18 de mai. de 2010

Observações


A filha da senhora do 4º mora no 16º, mas é a senhora do 4º que passeia com o pequeno cão dela, isso quando não está passeando com o seu que é velho e mal humorado. A senhora do 4º é argentina, acho, e tem a disposição inversa ao seu cão. A moça do 10º usa saltos mesmo depois que chega em casa. Eu a ouço andar sem parar pela casa, tec tec tec, e me pergunto se ela não tem uma havaiana ou se gostaria de uma. Ela também gosta de arrastar moveis às 3 da manhã e eu a sigo de olhos no teto fazendo pequenas sugestões “A cama não fica bem ai, vire ao contrario e ponha a mesa do computador embaixo da janela.” O rapaz da cadeira de rodas mora no 8º, sempre é simpático mesmo quando o elevador lota e alguém quase cai em seu colo. A grávida do 13º tem dois cães e sempre comenta as musicas que escuto quando chegamos à garagem juntas. O senhor do 2º parece julgar que todos são possíveis seriais killers ou ao menos batedores de carteira. Minha vizinha, 9º, tem duas filhas, uma neta e o Chico, seu cão, que parece ter sempre algo a me dizer quando entro e saio de casa. Os jovens do 5º adoram futebol e graças a Deus torcem pelo time certo, pois do contrario suas comemorações escandalosas incomodariam. A jovem do 11º é antipática, talvez a saia muito justa e curta esprema seu cérebro. O garoto do 3º gosta de bola e de mais dois amigos. A mãe do 15º deixa o filho mais novo se vestir para ir a escola o que resulta em uniforme, óculos escuros e boné do Tigrão ( amigo do urso, não o meu irmão, mas o Puff) com orelhas e rabo. Mãe e filha do 17º pensam são melhores que os outros moradores somente por morarem no último andar, a senhora do 4º me assegura, pela careta que lhes faz pelas costas, que isso não é verdade. A cadela do 10º, algo entre um labrador negro e um vira-lata, ama me ver no elevador, alias ama qualquer um que fale com ela e coce ali bem atrás da orelha. O basset do 5º está velho e não quer papo, uma vida inteira olhando para a canela das pessoas deve tê-lo cansado. O porteiro da tarde gosta de papo, o da manhã gosta de acenos, o menino que tira o lixo gosta de pedaços de bolo na sexta-feira, o porteiro da noite olha com inveja para as caixas de pizza, o zelador instala lustres, chuveiros, varões de cortina e sempre cobra metade do preço que cobrariam por ai. Às vezes o elevador tem problemas. Às vezes os dois elevadores têm problemas. Às vezes falta luz, mas a subida pelos nove andares é sempre divertida. Os passos acima da minha cabeça me dizem que é hora de começar a relaxar e preparar o corpo para outro dia. Boa noite.
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17 de mai. de 2010

Blue


Era um homem cortês. Muito mais do que isso, era um homem sempre pronto a estender a mão, a perdoar, a servir. Era daqueles para quem um ato de bondade é mais natural que respirar, mas a cada dia achava mais difícil seguir seus instintos. Quando temos a natureza compassiva não esperamos recompensa, fazemos o bem porque nos faz bem, nos acostumamos a que nos virem as costas e nos encarem com estranheza e até mesmo nos acostumamos a que atos que deveriam ser voluntários sejam exigidos como se a repetição de um gesto delicado deva ser replicado indefinidamente mesmo quando recebido com apatia. Ele já não sentia prazer em fazer o bem, ainda o fazia, mas como o coração pesado esperando o retorno raivoso, como o cão que lambe a mão sabendo que o pé lhe acertará o traseiro no mesmo instante. Olhava em volta e via tantas pessoas precisando de uma mão amiga, mas quando se aproximava o olhavam com aquela expressão rancorosa e estúpida dos que se ressentem dos que tem a alma mais bela e pura. Ele então virava as costas. A primeira vez foi difícil, apesar das palavras raivosas ainda queria ajudar, mas da segunda vez foi mais fácil, bem mais fácil. Era somente imaginar o acido das palavras amargas com que seria pago e podia virar por sua vez as costas sem remorsos. A cada dia ficava mais fácil e também mais difícil, pois para seu coração fazia falta acalmar a dor alheia, mas com o tempo percebeu que os anos mal recompensados o haviam transformado em um homem triste e sem esperança na humanidade. Um dia, andando pela rua tentando ignorar os alertas nas faces emburradas, viu um cão angustiado e faminto. Era fácil ler a historia do animal, a coleira dizia que um dia pertencera a alguém, o pelo tosado que este alguém um dia se importara, mas os olhos desesperados diziam que alem de já não se importarem mais ainda o haviam despachado sem cerimônias para a terra dos animais sem dono, estas avenidas onde alguns encontram alguém que os abrigue novamente, outros viram companheiros sem abrigo de humanos sem casa, muitos perdem a vida entre pneus e asfalto e outros vagam tentando entender onde erraram, se amaram demais ou se demonstraram felicidade demais ao encarar aqueles a quem se dedicaram sem esperar muito, mas esperando por um pouco de carinho. Ele sentou perto do cão, que já devia ter recebido sua parcela de insultos em sua busca por seus humanos, e esperou que o animal viesse a ele. Dividiu um sanduíche com o cão e vendo que este se acalmara o atou com seu cinto e, esquecendo que ainda havia meio dia de trabalho, o levou para casa. Encheu a banheira de água quente e mergulhou o cão com cuidado. O ensaboou varias vezes e o enxaguou até que a água que escorria fosse límpida. Depois de secá-lo o alimentou, misturando arroz e carne moída que pareceram agradar o bicho imensamente. Arrumou um canto da área de serviço colocando jornais velhos e contou ao novo companheiro que ali seria seu banheiro. Resolveu tornar as coisas mais agradáveis e permanentes e atando o amigo novamente ao cinto o levou a um pet shop. Lá comprou ração, tigelas para água e comida, duas roupas de plush, o inverno afinal já havia chegado, e uma cama grande, fofa e bem colorida. Voltando ao seu apartamento arrumou tudo e quando se deu por satisfeito tomou um banho e ligou a TV para ver se o mundo ainda estava girando. Pegou o cão e o acomodou no sofá ao seu lado e o chamou de Blue. E a cada cinco minutos o chamava Blue até o cão entender que era esse seu novo nome. Deste dia em diante nunca mais se sentiu só ou triste por não poder fazer o bem. Sempre que seu coração pedia que fosse gentil ele o era. Para Blue. Sempre que desejava reconhecimento ele o tinha. De Blue. Sempre que queria amor ele o recebia. Blue. Sempre que queria sorrir havia por que sorrir. Blue. Sempre que pensava que quase desistira de ser bom ele agradecia. A Blue
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16 de mai. de 2010

