Pela porta entreaberta somente uma réstia de luz entrava. Mas não. Algo mais se insinuava por entre as sombras como brisa. O som da melodia a despertou de um sono monótono onde por cobertas tinha suas preocupações e sonhos despedaçados. Não se levantou e nem mesmo abriu os olhos. Deixou que a musica entrasse por seus poros e inundasse seus sentidos. O piano e o violino duelavam com maestria num combate sem sangue nem dor e ela deixou as lagrimas fluírem, deixou que soluços cortassem sua garganta num pranto sem motivo, a não ser o de que sua vida era por vezes dolorosa, por vezes absurdamente cheia de encruzilhadas. A musica não tinha fim e talvez nunca tenha tido um começo. Sua impressão era que o céu se abrira e despejara notas mágicas para curar almas sofridas como a sua. Nesta noite não era preciso se ter olhos, somente ouvidos atentos para as maravilhas que o silencio podia trazer. E ela ouvia. E chorava. As lagrimas se acabaram docemente, lavando os restos de magoas que pensava esquecidas. O sono chegou para um coração mais leve e quando o primeiro raio de sol rasgou o céu ela dormia com um sorriso no rosto e músculos relaxados. A musica desapareceu entre os dedos da noite sem ninguém notar, mas os corações doloridos acordaram esperançosos no novo dia que nasceu.
12 de out. de 2007
Pela porta entreaberta somente uma réstia de luz entrava. Mas não. Algo mais se insinuava por entre as sombras como brisa. O som da melodia a despertou de um sono monótono onde por cobertas tinha suas preocupações e sonhos despedaçados. Não se levantou e nem mesmo abriu os olhos. Deixou que a musica entrasse por seus poros e inundasse seus sentidos. O piano e o violino duelavam com maestria num combate sem sangue nem dor e ela deixou as lagrimas fluírem, deixou que soluços cortassem sua garganta num pranto sem motivo, a não ser o de que sua vida era por vezes dolorosa, por vezes absurdamente cheia de encruzilhadas. A musica não tinha fim e talvez nunca tenha tido um começo. Sua impressão era que o céu se abrira e despejara notas mágicas para curar almas sofridas como a sua. Nesta noite não era preciso se ter olhos, somente ouvidos atentos para as maravilhas que o silencio podia trazer. E ela ouvia. E chorava. As lagrimas se acabaram docemente, lavando os restos de magoas que pensava esquecidas. O sono chegou para um coração mais leve e quando o primeiro raio de sol rasgou o céu ela dormia com um sorriso no rosto e músculos relaxados. A musica desapareceu entre os dedos da noite sem ninguém notar, mas os corações doloridos acordaram esperançosos no novo dia que nasceu.
1 de out. de 2007

Satisfação nem sempre vem por algo que você faz. Ela pode ser fruto do orgulho por se fazer parte de algo que é belo e sólido. É muito bom ser reconhecido por algo que se faz, mas é melhor ainda quando colhemos louros por um trabalho suado em equipe onde cada um olha para o outro e diz “bom trabalho” sem esperar por retorno, com uma admiração pura e sincera. É a primeira vez em minha vida que me sinto assim. É também a primeira vez que recebo tantos elogios sem que saiba se os mereço, mas os recebo com o coração leve e a certeza cada vez me esforçarei mais para merecê-los. É engraçado sentir essa coceguinha gostosa chamada “realização”, achei que fosse mito, ou mentirinha contada para nos ajudar a seguir em frente, mas existe de verdade e me traz um sorriso bobo nesse rosto cansado. Não é estranho esperar a vida toda por algo que deveria ser uma constante em nossas vidas? Não é estranho passar a vida fazendo tudo certo sem nunca alcançar a satisfação necessária para encontrá-la quando desistimos de procurar e nos contentamos com o ordinário? A beleza da vida é que o inesperado está sempre nos espreitando e não importa se deixamos de acreditar em fadas ou não, o que importa é que na próxima curva toda sua vida pode mudar e você nunca estará preparado. Nunca.
27 de set. de 2007
As noções básicas de cortesia estão perdidas para sempre. Se sairmos dos canais “oficiais” ninguém mais sabe como se comportar ao receber um convite. Vamos a uma aulinha básica. Se receber um convite com as letrinhas mágicas RSPV, saiba que quer dizer Répondez s'il vous plaît, cuja tradução literal é “não seja um asno, responda confirmando sua presença”. RSVP é usado em ocasiões onde o numero de pessoas presentes impacta o planejamento geral do evento. Seja um jantar, coquetel, casamento, batizado ou mesmo um almoço, o organizador se baseará no numero de presentes CONFIRMADOS para preparar os comes e bebes que todos adoram quando são gratuitos. Pensar que sua resposta não fará diferença é a mais alta falta de cortesia que poderá demonstrar para o coitado que teve o desprazer de te convidar. Assim como você, outros tantos pensarão “decido na hora, não fará diferença” ou “confirmo e se não tiver vontade acabo não indo”. BIG NO! Se você for à um jantar e faltar comida ou bebida, certamente sua língua trabalhará a semana toda metendo o pau no anfitrião. E no caso de sobrar, para você não fará diferença, mas quem paga a conta nunca mais o convidará quando souber que o “babaca” resolveu não aparecer. Responder à um certo tipo de convite é simples questão de educação. Não seja um asno.
