28 de set. de 2009

Headache


Às vezes uma boa dor de cabeça é bem vinda. Nos esquecemos com freqüência o que realmente importa na vida. Não é muito na verdade. Um corpo em bom funcionamento, um emprego que supra suas necessidades e frivolidades, uma família para dividir os bons e maus momentos, amigos confiáveis para varias ocasiões, internet rápida e celular sem problemas de sinal. Básico. Perfeito. Quando uma dessas pernas quebra, ou torce um nervo, percebemos o quanto dependemos de pequenas coisas para uma vida sossegada e feliz, mas ao mesmo tempo lidamos muito melhor com os pequenos percalços da vida do que aqueles que tem poder financeiro ilimitado. Aceitamos os reveses com suspiros de resignação sabendo que fazem parte da vida imperfeita que levamos nessa pelota gigante. Viver micro gerenciando sua vida somente faz com que aquela dor de cabeça, que quando não freqüente é bem vinda para lembrar que temos um apetrecho acima do pescoço, seja maldosa e espantosamente freqüente. A vida é para ser vivida ao máximo, sim, mas não se prendendo à detalhes que se deixados mais ao acaso se resolvem por si mesmos. Maturidade não vem com conhecimento, vem com a certeza de que certas coisas nunca mudarão, a certeza de que seres humanos são imperfeitos e completamente falhos quando constantemente sob pressão, a certeza de que mais dia menos dia todos nós percebemos que erramos e muitas vezes é tarde demais para se concertar o que foi quebrado, a certeza de que o amor somente é infinito quando laços de sangue nos unem àqueles que nos irritam, a certeza de que nem sempre se é possível ganhar, mas sempre é possível fazer parte do jogo. Portanto, ao tomar aquela aspirina agradeça a sua dor de cabeça, pense que o que o levou a ela não deve ser considerado negativo, mas javascript:void(0)somente parte do jogo.
.

21 de set. de 2009

Connected


A tecnologia me fascina. Por si só vale a pena viver neste século. Tudo tão ao alcance de nossas mãos, tudo tão perfeitamente interligado. Em um passado não muito distante éramos escravos das filas nos bancos, das idas freqüentes ao correio ou às caixas de correio que pontuavam às esquinas, das buscas cansativas por produtos que nunca eram bem o que queríamos, das pesquisas incompletas por falta de material apropriado, das linhas telefônicas tão caras que eram alugadas à preço de ouro, da TV com meia dúzia de canais meia-boca. E isso não é nem mesmo a metade dos grilhões que nos prendiam há não muito tempo atrás. Hoje não é preciso sair de casa para nada, para muitos felizardos nem mesmo para trabalhar. Um laptop, uma impressora multifuncional, internet rápida, uma linha telefônica e se está em contato com o mundo. Aqueles de nós, quarentões, que se deixaram conquistar pelo mundo moderno vivem hoje no mundo das maravilhas, pois sabemos o quanto era difícil o antes. Antes do computador portátil, antes do celular e do email, antes dos 100 canais pagos com uma porcaria um pouco melhor do que as dos canais abertos. Sabemos, olhando para nossa infância, que nenhum jovem nascido nestes tempos maravilhosos tem a verdadeira noção de sua sorte. Nunca viver foi tão fácil. O mundo está repleto de maravilhas e podemos contemplá-las sem muito esforço. Gosto de abrir minha janela e contemplar a lua para me recordar o quão pequenos somos. Gosto de abrir meu browser e perceber que apesar de pequena faço parte deste mundo imenso.
.

17 de set. de 2009

Crack crack...


A casa se ajeita para a noite. Como uma velha cansada se senta com cuidado em sua fundação, rangendo e tremendo até encontrar a posição certa para o descanso merecido. Tabuas estalam sob os pés dos fantasmas de nossos passos. Um suspiro. É noite. Nada mais de businas cansadas à porta, nada mais gritos pela rua, até mesmo os pássaros, ocupando recantos do telhado, escondem suas cabeças sob as asas e esquecem que existira amanhã. Dentro a luz é suave e própria, os cômodos estão frescos, talvez até um pouco frios, mas as mantas e cobertores cobrem aqueles que nela se abrigam. Não é uma má casa, nem mesmo uma triste casa. É somente uma casa cansada pelo tempo e pelas crises que presenciou. Me bate uma gratidão repentina pela construção agora cheia de problemas, que num mês de primavera, tantos anos atrás, deu abrigo para meu corpo cansado, minha mente febril e meus medos justificados. Me ajeito em seu útero pensando que sim, sou grata pelo teto que está rachado e pelas tabuas que rangem noite adentro. Velha e cansada. E segura. Ainda.
.

8 de set. de 2009

46 e contando.


Mais um ano se passou. Tanto mudou e eu pareço ter permanecido a mesma. As horas passaram e finalmente meus 46 anos chegaram. Sou mais eu? Menos? Acho que simplesmente meu eu se torna cada vez mais certo do que é, mais feliz em permanecer sem mudanças, mais perfeito em toda sua imperfeição. Amigos desejam felicidades em todas os canais possíveis e dizem coisas que me aquecem o coração. Nem mesmo o dilúvio lá fora tira minha serenidade, talvez teste minha paciência, mas não me faz perder aquele pensamento que veio com o amanhecer. “Mais um ano. Um melhor ano.” E não tenho do que reclamar, apesar dos tropeços e preocupações do caminho, das perdas que me deixaram o coração em pedaços, das traições que despedaçaram minhas ilusões, apesar de tudo, foi um ano que me trouxe mais sabedoria e uma imensidão de novas idéias que precisam somente ser arejadas para saíram à luz e ganharem o mundo. Sou, hoje, com meus 46 anos completos, feliz em saber que existem tantos que se importam com essa pessoa estranha que me tornei, esse ser que ri e chora e sabe que nada no mundo é certo alem do amor daqueles que soube conquistar.
Obrigada a todos vocês.
.

