18 de jul. de 2007

HellBus


Lá fora chove e chove daquele jeito irritante e desconfortável. Você pensa que pode andar essa meia quadra sem o monstrengo do guarda-chuva, mas percebe que cometeu um erro quando sua roupa já está absolutamente empapada pela garoa do inferno. Mas a chuva não é o que me desagrada nos dias chuvosos. Dã!!!! O pior nesses dias são as pessoas. O mundo de hoje parece ter criado uma horda de ogros, caricaturas de seres humanos, preguiçosos compulsivos e pirralhos agigantados.
Chego e pego uma fila ainda pequena (a terceira em espera), que vai me permitir ir sentada. Espero vários e vários minutos até que o ônibus designado para minha fila chegue. Já lá dentro procuro um lugar longe das goteiras (não faz essa cara, tá cheio de goteira nos ônibus) e me ajeito à janela já com meu livro à postos. O motor ronca mais alto e lá vamos nós. Um ogro adolescente se joga ao meu lado me olhando feio porque cheguei antes e ocupei o melhor assento do banco. Outros ogros adolescentes e vários pirralhos agigantados passam grunhindo para mim, que tento me esconder atrás do livro, como se meu direito ao assento em questão pudesse ser questionado. Ignoro a todos com meu mais plácido semblante matutino e me afundo no meu livro, onde uma batalha na Segunda Guerra parece mais atraente que o Vila Gilda. Caricaturas úmidas chacoalham seus guarda chuvas, como se já não bastassem as goteiras, e fazem chover sobre os pobres mortais que conseguiram se sentar às custas de filas e minutos perdidos.
Nota.
Eu sou uma boa cidadã. Costumo me oferecer para carregar objetos alheios, ofereço meu assento para os mais velhos e até sou bem simpática com os idiotas que batem na minha cabeça quando sento no corredor, mas meu pavio não é muito longo, hu hu, na verdade é meio curto. Tá bom, às vezes é mínimo.
Fim da Nota.
Depois de alguns minutos de muda agressão por parte dos ogros em pé eu finalmente abaixo meu livro. Dirijo-me primeiro à mulher que parece não conseguir enfiar seu guarda chuva em nenhum ligar alem de sobre meu banco “Ou você guarda essa joça ou vou enfiá-la pela sua garganta abaixo.” Gentilmente me retorço no banco para olhar para o pirralho atrás de mim em pé nas escadas que parecia achar que minha cabeça era um bumbo “Se você encostar em mim mais uma vez eu vou arrancar o que você considera ser prova da sua masculinidade. Isso quer dizer que eu vou capar você. Entendeu?”
Durante um minuto estupefato o ônibus ficou em silencio, mas logo risos estouraram e até o ogrinho ao meu lado sorriu para mim. Eu, vermelha e sem graça por ter perdido a calma, me enterro em meu livro novamente e me pergunto se não é hora de comprar uma lambreta.

6 de jul. de 2007

Fatos da Vida

Pastel de feira tem gosto diferente. Parece mais festivo, talvez até exótico. Comer pastel de pastelaria é como comer pizza em Goiânia, completamente sem graça. Talvez sejam os gritos dos feirantes ou as fatias de melancia, abacaxi e afins que vem como sobremesa.

Gadgets! Quem não os ama, quem não os deseja mesmo que não saiba para que vai usa-los? MP3, PenDrives, celulares com mil funções, despertadores que gritam seu nome, telefones que fazem tudo que os anteriores fazem e ainda brilham no escuro, mini estações de entrada USH em formato de bichinhos, maquinas digitais que fotografam em qualquer condição, caixas de som em formato de bolsa para seu MP3, teclados dobráveis, mini mesas para seu laptop e por ai vai. Cada dia que passa descobrimos que não podemos absolutamente viver sem estas pequenas maravilhas o que me leva para um outro fato da vida.

Japoneses podem fazer qualquer coisa. Qualquer país pode inventar algo, mas somente eles conseguem transformar esse algo em magia. Não é somente o fato de conseguirem encolher qualquer treco, que vai com certeza funcionar melhor do que o original, e ainda fazem com que seja uma maravilha para os olhos. São os mestres dos gadgets. São os criadores das melhores inutilidades indispensáveis. Quem não gostaria de se perder Tókio com alguns dólares no bolso? Dizem que são pequenos e por isso criam miniaturas, dizem que seus olhos estão sempre apertados para ver melhor, mas a verdade é que criam tantas coisas incríveis pois tem os cérebros mais privilegiados do planeta.

Não importa o que você leia, mistério, romances, aventuras, biografias, historia, você vai ser uma pessoa muito melhor e mais sabida se puder se educar a ler cada vez mais. Num mundo frases bruscas e toscas, ler cria um mundo a parte, aumenta seu vocabulário, o ensina geografia e historia sem que você perceba. Ler não é somente para os cultos, vide euzinha que devoro livros e não tenho nada de culta, é para todos. Livros ensinam a pensar, induzem a pensar. Livros são chocolate e pipoca para o cérebro, são a maneira de vivermos em um mundo completo que nunca conheceremos. Não são como os filmes onde só podemos ver o que nos mostram, os livros nos conduzem pelos pensamentos dos protagonistas, pelas artérias da trama. Ache seu gênero, seu autor e mergulhe.

