Ela o olhava com os mesmos olhos de sempre. Adoradores e ausentes. Muitas vezes ele pensava que ela nem mesmo o via, não o seu eu real, mas aquele com o qual ela sonhava e para o qual respondia perguntas nunca feitas e para quem agradecia carinhos nunca ditos. Ele lhe dizia, claro que dizia já que não suportava mais esse amor, que não podia mais, não a amava, não a queria, mas ela somente o olhava, sonhando com outras palavras como se ele fosse somente um personagem que pudesse ser dublado ao gosto do freguês. Era quase uma tortura diária. Ela telefonava 20 vezes por dia, mandava flores, planejava viagens que nunca fariam, importunava seus amigos e nunca, mas nunca mesmo, se importava com suas respostas ríspidas, sua ira cada vez maior. Ela não via. O amava e só isso importava. O escolhera e não deixaria que ele estragasse o relacionamento de seus sonhos. Ele já não tinha forças para fugir, ela sempre o achava, não tinha forças para lutar contra vontade tão poderosa. Era um mártir que vê a hora do sacrifício chegar sabendo que não há saída, a visão do fim é quase doce. Ele a mandou vestir branco, lhe deu um buquê de flores do campo e uma aliança larga e antiquada. A levou para o campo e em uma trilha, entre arvores centenárias e flores sob os pés, prometeu ama-la até a morte. Ela não sentiu, nem mesmo ouviu a explosão que fez os pássaros fugirem em revoada. Nunca percebeu a arma encostada em seu peito, nem mesmo estranhou as lagrimas desesperadas nos olhos de seu príncipe encantado. Seu coração parou no momento mágico, na hora eterna de sua felicidade. Ela conseguira. Ele era seu até a morte.
17 de abr. de 2007
Até que a morte...
Ela o olhava com os mesmos olhos de sempre. Adoradores e ausentes. Muitas vezes ele pensava que ela nem mesmo o via, não o seu eu real, mas aquele com o qual ela sonhava e para o qual respondia perguntas nunca feitas e para quem agradecia carinhos nunca ditos. Ele lhe dizia, claro que dizia já que não suportava mais esse amor, que não podia mais, não a amava, não a queria, mas ela somente o olhava, sonhando com outras palavras como se ele fosse somente um personagem que pudesse ser dublado ao gosto do freguês. Era quase uma tortura diária. Ela telefonava 20 vezes por dia, mandava flores, planejava viagens que nunca fariam, importunava seus amigos e nunca, mas nunca mesmo, se importava com suas respostas ríspidas, sua ira cada vez maior. Ela não via. O amava e só isso importava. O escolhera e não deixaria que ele estragasse o relacionamento de seus sonhos. Ele já não tinha forças para fugir, ela sempre o achava, não tinha forças para lutar contra vontade tão poderosa. Era um mártir que vê a hora do sacrifício chegar sabendo que não há saída, a visão do fim é quase doce. Ele a mandou vestir branco, lhe deu um buquê de flores do campo e uma aliança larga e antiquada. A levou para o campo e em uma trilha, entre arvores centenárias e flores sob os pés, prometeu ama-la até a morte. Ela não sentiu, nem mesmo ouviu a explosão que fez os pássaros fugirem em revoada. Nunca percebeu a arma encostada em seu peito, nem mesmo estranhou as lagrimas desesperadas nos olhos de seu príncipe encantado. Seu coração parou no momento mágico, na hora eterna de sua felicidade. Ela conseguira. Ele era seu até a morte.