31 de ago. de 2009

Goddess


Ela entra na sala quase sorrateira, me olha enigmática e quase sorri. Ronda como se não se interessasse por mim, mas eu vejo que é somente para me distrair. Quando me percebe perdida nas engrenagens de minha mente reclama alto como se houvesse sido abandonada. Eu a chamo suavemente e como sempre ela vem, com seu passo sincopado, sua graça extrema, sua quase realeza. Sobe em meu colo e caninamente me observa, lendo as nuances de meu humor. Um olho azul, um olho verde, esperando que eu diga que não importa, que está tudo bem. Deita ao lado do meu laptop e enquanto procuro as respostas para tantas perguntas ela simplesmente ronrona por estarmos juntas. Logo sinto aquele pequeno formigão dentro de meu cérebro e soluções vem com mais facilidade, a calma sempre à andar na corda bamba acha um divã confortável e se estica, os músculos tensos desfazem os nós enquanto observo a cauda longa e branca lambendo a tela e a cabeça delicada usando meus papeis como travesseiro. Já não quero perder a calma, já não acho aquele email tão injusto, já não penso em responder com fúria. Talvez ela me hipnotize, talvez eu somente me sinta em paz na companhia dos animais, talvez ela seja uma deusa egípcia perdida neste continente. Não sei, não importa. Meu trabalho é mais suave quando ronrona ao meu lado.
.

24 de ago. de 2009

A Casca da Banana


Os tempos são estes. É preciso sempre se olhar por onde anda, não somente pelas nossas ruas esburacadas, mas principalmente pelas armadilhas que são colocadas em nosso caminho. As pessoas hoje em dia não precisam de incentivo ou motivo para sabotar um amigo, um colega de trabalho e até a própria família. Nunca antes tanto mal foi feito ao próximo pelos motivos mais fúteis. Inveja da recompensa pelo trabalho árduo do seu colega da mesa ao lado, ciúmes da atenção que sua melhor amiga desperta, medo de perder pequenos privilégios quando alguém mais interessado e competente aparece pela frente, simples maldade pela incapacidade de lidar com a felicidade alheia. Claro que as pequenas sabotagens sempre aconteceram, desde os tempos onde o homem grunhia, mas hoje em dia os bons sentimentos parecem ter simplesmente desaparecido. Lidar com as mesquinharias diárias é uma habilidade que não tenho. Desprezo profundamente aqueles que planejam a ruína alheia por não poder competir com sua inteligência e capacidade. Recrimino os que se deixam enganar por subterfúgios por preguiça de investigar melhor aqueles que tanto querem agradar para melhor enganar. Abomino os que não sabem fazer seu caminho sem pisar em outros. Sim, é um mundo cão, mas poderia ser tão melhor se nos importássemos mais com nosso próprio rabo do que com o alheio.
.

O Despertar (13° Parte)


O refeitório se achava lotado e todas falavam ao mesmo tempo. Eram mais de cem mulheres se perdendo em mil suposições até que entraram as três que lhes dariam as respostas. Donata veio na frente seguida de Anya e Kália, mas foi para a ultima que as duas mais velhas deixaram a cadeira central e, portanto o papel centralizador desta reunião. Donata tocou o sino que pedia silencio imediato e todas obedeceram deixando morrer rapidamente as suposições.
“Peço a todas que escutem atentamente. Kália, que muitas aqui conhecem pessoalmente, mas que certamente todas conhecem a reputação, falara em nome da Irmandade.” Donata fez um gesto cedendo a Kália a palavra.
“As que me conhecem sabem que sou direta, portanto vamos aos fatos. Existe um rumor que a Irmandade está sob ataque. Quem é nosso oponente não sabemos e nem mesmo se estes ataques são verdadeiros ou somente rumores infundados, mas é fato que nenhuma de nós tem visto caravanas da Irmandade com a freqüência que deveríamos. É preciso averiguar a verdade e se houver qualquer fundamento no que ouvimos não será um grupo pequeno que escapara para contar a verdade às nossas Mães. Conto com o bom senso de cada uma para julgar a própria aptidão para a tarefa, temos neste salão guerreiras experientes, mas nem todas, por mais que desejem, estão em condições de participar de uma jornada que pode ser árdua e onde enfrentaremos forças desconhecidas. Quanto às novatas, peço que se aconselhem com suas treinadoras antes de aceitar uma tarefa que pode estar acima de suas forças. Não questionarei a decisão de cada uma, mas cobrarei o maximo daquelas que aceitarem se juntar a mim. Não é a primeira vez que a Irmandade é atacada, e Oxalá seja somente um rumor infundado, e nem será a ultima, mas desta vez cabe a nós procurar pela verdade antes de combater os culpados. Peço a todas agora que se retirem e tomem sua decisão, em uma hora aquelas que cruzarem esta porta farão parte da caravana. Obrigada a todas.”
O salão se esvaziou em absoluto silencio. Kália permaneceu em pé no centro da mesa observando cada guerreira.
“Muito bem, filha, suas palavras foram diretas. Espero me aceite como a primeira em sua caravana.” Anya falou com um sorriso orgulhoso.
“Anya, não acho sensato que vá, se estamos sob ataque precisamos que as mais experientes das mães permaneçam em seguranças. Lembre-se do que aconteceu no século passado.” Donata a avisou.
“Não vou deixar minha filha se arriscar sozinha numa missão tão perigosa.”
“Isso nunca a preocupou antes.” Kália respondeu meio alheia, mas demonstrando como os anos de abandona a haviam marcado.
Donata segurou a mão de Anya fazendo morrer nos lábios desta o protesto que nascia. Não era hora agora de tentar concertar uma relação, nem mesmo de protestar contra uma verdade. Por mais que Donata amasse Anya, sabia o quanto o abandono da mãe tornara Kália incompleta e insegura durante a maior parte de sua vida.
Não haviam se passado 15 minutos desde que Kália dispensara as guerreiras quando as primeiras passaram novamente pela porta e não pararam de chegar em um fluxo constante. Até a ultima delas.
Continua...
.