Por mais que você seja desencanado e não ligue para o que aconteça quando já tiver feito sua viagem para o paraíso (ou inferno), deve um dia parar para pensar se gostaria que seus pais e avós deixassem o mundo no estado em que está deixando para a posteridade. Fazer algo gentil pela natureza não é frescura, não é gay (coisa que muitos machos parecem pensar), não é inútil porque você é somente um, é imprescindível neste mundo esgotado e esquecido por Deus.

Pipoca, chocolate, batatinha, amendoim, bala de goma, jujuba e similares, não são “besteiras”. Na verdade são parte importante de um gênero alimentício ainda não descoberto e que DEVEM ser inclusos na sua alimentação para o balanço perfeito de sua saúde física e mental. Um dia os japoneses descobrirão isso e contarão ao mundo. Confio neles.

Só para agradar meu irmão: O mar é feito de xixi de peixe.

1 de jul. de 2007

Post Mortem

Para qualquer pessoa a visão seria chocante, talvez até nauseante. Provavelmente lagrimas instantâneas nublassem a vista e espasmos estomacais levariam mãos a cobrirem bocas, corpos se dobrariam em dois enquanto joelhos atingiriam o chão levando dor a um cérebro já sobrecarregado. Mas não para ele. O rosto tingido em tons de púrpura e sangue já não mais parecia pertencer a um ser humano. Os ossos quebrados deformavam a face e lembravam mais um ser saído de um filme de horror. O corpo não estava em melhor estado. “Em frangalhos” poderia bem descreve-lo, mas não diria tudo. Não bastaria para contar da humilhação que fora infligida, do sadismo extremo com que fora tratado, do desprezo pela vida que cada chaga, cada hematoma, cada pequeno rio de sangue gritava em altos brados. Mas seus olhos estavam secos. Enxergava cada pequeno detalhe sem que sua face perdesse a cor rosada ou que seus olhos se espremessem como fazemos quando algo nos choca. A mesa de aço, que parecia tão gelada e imprópria para o repouso de qualquer corpo humano, já estava preparada. Todos seus instrumentos na bandeja brilhavam tão desnecessariamente esterilizados e o gravador aguardava suas palavras que seriam o epitáfio de uma vida perdida tão estupidamente. Seu sanduíche de mortadela, a metade dele que ainda restava, lhe chamou a atenção e o atacou com determinação enxaguado por uma lata de guaraná já meio quente. Seus olhos nunca deixaram o corpo. Sua mente nunca deixou de se perguntar como um ser humano poderia tratar a outro assim. Mas esse era o seu trabalho, como fazer tabelas ou dirigir empresas o eram para outros, e ele se orgulhava de ser um dos melhores. Um arroto quebra o silencio da sala e ele enrubesce. Primeiro sinal de qualquer emoção nesta figura tão fria quanto sua sala. Olha para o corpo e com voz rouca e velha pede desculpas pela grosseria. Só então percebemos que seu coração não está morto, não está intocado pela tragédia que jaz diante dele. Está somente bem abrigado, protegido por anos de tragédias, centenas de corpos maltratados, milhares de vidas destruídas. Seu coração ainda bate como o nosso, mas seu trabalho é mais importante que seus sentimentos. A mão firme que acaricia o rosto pétreo o denuncia novamente e logo nada mais resta a não ser o legista. Ele é a ultima voz que se levantará pelas vitimas.

28 de jun. de 2007

Battlestar Galactica


Não posso dizer que eu seja uma fanática por ficção cientifica, apesar de assistir quase todos os filmes do gênero que não sejam incrivelmente ruins, mas admito que resisti muito até ser convencida, pelo irmão Urso, a assistir Battlestar Galáctica. Não o ouvi por duas temporadas, mas acabei cedendo ao começar da terceira temporada. Ele chegou naquele sábado animado e eu acho que bufei um pouco, meio “Oh, Brother, o que não faço por você. Vamos assistir essa joça e partir pra próxima.” Não foi preciso muito. Logo eu era uma criança irritante lhe exigindo atenção o tempo todo. “Quem é esse? Onde eles estão? De onde vieram? Como os Cylons chegaram ali?” Algumas semanas depois, cansado de mim talvez, ele me presenteou com a primeira temporada. Nessa altura do campeonato eu já ansiava pelos sábados sem pensar no descanso. Só o que me interessava era a chegada das 4 horas e da musica meio etérea da abertura. Numa época de seriados repetitivos, copiados e sem futuro, Battlestar cativa pela profunda verdade por trás da ficção. A política, a natureza destrutiva e combativa do ser humano, a busca de uma comunidade que nem sempre é aceita por todos seus membros. Assisti a primeira temporada em poucas noites. Perdendo horas de sono, acordando para o trabalho com olheiras profundas, mas somente pensando que faltava pouco. Logo eu saberia tudo que importava. Mas claro que eu estava errada. A primeira temporada termina e me deixa num vão escuro e assustador e, apesar de eu saber o futuro que cada sábado me trás, não pude ficar parada. Parto em busca da segunda temporada e não demoro a me separar de meu suado dinheirinho em troca da caixa tão esperada. E é mais do que eu esperava. Muito mais. Esqueço da banalidade da vida enquanto Galáctica salta entre galáxias e Cylons ressuscitam em suas múltiplas copias. Assisto cada capitulo entre exclamações de surpresa, lagrimas de ansiedade e tristeza e muitos palavrões ditos em voz alta, o que parece divertir muito minha mãe no quarto ao lado. Battlestar Galáctica ganhou um lugar em minha rotina há muito tempo desocupado. Aquele lugar especial que guardamos para o que nos toca profundamente. TNT, sábados, 4 horas da tarde.

