder. Diante do infortúnio, o mendigo inventa para si um mundo mágico onde se concentra toda a beleza - que precisa ser efêmera - para que ele viva!”

Você pode ler a descrição acima, mas nunca estará preparado para a mágica do espetáculo apresentado pela Cia Polichinelo de Teatro de Bonecos.

A luz diminui enquanto 3 figuras em roupas negras caminham pelo meio da platéia portando cajados com pontas que iluminam seus rostos fantasmagoricamente. Suas vozes chegam doces aos nossos ouvidos. Eles prometem uma historia. Eles a contam. E nos enfeitiçam.
No palco, em um cenário medieval, se descortina o drama. Meus olhos não mentem e vejo as figuras encapuzadas de preto por trás dos bonecos absurdamente expressivos, mas meu cérebro foi fisgado. O que registro é somente o que eles planejaram. Os bonecos, de bocas imóveis e rodas por pés, me parecem reais e me perco em seus mistérios sem medo.
Na escuridão eles criam sonhos que nunca acreditei serem possíveis. Seguro a respiração a cada vez que a luz se apaga, sabendo que do negro manto algo colorido e espantoso nascerá e voará em direção ao meu coração.
Cedo demais eles retornam com seus cajados para nos dizer que o fim é iminente, mas que nunca é certo. Para mim, que em pé bato palmas até minhas mãos doerem, existem algumas coisas certas. E estou aqui batendo palmas para uma delas.
Tenho a sorte de conhecer os quatro responsáveis por este espetáculo (vantagens de funcionaria do mundo das artes) e finalmente entendo como puderam tornar esse sonho realidade. Certas pessoas simplesmente tem o coração no lugar certo e sempre vão fazer o possível para que outros vejam um pouco alem do mundano.
Como diria Âme, é somente preciso olhar com os olhos da alma. Eu olhei. E você?

Para os interessados a Cia Polichinelo fará novo espetáculo, A Lenda das Lagrimas, no Sábado às 17 horas no Centro da Cultura Judaica (Rua Oscar Freire, 2500-ao lado do metrô Sumaré). O ingresso cabe no bolso de qualquer um, 1 kl de alimento ou 1 livro em bom estado. Reserve seu ingresso.

5° Ciclo Multicultural do Centro da Cultura Judaica

26 de nov. de 2007


Borboletas no estomago. Eu as sinto, acho que todos nós, os escolhidos, assim nos sentimos nessa noite de domingo. É como um carnaval fora de época. Uma páscoa colorida e exótica. Um natal adiantado e extremamente cintilante.
Na verdade o dia ainda não terminou. A curta viagem de casa até meu destino é feita sob o pôr do sol, entre carros cheios de pessoas pensando em terminar seu fim de semana, mas para mim, e os outros que caminham comigo neste barco de velas estufadas pelo vento da insanidade sadia, é só o começo. Somos insanos, sim. Nosso trabalho é fazer com que outros, perfeitos desconhecidos, se sintam bem, se sintam em sintonia com a cor, a forma perfeita (e a imperfeita), o movimento, a nuance da luz. Com a arte.
Hoje todos nós, e nossas borboletas estomacais, estamos nas pontas dos pés, com todos sentidos alertas, vibrando como a lamina de uma espada de samurai. Hoje é um dia esperado e temido, Um erro, um esquecimento e tudo pode desmoronar como um castelo de cartas. Esperamos que cerca de 700 pessoas terminem o dia pensando em nós, pensando em nosso trabalho e no prazer, talvez efêmero, que lhes demos. Esperamos fazer brotar o riso e o sorriso doce frente às pequenas maravilhas que conseguimos reunir. Somo insanos em esperar tanto, mas o somos com prazer e para dar prazer.
Desde a porta de entrada minha boca se torce num sorriso. Tudo vai dar certo. Tudo DÁ certo. Meus músculos faciais doem, meus lábios já beijaram tantos rostos que meu batom é só uma lembrança, assim como são lembranças as preocupações, os ataques de pânico e o estresse tremendo das ultimas semanas.
Musica, cor, palavras de boas vindas e agradecimento, dança, movimento e beleza suspensos por cordas em um vão coalhado de luz, drinks luxuriantes e petiscos servidos como se fossem jóias, exposições de todos os tipos e para todos os gostos, pessoas em um vai e vem que lembra a maré.
A noite finalmente chega ao fim, mas não a euforia coletiva que nos toma por termos conseguido cumprir nossas metas. O momento é devidamente, e repetidamente, fotografado. Tenho certeza que nosso grito de guerra poderá ser imaginado por qualquer um que veja nossas bocas abertas e nossos olhos brilhantes impressos para sempre em papel fotográfico.
Morfeu me chama de entre os lençóis, sua voz doce me pede que esqueça, por enquanto, o sucesso da noite. Amanhã, que já é hoje, o relógio me avisa, será o dia de comemorar realmente o inicio do 5° Ciclo Multicultural.
Para cada um de vocês, insanos maravilhosos e incansáveis, responsáveis por não somente uma noite divina, mas uma semana inesquecível, meu carinhoso boa noite. Que os louros de suas glorias não espetem suas cabeças durante o repouso mais que merecido.
Beijocas de sua companheira de trabalho.
Andréa Claudia Migliacci