23 de ago. de 2009

A Casa ao Lado


A loucura corre pelo seu sangue. Não há nada que possa fazer para combatê-la e sabe disso. A cada dia que passa se vê mais e mais parecido com seu pai. O humor que se altera rapidamente, a destemperança, a raiva surda que lhe toma o corpo por qualquer motivo. Enquanto crescia, e via a mãe ser subjugada por gritos e ameaças, pensava que seria tudo diferente quando finalmente fosse um homem, mas hoje, quase um com seus 20 anos, sente no sangue que corre pelas suas veias a mesma loucura que toma conta de seu pai com mais freqüência conforme envelhece. Vê em sua irmã um pouco dessa insanidade também, mas é uma forma mais pura e saudável que se revela em sua rebeldia contra a loucura de ambos. Sim. Ambos tiranos. Ele nunca percebera, mas se tornara pouco a pouco um tirano também, usando a loucura do pai contra mãe e irmã, usando o medo como ameaça, usando a própria loucura a seu favor quando lhe interessava. Mas agora tem medo. O pai é ainda forte e sua loucura o torna ainda mais forte. Ele sabe que o único freio que impede o pai de derramar o sangue dos que estão sob seu julgo é o medo da vizinhança. Apesar de nunca interferirem todos na pequena rua ouviam os gritos do insano com atenção, prontos a ligar 190 se não fossem as portas a serem batidas e os pratos a serem atirados contra as paredes. Ele também tem medo daqueles que o olham com pena, mas também acusação, pois já estão ouvindo os seus próprios gritos, seus rompantes de raiva. Ele acelera o carro com raiva. Seu pai não permite que tenha a chave da garagem e a cada vez que sai com seu carro velho recém comprado precisa esperar que o pai venha, tire seu carro para que ele coloque a lata velha que pôde comprar. E a cada vez o pai explode. Por ser interrompido. Por não ser o único a ter alguma liberdade agora. Pelo prazer de humilhar. Ah, ele tem medo. Medo de não poder dominar como o pai, de sua loucura ser por demais aparente para que consiga casar e ter filhos, um clã para dominar. Ele tem medo de nunca revidar as palavras duras, os insultos gratuitos. Ele tem medo.
A porta da garagem se abre e o pai aparece à porta com o rosto contorcido de ódio, ele deveria saber que acelerar por tanto tempo à porta o deixaria com raiva, mas a loucura está em seu sangue e ela não pensa, somente age. O velho está parado o olhando com certo prazer, na certa imaginando o quanto o torturara. E de repente seu pé cansado solta a embreagem e o carro avança com um tranco atirando o velho garagem abaixo. Ele ouve, mesmo de dentro do carro, o som oco que a cabeça do pai faz ao se chocar ao concreto.
E assim, de repente, todos se vêem livres. O “acidente” é aceito e esquecido rapidamente. Tragédias acontecem. Sua mãe e irmã parecem se iluminar a cada dia, ele finalmente é livre para ir e vir, todos poderiam enfim viver em paz.

Mas a loucura também viaja em seu sangue, ele sabe, não demora para que passe do adolescente genioso para o homem insano. Ele sabe e tem medo.

22 de ago. de 2009

Maze


Algumas vezes minha mente fica em branco. É como se os dias fossem tão cheios que dentro de mim tudo para esperando por dias menos tensos, dias onde posso deixar a mente vagar pelo meu mundo particular, este Xangrilá onde as manhãs cheiram a lavanda, as tardes a jasmim e as noites a almíscar e relva fresca. Não parecem haver muitos destes dias ultimamente, eles parecem mais pequenas montanhas russas que me levam da mais profunda frustração à perfeita excitação pelo desconhecido. É como se estivesse entre dois mundos e somente quando escolher em qual deles quero fazer minha jornada, só então, talvez, eu descubra para onde a vida me leva. Não é tão ruim assim, mas é surpreendente. Em uma idade em que a maioria das pessoas já escolheu seu caminho e se encontra entediado com a rotina eu me reviro entre destinos excitantes e completamente inesperados. Não. Não é nada mal.
.