Com o Pé na Cova


As pessoas sempre se surpreendem quando digo a minha idade. Rio muito quando me tiram 10 anos ou mais e mais ainda quando dizem o quanto minha vivacidade os surpreende para alguém tão perto dos 50. Talvez isso se deva ao fato de que minha memória é fantástica para as coisas que importam. Lembro muito bem de minha infância e mais ainda dos anos confusos da adolescência, mas me lembro ainda melhor da minha mocidade e da alegria de estar viva, ser bela e saudável e ter um cérebro de certa maneira privilegiado, já que em uma era onde o declínio mental começou eu fui capaz de pensar por mim mesma e ganhar meu espaço no mundo sem a ajuda de ninguém. Lembro principalmente dos sentimentos e como era lindo amar e sofrer, e ter esperança e desesperar, sempre pulando de sentimento para sentimento em espaços de tempo que agora me parecem infinitesimais. Talvez minha memória é que tenha me dado a capacidade de me conectar com as pessoas que precisam de um ombro amigo, mas não complacente, de uma pessoa com alguma sabedoria, mas sem medo de dizer verdades, de uma mãe/irmã/mulher que não sinta o peso do tempo. Em jovem me consideravam adulta demais, agora, no que considero o pico de minha vida, me consideram jovem para meus anos. De certa maneira faz sentido, mesmo que somente para mim. Vivi tantas experiências maravilhosas que hoje me farto delas, fecho os olhos e revivo meus momentos mais belos como se tivessem ocorrido ontem. Relembro meus reveses e decepções também, pois a balança precisa estar nivelada e saber viver é entender o que te faz feliz e infeliz, o que lhe traz o sucesso e o fracasso. A felicidade é um mito e estar completamente satisfeito com sua vida é entender que “felizes para sempre” somente existe em contos de fada e que um coração que se contenta com o que tem é jovem para sempre. Este blog se chama Com o Pé na Cova e existe, em muitos provedores, há muito tempo. Ele ganhou este nome quando me disseram, pela primeira vez, que eu estava ultrapassada, velha. Foi feito como uma piada e acabou se transformando em mais uma maneira de me manter jovem e “afiada”. Transformou-se também, para minha surpresa, em um lugar onde maravilhosos amigos foram feitos e onde pude, com meu cinismo e crueza habituais, ajudar aqueles que ainda não tem a memória de tantos sentimentos vividos.
Pelas minhas contas são sete anos de Cova e apesar de me distanciar às vezes, com certeza nunca a abandonarei, é aqui que digo o que penso e tento, com o pouco dom que Deus me deu, transmitir àqueles que ainda são inocentes que mesmo quando tudo parece perdido é preciso dar um passo atrás e olhar o quadro com interesse clinico para então voltar, curtir a dor como ao couro e respirar novamente, sabendo que a dor virá muitas vezes, assim como o amor, os momentos de felicidade, a paixão, a alegria. E vivendo cada momento plenamente chegarão aos 47 surpreendendo a todos com uma juventude que vem de dentro, que vem por finalmente aceitar que a perfeição é ser o que se é sem desejar mais ou menos, fazendo de si mesma o melhor e entendendo que se não é magra o suficiente a culpa é do chocolate que come todas as noites e não do universo, se o cabelo não encaracola é porque é naturalmente liso, se o amor não vem fácil é porque está cada vez mais exigente, se não sai tanto é porque não aceita os convites feitos e se o futebol não lhe traz alegrias é porque escolheu torcer pelo Corinthians. Como mano Urso diz.... Se eu tivesse escolha trocava de time. O resto eu deixo como está.
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8 de mai. de 2010


Ter fé é algo com que me acostumei. Não penso muito nisso, não faço promessas, nunca as fiz, não rezo pedindo por milagres, mas confesso que rezo para Deus me dar calma para agüentar tanta idiotice no meu dia a dia. Acendo velas para meu anjo da guarda regularmente e durante crises eu aguardo que Deus me dê uma mãozinha, mas nunca o culpo se está ocupado demais para perceber meu desespero. Tenho fé e não sei de onde vem. Sei que está lá porque quando meu coração pesa , e eu não tenho com quem me confessar, conto minhas inseguranças e medos baixinho debaixo do edredom e sinto um alivio por acreditar que alguém me ouve e se compadece. Não tenho religião, não preciso desta bengala, sou feliz acreditando e tendo fé sem que ninguém me diga que é uma obrigação. Talvez seja minha rebeldia nata falando, mas não admito que homem, ou mulher, na terra se diga apto para entender a fé melhor do que eu e meu coração. Sou assim uma paria nessa sociedade onde se é preciso pertencer, pertenço somente a mim mesma e ao que acredito e acredito em tantas coisas... Hoje, recostada na cama, notebook na bandeja, tenho uma daquelas conversas com Deus, peço a ele que me dê paciência para conviver com aqueles que amo, mas me irritam, mais paciência ainda para continuar num trabalho em que meus superiores tem sempre dois pesos e duas medidas para tudo e, para não parecer que não sou grata, agradeço pela existência dos animais, do chocolate, da pipoca, da TV a cabo, dos amigos que nunca esquecem, do meu irmão que faz tudo valer a pena, dos meus dogs que me tornam sempre uma pessoa melhor, dos livros, da musica, perfumes importados, laranja lima, caixas de madeira coloridas, bichos de pelúcia, flores multicoloridas, canecas gigantes, manicures com senso de humor, banana com sorvete, computadores super potentes, mentes brilhantes, amores possíveis e fins de semana. Ah, e Chris Cornell. Amem.
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2 de mai. de 2010