18 de nov. de 2007

Ela fazia tudo sempre igual, como a tal da musica de Chico Buarque, mas parecia que não conseguia ser tão eficiente. No começo achou que seguir uma rotina levaria à perfeição, mas acabou somente a levando ao tédio. A vida inteira se esforçara para ser especial, mas parecia que era somente comum. Via pela TV um mundo maravilhoso e excitante do qual queria fazer parte e ao deitar, ao apagar da TV, chorava pelos sonhos impossíveis que tecia embalada pelas novelas. A cada dia ficava mais difícil aceitar que nunca seria famosa, nunca estaria na capa de uma revista, nunca haveriam fotógrafos a seguindo pela rua. Os Reality Shows tornavam tudo ainda mais difícil, muitos eram como ela, pessoas comuns que chegavam à fama como num passe de mágica. Porque não ela? Os dias passavam lentos, em sua simplicidade, lentos demais, anônimos demais. E então aconteceu. Num dia quente de verão ela voltava para casa correndo, apressada para a novela das oito que começava às nove, quando viu saindo de um hotel o seu mais querido astro. Ele estava vestido simplesmente e parecia apressado, mesmo assim ela o abordou insistente. Pediu um autografo e começou a murmurar palavras de adoração desconexas, mas ele tentou se afastar sem atende-la. Agarrou sua blusa e aumentou a intensidade dos pedidos o que o deixou mais nervoso. “Escute, me desculpe, mas meu filho está no hospital e tenho pressa. Fica para outro dia.” Ele sacudiu o braço se livrando de suas mãos súplices e correu para a beira da calçada em busca de um táxi. Ela ficou parada por somente um segundo e neste segundo sua boca se torceu em um esgar maldoso, seus olhos se apertaram com ódio pelo mundo que a recusava. Ela não se apressou, andou até ele de forma lenta e decidida. De sua bolsa tirou o sapato de salto alto que usava no trabalho e com uma determinação que lhe faltava para tudo na vida, o atacou. Muito longe podia ouvir gritos e só parou quando quatro policiais a jogaram no chão e a algemaram. Seu querido astro jazia em uma poça de sangue, morto pela loucura egoísta de uma fã. Seu filho o esperaria em vão em seu leito de hospital e sua mulher passaria a se deitar em uma cama grande demais para sua tristeza. Mas ela, ah ela... Conseguira o que tanto buscara. Por quase um mês estampou todas as capas de revista, foi a chamada principal dos sites de noticias e falou em microfones de todas redes de TV nacionais e até algumas internacionais. Decidiu escrever um livro sobre sua vida medíocre e viver eternamente como celebridade. Pena que um político resolveu transar com uma garota de programa durante uma noite em uma boate de sexo explicito onde vários celulares registraram a cena. Ela foi esquecida, mas não pela justiça. Ela agora faz tudo sempre igual, como aquela tal, é perigoso fazer diferente na cadeia.