1 de ago. de 2009

Moon


Grito um “até amanhã” quando acelera rua acima e como sempre ele acena. Fico ao portão observando a noite que desce rápido sobre a cidade. A neblina é densa, como se fossem seis da manhã e não seis da tarde. Escuto os sons que parecem sempre ampliados magicamente nos fins de semana, a ausência do transito insano tornando minha pequena rua um salão de ecos que chegam a mim com perfeita clareza. E então ela surge por detrás da neblina, como num passe de mágica, como se estivesse ela a me espiar e não eu a encarar embevecida seu brilho alabastrado. De minha garganta sai a nota sem começo nem fim, o uivo que faz desaparecer a calçada em que piso, o portão ao qual me encosto. Sob meus pés sinto o frescor do relvado selvagem, pela minha pele passeia a brisa com cheiro verde e gosto de liberdade. Corro entre arvores que escondem o mundo, mas ainda posso ver a lua que parece mais próxima e intima do que nunca. Sinto a presença de outros que correm ao meu encontro, somos uma matilha agora, cortando a mata até chegar à campo aberto, subindo pela encosta pedregosa e finalmente chegando ao topo do penhasco onde ela nos aguarda. Seu brilho nos devolve nossa individualidade, mas estreita os laços que nos levaram até este momento. Nossos lamentos enchem a noite, são carregados pelo vento até mundos distantes, até onde nossos corpos permanecem congelados enfeitiçados pela lua que nos prende até que nossas gargantas estejam em carne viva, nossos corpos enregelados pela noite e nossa homenagem finda. E então o concreto está novamente sob meus pés e a grade do portão suporta meu peso. Abaixo os olhos me roubando da luz preciosa e entro em minha casa onde tudo é familiar e seguro. Subo as escadas procurando o silencio de meu quarto, levando uma garrafa de água para apagar o fogo que corre em minha garganta.
.

28 de jul. de 2009

Pandora


Tenho muitas caixas. Sempre tive fascinação por elas. Podem ser de madeira, de papelão, vidro, porcelana, pequenas, grandes ou minúsculas, não importa. Nelas eu escondo partes de mim que ninguém, nem mesmo quem as abra, consegue enxergar. Caixas podem guardar meus sapatos, os apetrechos de meus gadgets, brincos e colares, outras caixas que um dia trouxeram presentes preciosos para mim, cartas de tempos onde envelopes e selos eram itens preciosos em meus dias, lembranças de viagens ou simplesmente meu estoque secreto de chocolates. Pode abri-las se quiser, os segredos não estão à vista, estão sim impregnados nos objetos ali guardados. Ao manuseá-los posso ver e sentir coisas que ninguém além de mim pode. É como o famoso guarda-roupas que leva a Nárnia, a porta para a terra encantada se abre para aquele que sabe o que procura, mesmo que este não esteja ciente disso. Os tempo difíceis vem e vão, mas tenho sempre minhas caixas, meu passaporte para este mundo mágico onde lembro porque minha vida vale a pena.
.

Wind


Every now and then the world changes. Sometimes is imperceptible, too subtle and we think it’s just a wind, but a wind that blown continually can bend trees and destroy roofs. I feel a wind, but I don’t know if it will tear us apart or herd us together. I hope for the best. I hope for the last. I don’t have much fate in mankind, but maybe, just maybe, this time we will do the right thing. The wind blown and the sky send us alarming messages. Are we doing our last ride in this planet? Are we finally made the earth so mad with our poor job at keeping it alive that we will be history before our time? I don’t know… I just feel the wind and wonder.
.

26 de jul. de 2009

Jodi Picoult


My Sister’s Keeper pode ser chamado de drama para quem teve uma vida repleta de momentos Kodak, para quem vive no planeta terra como eu é uma historia fácil de visualizar. O que é certo e o que é errado? Não falamos aqui dos sete pecados capitais, mas sim da vida imperfeita de cada um de nós. Então, o que é certo e o que é errado? O que em nós nos torna mais capazes de decidir que outros? Nosso amor nos torna instantaneamente puros ou somente faz com que cometamos grandes erros justificados?
Acho que filhos únicos devem ter menos duvidas do que aqueles que dividem o amor dos pais entre um ou mais irmãos. Por mais que se professe o amor igualitário é obvio, e quem tem irmãos sabe, que existe sempre o preferido, seja somente por inclinação do coração ou por motivos que pareçam justificados. Como pode um coração comprometido decidir por aquele que é menos amado? E ser menos amado nos torna menos humanos ou ainda mais capazes de amar e nos sacrificar por saber o peso que o amor, ou a falta dele tem? Quem pode decidir o que se pode fazer ou não por amor? E o quanto somos capazes de fazer?
Existe no mundo um milhão de incógnitas, somos somente capazes de imaginar o que faríamos frente a certas situações. Podemos somente pedir que na hora de decidir possamos tomar a decisão certa, se não a perfeita a que preserve nosso eu, nossa identidade.
Jodi Picoult nos dá uma pequena amostra dessa realidade onde a única coisa perfeita é que nenhum de nós é perfeito e podemos no fim, ao longo da estrada de nossa vida ou ao menos no fim dela, nos perdoar por isso.
.