Segredo


Todos temos segredos. Todos nós escondemos fatos e manias que temos medo influenciarem o modo como outros nos vêem. Todos temos segredos, ridículos na maioria das vezes, como cutucar o nariz e claramente justificados, como assassinato. Ela não cutucava o nariz. Enquanto olhava a sua volta pensava como era simples aparentar normalidade. Ninguém que a visse sentada empoleirada ao balcão tomando um cálice de vinho poderia imaginar que seu acervo secreto de facas picava mais do que cenouras e tomates. Seu sorriso era gentil e sedutor e suas mãos delicadas e macias. Orgulhava-se delas, mas não de sua aparência feminina e sim sua firmeza e precisão. Alguns a chamariam de serial killer, mas nunca procurou uma vitima, estas sempre se apresentavam a ela, culpadas, cheias de pecado, desejo, maldade e estupidez. Algumas vezes se questionava se levava longe demais a aversão pelos parasitas que povoavam o mundo, mas era como se toda resistência fosse inútil, pois eles cruzavam seu caminho a cada esquina. Não fazia distinção entre homens, mulheres, heteros ou gays, o que lhes garantia o posto em seu altar de sacrifício era sua ignorância e num mundo onde a ignorância cresce como erva daninha entre o asfalto não havia como escapar do que o destino colocava em seu caminho. Seu olhar vagou pelo bar e com um suspiro agradecido se preparou para aproveitar uma noite de paz e solidão. Não gostava de matar, não fora criada acreditando estar acima da justiça, do bem e do mal, mas era como uma compulsão e cada vez que podia voltar para casa sem que esta fosse despertada era como um desejo atendido, um milagre realizado. Terminou seu vinho, deixou uma boa gorjeta para o barman e saiu para a rua respirando profundamente o ar noturno que quase a fez esquecer que morava em uma metrópole das mais poluídas do mundo. A noite cheirava a chuva fresca e brisa marinha e se sentiu renovada. Esta noite não mataria, mas sabia que era somente um daqueles dias felizes onde o dedo do destino a acariciava em vez de punir. Hoje seu altar ficaria vazio e ela satisfeita.
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28 de abr. de 2010

Intimidade


Sempre me incomodou essa noção de que intimidade é sinônimo de falta de privacidade, talvez venha daí minha aversão ao casamento. Lembro de alguém me contando como estava completa agora que se sentia a vontade de usar a privada na presença do namorado. Lembro também como fiquei estarrecida e amedrontada pensando que euzinha nunca teria a tão sonhada intimidade já que meus momentos no banheiro são extremamente privados. Como pode se chamar intimidade algo que me provoca extremo desconforto? Para mim intimidade é algo mais pacifico e menos fisiológico. Para mim intimidade é não precisar falar quando não tenho vontade, poder dividir o silencio com a alma que me acompanha sem precisar me justificar. Intimidade é sentir o prazer do outro como meu, duplicando as sensações. Intimidade é ver alem do obvio e se eximir de comentar o que fere e magoa. Intimidade é sentar ao lado de quem amo e ver um jogo de futebol, rindo de seu nervoso, atentando para suas necessidades mais básicas (cerveja e pipoca) mesmo que este possa não ser o meu passatempo preferido. Intimidade para mim é mais de dentro para fora do que de fora para dentro. As pessoas demonstram demais nos dias de hoje, mas dificilmente sentem o tanto que demonstram. Escrevendo agora lembro de outro caso da dita intimidade que fazia com que uma conhecida sempre descansasse uma mão no pênis de seu namorado mesmo que num bar à céu aberto. Ela dizia que a intimidade deles assim permitia, mas para mim sempre pareceu uma cena ostensiva que ela pensava ser sensual, mas para mim era somente ridícula e constrangedora. Quem é que fica de mão dada com o pênis do namorado numa festa? Intimidade para mim vai muito alem de tocar para conectar, está mais para estar tão conectado que sei quando meu parceiro deseja ser tocado. O que posso desejar é que o destino me escolha o próximo parceiro com cuidado, que seja tão neurótico e avesso a esta nova intimidade como eu.
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26 de abr. de 2010


O que eu vejo quando olho por cima de meu ombro é um labirinto de caminhos me afastando do que desejo. Ainda não sei se me deixo levar, se sou tão fraca assim, se tenho medo do que quero ser somente um sonho ou se realmente o destino conspira para me encher o saco. Talvez tudo tenha a ver com meu estado de espírito, que diga-se de passagem não anda lá aquela coisa, talvez seja preciso que o corpo não esteja corroído pelo estresse e o cérebro não esteja sufocado por rotinas desinteressantes e idéias empurradas a força por pessoas que não tem a mínima idéia de para que um cérebro realmente serve. E assim é, como sempre, que olho para frente e me deparo com algumas escolhas. Devo seguir meu coração ou deixar que a vida me engula incompleta? E é isso que me mantém acordada e inativa quando deveria estar pondo sonhos no papel, mas para cada situação existe um “turning point” aquele ponto onde sua vontade é quebrada para sempre ou simplesmente assume a liderança com uma calma decisiva e blasé. Sim, eu sei para onde vou, mesmo que não tenha a mínima idéia de como chegarei até lá.
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31 de jan. de 2010