25 de jun. de 2007

A nova “brincadeira” dos adolescentes é se provocar desmaios. Não um. Não dois, mas às vezes 15 ou 20 em uma só noite. É obvio para quem tem dois olhos, dois ouvidos e meio cérebro que o mundo está indo ladeira abaixo, mas fico pensando como uma geração pode ter decaído tanto em inteligência e bom senso como esta. Intrigada com a pequena noticia sobre o novo modismo eu sai a procura de mais informações e elas pipocam muito naturalmente, como se fossem anúncios de um novo IPod. Apesar de muitas matérias avisando sobre os riscos os jovens continuam brincando. E morrendo. Tragédia? Não. Pura idiotice. Não consigo ter pena de pessoas que brincam com a própria vida e são estúpidas demais ,ou egocêntricas demais, para pesar os danos, para enxergar o perigo. Tragédia é ver o mundo entregue a uma geração que não dá valor nem a própria vida.

21 de jun. de 2007

Festa

Fico pensando se este ano terei sorte. Há muito tempo que festa junina é uma decepção. A ultima parecia mais uma zombaria, uma mal aparada tentativa de vender restos. Barracas e mais barracas de brechós, quentão feito de gasolina (pelo menos foi o que me pareceu quando explodiu em meu estomago) e barracas de cachorro quente e mini pizza(?). Nada de bingo, nada de barracas com brincadeiras, nada de doces típicos ou salgados da roça. Tudo mais sem graça do que TV aberta no fim de semana. Estamos perdendo nossas tradições a passo tão rápido que é até ridículo. Nada mais se parece com antigamente. As musicas das tão queridas festas juninas correm do aché para o funk sem respeito por São João. Ninguém se diverte mais mandando correio elegante para desconhecidos. Tudo é moderno e absolutamente sem graça. Festa junina perdeu sua identidade e daqui a pouco as outras festas também se renderão. Quanto tempo passará até que não nos lembremos mais do que significam e de como eram divertidas? Dizem que a idade gera saudosismo, que tudo parece melhor no passado, que vemos tudo com olhos cor de rosa, mas não é verdade. O passado possuía uma inocência e delicadeza que não podem ser recuperadas. O mundo está velho demais. Os jovens nascem sabendo coisas que deviam ignorar. A ordem é estar sempre à procura, mesmo que não se saiba do que. Não se sabe mais viver, somente se corre de um lado para outro esperando que as experiências sejam boas o suficiente para um dia podermos ser saudosistas. Mas ninguém mais o é. Ninguém mais tem motivo para ser. E se alguém souber de uma festa junina decente, por favor, me avise.