O Despertar (12° Parte)


A sala de Donata era mais uma sala de estar que um gabinete de trabalho. Num canto se podia ver um baú cheio de brinquedos e no sofá e poltronas vários trabalhos de tricô e crochê em vários estágios. Ela sempre fora uma mãe para todas à sua volta, crianças a procuravam para julgar suas brigas, adolescentes para que explicasse o caos que seus hormônios tornavam suas vidas e guerreiras feitas vinham chorar em seu ombro suas duvidas, pedir ajuda para traçarem seus planos ou simplesmente para tomar seu chocolate quente. E sua sala se mostrava tão acolhedora quanto sua pessoa.
“Empurre os livros e agulhas e sente, vamos esperar Anya chegar.” Donata avisou Kália.
“Você não me disse que havia chamado minha mãe. Acho que prefiro não vê-la agora. “ E se preparou para sair.
“Deixa de ser uma pirralha e senta. Você e ela são as mais experientes guerreiras na casa no momento. Preciso de vocês duas não importa o que sinta.”
Kália se sentou com um suspiro. Como sempre os sentimentos tinham que ser deixados de lado porque antes de ser mulher precisava ser uma guerreira.
“Eu entendo seu rancor, Kália, mas um dia vai precisar esquecer e seguir em frente. Sua mãe sempre foi uma guerreira por inteira, mas isso não diminui o amor que tem por você.”
“Eu fui um erro em sua vida, não fruto de amor, mas de uma noite mal calculada.”
“Não somos todas nós, filhas de guerreiras, fruto de um momento? Algumas de nós somos mais maternais, outras não, mas nenhuma guerreira deixou de considerar um filho ou filha uma benção. Você precisa esquecer Kália, não foi Anya que a separou dele, ela foi contra a decisão de chama-la, assim como eu. Por ela você estaria casada vivendo naquele vinhedo e povoando o mundo de pequenos seres remelentos.”
Kália levantou pronta a tirar exigir uma explicação de Donata, pois a ordem de voltar, deixando sua felicidade para trás, partira de Anya, mas não teve tempo, sua mãe entrou na sala sem bater.
“Aqui estou Donata. Bom dia, filha.” Anya beijou Kália timidamente, como esperando que esta se esquivasse e se surpreendeu quando esta não o fez.
“Sentem-se as duas. Precisamos conversar. Tenho recebido relatos preocupantes, ou melhor dizendo, os que tenho recebido o são e os que não tenho me deixam ainda mais preocupada.”
“Donata, sabe que às vezes as noticias demoram a chegar.” Anya observou.
“E realmente as coisas andam mais agitadas que o normal, mas o que a leva a achar isso alarmante?” Emendou Kália.
“Somos uma casa das mais famosas, muita gente sai de seu caminho só para vir descansar das missões aqui. Recebemos grupos diariamente, novas aprendizes também chovem à nossa porta, tanto que temos que envia-las para outras casas ou não damos conta. N entanto em quatro semanas mal ouvimos falar do mundo lá fora e quem chega, viajantes vindo comprar nosso mel e nossas infusões, nos falam de cavaleiros de negro que viajam às centenas e de casas da Irmandade destruídas e guerreiras assassinadas à traição.”
“Deve ser exagero, sai de minha casa há dois mês e tudo estava normal.” Kália disse mas ficou pensando em como em dois meses de andanças não cruzara com nenhum outro grupo de guerreiras.
“Viajo a três meses já em voltar para a minha casa e confesso que encontrei poucas irmãs pelo meu caminho.” Anya contou enrugando a testa.
“Vejo pela cara das duas que começam a perceber que algo anda mal para a Irmandade. Vocês são as melhores guerreira que conheço, quero que escolham as melhores guerreiras e vejam se há fundamento no que andam contando por ai. Se existe algum tipo de plano contra a Irmandade precisamos tomar providencias urgentes. Um plano contra nós é um complô contra a Lei.”
“Tenho dez guerreiras comigo, mas algumas precisam de repouso.” Kália falou alto, mas já pensando em quem levaria consigo.
“Também estou desfalcada.” Anya mordeu o dedo e olhou para Donata sabendo que esta devia ter planejado já algo.
“Tenho cem guerreiras em treinamento em minha casa, posso garantir que vinte estão mais que maduras e já participaram em mais de uma missão, trinta estão prontas para enfrentar sua primeira missão e temos três grupos, fora o de vocês duas que estão aqui há bastante tempo, portanto todas recuperadas e prontas para a batalha.”
“Então convoque todas para uma reunião após o jantar. Formaremos o grupo hoje e estudaremos nossa rota amanhã. Preciso ainda de uns dias para me recuperar de vez e depois pegamos a estrada. Vou falar com minhas irmãs agora, se não se importam.” Kalia saiu após as duas outras lhe darem permissão.
“E ela nem percebe.” Sorriu Donata
“O que?” Anya se inclinou para frente, mas ainda surpresa de ver a filha tão segura de si. Tantos anos perdidos, já nem a conhecia mais.
“Nem percebe que é uma líder. Ignorou a nos duas como se não fossemos guerreiras muito antes dela. Se não ficasse tão preocupada em imaginar o que teria sido poderia ver o que pode se tornar. Um dia ela vai enxergar, Anya. Ela é a melhor entre todas que já vi.”
Continua...
.

Darkness


Look over your shoulder before opening your door; you never know what will be lurking in the shadows waiting to steal your soul, your dreams, your life. In the shadows live the doubts and the thoughts that in day light we dismiss with a smile. In the shadows are our repressed desires waiting to collect the fee for stupid decision and lack of courage. It’s not monsters what you need to be afraid of, you need to run from thoughts never spoken, love never delivered, kind acts never put in action. The shadows are full of parts of you denied to live and they are hungry. So look over your shoulder before entering your home and shed a tear to placate the gods, maybe they shine a light and turn the shadows in nothing more than past.
.