25 de set. de 2007
O que você realmente confessaria se não tivesse medo de ser escutado por uma mosquinha fofoqueira? Temos, cada um de nós, noções de moral elásticas que se ajustam à nossas necessidades e desejos. Muita vezes, muitas mesmo, condenamos atos que esquecemos achar natural vindo de nós mesmos. Somos sempre melhores, certo? Podemos mais e temos mais discernimento, certo? Mas, agora sinceramente, deixando de lado toda nossa suprema arrogância, me conte, aqui bem ao pé do ouvido ou, se sua consciência pesada o perturba, por trás desta cortina pesada que esconde seu rubor do meu. O que realmente você gostaria de me dizer sabendo que seu nome me é estranho e suas feições desconhecidas? Sussurre em meu ouvido e eu te contarei um segredo.
23 de set. de 2007
Gosto de imaginar que existe algo depois da morte. Depois do ultimo suspiro, do murchar dos pulmões inúteis, do ultimo bombar do coração corroído, doído, pelo tempo. Depois que o corpo encontrar o repouso num ultimo estirar de membros onde o ultimo sinal de que ali uma vida existiu é o crescer incontrolável das unhas e cabelos que ignoram a morte por mais algum tempo. Depois...
Gosto de imaginar que existe algo depois do túnel de luz branca onde anjos cantam o caminho. Depois das portas, abertas de par em par, da entrada do paraíso (ou o que quer que haja depois para os bons). Depois do reencontro com os entes queridos e os animais de estimação que esperaram pacientemente pela sua chegada.
Depois...
Gosto de imaginar que depois de tudo isso é nos dado a sabedoria de enxergar o que fomos humanos demais para perceber. O sentido das coisas. O motivo oculto. As escolhas que nos foram roubadas. O minuto supremo onde tudo nos é revelado e podemos sorrir de nossas dores terrenas e entender, por fim, que tudo teve sentido.
Depois.
Somente depois.
20 de set. de 2007
Geroge, Oh George!
Não gosto desse calor. Me desconcentra. Fico pensando em uma praia deserta, eu de vestido diáfano e curvas voluptuosas e George Clooney de sunga. Ta bom, sem sunga. Como pensar em qualquer coisa quando Georginho fica passeando na frente da minha subconsciência com as belezas de fora e um copo de Martini na mão? Tenho um milhão de coisas para fazer todos os dias desde que mudei de emprego. Eu mudei de emprego, by the way. Falo com pessoas interessantíssimas, tenho uma chefe maravilhosa e que parece ligada em duas tomadas de 220 o tempo todo, não tenho tempo para pensar em problemas ou contas que se empilham, o que é uma tremenda vantagem quando contas sempre se empilham em sua vida. Mas o que isso importa quando este calor infernal traz George, oh George, com seu copo de Martini e seu rosto másculo sempre na periferia de minha atenção? Não gosto de me entregar fácil às minhas fantasias e resisto bravamente ao copo de Martini estendido em minha direção e ao biquinho beijoqueiro de meu amante imaginário. O trabalho não pode esperar, tudo é urgente e George, como todo bom amante imaginário, compreende e se deita na rede à minha espera. São quase dez horas da noite e posso agora, sorrindo de antecipação, correr para a rede e.... Poor George... A espera foi longa demais. Ou talvez foram os tantos Martinis mexidos, e não batidos, que tomou na sua longa espera. O fato é que meu querido amante dorme e eu, com um suspiro, sento-me aqui, atrás do meu novo laptop (vocês leram “meu novo laptop”?) e penso em George em seu sono comatoso. What the hell, vou eu também tomar um Martini. Espere-me, Mister G!