15 de nov. de 2007

Quando Atlas levantou o mundo em seus braços com certeza alguém tentou se sentar em cima da bola gigante para aproveitar a carona.
Existe uma grande diferença entre pessoas poderosas e pessoas com poder. Pessoas chegam ao poder por diversos meios e os mais intrigantes caminhos, mas isso não quer dizer que tenham dentro delas o poder para estar lá. Para chegar ao topo costumam usar qualquer artifício, como subir nos ombros de um amigo poderoso ou pisar nos corpos crédulos dos infelizes que cruzam seu caminho ou mesmo usar de chantagem, furto de idéias e às vezes até um pequeno assassinato. È o mundo cão com o qual acostumamos a conviver, mas isso não quer dizer que seja preciso aceita-lo. Incomoda-me enormemente ver pessoas “com poder” abusando de suas posições pelo simples prazer de diminuir os outros. Parecem sempre adorar apontar os erros alheios, mas se negam a aceitar recriminações, mentindo e jogando seus erros para outros, aqueles pobres coitados em quem gostam de pisar. Essas pessoas gostam de falar alto, o famoso ganhar no grito, por falta total de base em suas idéias. Também adoram usar o “eu” em todas as frases. Eu fiz, eu consegui, mas sempre esquecem dos que foram realmente responsáveis pelo sucesso. Quando são magnânimos e cumprimentam alguém por seu trabalho, tem sempre o cuidado de usar um tom condescendente que mais diminui do que eleva. Pessoas com poder são sempre perigosas, pois somente desejam mais poder em vez de realização. Os poderosos, os poucos e reais que existem no mundo, exigem tanto dos outros quanto de si mesmos e sabem que não chegaram ao topo sozinhos, por isso premiam, festejam o sucesso alheio e incentivam aqueles que estão em posição inferior com sinceridade. Mesmo quando comem seu rabo os verdadeiros poderosos o fazem com tato, minimizando a magoa causada com um “e agora deixemos isso para trás”. Quando se dizem decepcionados despertam nos outros a vontade de lutar e estendem a mão quando é preciso. Infelizmente muitos poderosos são magnânimos e se cercam de pessoas que buscam o poder e voltamos ao inicio...
Vejo cada dia mais pessoas com poder por todo lado e é isso que me leva a apreciar cada vez mais os poderosos de mentes afiadas e instinto preciso e isso me leva a desejar ser sempre a eminência parda por trás do poderoso, o facilitador, o assistente insubstituível e anônimo, que realmente se importa e realmente trabalha por um bem comum e não somente para beneficio próprio. I’m a facilitator and I don’t mind it.