23 de jul. de 2009

O Despertar (11° Parte)


Kália acordou ainda com Analice nos braços. Sua primeira reação foi se afastar da garota, mas essa proximidade era relaxante de alguma maneira. Só experimentara uma intimidade assim doce uma vez na vida e a lembrança ainda a sustentava depois de tanto tempo. Apertou mais Analice em seus braços e esta abriu os olhos sonolentos.
“Mãe?”
Logo percebeu seu erro, mas voltou a fechar os olhos aproveitando a segurança que aqueles braços fortes lhe davam. Dentro deste circulo podia quase esquecer que agora sua vida era tão incerta quanto às chuvas de verão.
Logo após a batalha, a noite fatídica onde sua mãe fora morta diante de seus olhos, Analice adoecera. Febril rolava de um lado para outro em pesadelos cada vez mais assustadores e em nos raros momentos em que saia desse torpor maligno se via cercada pelas guerreiras que cuidavam para que seu corpo recuperasse a força e sua mente a lucidez. Quando voltou a si foi fácil perceber que nenhuma das pessoas que fizera parte de sua vida até então estava disposta a ceder que fosse um canto de seu coração a ela. Ouviu Kália discutindo com o conselheiro da cidadela o seu destino e foi com alivio que em uma discussão mais acalorada escutou a guerreira anunciando que a levaria com ela. Era o que sempre quisera. Oh, Deus, era o que sempre sonhara.
Analice sonhara sim com este destino, mas nunca imaginara que caminhos teria que percorrer, o que teria que perder para que se tornasse realidade. Ficava agora dançando na ponta da navalha, indecisa entre a satisfação da liberdade adquirida tão sonhada e a dor por esta ser somente possível devido a trágica perda daquela que a pusera no mundo. Nada é simples, parece que sempre temos um preço a pagar por qualquer prazer, parece que sempre existira uma clausula em letra diminuta ao pé do contrato onde nos é oferecida a felicidade.
Neste estado de eufórica melancolia Analice partiu com as guerreiras sem nunca olhar para trás, para as portas que se fechavam para uma vida que já não lhe pertencia. Foram longos dias na garupa de Kália ou no lombo de um dos cavalos. Dias em que o silencio a levava de volta ao momento que desejava esquecer. Foi uma viajem repleta de culpa e beleza, medo e deslumbre, ansiedade e fascinação. Ao cruzar os portões da casa da Irmandade foi como se houvessem a absolvido do pecado de desejar outra vida sem pensar nas conseqüências. Ao cruzar aqueles portões aceitou seu destino.
Em seu sono ainda haviam lamentos e lagrimas, mas agora, acordada, sentindo os braços de sua mestre a amparando, somente o que havia era realização e paz.
“Não finja que dorme Analice, vi muito bem que acordou. Precisamos arrumar algo para comer, acho que dormimos um dia todo. Vamos, levantando. Pegue sua mochila e vamos nos lavar antes de descer.”
“Sim, senhora.” E Analice sorriu, ainda não conseguia chama-la de Kália
As outras já haviam levantado e arrumaram o quarto antes de se banharem e vestirem. Logo andavam pelos corredores sem fim até um refeitorio tão grande que mais parecia um salão de baile com mesas sem fim e grandes tachos sob o fogo constante cheios de comidas deliciosas.
“Aqui dorminhocas.” Chamou Teresia do canto do refeitório vazio.
“Nem precisava chamar, parece que somos as únicas a levantar tarde.” Cami completou.
“Acho que somos as únicas que chegaram recentemente, pelo que soube somos as primeiras em três semanas a chegar. Antes de nós vieram Frida e suas guerreiras de uma missão em Los Feliz e depois nada até agora.” Contou Eledia.
“Isso é estranho, vou averiguar. Geralmente chegam e saem grupos quase todos os dias. Quem é mesmo a Mãe desta casa?” perguntou Kália.
“Há! Você vai gostar dessa, a velha Mãe morreu faz seis meses e a nova é Donata a gorda.” Teresia sorriu de prazer.
Haviam duas Donatas na casa que Kália cresceu, a gorda e a magra. A magra era uma Donata sempre mal humorada de cor esverdeada e voz de taquara rachada. A gorda tinha a voz doce como mel, podia-se escutar seu riso por toda a casa todos os dias e era uma mãe para todas mesmo quando ainda não tinha idade para isso. Agora já devia ter seus 50 anos e finalmente assumia o posto para o qual tinha nascido, o de Mãe em uma casa da Irmandade.
“KÀLIA!” Gritou a voz conhecida e lá veio Donata a gorda com seu sorriso e seu cheiro de açucar e canela. Os braços portentosos enlaçaram Kália que se deixou perder no abraço com imenso prazer. Esta mulher adorável havia sido o mais quase uma mãe para ela.
“Donata, que felicidade te encontrar aqui.”
“Ah, minha menina, nem sabe como fiquei feliz quando me disseram que você havia chegado.”
“Mas porque não me procurou antes?”
“Você precisava de descanso e eu quando começo a falar não paro.” E sua risada rica encheu o refeitório deserto. “Mas depois que se alimentar precisamos falar. Pode ir me encontrar na minha sala?” O sorriso se foi e Kália viu, sob a aparência sempre fresca de Donata, a preocupação que empalidecia sua pele.
Continua...
.