18 de set. de 2007
16 de set. de 2007
Ele olhava para trás com os olhos tristes e desconfiados de quem já passara por mais do que merecia na vida. Eram olhos cansados, mas no fundo deles um brilho dourado anunciava que, against all odds, ainda havia um resquício de esperança em seu pequeno corpo. Sua perna, aquela que fora quebrada duas vezes, doía demais nesses dias que amanheciam tórridos e terminavam gelados. Seu corpo exigia uma tremenda força de vontade para continuar a se mover, mas ele tinha medo e continuar em movimento parecia a única saída. A voz que o chamava era convidativa, mas não o foram todas as outras? O corte em sua testa ainda sangrava, mesmo depois de 3 dias, e ele chacoalhava a cabeça sem parar para que o sangue não cegasse. Ele estava cansado. Não somente seu corpo parecia querer desistir, mas também seu espírito estava se encaminhando para aquele ponto onde o fim da dor, do desconforto, do medo eram um atrativo maior do que o continuar a viver. E a voz continuava a chamá-lo. Ele não podia andar mais rápido e parecia que quem o perseguia estava cada vez mais próximo. E de repente ele não se importou mais. Isso acontece frequentemente com quem foi maltratado, abusado e jogado pela vida como um pedaço de carne podre. Era hora de parar de fugir. De enfrentar o destino com paz no coração e a esperança que o fim fosse rápido e tão indolor quanto possível. E a voz o alcançou. “Vem cá, garoto. Que foi que fizeram com você?” Mãos doces e cuidadosas o pegaram no colo e o tecido macio do suéter do homem de voz calma o esquentou e o induziu a um estado de torpor que ele pensou ser o prenuncio da morte. Por algum tempo ele sentiu o balanço do andar e o ar da noite pareceu doce. O homem continuava a falar, mas ele já não ouvia as palavras, somente notava a cadencia apaziguadora. Logo parou de sentir a brisa e parecia que estavam dentro de uma casa. Apesar de sentir um começo de curiosidade não conseguiu abrir os olhos. Sentiu seu corpo mergulhar em água morna e perfumada e, depois de ser esfregado com delicadeza, teve seus machucados tratados e sua perna ruim enfaixada. A cama macia veio a seguir, e se isso era o céu, então o paraíso tinha cobertores fofos e coloridos. Ele dormiu. Abriu os olhos para um aposento claro e um som maravilhoso encheu seus ouvidos. Ele sabia que era musica, a ouvia quando olhava para dentro das casas esperançoso. Fechou os olhos novamente pensando que era o melhor sonho que tivera quando ouviu a voz do homem chamando. “Acorda, garoto, você precisa comer.” Foi carregado novamente e o homem até mesmo o ajudou a fazer suas necessidades antes de apresentar uma vasilha cheia de leite com umas coisinhas crocantes e doces que fizeram sua boca arder de desejo. “Comprei umas coisas pra você enquanto tava dormindo, amigão. Que você acha de morar aqui comigo?” O homem começou a lhe mostrar coisas lindas e que ele já vira outros usarem, mas que nunca imaginava que alguém quereria lhe dar. Sentiu algo novo e uma vontade irresistível encheu seu corpo judiado. Pulou nos braços do homem e lambeu seu rosto enquanto abanava o rabo meio torto que Deus lhe dera. O homem riu e o abraçou e foi como sempre imaginara. Isso era o paraíso sim, mas ele estava vivo e achara um humano que tinha um lugar no coração para um cão dedicado como ele. Au au. Isso era o paraíso sim.
18 de jul. de 2007
HellBus

Lá fora chove e chove daquele jeito irritante e desconfortável. Você pensa que pode andar essa meia quadra sem o monstrengo do guarda-chuva, mas percebe que cometeu um erro quando sua roupa já está absolutamente empapada pela garoa do inferno. Mas a chuva não é o que me desagrada nos dias chuvosos. Dã!!!! O pior nesses dias são as pessoas. O mundo de hoje parece ter criado uma horda de ogros, caricaturas de seres humanos, preguiçosos compulsivos e pirralhos agigantados.
Chego e pego uma fila ainda pequena (a terceira em espera), que vai me permitir ir sentada. Espero vários e vários minutos até que o ônibus designado para minha fila chegue. Já lá dentro procuro um lugar longe das goteiras (não faz essa cara, tá cheio de goteira nos ônibus) e me ajeito à janela já com meu livro à postos. O motor ronca mais alto e lá vamos nós. Um ogro adolescente se joga ao meu lado me olhando feio porque cheguei antes e ocupei o melhor assento do banco. Outros ogros adolescentes e vários pirralhos agigantados passam grunhindo para mim, que tento me esconder atrás do livro, como se meu direito ao assento em questão pudesse ser questionado. Ignoro a todos com meu mais plácido semblante matutino e me afundo no meu livro, onde uma batalha na Segunda Guerra parece mais atraente que o Vila Gilda. Caricaturas úmidas chacoalham seus guarda chuvas, como se já não bastassem as goteiras, e fazem chover sobre os pobres mortais que conseguiram se sentar às custas de filas e minutos perdidos.
Nota.
Eu sou uma boa cidadã. Costumo me oferecer para carregar objetos alheios, ofereço meu assento para os mais velhos e até sou bem simpática com os idiotas que batem na minha cabeça quando sento no corredor, mas meu pavio não é muito longo, hu hu, na verdade é meio curto. Tá bom, às vezes é mínimo.
Fim da Nota.
Depois de alguns minutos de muda agressão por parte dos ogros em pé eu finalmente abaixo meu livro. Dirijo-me primeiro à mulher que parece não conseguir enfiar seu guarda chuva em nenhum ligar alem de sobre meu banco “Ou você guarda essa joça ou vou enfiá-la pela sua garganta abaixo.” Gentilmente me retorço no banco para olhar para o pirralho atrás de mim em pé nas escadas que parecia achar que minha cabeça era um bumbo “Se você encostar em mim mais uma vez eu vou arrancar o que você considera ser prova da sua masculinidade. Isso quer dizer que eu vou capar você. Entendeu?”