16 de abr. de 2007
Pé na Cova Recomenda: CELL
Sempre espero que Stephen King me decepcione. Quase aconteceu com The Colorado Kid, mas acabei entendendo o que ele pretendera com o livro, provar uma teoria, e ele consegue, como sempre. Mas para mim foi um livro fraco e esperei pelo próximo com a sensação de pesar de quem perde um grande amigo. CELL chegou em paperback e o ignorei, um novo Stephen King, grande tentação, possível grande decepção? Medo me fez investir nos antigos King, aqueles com mais edições do que a idade de meus cães, mas CELL continuava na prateleira piscando para mim irreverente. “Me leve... Sou seu... Medo de que, já não nos conhecemos há tanto tempo?” E eu não resisti. Resisti por quase um mês, o deixando de molho na prateleira dos não lidos, mas é um King não lido e parece pulsar cada vez que meus olhos passam sobre ele. O pego. Mastigo a primeira pagina devagar, receosa, sem nunca ter lido sua contracapa para saber que tipo de King era este. Na décima pagina já me agito, é um King, sim, e com gosto de The Stand, apocalíptico, enigmático. Não sei quantos dias levei para lê-lo. Três ou quatro, não mais do que isso, e relendo às vezes capítulos inteiros à procura de pistas, revendo emoções, chorando pelos mortos. Como todo King este me deixou exausta, sofri com cada personagem e a cada morte dolorosa me lembrava de seu conselho aos novos escritores em seu livro On Writing “Kill your darlings! Kill your darlings!”, não somente no sentido de silenciar um personagem, mas de ter coragem de cortar o supérfluo que por vezes nos parece tão bonito, mas é somente floreio desnecessário. Ainda estou exausta. Há dois dias tento abrir um novo livro e não tenho coragem. Tenho medo de tirar de minha cabeça o horror, o amor, o sentimento, a possibilidade assustadora do futuro, a jornada imprevisível, as medidas extremas que podemos tomar quando desafiados, a coragem que nasce no coração dos abandonados, o pulsar que só Stephen king consegue dar. Sem contar que peguei uma certa aversão pelo meu celular.
14 de abr. de 2007
Nos Olhos
Não está estampado na face. Nem tampouco nos cabelos ou na curva suave do pescoço. Nunca verá sinal na postura do corpo ou no formato das mãos. É impossível se adivinhar pela fala que tanto parece coerente. Está, sim, nos olhos. Aqueles olhos insanos e incandescentes que perturbam mas nem sempre denunciam. Loucura. Não a insanidade saudável que, por exemplo, me possui e a muitos de grandes desejos e paixões, mas sim a obsessão que apaga o direito do próximo e descarta qualquer vontade que não a sua. É nos olhos que vemos o fanático religioso mostrar sua verdadeira cara. Onde vemos o ódio escondido por trás do sorriso quando nos negamos a ouvir suas “verdades”. É nos olhos, também, que reconhecemos o mal camuflado de grandes intenções dos terroristas. É nos olhos que vemos a inveja por trás de palavras doces e o sadismo disfarçado de paixão. Somente nos olhos. É nos olhos sedentos que o serial killer se revela e onde o trapaceiro pode ser descoberto. É nos olhos que carregamos todas nossas intenções, boas ou más, e é por isso que devemos manter os nossos bem abertos, para que possamos ver o que se passa em outros olhos.
13 de abr. de 2007
O começo do fim
Você pode apontar exatamente o começo do fim? Será capaz de dizer em que exato momento o amor fechou seus olhos e entrou em coma profundo e irreversível? Lembro-me de relacionamentos que entraram em declínio sem causa aparente a não ser o fim do começo. Inícios são apaixonados. Não questionamos atitudes, não vemos defeitos, não nos preocupamos se os gostos do outro coincidem com os nossos. Somos mísseis teleguiados de paixão, sempre ardentes e ansiosos por atingir um único alvo. O amor chega rápido, se podemos mesmo chamar de amor, mais pela necessidade de amar do que pelo mérito do relacionamento em questão. Somos todos carentes neste século XXI, queremos sentir e possuir e pertencer, mas esquecemos que mais importante que estar acompanhado é estar em comunhão. Corpos podem se excitar com uma variedade infinita de outros corpos, mas mentes... E é assim que o começo do fim se inicia. Quando corpos já saciados não mais se satisfazem somente com o prazer físico e necessitam de mais. Mentes iniciam sua busca por uma parceria que raramente é encontrada, já que nossos corpos fizeram a escolha sem consultar nosso cérebro. Costumamos dizer que os homens pensam com a “outra” cabeça, mas a verdade é que todos pensamos assim nos começos e acabamos nos decepcionando quando descobrimos que retirada a paixão pouco sobra. E a paixão dura pouco, porque o combustível da paixão é o mistério, o desconhecido, o novo, e nada é novo para sempre. Não é, portanto, mistério o sucesso dos relacionamentos de nossos ancestrais. Eles simplesmente não se uniam por paixão. Os namoros eram longos e honestos e os casamentos eram planejados com cuidado por ambas as partes. E quando o amor se tornava morno ninguém desistia e partia para o próximo da lista, mas sim investia no respeito e amizade que levam um relacionamento através de décadas. Você agora pode me dizer quando foi o começo do fim?