20 de jun. de 2007

Greve de Heróis

Correspondente: Testando... Testando... (click... rewind…) ”Testando…Testando…” Estamos prontos. Podemos começar? Muito bem. Sei que muitas perguntas que farei parecerão agressivas, mas quero deixar claro que só procuro respostas para as mil perguntas que o mundo se faz nesse momento. Ok? Vamos começar. Sei que a pressão de seu trabalho é grande e nem sempre a recompensa é justa, mas não se sentem constrangidos de abandonar as pessoas a sua sorte quando tem poder para minimizar tantas dores?
Super Herói 1: Bem... sim... não... Nem sempre é possível agradar à todos e, bem, meus companheiros e eu, bem...
Super Herói 2: O que meu colega quer dizer é que se nosso trabalho fosse realmente apreciado nunca nos teríamos sentidos desmotivados a continua-lo. Temos sentimentos como qualquer pessoa normal e nos magoamos e zangamos também, mas talvez o que tenha nos levado a abandonar sua raça à própria sorte, como você diz, tenha sido a frustração.
Super Herói 3: É isso ai. É frustrante estar sempre correndo para ajudar um bando de idiotas.
Correspondente: (sentindo cheiro de sangue e atiçando a fera enjaulada) Idiotas? É essa a visão que os Super Heróis tem dos simples mortais?
Super Herói 3: Pode apostar que é. Bilhões de idiotas sem um pingo de bom senso nos seus corpinhos frágeis. Células cinzentas indecisas e burras, é isso que vocês tem na cachola.
Super Herói 1: Não! Não! Não é bem assim. Bem, eu não penso assim, as pessoas são pessoas e eu tenho o maior prazer em ajudar, mas, bem, sabe como é, nem sempre... às vezes... só de vez em quando.... bem...
Super Herói 2: O que meu colega quis dizer por “idiotas” foi que se você tem um corpo tão frágil e um cérebro tão pequeno, não devia se arriscar tanto. 90% do nosso tempo é perdido salvando idiotas, hum hum, quero dizer, pessoas que se arriscam sem necessidade. Enquanto isso pessoas realmente em perigo, e que não se colocaram em situação de perigo por farra, sofrem por não podermos prever quem é “idiota” e quem não é.
Correspondente: Desculpe, mas como assim prever quem é idiota?
Super Herói 3: Eu consigo prever. Quem grita mais alto por socorro é sempre o idiota. O verdadeiro inocente sempre soa absolutamente surpreso. Alem do mais a vitima verdadeira sempre é grata enquanto o idiota, depois do susto, volta a ser um completo idiota agindo como se pudesse ter saído do apuro sozinho.
Super Herói 1: Não é bem assim, ele só está um pouco nervoso. A gente anda muito estressado.
Correspondente: Mas a, huhum, idiotice das pessoas, de algumas pessoas, justifica que deixem o mundo sem proteção?
Super Herói 2: Você nunca deixou de fazer algo por que não lhe dava mais nenhum prazer? Ou porque para você já não funcionava mais? Ou mesmo porque ficou de saco cheio?
Correspondente: Bem... Sim, mas eu não sou super herói.
Super Herói 3: Azar o seu.
Super Herói 2: Nossa condição não dá ao direito às pessoas de abusar da sorte.
Super Herói 1: Eu só tô meio cansadinho...
Super Herói 3: Você tem é o miolo mole. Se não fosse a gente decretar greve geral ainda tava por ai ajudando os idiotas.
Correspondentes: Não existe uma maneira de serem convencidos a voltar?
Super Herói 3: Claro. É só se livrar de todos os idiotas.
Super Herói 1: Não que me incomodem, mas ajudaria muito.
Super Herói 2: É, seria um alivio. A burrice entre seu povo parece estar se espalhando como doença. Erradicar seria inteligente.
Correspondente: Hummmm.... (desligando o gravador) É, seria bem legal. Vocês aceitam ajuda?

19 de jun. de 2007

Serial

Suas mãos eram quase femininas. Lisas e aparentemente macias. No entanto eram estranhamente másculas e meus olhos eram atraídos pelos seus movimentos sinuosos como o canário é atraído pela cobra. Ele não me tocara, não ainda e eu sabia que queria faze-lo, mas deixava suas mãos muito próximas das minhas que descansavam na mesa, dedos entrecruzados, quase como se rezasse. Sua voz macia dizia coisas por vezes chocantes, como se para me testar, mas na maior parte do tempo seu discurso era quase doce. Eu fechei meus olhos por um momento e deixei que todo o resto desaparecesse e pude entender como fora fácil para ele. Sua aparência inocente, sua voz rouca e as mãos que eu sabia fortes eram tudo que precisava. Eu não precisava falar, ele bem sabia quem eu era e o que queria e parecia mais do que disposto a me revelar todo seu magnetismo e, entre linhas, suas intenções. Ele disse algo que me fez sorrir e isso pareceu o agradar muito. Bateu as mãos como uma criança feliz e me sorriu de volta mostrando os dentes perfeitos escondidos pelos lábios voluptuosos. Ele queria que eu o entendesse e eu entendia, mais do que ele gostaria, mais do que eu gostaria. Nem sempre a compreensão do que motiva o próximo nos alivia de nossos medos, talvez só os intensifique. Eu tentei falar, mas adivinhando que eu o deixaria tentou me fazer ficar confessando segredos em voz baixa e urgente, me entregando abruptamente o que por horas se recusara a revelar. Falou de cada detalhe com um prazer perverso, vendo meu rosto perder a cor apesar de meu treinamento, estreitando os olhos ao ver meus músculos se retesarem involuntariamente. E eu soube que era assim que ele agia sempre. Era muito fácil perceber sua excitação crescente ao ver meu desconforto. A dança da conquista finda e a perseguição implacável iniciada. O terrorismo mental, o antecipar o horror da vitima ao contar como terminará antes mesmo que ela saiba, antes mesmo que ela perceba que sua vida não vale mais nada. Levantei de repente sem deixar que ele terminasse e a fúria que se seguiu transformou o príncipe em monstro. As mãos delgadas agarraram meus pulsos e os dois guardas presentes pouco puderam fazer a não ser pedir por socorro. Ele me queria, como quisera as 23 mulheres antes de mim. Ele precisava que meu corpo perdesse o sangue vital, que meu pulmão arfasse em busca do ar, que meus olhos se fechassem para sempre. Nem mesmo na cadeia sua ânsia diminuira. Não era loucura, não era insanidade, era pura fúria. Mais guardas chegaram e eu fui libertada, mãos dormentes e rosto descomposto. Eu sabia o que tinha que fazer. Meu parecer era final. Ele seria julgado, condenado e executado. Eu seria responsável por isso, mas era a única saída. Somente assim eu poderia dormir novamente. Somente assim me sentiria segura.