Pambo

Minha mãe diz que tenho algo de São Francisco, suas palavras não minhas. Qualquer pomba machucada cai em meu quintal, qualquer animal abandonado me segue pela rua, é uma maldição e uma benção. Maldição porque não posso ajuda todos os animais que vejo e benção por aqueles que posso. Esse post é sobre uma Pambo. Não, eu não quis dizer pombo, mas pambo mesmo. Essa ave estranha chegou em minha casa um belo dia com um fio enroscado nas patas, era visível a dor que lhe causava e já não conseguia mais voar, talvez de fraqueza, talvez de dor, talvez por estar puta da vida por alguém ter deixado o raio do fio em seu caminho. O fio terminava em uma argola que se engatava por aonde ela fosse fazendo com que caísse como bêbada de cara no chão. Era um triste espetáculo. Sua aparência tornava tudo ainda mais bizarro. Sua plumagem malhada de branco e marrom claro parecia absurdamente limpa para uma pomba, as patas e o bico tão laranjas que comentei que deveria ser filha de pato e assim ela virou em minha cabeça uma Pambo ou Pomto, ou ainda Pompa na versão de minha mãe que juntou os nomes como bem entendeu. Dia e noite eu olhava Pambo e me condoia e um dia a atrai para a cozinha, fechei a porta, peguei a danada e numa operação meio complicada, já que o fio estava literalmente cortando suas patas, cortei o danado fora e soltei Pambo na porta da cozinha. Ela ali ficou, andando para lá e para cá me olhando quando o click da argola de metal falhava em a seguir. Voltei para a sala com a cara feliz do trabalho realizado e até hoje, quando acordo, Pambo é a primeira coisa que vejo quando abro a janela a cada manhã. Ela mora aqui, eu acho, não sei bem aonde, mas parece considerar esta a sua casa. Quando chove e fecho a janela de vidro ela bate com o bico reclamando de ser deixada de fora, quando fecho a janela no fim do dia e subo, lá fica ela no murinho olhando como se não entendesse o porquê de não ter uma cama como a dos dogs aqui dentro. Quando não lhe damos atenção e fechamos a cortina ela simplesmente espera um vento e pula para dentro quando a cortina dança. Se a cortina está aberta muitas vezes Pambo pula para a mesinha de trabalho de minha mãe e lá fica olhando para a velha como se esperasse um cumprimento. Não adianta gritar xô, nem abanar a mão, ela não se assusta nem quando chegamos perto o suficiente para tocá-la, simplesmente fica lá como se soubesse que não há o que temer. E agora, com a mudança a menos de duas semanas, eu me pergunto o que será dela quando a janela se fechar para sempre. O que será de Pambo sem os pãezinhos de leite que minha mãe lhe dá todo dia? Como ficará se sentindo assim abandonada pela família que adotou? Olho para ela e me pergunto se a levar ao apartamento, até o nono andar, e a soltar de nossa nova janela , será que nos achará novamente? Pambo é um pé no saco a maior parte do tempo, mas é nossa Pambo.

27 de jan. de 2010

Coisas que eu sei...


Na maior parte do tempo eu não estou certa sobre absolutamente nada, mas de algumas coisas tenho certeza:
- Alguns dias são melhores que outros, mas todo dia nasce com a promessa de ser maravilhoso.
- Mediocridade é um item comum nos dias de hoje, não deixe que seja o padrão de suas ações.
- Quanto mais difícil algo é de se conseguir, melhor o sentimento quando conseguimos.
- O amor de sua vida é aquele que você se esforça por manter, os outros feneceram por falta de interesse ou pura preguiça.
- Sexo não tem regras, somente preferências.
- Na escuridão podemos sentir o perfume de terras distantes
- A internet somente é o demônio para aqueles estúpidos demais para acreditarem em tudo que lêem.
- Você precisa aprender a ler antes de dizer que não gosta de livros. Experimentando diferentes estilos é a única maneira de descobrir que tipo de leitor você é.
- Um bom professor nem sempre é um bom profissional da área que ensina e um bom profissional nem sempre é um bom professor. Você pode ser ambos, mas é raro.
- Não amar os animais é perdoável, mas não respeitá-los não é.
- Ser feliz tem mais a ver com aceitar as rotinas da vida do que em viver um conto de fadas.
- Abrir a carteira e achar uma nota de R$ 50 escondida anima o dia de 99% da população.
- A capacidade de recuperação do ser humano é imensa. Infelizmente também o é sua estupidez.
- Ou sou amada ou odiada e isso me serve bem. A indiferença de outro ser humano revelaria minha irrelevância enquanto seu amor ou ódio mostram minha grandeza.
- Se beleza e magreza fossem sinônimos de felicidades todas atrizes de Hollywood estariam bem casadas.
- Quando você tem fome um bom prato de botequim é mais satisfatório que cinco pratos de um restaurante Frances.
- Homens traem sem se envolver emocionalmente. Mulheres não. Talvez por isso mulheres perdoem com mais facilidade um par de chifres do que homens.
- Um sonho é somente um sonho enquanto nenhum passo é dado para vê-lo realizado.
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25 de jan. de 2010