Durante um minuto estupefato o ônibus ficou em silencio, mas logo risos estouraram e até o ogrinho ao meu lado sorriu para mim. Eu, vermelha e sem graça por ter perdido a calma, me enterro em meu livro novamente e me pergunto se não é hora de comprar uma lambreta.
6 de jul. de 2007
Fatos da Vida
Pastel de feira tem gosto diferente. Parece mais festivo, talvez até exótico. Comer pastel de pastelaria é como comer pizza em Goiânia, completamente sem graça. Talvez sejam os gritos dos feirantes ou as fatias de melancia, abacaxi e afins que vem como sobremesa.Gadgets! Quem não os ama, quem não os deseja mesmo que não saiba para que vai usa-los? MP3, PenDrives, celulares com mil funções, despertadores que gritam seu nome, telefones que fazem tudo que os anteriores fazem e ainda brilham no escuro, mini estações de entrada USH em formato de bichinhos, maquinas digitais que fotografam em qualquer condição, caixas de som em formato de bolsa para seu MP3, teclados dobráveis, mini mesas para seu laptop e por ai vai. Cada dia que passa descobrimos que não podemos absolutamente viver sem estas pequenas maravilhas o que me leva para um outro fato da vida.
Japoneses podem fazer qualquer coisa. Qualquer país pode inventar algo, mas somente eles conseguem transformar esse algo em magia. Não é somente o fato de conseguirem encolher qualquer treco, que vai com certeza funcionar melhor do que o original, e ainda fazem com que seja uma maravilha para os olhos. São os mestres dos gadgets. São os criadores das melhores inutilidades indispensáveis. Quem não gostaria de se perder Tókio com alguns dólares no bolso? Dizem que são pequenos e por isso criam miniaturas, dizem que seus olhos estão sempre apertados para ver melhor, mas a verdade é que criam tantas coisas incríveis pois tem os cérebros mais privilegiados do planeta.
Não importa o que você leia, mistério, romances, aventuras, biografias, historia, você vai ser uma pessoa muito melhor e mais sabida se puder se educar a ler cada vez mais. Num mundo frases bruscas e toscas, ler cria um mundo a parte, aumenta seu vocabulário, o ensina geografia e historia sem que você perceba. Ler não é somente para os cultos, vide euzinha que devoro livros e não tenho nada de culta, é para todos. Livros ensinam a pensar, induzem a pensar. Livros são chocolate e pipoca para o cérebro, são a maneira de vivermos em um mundo completo que nunca conheceremos. Não são como os filmes onde só podemos ver o que nos mostram, os livros nos conduzem pelos pensamentos dos protagonistas, pelas artérias da trama. Ache seu gênero, seu autor e mergulhe.
Por mais que você seja desencanado e não ligue para o que aconteça quando já tiver feito sua viagem para o paraíso (ou inferno), deve um dia parar para pensar se gostaria que seus pais e avós deixassem o mundo no estado em que está deixando para a posteridade. Fazer algo gentil pela natureza não é frescura, não é gay (coisa que muitos machos parecem pensar), não é inútil porque você é somente um, é imprescindível neste mundo esgotado e esquecido por Deus.
Pipoca, chocolate, batatinha, amendoim, bala de goma, jujuba e similares, não são “besteiras”. Na verdade são parte importante de um gênero alimentício ainda não descoberto e que DEVEM ser inclusos na sua alimentação para o balanço perfeito de sua saúde física e mental. Um dia os japoneses descobrirão isso e contarão ao mundo. Confio neles.
Só para agradar meu irmão: O mar é feito de xixi de peixe.