12 de abr. de 2007
Amy Winehouse
Amy Winehouse tem atitude. Tem carisma. Tem peito para fugir da mesmice que nos atinge. Mas mais do que tudo, Amy Winehouse tem A voz. Não é para qualquer um, num mundo de musica eletrônica e o pop nojento de Madona e suas seguidoras, Amy é para quem gosta de musica com gosto de passado. Mas escute com atenção, porque suas letras são apimentadas e seu ritmo vicia mais que bala de goma e pipoca. É quente. Como Amy. Seus clips pedem para ser vistos centenas de vezes e a cada vez você a acha menos estranha, menos diferente, mais imprescindível para seu dia a dia. Não, não é para qualquer um, mas com certeza é para muitos e só posso dizer para digitar este nome no You Tube ao terminar de ler este post. Comece com Rehab e daí para Back to Black e depois me avise se ela não te deu vontade de dançar de maneira sensual pela sala (para os meninos eu diria um estalar de dedos e um andar gingado. Tudo muito másculo, é claro). Divirtam-se.
11 de abr. de 2007
Sonhos
Geralmente sabemos o que queremos da vida, mas isso não quer dizer que estejamos certos. Algumas metas não passam de sonho. Outras são sólidas e perfeitamente atingíveis. Não que sonhos não se tornem realidade – que o diga o ganhador da mega-sena acumulada – mas quantas vezes, em quantas vidas, de tantas pessoas que conhece, você já ouviu que um conto de fadas ser transformado em realidade? Alguém pode um dia ter contado que a prima da amiga do sócio do amigo de seu pai realizou seu sonho mais fantástico, mas também quem não ouviu estórias assim? O fato é que sonhar é saudável, contanto que você saiba distinguir entre o que é viável e o que é insanidade cor de rosa vestida de rendinhas dançando o can-can de cabeça para baixo. Nem sempre é fácil aceitar que nossa realidade é medíocre, comparada à nossos sonhos dançarinos, mas o primeiro passo para viver bem consigo mesmo é encarar de frente a rotina e pensar que tem coisa muito pior por ai. Alem do mais, nada impede que você trabalhe em busca de um sonho dourado, em vez de esperar que ele te atropele. Muitas pessoas invejadas não tiveram somente sorte, elas também correram atrás. Ficaram noites sem dormir, sacrificaram fins de semanas e férias, desistiram de gastar boa parte do salário no shopping, esqueceram o que era divertimento, elas se arriscaram. E ganharam. Não sem sacrifício. Sonhar é ótimo, eu sonho demais e meus sonhos dançam o tango, a salsa, o mambo, a valsa e as dances dos 80’s e afins, mas aprendi que muitos deles são somente prelúdios para meus contos, inspirações lunáticas de uma mente tortuosa e torturada, somente sonhos que aliviam a monotonia. Não é fácil se contentar. Não. Mas também não é preciso. Sempre é possível melhorar algo em nossa vida, é possível agregar à realidade algo de nossos sonhos e assim tornar possível que a tal da felicidade bata à nossa porta. Na verdade nada é impossível, somente improvável.
10 de abr. de 2007
Inevitável segundo
...
...
...
Que agora já é passado.