Sorte

A faca corta a pele com facilidade e delicadeza. Não faço força nem rasgo a carne macia, mas sim, suavemente, sigo o trajeto que a lamina me dita. A pele rugosa cai em tiras que tento fazer o mais longas possíveis. Sorrio lembrando de outra mulher fazendo o mesmo trabalho com o mesmo carinho. O cheiro da laranja lima se espalhando a cada fruta descascada. Uma a uma eu as desnudo pensando no passado, no presente e nos dias que ainda virão. Sei que tenho sorte. Neste mundo desumano tive alguém que me descascou laranjas e preparou meu lanche para a escola, tive pessoas que me deram o ombro chorar e me disseram verdades que não queria ouvir, tive e tenho um irmão que posso confiar e com quem tenho prazer de partilhar minha vida, tenho trabalho, carro, casa. Tenho amigos. Tenho sorte sim e descascando laranjas é que penso nisso. Na mulher no quarto no andar de cima que não sabe que em poucos minutos um prato de laranjas cortadas em cubos lhe será oferecido. Sei que não pode ser considerado um presente, para alguns até mesmo pode ser visto como obrigação, mas para mim é um gesto que diz: Tenho sorte de poder ter pessoas para quem eu me importe de descascar laranjas.
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24 de jan. de 2010

Maria Guimarães Sampaio...



Quando vejo esse nome pipocar em meu email, naquela mensagem sempre esperada e as vezes temida indicando um visitante do blog que se importou em deixar um recado, eu sinto vergonha. Ela me pergunta porque não escrevo e sempre lhe dou minhas desculpas validas, mas serão realmente assim tão justificadas?
Amo escrever e não postar não quer dizer que não tenho mantido todas minhas idéias anotadas com cuidado em paginas e mais paginas de Word arquivadas na pasta “Contos”, subpasta “idéias”, mas confesso que pareço fugir do blog como se ele merecesse um recomeço melhor e talvez agora eu o tenha. O meu recomeço.
Há muito tempo tenho estado descontente com certos aspectos de minha rotina que alem de me tirar do sério roubam meu tempo e meu espírito. Em resumo, moro em uma casa enorme que consome minha energia como um aparelho inútil que não pode ser desligado. Chego exausta para me encontrar em meio a mais tarefas a minha espera e quando ligo meu querido notebook já perdi aquela sensação boa que me acompanhou durante o dia, aquela idéia para um conto ou um post. Não que a idéia se perca, mas sim meu espírito para transpô-la para o papel.
Agora posso dizer orgulhosamente a minha querida Maria que meu espírito se eleva a cada passo que dou em direção a meu novo endereço. As idéias parecem mais à mão agora que sei que logo estarei dando vida a elas de minha nova residência.
Sei que ainda tenho um mês duro, o trabalho desgastante, caixas a serem enchidas, detalhes pequenos como se o super chuveiro que ganhei de mano Urso precisará de nova fiação para agüentar seu design espacial, se cada móvel a ser doado será retirado em tempo e se os novos chegarão ou precisarei de almofadas por um tempo, se levarei meus livros antes como tesouros preciosos que são ou confiarei no pessoal da mudança, se as louças de mamãe estarão seguras no baú ou deverei encaixotá-las com mais cuidado. Mas são cuidados felizes, cada um deles me levando mais perto da tranqüilidade e da realização.
Posso dizer também que alem do prazer desta mudança também existe Maria que é um grande farol me guiando neste mundo, pedindo que eu me aproxime e conte como o mar me trouxe até aqui, que monstros marinhos puxaram meu barco para o fundo do mar e como sereias cantaram até que voltasse à superfície, como consegui, sem remo nem leme, chegar à praia que seu farol ilumina. E posso dizer que é fácil, Maria, é só seguir sua voz e lembrar que escrever é meu alimento para a alma.
Obrigada por nunca abandonar esta naufraga, por sempre apontar sua luz em minha direção me lembrando que mesmo que a jornada seja árdua e longa eu tenho alguém que me espera para ouvir minhas historias.
Para Maria aqui vão os nomes dos contos e livros em andamento para que me cobre num futuro próximo a conclusão de cada um deles.

Livros em andamento:
Malibu – Suspense
A Guerra de Joana – Romance
Predador – Policial
A Livraria do Dragão – Aventura
Depois da Escuridão – Aventura
Entre o céu e a Terra – Suspense fantástico
Kaeth – Suspense fantástico
O Cofre – Policial
O templo Esquecido - Suspense


Ideias-Livros:
Contos para crianças incompletas – Infantil
O menino chamado Danielle – Infantil
Manhattan – Romance
Postmortem – Suspense

Contos
O olho - Suspense
OCircular5290A – Suspense
Visões - Suspense
Viagem a cidade sem saída – Suspense fantástico

Obrigada, minha querida, por nunca esquecer, a vida é perfeita quando somos cercados de pessoas com memória e coração como o seu.
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11 de nov. de 2009


Perdi algumas coisas durante o caminho, coisas que pensei que nunca mais ia me lembrar, pois a idade me fez mais cautelosa, talvez até meio temerosa das aventuras. Surpreendo-me agora redescobrindo prazeres antigos que pareciam relegados às memórias do passado. Eis que me batem à porta como velhos amigos dizendo “Aqui estou!”

A Estrada.
A estrada nunca é ruim ou difícil, somente varia entre vários níveis de dificuldade e prazer. Os primeiros quilômetros me receberam, coração acelerado e boca seca, com um pouco de desconfiança. Pareciam dizer “É você? Onde andou? Porque esse receio se somos velhas conhecidas?” E eu sorri e respondi acelerando como há muito não o fazia. O carro, como se feliz por poder me demonstrar que não é somente minha mais doce posse como também uma maquina bem calibrada, respondeu com um ronronado macio e firme, sem nunca demonstrar um segundo de hesitação entre meu comando e sua resposta. Estradas largas e velozes, chuva forte e garoa, estradas sinuosa montanha acima, sol manso aquecendo o ar que entra desarrumando meu cabelo. Não importa. Cada estrada me dá um prazer diferente. A grande rodovia me faz vibrar com a possibilidade da velocidade e das manobras rápidas, testando limites há tanto tempo esquecidos. A pequena estrada, onde navego montanha acima para ver o mundo à meus pés, me enche do prazer sensual que existe em me saber absolutamente só. É a nudez do espírito, completa, insana. Posso gritar que ninguém ouvirá. Posso me expor ao mundo como Lady Godiva e ninguém verá.
A estrada me preenche de uma maneira que somente um homem viril o poderia fazer. Com sensualidade, perigo e um contentamento orgástico ao final da jornada.