1 de jul. de 2007
Post Mortem
Para qualquer pessoa a visão seria chocante, talvez até nauseante. Provavelmente lagrimas instantâneas nublassem a vista e espasmos estomacais levariam mãos a cobrirem bocas, corpos se dobrariam em dois enquanto joelhos atingiriam o chão levando dor a um cérebro já sobrecarregado. Mas não para ele. O rosto tingido em tons de púrpura e sangue já não mais parecia pertencer a um ser humano. Os ossos quebrados deformavam a face e lembravam mais um ser saído de um filme de horror. O corpo não estava em melhor estado. “Em frangalhos” poderia bem descreve-lo, mas não diria tudo. Não bastaria para contar da humilhação que fora infligida, do sadismo extremo com que fora tratado, do desprezo pela vida que cada chaga, cada hematoma, cada pequeno rio de sangue gritava em altos brados. Mas seus olhos estavam secos. Enxergava cada pequeno detalhe sem que sua face perdesse a cor rosada ou que seus olhos se espremessem como fazemos quando algo nos choca. A mesa de aço, que parecia tão gelada e imprópria para o repouso de qualquer corpo humano, já estava preparada. Todos seus instrumentos na bandeja brilhavam tão desnecessariamente esterilizados e o gravador aguardava suas palavras que seriam o epitáfio de uma vida perdida tão estupidamente. Seu sanduíche de mortadela, a metade dele que ainda restava, lhe chamou a atenção e o atacou com determinação enxaguado por uma lata de guaraná já meio quente. Seus olhos nunca deixaram o corpo. Sua mente nunca deixou de se perguntar como um ser humano poderia tratar a outro assim. Mas esse era o seu trabalho, como fazer tabelas ou dirigir empresas o eram para outros, e ele se orgulhava de ser um dos melhores. Um arroto quebra o silencio da sala e ele enrubesce. Primeiro sinal de qualquer emoção nesta figura tão fria quanto sua sala. Olha para o corpo e com voz rouca e velha pede desculpas pela grosseria. Só então percebemos que seu coração não está morto, não está intocado pela tragédia que jaz diante dele. Está somente bem abrigado, protegido por anos de tragédias, centenas de corpos maltratados, milhares de vidas destruídas. Seu coração ainda bate como o nosso, mas seu trabalho é mais importante que seus sentimentos. A mão firme que acaricia o rosto pétreo o denuncia novamente e logo nada mais resta a não ser o legista. Ele é a ultima voz que se levantará pelas vitimas.
28 de jun. de 2007
Battlestar Galactica

Não posso dizer que eu seja uma fanática por ficção cientifica, apesar de assistir quase todos os filmes do gênero que não sejam incrivelmente ruins, mas admito que resisti muito até ser convencida, pelo irmão Urso, a assistir Battlestar Galáctica. Não o ouvi por duas temporadas, mas acabei cedendo ao começar da terceira temporada. Ele chegou naquele sábado animado e eu acho que bufei um pouco, meio “Oh, Brother, o que não faço por você. Vamos assistir essa joça e partir pra próxima.” Não foi preciso muito. Logo eu era uma criança irritante lhe exigindo atenção o tempo todo. “Quem é esse? Onde eles estão? De onde vieram? Como os Cylons chegaram ali?” Algumas semanas depois, cansado de mim talvez, ele me presenteou com a primeira temporada. Nessa altura do campeonato eu já ansiava pelos sábados sem pensar no descanso. Só o que me interessava era a chegada das 4 horas e da musica meio etérea da abertura. Numa época de seriados repetitivos, copiados e sem futuro, Battlestar cativa pela profunda verdade por trás da ficção. A política, a natureza destrutiva e combativa do ser humano, a busca de uma comunidade que nem sempre é aceita por todos seus membros. Assisti a primeira temporada em poucas noites. Perdendo horas de sono, acordando para o trabalho com olheiras profundas, mas somente pensando que faltava pouco. Logo eu saberia tudo que importava. Mas claro que eu estava errada. A primeira temporada termina e me deixa num vão escuro e assustador e, apesar de eu saber o futuro que cada sábado me trás, não pude ficar parada. Parto em busca da segunda temporada e não demoro a me separar de meu suado dinheirinho em troca da caixa tão esperada. E é mais do que eu esperava. Muito mais. Esqueço da banalidade da vida enquanto Galáctica salta entre galáxias e Cylons ressuscitam em suas múltiplas copias. Assisto cada capitulo entre exclamações de surpresa, lagrimas de ansiedade e tristeza e muitos palavrões ditos em voz alta, o que parece divertir muito minha mãe no quarto ao lado. Battlestar Galáctica ganhou um lugar em minha rotina há muito tempo desocupado. Aquele lugar especial que guardamos para o que nos toca profundamente. TNT, sábados, 4 horas da tarde.
25 de jun. de 2007
A nova “brincadeira” dos adolescentes é se provocar desmaios. Não um. Não dois, mas às vezes 15 ou 20 em uma só noite. É obvio para quem tem dois olhos, dois ouvidos e meio cérebro que o mundo está indo ladeira abaixo, mas fico pensando como uma geração pode ter decaído tanto em inteligência e bom senso como esta. Intrigada com a pequena noticia sobre o novo modismo eu sai a procura de mais informações e elas pipocam muito naturalmente, como se fossem anúncios de um novo IPod. Apesar de muitas matérias avisando sobre os riscos os jovens continuam brincando. E morrendo. Tragédia? Não. Pura idiotice. Não consigo ter pena de pessoas que brincam com a própria vida e são estúpidas demais ,ou egocêntricas demais, para pesar os danos, para enxergar o perigo. Tragédia é ver o mundo entregue a uma geração que não dá valor nem a própria vida.