21 de jul. de 2009

Crying


Existe uma beleza singela nas lagrimas de um homem. Para nós mulheres chorar é fácil, deixamos nossas emoções sempre à flor da pele. Choramos de raiva, de dor, de emoção, de alegria, de TPM. Lagrimas infinitas pavimentam nossas vidas, mas não a dos homens. Quando o homem chora é tão obvia a verdadeira identidade da emoção que não podemos fazer mais nada a não ser nos maravilhar por esta explosão de franqueza. Não há fraqueza neste momento, somente a dor verdadeira, perfeita em toda sua beleza, pois até a dor e o desespero tem sua beleza. Posso contar nos dedos as vezes, em meus quase 46 anos, em que vi um homem chorar e em todas as vezes meu coração se encheu de ternura e descobri nestes homens algo que até então ignorava. Não choram para quebrar barreiras, nem para provocar pena, nem mesmo para terminar uma briga, choram porque o poço transbordou e não há absolutamente nada mais a fazer para manter o equilíbrio senão lavar a alma deixando verter o rio que corre desde seus corações.
.

O Despertar (10° PArte)


Nasceu em uma noite de tempestade, mas nasceu em silencio. Enquanto a noite uivava fora do castelo, dentro era somente silencio. Kália dormia. Alem dos portões o mundo estava em guerra. Novamente. Uma nova onde de crimes parecia varrer os continentes e cada guerreira dava o melhor de si e até um pouco mais. Anya mal se recuperou e saiu no lombo de um cavalo ainda com o corpo sangrando e gemendo do parto. Não amamentou sua filha, nunca viu o primeiro sorriso que muitos diziam ser gazes, mas muitos juravam ser a amostra da natureza doce da menina. Nunca soube que a primeira palavra que Kália disse foi bubbles e que a repetiu por dias até aprender a dizer Bianca, o nome de umas das cadelas do castelo. Anya nunca viu como o coração suave se entristeceu quando começou a perceber que entre tantas que a cercavam não pertencia a ninguém. Kália floresceu somente para murchar quando percebeu que não havia ninguém a quem dar seu amor e aquela que a ensinaram a chamar de mãe parecia sempre ocupada demais para a fazer sua filha. Não que tenha sido uma infância infeliz, não. No castelo havia amor de sobra, companheiras sempre dispostas a brincar, animais de todos os tipos, fartura, grandes professoras, melhores ainda cozinheiras, mas era uma família grande demais para um coração que pedia intimidade.
Se houvesse nascido em uma família normal, dentro dos muros de uma cidadela, provavelmente cresceria para ser uma médica ou veterinária, sempre pronta a ajudar, casaria e teria filhos amando a todos a sua volta com um coração que somente crescia com o passar dos anos. Mas não havia sido assim. Todos sempre esperavam que filhas de guerreiras se tornassem guerreiras e assim eram criadas como os animais de fazenda, sem muitos agrados, consciente sempre que estavam destinadas a servir ao mundo, nunca a si mesmas. Sem chance de exercitar a enorme compaixão de seu coração se viu presa a um destino que seguiu, mas que questionava a cada passo do caminho.
Com seis anos já treinava com a espada, com dez já lutava corpo a corpo melhor que muitas guerreiras adultas, com quinze manejava o arco com perfeição. Toda a dedicação que poderia ser voltada para outros seres humanos foi canalizada para se tornar o que nunca quis ser. Era a única coisa que podiam ensinar no único lugar que podia chamar de lar.
Com treze anos começou a sair em missões. Cuidava dos acampamentos, fazia a vigília, cuidava das armas. Com quinze anos assistiu a morte de sua mais amada professora, aquela que lhe havia ensinado os segredos da espada, em meio a confusão acabou liderando a batalha e desde esse dia sempre que era chamada era para liderar.
Com vinte anos teve o primeiro momento de descaso de que podia se lembrar. A infância parecia tão distante agora que aqueles primeiros anos inocentes eram como um conto de fadas às avessas. Viajou por terras que sempre percorrera, mas nunca apreciara e se instalou por em uma cidadela onde algumas guerreiras haviam escolhido como morada após largarem a espada. Lá elas eram ferreiras, parteiras e veterinárias, fazendo o bem para o povo e enchendo os bolsos ao mesmo tempo. A cidadela era famosa pelos vinhedos que a cercavam, o vinho produzido era um dos melhores do mundo, a paisagem era algo para se sonhar para sempre. E foi lá que Kália conheceu o amor. Ele tinha 25 anos e era um gênio na produção de vinhos. Crescera entre as uvas, ajudando a plantar e a colher, sabia como devia ser o sabor em cada quadrante plantado e aprendera a misturar os sabores, a ver o vinho envelhecer sem pressa e fora sem pressa também que conquistara Kália. Soubera ver alem do semblante sombrio e triste. Vira muito alem da figura temida da guerreira, sentira a solidão e o vazio que somente esperava ser preenchido.
Ele a cortejara com delicadeza, sentindo que qualquer movimento mais agressivo a assustaria e um dia foi compensado por sua paciência quando sob as estrelas e aquecidos pelo brilho de uma fogueira ela baixou suas barreiras e entregou seu coração. Dos beijos tímidos às caricias ousadas os passos foram curtos e rápidos. Ele, em sua primeira noite de amor, a primeira de Kália, encheu seus ouvis e coração com promessas de amor e suplicas para que fizesse da cidadela sua casa.
Kália finalmente parecia em paz e feliz com a vida que parecia se desenhar à sua frente, mas logo veio o chamado. Era preciso voltar, com urgência. O mundo estava em guerra. Novamente. E entre a cruz e a caldeira fez a única coisa que estava acostumada a fazer. Obedeceu. O caminho da cidadela até sua casa da irmandade parecera curto demais. Ainda haviam lagrimas a serem derramadas, mas empunhou a espada e esqueceu que um dia pretendera ser feliz.
A Irmandade nunca impedira uma guerreira de sair da ordem, de viver como ditava o coração, mas se esta guerreira fosse do calibre de Kália a Irmandade usaria de todas as armas para mantê-la, mesmo que sacrificando a felicidade da mesma.
Continua...
.