9 de nov. de 2007

O Comercial.
Mulher tipo executiva liga pra o marido “Amor, estou atrazada, me faz um favor? Liga o forno e passa SBP na casa?” É vista em seguida comprando flores e chegando em casa com um sorriso no rosto;
Marido tipo executivo atende telefone “Oi amor, claro que sim.” E depois de ligar o forno passa SBP na casa onde filhos felizes se comportam como diminutos seres humanos.
Agora.... A realidade.
Mulher tipo executiva, desgrenhada de cansaço e com cara de poucos amigos, com a meia desfiada e tentando acertar uma unha lascada com os dentes, liga para o marido.
“Roberto? Faz um favor?”
Homem tipo executivo em fim de dia, suado, moído, meio barbudo, com uma cerveja na mão, responde distraído enquanto procura por algum tipo de esporte na TV.
“Quem é?
“Como assim quem é, seu tapado. É sua mulher; Vê se liga o forno pra esquentar a comida que a empregada deixou e passa a porra do SBP na casa que tá cheio de mosquito e eu não quero pegar dengue.”
“Marta? Você não tá em casa?”
“Claro que não, seu lerdo, tava numa reunião com o incompetente do meu chefe. Como assim eu não tô ai?”
“Achei que você tava na cozinha, ouvi uns barulhos por lá. Quer dizer que o jantar vai atrasar? Mas eu to com fome, Marta...
“Você nem pensou em ver se era eu na cozinha? E se for um ladrão? E onde estão as crianças?”
“Eu gritei que cheguei e você não respondeu achei que tava de TPM. E como podia ser ladrão se eu achava que era você na cozinha? Sua irmã deixou as crianças aqui e disse que você tá criando deliquentes. Como é que liga o forno?”
“Roberto, você é um asno. E quem é minha irmã pra falar mal dos nossos filhos? E a culpa é sua que é um molenga e não dá o exemplo pra eles. E quer ir na cozinha ver quem ta lá? E manda as crianças calarem a boca que dá pra escutar os gritos daqui.”
Um minuto de silencio pesado com recheio de fundo de gritos histéricos infantis.
“Roberto? Roberto! ROBERTO!!!”
“Marta? O cachorro abriu o forno e comeu o jantar.”
“Ahiiiiiiii...”
“Você trás uma pizza, Marta?”
“Roberto, juro que...”
“Juro que passo o tal do SBP. Passa aonde mesmo? Onde aperta esse treco?”
“...”
“Marta?”

4 de nov. de 2007

Podia ler suas mentes com a mesma facilidade com que lia um livro. Para ele era natural, seu povo nascia com este sentido assim como nós, pobres mortais nascíamos com nossos cinco mal usados. Sentava nos telhados durante as madrugadas aprendendo o que movia os seres humanos comuns. Eram tão estranhos seus pensamentos, cheios de ódio, sexo e mentiras. Mesmo lendo tanta futilidade em suas mentes não podia deixar de se sentir fascinado por este povo auto-destrutivo e violento. É desnecessário contar toda sua historia agora, eu a tenho em paginas e paginas que um dia, quando o mundo puder entender uma criatura assim fascinante, espero publicar. Talvez a vejam como ficção e será melhor assim. Ele procurava por alguém, mas seu encontro com Cat estava marcado para futuro próximo. Não hoje. Hoje ele ouvia atento e tentava entender como um povo tão egoísta conseguia sobreviver. De seu lugar no alto do telhado de uma casa em uma rua tranqüila, ele esperava e ouvia e lia mentes que divagavam em pensamentos estúpidos. Ele tentava, muitas vezes, interferir nestes pensamentos, mandar mensagens positivas que aliviariam suas vidas, mas as pessoas resistiam. Pareciam gostar de se sentir miseráveis e transformavam boas noticias em más num piscar de olhos. Uma promoção se transformava num transtorno pelo trabalho a mais que traria. Um novo namoro gerava somente duvidas em vez de perspectivas. Uma gravidez se transformava em preocupação com o peso em vez de uma benção. Ele pensava que todos seres humanos simplesmente careciam bom senso. Já pensava em se recolher quando ouviu, em sua cabeça, um cantarolar suave e meio desafinado. “Não, não era assim. Como era mesmo?” e o cantarolar continuou agora mais firme “Ah, é isso.” Ele sorriu da felicidade que o pensamente da mulher, a simples satisfação de achar o tom certo de uma melodia. Ela subia a rua com um passo gingado que combinava com a musica em sua cabeça e parecia simplesmente alegre nessa hora perdida da noite. Carregava uma sacola pesada e seu rosto parecia cansado por um dia caprichosamente difícil. Ele sentiu, mesmo sem ver, a presença do outro que também a observava, mas não com a sua intenção benigna. O outro saiu das sombras e a atacou quando ela estava no ponto mais escuro da rua. Ele pulou do telhado em um movimento fluido e aterrizou sem que um som o revelasse. Com uma só mão agarrou o outro e o jogou do outro lado da rua onde ele permaneceu sem se mover. Ela o olhava sem medo, somente arfando pelo susto de momento antes. “Obrigada.” Ele acenou com a cabeça e sorriu sem dizer uma palavra. Ela retribuiu o sorriso e olhou para o outro agora fora de combate. “Você é algo assim como um super herói? Voando de telhados e nocauteando bandidos? Não... Você não falaria, mesmo se fosse. Obrigada assim mesmo.” Ela o olhou novamente, sorriu, recolheu suas coisas espalhadas e partiu cantarolando suavemente. Ela a seguiu até sua casa pelos telhados, enviando mensagens de segurança para ela e sentou até o amanhecer em frente à sua casa pensando que era isso que o fascinava nos seres humanos. Viviam em estado de alerta, suas vidas valiam menos que o papel onde seu dinheiro era impresso e mesmo assim... mesmo assim haviam os que ainda podiam cantarolar uma musica suave na escuridão da noite.