Somente um banho
Lembro em mil viagens quando passava o dia em aventuras e ao regressar, para onde quer que fosse minha pousada, me descobria gelada, molhada, enlameada ou simplesmente de músculos completamente esgotados. Nunca procurava o alivio imediato deste desconforto. Era como se ao estendendo este momento tornasse a recompensa muito mais saborosa. Havia me esquecido disso, da sensação deliciosa de um dia perfeito, mas desgastante seguido de um banho quente, da pele gelada em contato com a água relaxando músculos, extinguindo o cansaço, lavando as marcas de um dia que nunca será esquecido, do cheiro do xampu e sabonete amplificando a sensibilidade, da toalha secando a pele rosada do sol, do arrepio correndo o corpo em contato com o ar novamente, do creme amaciando a pele que murmura em gratidão, do perfume respingando o corpo, das roupas que parecem mais quentes e mais confortáveis do que realmente são, da sensação sensual de estar saciada. Pelo menos por enquanto.

Uma refeição honesta
Por anos comer se tornou mais uma etapa na rotina. Raras são as ocasiões onde um almoço ou jantar representam uma exclamação no dia. Comer se tornou o equivalente de encher o tanque do carro. É preciso estar abastecido. Mesmo quando uma refeição é uma ocasião, como um almoço com as amigas ou um jantar com um amigo, já não parece tão importante como foi um dia.
E então lá estou eu. Estrada percorrida, músculos vivos e dizendo palavras doces depois do esforço recompensado. Encaro a noite mais escura do que me lembro. Por tanto tempo andei sob as luzes da cidade que me pergunto se a noite sempre foi tão negra, mas meu coração sabe que sim. Ele se lembra. Percorro algumas centenas de metros de carro, encontrando ninguém em meu caminho e chego a um restaurante à beira da estrada que me recebe quase vazio. E então me lembro. Olho o cardápio com olhos que não vêem somente combustível, mas também o prazer secreto de terminar um dia perfeito com uma refeição perfeita. Não importa que esteja sozinha. Nada importa. A solidão me faz ainda mais atenta aos detalhes. A luz suave das velas em cada mesa. O garçom delicado que parece me dar atenção especial já que ninguém me acompanha. Faço meu pedido realmente interessada no que vou ingerir. E vinho. Traga-me vinho. Este desce doce e suave pela minha garganta aquecendo meu interior assim como o banho e as roupas aqueceram minha pele. Não tenho pressa. Cada garfada é um deleite. Mais vinho, por favor. E é com pena que vejo os pratos se esvaziando, o copo agora revelando sua transparência. Fecho meu banquete com um café forte e honesto. Os outros dois casais que dividiam o espaço comigo se foram há muito tempo. Eu ainda reluto em deixar o nicho acolhedor, mas já cumpriu sua obrigação. Volto ao hotel me sentindo completa. Eu agora me lembro.

Mente vazia
Faz tempo que não penso. O que quero dizer é que faz tempo que minha mente é constantemente invadida por pensamentos, Nunca se esvazia, nunca fica em modo de espera como meu amado laptop, nem vivo, nem morto, simplesmente em repouso. Sinto falta da contemplação sem pensamentos, do repouso do cérebro, da inação da mente. Mas agora me lembro.
Ando por esta terra abençoada olhando cada canto com prazer, mas sem pensar. Corro o bosque de ponta a ponta, fotografando, respirando, expirando, mas não pensando. Canalizo meu cérebro para sentir, experimentar, sem relembrar ou pesar o que faço e digo. E me sinto imensa. É como se minha mente inchasse para absorver tudo de maneira natural, sem questionar ou categorizar as informações. Sento em um balanço (quantos anos fazem desde que me balancei como criança pela ultima vez?) e contemplo o mundo à minha volta. Pássaros, montes deles, vem me observar curiosos. Rio sozinha sem motivo à não ser o de me sentir bem.
Subo a montanha ao pôr do sol, quilometro após de quilometro olhando o céu se aproximar. Chego ao pico e me dou conta como estou longe do mundo, sinto um pouco de medo, mas não penso. Olho para a imensidão abaixo de mim e me maravilho, mas não penso. Deixo o carro ligado, temendo um pouco a solidão, mas não penso. Volto devagar, fotografando curvas, montes, belas construções, mas não penso. Chego ao hotel e me preparo para a noite. Mas não penso. Meus dias aqui tem sido uma sucessão de não pensamentos aproveitados ao máximo.

Ter saudade
Viver junto é se suportar, na maior parte do tempo. Muitas vezes esquecemos que amamos quem amamos pelo simples fato de que estão presentes demais em nossos dias. Conhecem cada falha nossa, cada mudança de humor e nos questionam. Sempre. É fácil perder a paciência em relacionamentos prolongados, na coabitação que se estressa. E esquecemos que sem eles nada é completo. Mas agora me lembro.
Parece que cada passo que dou aqui no topo do mundo precisa ser partilhado. Emails diários com fotos e comentários fazem meus dias mais perfeitos, como se ao deixá-los saber que minha felicidade é plena a tornasse ainda maior. E a saudades. Quanta... Imagino seus rostos a todo o momento e penso no dia do retorno quando os abraçarei com amor sincero. Tudo parece pequeno aqui. As irritações dos últimos tempos, a vontade de fugir de suas presenças para um momento de paz, a rotina que imobiliza os bons sentimentos. Tenho saudades. Eu os amo como nunca sabendo que me esperam e me desejam feliz. Eu os amo. Ponto. Sei que tempos virão em que me irritarei novamente com suas presenças, sei também que me lembrarei destes dias no paraíso e da saudades que tornou meu coração humano novamente, da saudades que me abriu as portas para uma serenidade que há muito tempo não sentia.
Saudades. Eu me lembro.
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9 de nov. de 2009

Enfim!