19 de jul. de 2009

Janela


Sinto falta do céu quando deito. O inverno faz que minha janela esteja sempre fechada para a noite que amo. Não posso mais me deitar olhando as estrelas ou o rastro que a lua faz no céu em seu lento caminhar. Sinto falta da brisa beijando meu corpo quando o ar é morno demais para que me cubra e do acordar com os primeiros raios de sol e somente então fechar as persianas para impedir o mundo de entrar em meus sonhos que ainda vivem.
.

O Despertar (9° Parte)


“Olá, Anya.” Teresia cumprimentou e puxou Analice para dentro do quarto deixando mão e filha no corredor.
“Sei que está cansada, filha, mas poderia sentar por alguns minutos comigo? Tanto tempo se passou desde que te vi a ultima vez.”
“Cinco anos. Desde a batalha de Chicago.”
De comum acordo andaram até um nicho na parede com uma grande janela que olhava para um jardim que desafiava o frio da montanha. Sentaram em silencio por alguns instantes, simplesmente aproveitando esse momento raro de estarem unidas sem ser em batalha.
“Soube que tomou uma aprendiz.” Anya disse com um sorriso.
“Acabei de chegar e as fofocas já correm soltas.”
“Somos mulheres antes de tudo, Kália, e adoramos uma fofoca. Pelo menos a maior parte de nós. Não nos sobra muito para fazer alem de treinar, curar nossas feridas, nos apaixonar de vez em quando, criar nossas filhas e claro, comentar sobre tudo isso ocorrendo na vida dos outros.” Riu e cutucou Kália que somente levantou os cantos da boca. “Não quer me contar?
“Mãe, não tem nada para contar. A menina não tinha ninguém, o conselho da cidadela não parecia nada ansioso em achar uma nova casa para a garota e eu me senti responsável. Eu deixe a mãe dela morrer. Que mais podia fazer?”
“Kália, querida, você não foi feita para educar uma criança. É rebelde demais. Sempre foi. Como pode ensinar esta garota a ser uma guerreira quando sempre teve tantas duvidas? Ou será que finalmente se acomodou à essa vida?”
“Você nunca entendeu, não é? Amo essa vida, mas é a única que conheci. Como guerreiras não nos é dada a chance de experimentar outra vida, ou seguimos esta ou a outra, e a decisão deve ser feita cedo demais...”
“Ainda pensa nele?”
“Do que você está falando?” Kália virou o rosto escondendo lagrimas que nunca derramava, somente as deixava aflorar para secar ainda no leito de seus olhos, esquecidas, prisioneiras como ela.
“Você sabe muito bem. Ninguém a forçou a escolher, poderia ter casado e tido filhos, poderia ter sido feliz ou não. Poderia até mesmo tê-lo tomado como amante por um ano em vez de algumas noites.”
“Eu poderia ter feito muitas coisas, mãe, mas nenhuma delas pareceria certa, assim como esta vida não me parece, mas como você sempre diz, alguém tem que fazer o serviço sujo.” E Kália deu de ombros.
“E o que a menina é para você? Somente um peso a mais além do da sua espada? Não pode continuar levando a vida assim, filha.”
“Não diga que agora se importa, Anya, não parecia interessada no que seria de mim quando correu o mundo entre batalhas e me deixou para ser criada na Casa da Irmandade.” E Kália levantou e correu para o seu quarto como se mil demônios a seguissem. Sabia que Anya não a seguiria.
Encontrou Analice ainda acordada, sentada na cama à sua espera. A menina, apesar de mais corada pelo banho e massagem, ainda parecia prestes a se fazer em pedaços. Era como se somente as roupas a mantivessem inteira, como uma boneca de pano.
“Você precisa dormir agora, garota. Se quiser ser uma guerreira tem que começar por saber aproveitar cada minuto de descanso. Eles nunca são suficientes.”
“Eu... eu tenho medo de dormir e não lembrar onde estou. Tenho medo de sonhar de novo e...” Um soluço a balançou e abraços os joelhos se fazendo o menor possível sob olhar da guerreira.
Kália sabia o que era se sentir só, estivera assim a vida toda, cercada de pessoas que a queriam bem, mas essencialmente só. Sentou ao lado da menina e passando um braço desajeito pelo seu ombro, a deitou na cama e se ajeitou ao seu lado.
Muitas horas depois, quando a noite já havia pintado de negro cada canto do quarto, Kália acordou e ainda tinha Analice nos braços. E esta dormia em paz. Com um suspiro fechou os olhos novamente e dormiu com o coração muito mais leve do que costumava ser.
Continua...
.