21 de jun. de 2007
Festa
Fico pensando se este ano terei sorte. Há muito tempo que festa junina é uma decepção. A ultima parecia mais uma zombaria, uma mal aparada tentativa de vender restos. Barracas e mais barracas de brechós, quentão feito de gasolina (pelo menos foi o que me pareceu quando explodiu em meu estomago) e barracas de cachorro quente e mini pizza(?). Nada de bingo, nada de barracas com brincadeiras, nada de doces típicos ou salgados da roça. Tudo mais sem graça do que TV aberta no fim de semana. Estamos perdendo nossas tradições a passo tão rápido que é até ridículo. Nada mais se parece com antigamente. As musicas das tão queridas festas juninas correm do aché para o funk sem respeito por São João. Ninguém se diverte mais mandando correio elegante para desconhecidos. Tudo é moderno e absolutamente sem graça. Festa junina perdeu sua identidade e daqui a pouco as outras festas também se renderão. Quanto tempo passará até que não nos lembremos mais do que significam e de como eram divertidas? Dizem que a idade gera saudosismo, que tudo parece melhor no passado, que vemos tudo com olhos cor de rosa, mas não é verdade. O passado possuía uma inocência e delicadeza que não podem ser recuperadas. O mundo está velho demais. Os jovens nascem sabendo coisas que deviam ignorar. A ordem é estar sempre à procura, mesmo que não se saiba do que. Não se sabe mais viver, somente se corre de um lado para outro esperando que as experiências sejam boas o suficiente para um dia podermos ser saudosistas. Mas ninguém mais o é. Ninguém mais tem motivo para ser. E se alguém souber de uma festa junina decente, por favor, me avise.
20 de jun. de 2007
Greve de Heróis
Correspondente: Testando... Testando... (click... rewind…) ”Testando…Testando…” Estamos prontos. Podemos começar? Muito bem. Sei que muitas perguntas que farei parecerão agressivas, mas quero deixar claro que só procuro respostas para as mil perguntas que o mundo se faz nesse momento. Ok? Vamos começar. Sei que a pressão de seu trabalho é grande e nem sempre a recompensa é justa, mas não se sentem constrangidos de abandonar as pessoas a sua sorte quando tem poder para minimizar tantas dores?Super Herói 1: Bem... sim... não... Nem sempre é possível agradar à todos e, bem, meus companheiros e eu, bem...
Super Herói 2: O que meu colega quer dizer é que se nosso trabalho fosse realmente apreciado nunca nos teríamos sentidos desmotivados a continua-lo. Temos sentimentos como qualquer pessoa normal e nos magoamos e zangamos também, mas talvez o que tenha nos levado a abandonar sua raça à própria sorte, como você diz, tenha sido a frustração.
Super Herói 3: É isso ai. É frustrante estar sempre correndo para ajudar um bando de idiotas.
Correspondente: (sentindo cheiro de sangue e atiçando a fera enjaulada) Idiotas? É essa a visão que os Super Heróis tem dos simples mortais?
Super Herói 3: Pode apostar que é. Bilhões de idiotas sem um pingo de bom senso nos seus corpinhos frágeis. Células cinzentas indecisas e burras, é isso que vocês tem na cachola.
Super Herói 1: Não! Não! Não é bem assim. Bem, eu não penso assim, as pessoas são pessoas e eu tenho o maior prazer em ajudar, mas, bem, sabe como é, nem sempre... às vezes... só de vez em quando.... bem...
Super Herói 2: O que meu colega quis dizer por “idiotas” foi que se você tem um corpo tão frágil e um cérebro tão pequeno, não devia se arriscar tanto. 90% do nosso tempo é perdido salvando idiotas, hum hum, quero dizer, pessoas que se arriscam sem necessidade. Enquanto isso pessoas realmente em perigo, e que não se colocaram em situação de perigo por farra, sofrem por não podermos prever quem é “idiota” e quem não é.
Correspondente: Desculpe, mas como assim prever quem é idiota?
Super Herói 3: Eu consigo prever. Quem grita mais alto por socorro é sempre o idiota. O verdadeiro inocente sempre soa absolutamente surpreso. Alem do mais a vitima verdadeira sempre é grata enquanto o idiota, depois do susto, volta a ser um completo idiota agindo como se pudesse ter saído do apuro sozinho.
Super Herói 1: Não é bem assim, ele só está um pouco nervoso. A gente anda muito estressado.
Correspondente: Mas a, huhum, idiotice das pessoas, de algumas pessoas, justifica que deixem o mundo sem proteção?
Super Herói 2: Você nunca deixou de fazer algo por que não lhe dava mais nenhum prazer? Ou porque para você já não funcionava mais? Ou mesmo porque ficou de saco cheio?
Correspondente: Bem... Sim, mas eu não sou super herói.
Super Herói 3: Azar o seu.
Super Herói 2: Nossa condição não dá ao direito às pessoas de abusar da sorte.
Super Herói 1: Eu só tô meio cansadinho...
Super Herói 3: Você tem é o miolo mole. Se não fosse a gente decretar greve geral ainda tava por ai ajudando os idiotas.
Correspondentes: Não existe uma maneira de serem convencidos a voltar?