2 de nov. de 2007

Existe algo de impressionantemente belo na violência da natureza. Não consigo temê-la, nem mesmo recuar um passo à vista de sua ira. Ao contrario do homem, a natureza solta seus demônios de maneira graciosa e mesmo quando mata, danifica ou destrói, é passível de admiração. Vejo, da minha janela aberta, a tempestade apagar o mundo conhecido e toldar tudo com um manto liquido. Em poucos segundos o vento trás até mim a água pura e me molha da cabeça aos pés. Sinto-me purificada. Pode parecer estranho esta fascinação por uma violência incontrolável e imprevisível, mas sinto, a cada tempestade, como se algo maligno fosse retirado de minha alma e se desintegrasse no vento. É como se eu precisasse destes fenômenos para estripar o que há de potencialmente perigoso em mim. Sei que sou capaz de atos terríveis não fosse o freio da humanidade imposto por séculos e séculos à raça humana, mas sei que somente eles ainda me deixariam com sede de sangue. É preciso uma boa tempestade para que eu me contente com um doce e saboroso chocolate.

12 de out. de 2007

Pela porta entreaberta somente uma réstia de luz entrava. Mas não. Algo mais se insinuava por entre as sombras como brisa. O som da melodia a despertou de um sono monótono onde por cobertas tinha suas preocupações e sonhos despedaçados. Não se levantou e nem mesmo abriu os olhos. Deixou que a musica entrasse por seus poros e inundasse seus sentidos. O piano e o violino duelavam com maestria num combate sem sangue nem dor e ela deixou as lagrimas fluírem, deixou que soluços cortassem sua garganta num pranto sem motivo, a não ser o de que sua vida era por vezes dolorosa, por vezes absurdamente cheia de encruzilhadas. A musica não tinha fim e talvez nunca tenha tido um começo. Sua impressão era que o céu se abrira e despejara notas mágicas para curar almas sofridas como a sua. Nesta noite não era preciso se ter olhos, somente ouvidos atentos para as maravilhas que o silencio podia trazer. E ela ouvia. E chorava. As lagrimas se acabaram docemente, lavando os restos de magoas que pensava esquecidas. O sono chegou para um coração mais leve e quando o primeiro raio de sol rasgou o céu ela dormia com um sorriso no rosto e músculos relaxados. A musica desapareceu entre os dedos da noite sem ninguém notar, mas os corações doloridos acordaram esperançosos no novo dia que nasceu.

1 de out. de 2007


Satisfação nem sempre vem por algo que você faz. Ela pode ser fruto do orgulho por se fazer parte de algo que é belo e sólido. É muito bom ser reconhecido por algo que se faz, mas é melhor ainda quando colhemos louros por um trabalho suado em equipe onde cada um olha para o outro e diz “bom trabalho” sem esperar por retorno, com uma admiração pura e sincera. É a primeira vez em minha vida que me sinto assim. É também a primeira vez que recebo tantos elogios sem que saiba se os mereço, mas os recebo com o coração leve e a certeza cada vez me esforçarei mais para merecê-los. É engraçado sentir essa coceguinha gostosa chamada “realização”, achei que fosse mito, ou mentirinha contada para nos ajudar a seguir em frente, mas existe de verdade e me traz um sorriso bobo nesse rosto cansado. Não é estranho esperar a vida toda por algo que deveria ser uma constante em nossas vidas? Não é estranho passar a vida fazendo tudo certo sem nunca alcançar a satisfação necessária para encontrá-la quando desistimos de procurar e nos contentamos com o ordinário? A beleza da vida é que o inesperado está sempre nos espreitando e não importa se deixamos de acreditar em fadas ou não, o que importa é que na próxima curva toda sua vida pode mudar e você nunca estará preparado. Nunca.