18 de jun. de 2007

Itch


"Fill what's empty, empty what's full, and scratch where it itches." The Duchess of Windsor

É como um comichão em um lugar impossível de coçar. Dentro de meu cérebro. Eu tento ignorar, o corpo cansado ajuda, mas é como em uma musica clássica, que vem nunca crescendo infinito nunca permitindo que os pratos soem e os tambores rufem para o final magnífico. É um crescendo angustiante. É a inatividade forçada. Parar de escrever foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Mais difícil do que desistir de amar. Ainda mais difícil do que recomeçar a viver. Espantar as mil idéias como moscas incomodas foi torturante. Ignorar a maquina maníaca no canto do quarto com sua tela negra zombando de minha escolha foi ainda pior. Resolvo testar a propriedade da minha resolução e digo na frente de minha família que parei de escrever. Esperava por uma quadra de ases “Não faça isso. Continue.” Mas acabei com um par de setes em uma mesa de jogos altos. Só silencio. É triste como se demora a perceber que uma hora se deve fazer o que gosta sem esperar pela aprovação dos que amamos, nem sempre eles se importam. Nem sempre é importante para eles o que é importante para nós. Demorou para que os emails e comentários dos amigos atingisse o nervo. Eles diziam “Coce! Você é boa nisso. A gente ajuda. Uma coçadinha aqui, uma ali... Não se sente melhor agora?” Sinto-me muito melhor. Obrigada.

Até amanhã.

17 de abr. de 2007

Até que a morte...

Ela o olhava com os mesmos olhos de sempre. Adoradores e ausentes. Muitas vezes ele pensava que ela nem mesmo o via, não o seu eu real, mas aquele com o qual ela sonhava e para o qual respondia perguntas nunca feitas e para quem agradecia carinhos nunca ditos. Ele lhe dizia, claro que dizia já que não suportava mais esse amor, que não podia mais, não a amava, não a queria, mas ela somente o olhava, sonhando com outras palavras como se ele fosse somente um personagem que pudesse ser dublado ao gosto do freguês. Era quase uma tortura diária. Ela telefonava 20 vezes por dia, mandava flores, planejava viagens que nunca fariam, importunava seus amigos e nunca, mas nunca mesmo, se importava com suas respostas ríspidas, sua ira cada vez maior. Ela não via. O amava e só isso importava. O escolhera e não deixaria que ele estragasse o relacionamento de seus sonhos. Ele já não tinha forças para fugir, ela sempre o achava, não tinha forças para lutar contra vontade tão poderosa. Era um mártir que vê a hora do sacrifício chegar sabendo que não há saída, a visão do fim é quase doce. Ele a mandou vestir branco, lhe deu um buquê de flores do campo e uma aliança larga e antiquada. A levou para o campo e em uma trilha, entre arvores centenárias e flores sob os pés, prometeu ama-la até a morte. Ela não sentiu, nem mesmo ouviu a explosão que fez os pássaros fugirem em revoada. Nunca percebeu a arma encostada em seu peito, nem mesmo estranhou as lagrimas desesperadas nos olhos de seu príncipe encantado. Seu coração parou no momento mágico, na hora eterna de sua felicidade. Ela conseguira. Ele era seu até a morte.

16 de abr. de 2007

Pé na Cova Recomenda: CELL

Sempre espero que Stephen King me decepcione. Quase aconteceu com The Colorado Kid, mas acabei entendendo o que ele pretendera com o livro, provar uma teoria, e ele consegue, como sempre. Mas para mim foi um livro fraco e esperei pelo próximo com a sensação de pesar de quem perde um grande amigo. CELL chegou em paperback e o ignorei, um novo Stephen King, grande tentação, possível grande decepção? Medo me fez investir nos antigos King, aqueles com mais edições do que a idade de meus cães, mas CELL continuava na prateleira piscando para mim irreverente. “Me leve... Sou seu... Medo de que, já não nos conhecemos há tanto tempo?” E eu não resisti. Resisti por quase um mês, o deixando de molho na prateleira dos não lidos, mas é um King não lido e parece pulsar cada vez que meus olhos passam sobre ele. O pego. Mastigo a primeira pagina devagar, receosa, sem nunca ter lido sua contracapa para saber que tipo de King era este. Na décima pagina já me agito, é um King, sim, e com gosto de The Stand, apocalíptico, enigmático. Não sei quantos dias levei para lê-lo. Três ou quatro, não mais do que isso, e relendo às vezes capítulos inteiros à procura de pistas, revendo emoções, chorando pelos mortos. Como todo King este me deixou exausta, sofri com cada personagem e a cada morte dolorosa me lembrava de seu conselho aos novos escritores em seu livro On Writing “Kill your darlings! Kill your darlings!”, não somente no sentido de silenciar um personagem, mas de ter coragem de cortar o supérfluo que por vezes nos parece tão bonito, mas é somente floreio desnecessário. Ainda estou exausta. Há dois dias tento abrir um novo livro e não tenho coragem. Tenho medo de tirar de minha cabeça o horror, o amor, o sentimento, a possibilidade assustadora do futuro, a jornada imprevisível, as medidas extremas que podemos tomar quando desafiados, a coragem que nasce no coração dos abandonados, o pulsar que só Stephen king consegue dar. Sem contar que peguei uma certa aversão pelo meu celular.