Super Herói 3: Claro. É só se livrar de todos os idiotas.
Super Herói 1: Não que me incomodem, mas ajudaria muito.
Super Herói 2: É, seria um alivio. A burrice entre seu povo parece estar se espalhando como doença. Erradicar seria inteligente.
Correspondente: Hummmm.... (desligando o gravador) É, seria bem legal. Vocês aceitam ajuda?
19 de jun. de 2007
Serial
Suas mãos eram quase femininas. Lisas e aparentemente macias. No entanto eram estranhamente másculas e meus olhos eram atraídos pelos seus movimentos sinuosos como o canário é atraído pela cobra. Ele não me tocara, não ainda e eu sabia que queria faze-lo, mas deixava suas mãos muito próximas das minhas que descansavam na mesa, dedos entrecruzados, quase como se rezasse. Sua voz macia dizia coisas por vezes chocantes, como se para me testar, mas na maior parte do tempo seu discurso era quase doce. Eu fechei meus olhos por um momento e deixei que todo o resto desaparecesse e pude entender como fora fácil para ele. Sua aparência inocente, sua voz rouca e as mãos que eu sabia fortes eram tudo que precisava. Eu não precisava falar, ele bem sabia quem eu era e o que queria e parecia mais do que disposto a me revelar todo seu magnetismo e, entre linhas, suas intenções. Ele disse algo que me fez sorrir e isso pareceu o agradar muito. Bateu as mãos como uma criança feliz e me sorriu de volta mostrando os dentes perfeitos escondidos pelos lábios voluptuosos. Ele queria que eu o entendesse e eu entendia, mais do que ele gostaria, mais do que eu gostaria. Nem sempre a compreensão do que motiva o próximo nos alivia de nossos medos, talvez só os intensifique. Eu tentei falar, mas adivinhando que eu o deixaria tentou me fazer ficar confessando segredos em voz baixa e urgente, me entregando abruptamente o que por horas se recusara a revelar. Falou de cada detalhe com um prazer perverso, vendo meu rosto perder a cor apesar de meu treinamento, estreitando os olhos ao ver meus músculos se retesarem involuntariamente. E eu soube que era assim que ele agia sempre. Era muito fácil perceber sua excitação crescente ao ver meu desconforto. A dança da conquista finda e a perseguição implacável iniciada. O terrorismo mental, o antecipar o horror da vitima ao contar como terminará antes mesmo que ela saiba, antes mesmo que ela perceba que sua vida não vale mais nada. Levantei de repente sem deixar que ele terminasse e a fúria que se seguiu transformou o príncipe em monstro. As mãos delgadas agarraram meus pulsos e os dois guardas presentes pouco puderam fazer a não ser pedir por socorro. Ele me queria, como quisera as 23 mulheres antes de mim. Ele precisava que meu corpo perdesse o sangue vital, que meu pulmão arfasse em busca do ar, que meus olhos se fechassem para sempre. Nem mesmo na cadeia sua ânsia diminuira. Não era loucura, não era insanidade, era pura fúria. Mais guardas chegaram e eu fui libertada, mãos dormentes e rosto descomposto. Eu sabia o que tinha que fazer. Meu parecer era final. Ele seria julgado, condenado e executado. Eu seria responsável por isso, mas era a única saída. Somente assim eu poderia dormir novamente. Somente assim me sentiria segura.
18 de jun. de 2007
Itch

"Fill what's empty, empty what's full, and scratch where it itches." The Duchess of Windsor
É como um comichão em um lugar impossível de coçar. Dentro de meu cérebro. Eu tento ignorar, o corpo cansado ajuda, mas é como em uma musica clássica, que vem nunca crescendo infinito nunca permitindo que os pratos soem e os tambores rufem para o final magnífico. É um crescendo angustiante. É a inatividade forçada. Parar de escrever foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Mais difícil do que desistir de amar. Ainda mais difícil do que recomeçar a viver. Espantar as mil idéias como moscas incomodas foi torturante. Ignorar a maquina maníaca no canto do quarto com sua tela negra zombando de minha escolha foi ainda pior. Resolvo testar a propriedade da minha resolução e digo na frente de minha família que parei de escrever. Esperava por uma quadra de ases “Não faça isso. Continue.” Mas acabei com um par de setes em uma mesa de jogos altos. Só silencio. É triste como se demora a perceber que uma hora se deve fazer o que gosta sem esperar pela aprovação dos que amamos, nem sempre eles se importam. Nem sempre é importante para eles o que é importante para nós. Demorou para que os emails e comentários dos amigos atingisse o nervo. Eles diziam “Coce! Você é boa nisso. A gente ajuda. Uma coçadinha aqui, uma ali... Não se sente melhor agora?” Sinto-me muito melhor. Obrigada.
Até amanhã.
17 de abr. de 2007
Até que a morte...