9 de abr. de 2007
Relato de uma noite sem tempo (03/04/2007)
A vela se agita na brisa insuficiente que invade meu quarto. Letras, normalmente já indecifráveis, se transformam em insetos centopéicos. Recostada em minha cama, caderno e caneta apoiados nas pernas, me refresco com o abanar do leque que ainda conserva o perfume de sândalo, um dia tão pungente. Nessa luz suave mais pareço uma dama sulista (Scarlet O’Hara na meia idade) do século passado do que uma mulher moderna e exausta à espera do restabelecimento da eletricidade. Sei que algum drama (nesta época de comunicação rápida não pude deixar de me inteirar) fez com que meu bairro todo voltasse no tempo mais de uma centena de anos. A escuridão caiu sobre as pessoas desavisadas como uma ameaça. Trabalhadores assustados corriam pelas ruas aproveitando os últimos raios de um sol inclemente tentando alcançar a seguranças de suas casas. Eu consegui. Estou em segurança, mas não esqueço o tremor de receio ao encarar ruas negras onde vultos ziguezagueavam como mortos vivos em um filme de terror. Mas em meio à confusão generalizada e aos rostos preocupados eu percebi que na escuridão as pessoas se encontraram. Não há TV, os telefones sem fio estão mortos, as casas são apenas cascas onde pessoas vivem juntas mas desaprenderam a conviver. Na escuridão as ruas se encheram de vizinhos à procura de seus vizinhos. As calçadas viraram bancos e todos trocam informações enquanto se lembram que um dia gostavam de se encontrar para bater um papo. As padarias tem seus balcões cheios e o riso, entre as buzinas irritantes, faz o ar da noite mais leve. Escuto o ressonar suave de meus cães, os passos na rua, o ruído suave de um papel carregado pelo vendo, o maravilhoso burburinho de conversas animadas por toda parte. Sim, a luz faz falta. Meu computador jaz inútil no canto do quarto, minha TV parece triste em frente à cama, meu abajur foi relegado ao chão para dar lugar à vela, mas... Mesmo assim... Fico feliz em ouvir os risos lá fora e a escuridão já perdeu sua malevolência. Tudo está em paz. Um grito rasga a noite: QUERO ASSISTIR O BBB!
Bem... Nada é perfeito, mesmo na escuridão o mal gosto persiste.
24 de mar. de 2007
Sinto-me hoje como se tivesse sido mastigada e cuspida um milhão de vezes. A semana se arrastou em surpresas e preocupações e percebi como a maldita adrenalina nos sustenta nas horas difíceis. Agüentei firme. Até ontem. O fim do dia se esvaiu junto com os restos dessa maldita adrenalina e eu afundei como um pato que comeu cimento pensando ser açucar. A sensação não é de todo ruim para o espírito. O corpo, essa maquina delicada e potente, não concorda com isso. Cada músculo está gritando revoltado e minha cabeça se recusa a pensar com coerência por mais de alguns minutos. Mastigada e cuspida. Espero que depois de semanas de tensão, entre pressentimentos, agouros e ações, agora eu possa voltar à minha rotina ou pelo menos que possa criar uma nova rotina, já que a velha se rasgou e se atirou ao lixo. Não desisti do blog, ainda não, espero que nunca o faça, mas precisei deste descanso, desse intervalo para poder me entregar completamente à neurose, ao medo e ao pânico. Peço perdão aos amigos que permaneceram fieis mesmo quando eu os abandonei sem desculpas. Estou trabalhando, agora mesmo, em um novo conto para o blog e espero assim me retratar. Será um conto longo, em vários capítulos, como costumava postar e espero que possa cativa-los novamente. Mastigada e cuspida eu me despeço. A semana trará o conto e algumas dicas sobre livros e musica que andei estocando para dividir com os amigos.Abraços. Beijos. Até breve.