14 de abr. de 2007

Nos Olhos

Não está estampado na face. Nem tampouco nos cabelos ou na curva suave do pescoço. Nunca verá sinal na postura do corpo ou no formato das mãos. É impossível se adivinhar pela fala que tanto parece coerente. Está, sim, nos olhos. Aqueles olhos insanos e incandescentes que perturbam mas nem sempre denunciam. Loucura. Não a insanidade saudável que, por exemplo, me possui e a muitos de grandes desejos e paixões, mas sim a obsessão que apaga o direito do próximo e descarta qualquer vontade que não a sua. É nos olhos que vemos o fanático religioso mostrar sua verdadeira cara. Onde vemos o ódio escondido por trás do sorriso quando nos negamos a ouvir suas “verdades”. É nos olhos, também, que reconhecemos o mal camuflado de grandes intenções dos terroristas. É nos olhos que vemos a inveja por trás de palavras doces e o sadismo disfarçado de paixão. Somente nos olhos. É nos olhos sedentos que o serial killer se revela e onde o trapaceiro pode ser descoberto. É nos olhos que carregamos todas nossas intenções, boas ou más, e é por isso que devemos manter os nossos bem abertos, para que possamos ver o que se passa em outros olhos.

13 de abr. de 2007

O começo do fim

Você pode apontar exatamente o começo do fim? Será capaz de dizer em que exato momento o amor fechou seus olhos e entrou em coma profundo e irreversível? Lembro-me de relacionamentos que entraram em declínio sem causa aparente a não ser o fim do começo. Inícios são apaixonados. Não questionamos atitudes, não vemos defeitos, não nos preocupamos se os gostos do outro coincidem com os nossos. Somos mísseis teleguiados de paixão, sempre ardentes e ansiosos por atingir um único alvo. O amor chega rápido, se podemos mesmo chamar de amor, mais pela necessidade de amar do que pelo mérito do relacionamento em questão. Somos todos carentes neste século XXI, queremos sentir e possuir e pertencer, mas esquecemos que mais importante que estar acompanhado é estar em comunhão. Corpos podem se excitar com uma variedade infinita de outros corpos, mas mentes... E é assim que o começo do fim se inicia. Quando corpos já saciados não mais se satisfazem somente com o prazer físico e necessitam de mais. Mentes iniciam sua busca por uma parceria que raramente é encontrada, já que nossos corpos fizeram a escolha sem consultar nosso cérebro. Costumamos dizer que os homens pensam com a “outra” cabeça, mas a verdade é que todos pensamos assim nos começos e acabamos nos decepcionando quando descobrimos que retirada a paixão pouco sobra. E a paixão dura pouco, porque o combustível da paixão é o mistério, o desconhecido, o novo, e nada é novo para sempre. Não é, portanto, mistério o sucesso dos relacionamentos de nossos ancestrais. Eles simplesmente não se uniam por paixão. Os namoros eram longos e honestos e os casamentos eram planejados com cuidado por ambas as partes. E quando o amor se tornava morno ninguém desistia e partia para o próximo da lista, mas sim investia no respeito e amizade que levam um relacionamento através de décadas. Você agora pode me dizer quando foi o começo do fim?

12 de abr. de 2007

Amy Winehouse

Amy Winehouse tem atitude. Tem carisma. Tem peito para fugir da mesmice que nos atinge. Mas mais do que tudo, Amy Winehouse tem A voz. Não é para qualquer um, num mundo de musica eletrônica e o pop nojento de Madona e suas seguidoras, Amy é para quem gosta de musica com gosto de passado. Mas escute com atenção, porque suas letras são apimentadas e seu ritmo vicia mais que bala de goma e pipoca. É quente. Como Amy. Seus clips pedem para ser vistos centenas de vezes e a cada vez você a acha menos estranha, menos diferente, mais imprescindível para seu dia a dia. Não, não é para qualquer um, mas com certeza é para muitos e só posso dizer para digitar este nome no You Tube ao terminar de ler este post. Comece com Rehab e daí para Back to Black e depois me avise se ela não te deu vontade de dançar de maneira sensual pela sala (para os meninos eu diria um estalar de dedos e um andar gingado. Tudo muito másculo, é claro). Divirtam-se.