27 de set. de 2007

As noções básicas de cortesia estão perdidas para sempre. Se sairmos dos canais “oficiais” ninguém mais sabe como se comportar ao receber um convite. Vamos a uma aulinha básica. Se receber um convite com as letrinhas mágicas RSPV, saiba que quer dizer Répondez s'il vous plaît, cuja tradução literal é “não seja um asno, responda confirmando sua presença”. RSVP é usado em ocasiões onde o numero de pessoas presentes impacta o planejamento geral do evento. Seja um jantar, coquetel, casamento, batizado ou mesmo um almoço, o organizador se baseará no numero de presentes CONFIRMADOS para preparar os comes e bebes que todos adoram quando são gratuitos. Pensar que sua resposta não fará diferença é a mais alta falta de cortesia que poderá demonstrar para o coitado que teve o desprazer de te convidar. Assim como você, outros tantos pensarão “decido na hora, não fará diferença” ou “confirmo e se não tiver vontade acabo não indo”. BIG NO! Se você for à um jantar e faltar comida ou bebida, certamente sua língua trabalhará a semana toda metendo o pau no anfitrião. E no caso de sobrar, para você não fará diferença, mas quem paga a conta nunca mais o convidará quando souber que o “babaca” resolveu não aparecer. Responder à um certo tipo de convite é simples questão de educação. Não seja um asno.

25 de set. de 2007


O que você realmente confessaria se não tivesse medo de ser escutado por uma mosquinha fofoqueira? Temos, cada um de nós, noções de moral elásticas que se ajustam à nossas necessidades e desejos. Muita vezes, muitas mesmo, condenamos atos que esquecemos achar natural vindo de nós mesmos. Somos sempre melhores, certo? Podemos mais e temos mais discernimento, certo? Mas, agora sinceramente, deixando de lado toda nossa suprema arrogância, me conte, aqui bem ao pé do ouvido ou, se sua consciência pesada o perturba, por trás desta cortina pesada que esconde seu rubor do meu. O que realmente você gostaria de me dizer sabendo que seu nome me é estranho e suas feições desconhecidas? Sussurre em meu ouvido e eu te contarei um segredo.

23 de set. de 2007

Gosto de imaginar que existe algo depois da morte. Depois do ultimo suspiro, do murchar dos pulmões inúteis, do ultimo bombar do coração corroído, doído, pelo tempo. Depois que o corpo encontrar o repouso num ultimo estirar de membros onde o ultimo sinal de que ali uma vida existiu é o crescer incontrolável das unhas e cabelos que ignoram a morte por mais algum tempo.
Depois...
Gosto de imaginar que existe algo depois do túnel de luz branca onde anjos cantam o caminho. Depois das portas, abertas de par em par, da entrada do paraíso (ou o que quer que haja depois para os bons). Depois do reencontro com os entes queridos e os animais de estimação que esperaram pacientemente pela sua chegada.
Depois...
Gosto de imaginar que depois de tudo isso é nos dado a sabedoria de enxergar o que fomos humanos demais para perceber. O sentido das coisas. O motivo oculto. As escolhas que nos foram roubadas. O minuto supremo onde tudo nos é revelado e podemos sorrir de nossas dores terrenas e entender, por fim, que tudo teve sentido.
Depois.
Somente depois.

20 de set. de 2007

Geroge, Oh George!