19 de mar. de 2007
Sem despedida
Ele me chamava de senhorita, talvez lendo minha mão nua, talvez adivinhando meu coração solitário. Algumas vezes, quando tinha tempo e parava para mais do que um BOM DIA! esfuziante, me beijava a mão em uma galanteria de outro século. Elogiava minhas roupas, meu novo penteado, meu sorriso matutino e minha disposição eterna para trocar palavras com ele. Pela manhã usava um roupão atoalhado, quente e um tanto gasto, como ele mesmo e a casa dilapidada por trás do portão. Eu o via logo ao virar a esquina de minha rua, catando as folhas da calçada, uma mão na altura dos rins para equilibra-lo. Ele me esperava na esquina. Olhos brilhantes por baixo de sua boina antiquada. 80 anos? 90? Não sei, mas sei que sua voz ainda era firme e suas palavras sempre polidas e embaladas em frases escritas com letras rebuscadas. Gostava de fantasiar sobre seu passado. Poderia ter sido qualquer coisa, mas o imaginava sempre em um fraque e cartola, pois combinava com seu porte principesco e sua educação britânica. Nos fins de tarde usava um roupão de tecido muito masculino por cima de suas roupas e no rosto, mal aplicada, uma base clara e pó compacto, talvez para cobrir o passar dos anos, talvez para esconder algo pior do que somente a idade. No fim do dia eu sempre parava no seu portão para um breve relato do meu dia. O tempo, o transito e o dia no escritório. Sentia vontade de beija-lo e passar os dedos suavemente pela sua face nobre, mas nunca o fiz. Não o vejo mais. A casa, que antes parecia mal cuidada, agora caminha à passos largos para a ruína completa. As persianas quebradas antes tinham charme, agora só me lembram olhos vazios e sem futuro. O jardim selvagem já não tem a mão gentil para o afagar e parece querer tomar cada canto. Meu coração se aperta quando me aproximo e amaldiçôo os dias em que mudei de caminho e o perdi de vista para sempre. Já não há BOM DIA!, nem beijos delicados em minha mão, não há esperança de retorno e nem de despedida. Meu cavalheiro se foi e, mesmo que ainda viva, não retornará. Eu me sinto um pouco mais solitária.
12 de mar. de 2007
Forget me not
Dizem que não sei perdoar, porque digo que perdôo, mas nunca esqueço. Talvez seja verdade, talvez não, acho estou ficando é mais esperta, pois quando esquecemos damos a chance do mesmo individuo nos ferir novamente da mesma maneira. Confiar tem seus limites. Você pode perdoar o erro, a quebra de confiança de um ente querido, mas se entregar novamente é pura burrice. Somos todos imperfeitos, eu pelo menos sei que sou, e também sei que cometo sempre os mesmos erros, peco os mesmos pecados, tropeço nos mesmos degraus. Não me engano pensando que sou somente eu a ter tantos defeitos, ao meu redor tenho provas desse circulo vicioso. São nossas fraquezas, mas em certas pessoas estas fraquezas ferem. São estas pessoas que mais se julgam no direito de ser perdoadas e muitas vezes nem mesmo sabem, ou admitem, que erraram. Por isso perdôo e por isso não esqueço a faca fincada “acidentalmente” em minhas costas. Talvez esquecer fosse melhor, não questionar quando alguém te dá um presente depois de ter conscientemente deixado de te dar uma chance, não se ressentir da alegria de alguém por você ter caído em sua teia de chantagem emocional, não chorar depois que alguém pede desculpas por ser estupidamente egoísta, mas continuando a ser. Ainda não me sinto pronta a esquecer. Perdoar é fácil. Seguir a vida é fácil. Esquecer é impossível.
11 de mar. de 2007
Memória
Quando ela abriu os olhos foi como se fosse pela primeira vez. Não podia se lembrar de como chegara neste quarto esterilizado de hospital. Nem mesmo podia se lembrar do nome pelo qual devia atender. Seu corpo parecia inteiro. Podia mexer pés, pernas, braços e até movimentar o tronco, que mesmo dolorido respondia a seus comandos. Apesar da falta completa de memória, que deveria preocupar ou apavorar qualquer um, ela estava calma. Na verdade sentia um alivio extremo. Fechou os olhos e soltou um suspiro que parecia estar preso em seu peito há muito tempo. Era estranho sentir tanta paz em meio à nuvem que toldava suas lembranças, mas ela não sentia vontade de se redescobrir. Este branco total. O dia se passou entre cochilos e visitas de médicos e enfermeiras que tentavam consola-la e anima-la sem perceber que ela não precisava disso. Estava perfeitamente feliz. Nada é perfeito e, para provar que a felicidade dura pouco, o dia seguinte foi como a tempestade que destrói a colheita, afoga o gado e derruba a casa. Ela acordou para ver a face de um homem debruçado sobre ela. Seu rosto carregava mais irritação do que preocupação. Em seu encalço entraram cinco crianças de idades variadas, mas todas com péssima educação. Ela fechou os olhos para eles e tentou também fechar a mente, mas os gritos infantis e as reclamações de seu marido trouxeram de volta tudo que tão alegremente esquecera. “Mamãe preciso disso, daquilo, quero, me dê, AGORA! AGORA!” e “porque você é tão desastrada? Sabe quanto vou gastar de hospital por causa de sua estupidez? Levante logo e vamos pra casa que as crianças tem fome e eu preciso passe minhas camisas e arrume a bagunça dos últimos dias.” Os médicos nada puderam fazer a não ser libera-la. Chegando em casa ela se lembrou do tombo que levara. A queda pela escada, empurrada por um marido irritado e desequilibrada por filhos endiabrados a quem o marido proibia punir. Ela voltou a seus afazeres, mas seu coração ansiava pelo esquecimento dos últimos dias, da tranqüilidade e paz que não existiam em sua vida. Durante uma semana ela tentou esquecer dos breves momentos de felicidade, mas foi impossível. Um dia, depois de seu marido sair para trabalhar e enquanto os filhos se ocupavam em destruir a casa, pegou um martelo e se nocauteou com um belo golpe. Dessa vez ela ficaria um bom tempo no hospital e com certeza não recuperaria a memória. Com certeza.