11 de abr. de 2007

Sonhos

Geralmente sabemos o que queremos da vida, mas isso não quer dizer que estejamos certos. Algumas metas não passam de sonho. Outras são sólidas e perfeitamente atingíveis. Não que sonhos não se tornem realidade – que o diga o ganhador da mega-sena acumulada – mas quantas vezes, em quantas vidas, de tantas pessoas que conhece, você já ouviu que um conto de fadas ser transformado em realidade? Alguém pode um dia ter contado que a prima da amiga do sócio do amigo de seu pai realizou seu sonho mais fantástico, mas também quem não ouviu estórias assim? O fato é que sonhar é saudável, contanto que você saiba distinguir entre o que é viável e o que é insanidade cor de rosa vestida de rendinhas dançando o can-can de cabeça para baixo. Nem sempre é fácil aceitar que nossa realidade é medíocre, comparada à nossos sonhos dançarinos, mas o primeiro passo para viver bem consigo mesmo é encarar de frente a rotina e pensar que tem coisa muito pior por ai. Alem do mais, nada impede que você trabalhe em busca de um sonho dourado, em vez de esperar que ele te atropele. Muitas pessoas invejadas não tiveram somente sorte, elas também correram atrás. Ficaram noites sem dormir, sacrificaram fins de semanas e férias, desistiram de gastar boa parte do salário no shopping, esqueceram o que era divertimento, elas se arriscaram. E ganharam. Não sem sacrifício. Sonhar é ótimo, eu sonho demais e meus sonhos dançam o tango, a salsa, o mambo, a valsa e as dances dos 80’s e afins, mas aprendi que muitos deles são somente prelúdios para meus contos, inspirações lunáticas de uma mente tortuosa e torturada, somente sonhos que aliviam a monotonia. Não é fácil se contentar. Não. Mas também não é preciso. Sempre é possível melhorar algo em nossa vida, é possível agregar à realidade algo de nossos sonhos e assim tornar possível que a tal da felicidade bata à nossa porta. Na verdade nada é impossível, somente improvável.

10 de abr. de 2007

Inevitável segundo

Os dias de hoje são tão incertos quanto o horário do Vila Gilda/Ana Rosa na hora do rush. Vivemos o dia a dia sem muita certeza do que virá amanhã e amamos cada vez mais o passado por nos dar a segurança que o presente nos nega. Alias, o que é o presente? Este segundo? Já é passado. Este segundo? Ops, já passou também. Talvez o próximo? Não, este ainda é o futuro. O presente parece ser nada mais do que estes segundos aterradores que antecedem o futuro antes de se transformar em passado. Incertos. Ameaçadores. Fugazes. Mas algumas certezas ainda temos. A terra é redonda e parece querer continuar sendo. A chuva molha, a não ser que você esteja bem abrigado. As arvores perdem suas folhas no outono e florescem na primavera. As estradas estarão entupidas em cada feriado. Os telefones estarão ocupados quando você estiver com pressa. Nos fins de semana a programação de seus 70 canais à cabo é de cortar os pulsos. A moda sempre encontra um jeito de tornar as mulheres ridículas. Os homens sonham secretamente com a poligamia. Pode não parecer muito, mas existe algum consolo em pequenas certezas. O mundo, há muito tempo, já não é um lugar seguro. E talvez a insegurança seja a causa de tantas incertezas, mas não adianta muito se afligir por isso. Passar do passado para o futuro exige coragem, é preciso ultrapassar estes segundos perigosos e incertos e acertar cada passo trôpego, cada tropeço e, mesmo errando um pouco, seguir em frente. Porque a única solução para nossos dilemas mundanos é chegar no próximo segundo. Vivos. Salvos. Esperando pelo próximo inevitável segundo.
...
...
...
Que agora já é passado.

9 de abr. de 2007

Relato de uma noite sem tempo (03/04/2007)

A vela se agita na brisa insuficiente que invade meu quarto. Letras, normalmente já indecifráveis, se transformam em insetos centopéicos. Recostada em minha cama, caderno e caneta apoiados nas pernas, me refresco com o abanar do leque que ainda conserva o perfume de sândalo, um dia tão pungente. Nessa luz suave mais pareço uma dama sulista (Scarlet O’Hara na meia idade) do século passado do que uma mulher moderna e exausta à espera do restabelecimento da eletricidade. Sei que algum drama (nesta época de comunicação rápida não pude deixar de me inteirar) fez com que meu bairro todo voltasse no tempo mais de uma centena de anos. A escuridão caiu sobre as pessoas desavisadas como uma ameaça. Trabalhadores assustados corriam pelas ruas aproveitando os últimos raios de um sol inclemente tentando alcançar a seguranças de suas casas. Eu consegui. Estou em segurança, mas não esqueço o tremor de receio ao encarar ruas negras onde vultos ziguezagueavam como mortos vivos em um filme de terror. Mas em meio à confusão generalizada e aos rostos preocupados eu percebi que na escuridão as pessoas se encontraram. Não há TV, os telefones sem fio estão mortos, as casas são apenas cascas onde pessoas vivem juntas mas desaprenderam a conviver. Na escuridão as ruas se encheram de vizinhos à procura de seus vizinhos. As calçadas viraram bancos e todos trocam informações enquanto se lembram que um dia gostavam de se encontrar para bater um papo. As padarias tem seus balcões cheios e o riso, entre as buzinas irritantes, faz o ar da noite mais leve. Escuto o ressonar suave de meus cães, os passos na rua, o ruído suave de um papel carregado pelo vendo, o maravilhoso burburinho de conversas animadas por toda parte. Sim, a luz faz falta. Meu computador jaz inútil no canto do quarto, minha TV parece triste em frente à cama, meu abajur foi relegado ao chão para dar lugar à vela, mas... Mesmo assim... Fico feliz em ouvir os risos lá fora e a escuridão já perdeu sua malevolência. Tudo está em paz.

Um grito rasga a noite: QUERO ASSISTIR O BBB!
Bem... Nada é perfeito, mesmo na escuridão o mal gosto persiste.