Eu podia me perder nesse silencio. Um carro ou outro passa na estrada logo abaixo, mas em intervalos longos e repousantes. Fico esperando pelas businas, pela ansiedade diária, mas essas se perderam na estrada. Pássaros aos montes cantam em cada arvore e penso em minha mãe e como ficaria feliz de alimentar a todos. Um caminho de pedras leva à piscina e me sinto tentada, mas nem tanto, a mergulhar nas águas azuis mesmo com o vento fresco soprando. Quero gritar bem alto de alivio por finalmente ter chegado à esse momento. É tudo que precisava, tudo que sonhei em longos anos perdida na metrópole. A montanha verde à minha frente sopra seu hálito em meu rosto e penso que estou finalmente encontrando algo que perdi no passado.. É doce a sensação da solidão sabendo que aqueles que amo me esperam e entendem. Não demoro.
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29 de out. de 2009

Lembro


Eu lembro claramente daquele dia. O céu nada tinha de animador, era todo de um cinza triste e choroso. A chuva caia constante e fina, uma chuva melancólica e determinada. Eu costumava passar todos finais de semana no interior, os dias eram cheios de visitas a fazendas, caminhadas pelo campo, passeios à cavalo, comer jabuticaba no pé ou simplesmente tomar sol na cachoeira. Mas não esse dia. Todos pareciam ter se sumido com o sol e a cidade minúscula parecia completamente deserta. Ninguém para ver ou conversar, as estradas de terra úmidas demais para meus passeios, as cachoeiras perigosas demais mesmo para a contemplação. Lembro exatamente de como me senti naquele dia. Uma paz infinita enquanto olhava para o mundo da janela do meu quarto. Era como estar numa bolha onde nada poderia me atingir, nada poderia mudar aquela sensação de plenitude. Na solidão daquele dia, tão estranha para mim que vivia rodeada de pessoas, me vi serena e emocionada com a paisagem ao meu redor. Montes verdes brilhando como esmeraldas, pássaros gritando por abrigo, água batendo na grama e trazendo o cheiro da terra. Passei horas naquela janela, até a noite me privar de sentir o dia triste me fazendo tão feliz. E hoje me lembro tão bem daquele dia, a paisagem da minha atual janela não é de longe tão bela e bucólica, mas o céu tem o mesmo tom e a chuva mansa canta a mesma musica e meu coração está em paz.

28 de set. de 2009

Headache


Às vezes uma boa dor de cabeça é bem vinda. Nos esquecemos com freqüência o que realmente importa na vida. Não é muito na verdade. Um corpo em bom funcionamento, um emprego que supra suas necessidades e frivolidades, uma família para dividir os bons e maus momentos, amigos confiáveis para varias ocasiões, internet rápida e celular sem problemas de sinal. Básico. Perfeito. Quando uma dessas pernas quebra, ou torce um nervo, percebemos o quanto dependemos de pequenas coisas para uma vida sossegada e feliz, mas ao mesmo tempo lidamos muito melhor com os pequenos percalços da vida do que aqueles que tem poder financeiro ilimitado. Aceitamos os reveses com suspiros de resignação sabendo que fazem parte da vida imperfeita que levamos nessa pelota gigante. Viver micro gerenciando sua vida somente faz com que aquela dor de cabeça, que quando não freqüente é bem vinda para lembrar que temos um apetrecho acima do pescoço, seja maldosa e espantosamente freqüente. A vida é para ser vivida ao máximo, sim, mas não se prendendo à detalhes que se deixados mais ao acaso se resolvem por si mesmos. Maturidade não vem com conhecimento, vem com a certeza de que certas coisas nunca mudarão, a certeza de que seres humanos são imperfeitos e completamente falhos quando constantemente sob pressão, a certeza de que mais dia menos dia todos nós percebemos que erramos e muitas vezes é tarde demais para se concertar o que foi quebrado, a certeza de que o amor somente é infinito quando laços de sangue nos unem àqueles que nos irritam, a certeza de que nem sempre se é possível ganhar, mas sempre é possível fazer parte do jogo. Portanto, ao tomar aquela aspirina agradeça a sua dor de cabeça, pense que o que o levou a ela não deve ser considerado negativo, mas javascript:void(0)somente parte do jogo.
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21 de set. de 2009

Connected


A tecnologia me fascina. Por si só vale a pena viver neste século. Tudo tão ao alcance de nossas mãos, tudo tão perfeitamente interligado. Em um passado não muito distante éramos escravos das filas nos bancos, das idas freqüentes ao correio ou às caixas de correio que pontuavam às esquinas, das buscas cansativas por produtos que nunca eram bem o que queríamos, das pesquisas incompletas por falta de material apropriado, das linhas telefônicas tão caras que eram alugadas à preço de ouro, da TV com meia dúzia de canais meia-boca. E isso não é nem mesmo a metade dos grilhões que nos prendiam há não muito tempo atrás. Hoje não é preciso sair de casa para nada, para muitos felizardos nem mesmo para trabalhar. Um laptop, uma impressora multifuncional, internet rápida, uma linha telefônica e se está em contato com o mundo. Aqueles de nós, quarentões, que se deixaram conquistar pelo mundo moderno vivem hoje no mundo das maravilhas, pois sabemos o quanto era difícil o antes. Antes do computador portátil, antes do celular e do email, antes dos 100 canais pagos com uma porcaria um pouco melhor do que as dos canais abertos. Sabemos, olhando para nossa infância, que nenhum jovem nascido nestes tempos maravilhosos tem a verdadeira noção de sua sorte. Nunca viver foi tão fácil. O mundo está repleto de maravilhas e podemos contemplá-las sem muito esforço. Gosto de abrir minha janela e contemplar a lua para me recordar o quão pequenos somos. Gosto de abrir meu browser e perceber que apesar de pequena faço parte deste mundo imenso.
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17 de set. de 2009

Crack crack...