Não gosto desse calor. Me desconcentra. Fico pensando em uma praia deserta, eu de vestido diáfano e curvas voluptuosas e George Clooney de sunga. Ta bom, sem sunga. Como pensar em qualquer coisa quando Georginho fica passeando na frente da minha subconsciência com as belezas de fora e um copo de Martini na mão? Tenho um milhão de coisas para fazer todos os dias desde que mudei de emprego. Eu mudei de emprego, by the way. Falo com pessoas interessantíssimas, tenho uma chefe maravilhosa e que parece ligada em duas tomadas de 220 o tempo todo, não tenho tempo para pensar em problemas ou contas que se empilham, o que é uma tremenda vantagem quando contas sempre se empilham em sua vida. Mas o que isso importa quando este calor infernal traz George, oh George, com seu copo de Martini e seu rosto másculo sempre na periferia de minha atenção? Não gosto de me entregar fácil às minhas fantasias e resisto bravamente ao copo de Martini estendido em minha direção e ao biquinho beijoqueiro de meu amante imaginário. O trabalho não pode esperar, tudo é urgente e George, como todo bom amante imaginário, compreende e se deita na rede à minha espera. São quase dez horas da noite e posso agora, sorrindo de antecipação, correr para a rede e.... Poor George... A espera foi longa demais. Ou talvez foram os tantos Martinis mexidos, e não batidos, que tomou na sua longa espera. O fato é que meu querido amante dorme e eu, com um suspiro, sento-me aqui, atrás do meu novo laptop (vocês leram “meu novo laptop”?) e penso em George em seu sono comatoso. What the hell, vou eu também tomar um Martini. Espere-me, Mister G!

18 de set. de 2007

Todos tem suas, como é mesmo que dizem, necessidades. Ele tinha a sua. Era como uma compulsão. Lutara a vida toda contra ela, tentara de tudo, remédios, curandeiros, terapia de grupo, hipnose, macumba. Nada resolvera. Depois de anos de frustração e desejo contido acabara por se entregar. Cada um deve enfrentar seu eu interior no espelho e aceita-lo ou viver em uma bolha para sempre. Ele se aceitara. Não que sua necessidade não lhe rendesse sustos. Por tantas vezes escapara por um triz de ser pego que, de tempos em tempos, trancafiava sua compulsão e se comportava como um ser humano normal. Naquela noite, depois de tantas de abstinência, ele saiu pelas ruas sabendo o que faria. Ficou vagando pelo bairro quase adormecido procurando o que precisava para aliviar sua necessidade estúpida e insana. Logo achou e tratou de aliviar a necessidade maligna que o preenchia sempre que perambulava pelas calçadas cheias de gente. Ele não notou que ela se aproximava e nem ela o notou na escuridão da noite. Eram ambos o pesadelo um do outro. Ele o de ser pego com a mão na massa, ela de se encontrar frente a frente com um estranho quando a cidade parecia ter se esvaziado de repente. Ela descia a rua em passos apressados e silenciosos, cortesia de seus tênis que não dispensava para as idas e voltas do trabalho. Ele estava imerso demais no prazer de seu segredo para ouvi-la. Até ser tarde demais. Não há como descrever o que sentiram as duas pobres criaturas presas nas malhas do destino. Ela ficou congelada, presa em seu ultimo passo sem saber se correr ou... Ele, pobre coitado, pego em fragrante delito, pênis na mão, urina correndo solta enquanto um sorriso feliz lhe mudava a face, perdeu todo desejo, para sempre, de escrever em muros com jatos de xixi. Seu prazer secreto descoberto lhe tirava um pedaço da alma e ele chorou de vergonha e frustração. Ela se condoeu de um tão belo espécime masculino pego em tão infantil atividade. O consolou como pode e o constrangimento de ambos se transformou em elo e ele a acompanhou a sua casa. E no dia seguinte também. E no outro. Estão casados agora. Ele já não sente aquela necessidade, só muito raramente, mas então ela o acompanha para ele praticar um pouco de seu xixi caligráfico. E eles viveram felizes para sempre. The end em xixi caligráfico.