24 de mar. de 2007

Sinto-me hoje como se tivesse sido mastigada e cuspida um milhão de vezes. A semana se arrastou em surpresas e preocupações e percebi como a maldita adrenalina nos sustenta nas horas difíceis. Agüentei firme. Até ontem. O fim do dia se esvaiu junto com os restos dessa maldita adrenalina e eu afundei como um pato que comeu cimento pensando ser açucar. A sensação não é de todo ruim para o espírito. O corpo, essa maquina delicada e potente, não concorda com isso. Cada músculo está gritando revoltado e minha cabeça se recusa a pensar com coerência por mais de alguns minutos. Mastigada e cuspida. Espero que depois de semanas de tensão, entre pressentimentos, agouros e ações, agora eu possa voltar à minha rotina ou pelo menos que possa criar uma nova rotina, já que a velha se rasgou e se atirou ao lixo. Não desisti do blog, ainda não, espero que nunca o faça, mas precisei deste descanso, desse intervalo para poder me entregar completamente à neurose, ao medo e ao pânico. Peço perdão aos amigos que permaneceram fieis mesmo quando eu os abandonei sem desculpas. Estou trabalhando, agora mesmo, em um novo conto para o blog e espero assim me retratar. Será um conto longo, em vários capítulos, como costumava postar e espero que possa cativa-los novamente. Mastigada e cuspida eu me despeço. A semana trará o conto e algumas dicas sobre livros e musica que andei estocando para dividir com os amigos.
Abraços. Beijos. Até breve.

19 de mar. de 2007

Sem despedida

Ele me chamava de senhorita, talvez lendo minha mão nua, talvez adivinhando meu coração solitário. Algumas vezes, quando tinha tempo e parava para mais do que um BOM DIA! esfuziante, me beijava a mão em uma galanteria de outro século. Elogiava minhas roupas, meu novo penteado, meu sorriso matutino e minha disposição eterna para trocar palavras com ele. Pela manhã usava um roupão atoalhado, quente e um tanto gasto, como ele mesmo e a casa dilapidada por trás do portão. Eu o via logo ao virar a esquina de minha rua, catando as folhas da calçada, uma mão na altura dos rins para equilibra-lo. Ele me esperava na esquina. Olhos brilhantes por baixo de sua boina antiquada. 80 anos? 90? Não sei, mas sei que sua voz ainda era firme e suas palavras sempre polidas e embaladas em frases escritas com letras rebuscadas. Gostava de fantasiar sobre seu passado. Poderia ter sido qualquer coisa, mas o imaginava sempre em um fraque e cartola, pois combinava com seu porte principesco e sua educação britânica. Nos fins de tarde usava um roupão de tecido muito masculino por cima de suas roupas e no rosto, mal aplicada, uma base clara e pó compacto, talvez para cobrir o passar dos anos, talvez para esconder algo pior do que somente a idade. No fim do dia eu sempre parava no seu portão para um breve relato do meu dia. O tempo, o transito e o dia no escritório. Sentia vontade de beija-lo e passar os dedos suavemente pela sua face nobre, mas nunca o fiz. Não o vejo mais. A casa, que antes parecia mal cuidada, agora caminha à passos largos para a ruína completa. As persianas quebradas antes tinham charme, agora só me lembram olhos vazios e sem futuro. O jardim selvagem já não tem a mão gentil para o afagar e parece querer tomar cada canto. Meu coração se aperta quando me aproximo e amaldiçôo os dias em que mudei de caminho e o perdi de vista para sempre. Já não há BOM DIA!, nem beijos delicados em minha mão, não há esperança de retorno e nem de despedida. Meu cavalheiro se foi e, mesmo que ainda viva, não retornará. Eu me sinto um pouco mais solitária.

12 de mar. de 2007

Forget me not

Dizem que não sei perdoar, porque digo que perdôo, mas nunca esqueço. Talvez seja verdade, talvez não, acho estou ficando é mais esperta, pois quando esquecemos damos a chance do mesmo individuo nos ferir novamente da mesma maneira. Confiar tem seus limites. Você pode perdoar o erro, a quebra de confiança de um ente querido, mas se entregar novamente é pura burrice. Somos todos imperfeitos, eu pelo menos sei que sou, e também sei que cometo sempre os mesmos erros, peco os mesmos pecados, tropeço nos mesmos degraus. Não me engano pensando que sou somente eu a ter tantos defeitos, ao meu redor tenho provas desse circulo vicioso. São nossas fraquezas, mas em certas pessoas estas fraquezas ferem. São estas pessoas que mais se julgam no direito de ser perdoadas e muitas vezes nem mesmo sabem, ou admitem, que erraram. Por isso perdôo e por isso não esqueço a faca fincada “acidentalmente” em minhas costas. Talvez esquecer fosse melhor, não questionar quando alguém te dá um presente depois de ter conscientemente deixado de te dar uma chance, não se ressentir da alegria de alguém por você ter caído em sua teia de chantagem emocional, não chorar depois que alguém pede desculpas por ser estupidamente egoísta, mas continuando a ser. Ainda não me sinto pronta a esquecer. Perdoar é fácil. Seguir a vida é fácil. Esquecer é impossível.