Ela o olhava com os mesmos olhos de sempre. Adoradores e ausentes. Muitas vezes ele pensava que ela nem mesmo o via, não o seu eu real, mas aquele com o qual ela sonhava e para o qual respondia perguntas nunca feitas e para quem agradecia carinhos nunca ditos. Ele lhe dizia, claro que dizia já que não suportava mais esse amor, que não podia mais, não a amava, não a queria, mas ela somente o olhava, sonhando com outras palavras como se ele fosse somente um personagem que pudesse ser dublado ao gosto do freguês. Era quase uma tortura diária. Ela telefonava 20 vezes por dia, mandava flores, planejava viagens que nunca fariam, importunava seus amigos e nunca, mas nunca mesmo, se importava com suas respostas ríspidas, sua ira cada vez maior. Ela não via. O amava e só isso importava. O escolhera e não deixaria que ele estragasse o relacionamento de seus sonhos. Ele já não tinha forças para fugir, ela sempre o achava, não tinha forças para lutar contra vontade tão poderosa. Era um mártir que vê a hora do sacrifício chegar sabendo que não há saída, a visão do fim é quase doce. Ele a mandou vestir branco, lhe deu um buquê de flores do campo e uma aliança larga e antiquada. A levou para o campo e em uma trilha, entre arvores centenárias e flores sob os pés, prometeu ama-la até a morte. Ela não sentiu, nem mesmo ouviu a explosão que fez os pássaros fugirem em revoada. Nunca percebeu a arma encostada em seu peito, nem mesmo estranhou as lagrimas desesperadas nos olhos de seu príncipe encantado. Seu coração parou no momento mágico, na hora eterna de sua felicidade. Ela conseguira. Ele era seu até a morte.
16 de abr. de 2007
Pé na Cova Recomenda: CELL
Sempre espero que Stephen King me decepcione. Quase aconteceu com The Colorado Kid, mas acabei entendendo o que ele pretendera com o livro, provar uma teoria, e ele consegue, como sempre. Mas para mim foi um livro fraco e esperei pelo próximo com a sensação de pesar de quem perde um grande amigo. CELL chegou em paperback e o ignorei, um novo Stephen King, grande tentação, possível grande decepção? Medo me fez investir nos antigos King, aqueles com mais edições do que a idade de meus cães, mas CELL continuava na prateleira piscando para mim irreverente. “Me leve... Sou seu... Medo de que, já não nos conhecemos há tanto tempo?” E eu não resisti. Resisti por quase um mês, o deixando de molho na prateleira dos não lidos, mas é um King não lido e parece pulsar cada vez que meus olhos passam sobre ele. O pego. Mastigo a primeira pagina devagar, receosa, sem nunca ter lido sua contracapa para saber que tipo de King era este. Na décima pagina já me agito, é um King, sim, e com gosto de The Stand, apocalíptico, enigmático. Não sei quantos dias levei para lê-lo. Três ou quatro, não mais do que isso, e relendo às vezes capítulos inteiros à procura de pistas, revendo emoções, chorando pelos mortos. Como todo King este me deixou exausta, sofri com cada personagem e a cada morte dolorosa me lembrava de seu conselho aos novos escritores em seu livro On Writing “Kill your darlings! Kill your darlings!”, não somente no sentido de silenciar um personagem, mas de ter coragem de cortar o supérfluo que por vezes nos parece tão bonito, mas é somente floreio desnecessário. Ainda estou exausta. Há dois dias tento abrir um novo livro e não tenho coragem. Tenho medo de tirar de minha cabeça o horror, o amor, o sentimento, a possibilidade assustadora do futuro, a jornada imprevisível, as medidas extremas que podemos tomar quando desafiados, a coragem que nasce no coração dos abandonados, o pulsar que só Stephen king consegue dar. Sem contar que peguei uma certa aversão pelo meu celular.
14 de abr. de 2007
Nos Olhos
Não está estampado na face. Nem tampouco nos cabelos ou na curva suave do pescoço. Nunca verá sinal na postura do corpo ou no formato das mãos. É impossível se adivinhar pela fala que tanto parece coerente. Está, sim, nos olhos. Aqueles olhos insanos e incandescentes que perturbam mas nem sempre denunciam. Loucura. Não a insanidade saudável que, por exemplo, me possui e a muitos de grandes desejos e paixões, mas sim a obsessão que apaga o direito do próximo e descarta qualquer vontade que não a sua. É nos olhos que vemos o fanático religioso mostrar sua verdadeira cara. Onde vemos o ódio escondido por trás do sorriso quando nos negamos a ouvir suas “verdades”. É nos olhos, também, que reconhecemos o mal camuflado de grandes intenções dos terroristas. É nos olhos que vemos a inveja por trás de palavras doces e o sadismo disfarçado de paixão. Somente nos olhos. É nos olhos sedentos que o serial killer se revela e onde o trapaceiro pode ser descoberto. É nos olhos que carregamos todas nossas intenções, boas ou más, e é por isso que devemos manter os nossos bem abertos, para que possamos ver o que se passa em outros olhos.
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