A casa se ajeita para a noite. Como uma velha cansada se senta com cuidado em sua fundação, rangendo e tremendo até encontrar a posição certa para o descanso merecido. Tabuas estalam sob os pés dos fantasmas de nossos passos. Um suspiro. É noite. Nada mais de businas cansadas à porta, nada mais gritos pela rua, até mesmo os pássaros, ocupando recantos do telhado, escondem suas cabeças sob as asas e esquecem que existira amanhã. Dentro a luz é suave e própria, os cômodos estão frescos, talvez até um pouco frios, mas as mantas e cobertores cobrem aqueles que nela se abrigam. Não é uma má casa, nem mesmo uma triste casa. É somente uma casa cansada pelo tempo e pelas crises que presenciou. Me bate uma gratidão repentina pela construção agora cheia de problemas, que num mês de primavera, tantos anos atrás, deu abrigo para meu corpo cansado, minha mente febril e meus medos justificados. Me ajeito em seu útero pensando que sim, sou grata pelo teto que está rachado e pelas tabuas que rangem noite adentro. Velha e cansada. E segura. Ainda.
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8 de set. de 2009

46 e contando.


Mais um ano se passou. Tanto mudou e eu pareço ter permanecido a mesma. As horas passaram e finalmente meus 46 anos chegaram. Sou mais eu? Menos? Acho que simplesmente meu eu se torna cada vez mais certo do que é, mais feliz em permanecer sem mudanças, mais perfeito em toda sua imperfeição. Amigos desejam felicidades em todas os canais possíveis e dizem coisas que me aquecem o coração. Nem mesmo o dilúvio lá fora tira minha serenidade, talvez teste minha paciência, mas não me faz perder aquele pensamento que veio com o amanhecer. “Mais um ano. Um melhor ano.” E não tenho do que reclamar, apesar dos tropeços e preocupações do caminho, das perdas que me deixaram o coração em pedaços, das traições que despedaçaram minhas ilusões, apesar de tudo, foi um ano que me trouxe mais sabedoria e uma imensidão de novas idéias que precisam somente ser arejadas para saíram à luz e ganharem o mundo. Sou, hoje, com meus 46 anos completos, feliz em saber que existem tantos que se importam com essa pessoa estranha que me tornei, esse ser que ri e chora e sabe que nada no mundo é certo alem do amor daqueles que soube conquistar.
Obrigada a todos vocês.
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31 de ago. de 2009

Goddess


Ela entra na sala quase sorrateira, me olha enigmática e quase sorri. Ronda como se não se interessasse por mim, mas eu vejo que é somente para me distrair. Quando me percebe perdida nas engrenagens de minha mente reclama alto como se houvesse sido abandonada. Eu a chamo suavemente e como sempre ela vem, com seu passo sincopado, sua graça extrema, sua quase realeza. Sobe em meu colo e caninamente me observa, lendo as nuances de meu humor. Um olho azul, um olho verde, esperando que eu diga que não importa, que está tudo bem. Deita ao lado do meu laptop e enquanto procuro as respostas para tantas perguntas ela simplesmente ronrona por estarmos juntas. Logo sinto aquele pequeno formigão dentro de meu cérebro e soluções vem com mais facilidade, a calma sempre à andar na corda bamba acha um divã confortável e se estica, os músculos tensos desfazem os nós enquanto observo a cauda longa e branca lambendo a tela e a cabeça delicada usando meus papeis como travesseiro. Já não quero perder a calma, já não acho aquele email tão injusto, já não penso em responder com fúria. Talvez ela me hipnotize, talvez eu somente me sinta em paz na companhia dos animais, talvez ela seja uma deusa egípcia perdida neste continente. Não sei, não importa. Meu trabalho é mais suave quando ronrona ao meu lado.
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24 de ago. de 2009

A Casca da Banana


Os tempos são estes. É preciso sempre se olhar por onde anda, não somente pelas nossas ruas esburacadas, mas principalmente pelas armadilhas que são colocadas em nosso caminho. As pessoas hoje em dia não precisam de incentivo ou motivo para sabotar um amigo, um colega de trabalho e até a própria família. Nunca antes tanto mal foi feito ao próximo pelos motivos mais fúteis. Inveja da recompensa pelo trabalho árduo do seu colega da mesa ao lado, ciúmes da atenção que sua melhor amiga desperta, medo de perder pequenos privilégios quando alguém mais interessado e competente aparece pela frente, simples maldade pela incapacidade de lidar com a felicidade alheia. Claro que as pequenas sabotagens sempre aconteceram, desde os tempos onde o homem grunhia, mas hoje em dia os bons sentimentos parecem ter simplesmente desaparecido. Lidar com as mesquinharias diárias é uma habilidade que não tenho. Desprezo profundamente aqueles que planejam a ruína alheia por não poder competir com sua inteligência e capacidade. Recrimino os que se deixam enganar por subterfúgios por preguiça de investigar melhor aqueles que tanto querem agradar para melhor enganar. Abomino os que não sabem fazer seu caminho sem pisar em outros. Sim, é um mundo cão, mas poderia ser tão melhor se nos importássemos mais com nosso próprio rabo do que com o alheio.
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