8 de mar. de 2007
Dias Dourados
Sinto falta de dias dourados. Os de hoje em dia parecem sempre cobertos por fuligem e fatiga. Falta verdade e esperança nas manhãs e romance e sonhos nos entardeceres. O sol se ergue violento e se põem como uma fornalha tirando qualquer tentação de se admirar sua trajetória. As estações se confundem estragando outonos e primaveras, tornando confusos verões e invernos. O sol se ergue sem magia nessa metrópole de futuro incerto, simplesmente nasce sem enfeitar seus raios de rosa e morre sem dourar o horizonte. Talvez ele tenha se cansado de nossos olhares de relance para sua majestade, talvez não consigamos mais ver a beleza que parece morna e apagada por trás da poluição ardente. Não sei... Mas sinto falta dos dias dourados, quando esquecia do sono para ver os dedos delicados do astro rei se estendendo em minha direção, acariciando meu rosto , nascendo o dia que parecia sempre uma promessa de perfeição. Sinto falta do horizonte em fogo dos finais de tarde, da brisa que parecia trazer o chiar do sol se apagando no oceano distante. Sinto falta de quando os dias possuíam nuances e as noites cheiravam a ar fresco. O verão cada vez mais longo me faz viajar cada vez mais ao passado, onde a vida era mais simples, mais honesta, menos perigosa e repleta de dias dourados.
7 de mar. de 2007
Hell
3 de mar. de 2007
Retorno
Chamemos de férias, mas não posso dizer que me sinto descansada. O verão, que devia trazer pensamentos luxuriantes, só me cansa e aborrece. Pode me chamar de ranzinza, mas se você não mora na beira do oceano ou ao lado de uma cascata de águas frescas, não há do que se alegrar. Todos meus sentidos se ressentem deste calor infernal. Comecemos pelo tato. Não é possível acariciar pele que não esteja úmida, e não do orvalho da madrugada ou da garoa do outono, mas do suor nada agradável provocado pela estufa em que vivemos. Não se pode sentir prazer em tocar o gelado pois logo ele se amorna de maneira inconveniente e não se pode passar as mãos pelo cabelo recém lavado e arrumado pois ele estará mole e pegajoso. Audição. Todo som parece exausto. Até mesmo o canto dos pássaros é distante e abafado. O asfalto chia como ovos na chapa e a musica tocada ou o dialogo na TV é sempre acompanhado pelo ruído incessante das pás do ventilador. Paladar. Alem de sorvete o que nos dá prazer? A boca seca o dia todo, litros de água lavando nossas entranhas sem resultado, nada de lasanha aos domingos e alface passa a ser um prato muito interessante. O chocolate derrete antes de tocar sua boca e nada de chás e chocolate quente para induzir o sono. Olfato. Que olfato? O aparelho respiratório do ser humano normal entra em colapso com a poluição crescente, o meu simplesmente deixa de existir me deixando com a sensação de um peixe em um aquário sem saber respirar debaixo da água. Sem contar que o odor que cobre a cidade, quando consigo senti-lo, é de exaustão completa. Nem preciso comentar a tragédia dos desodorantes vencidos no ônibus em qualquer hora do dia, ou a mistura explosiva de suor e perfume nos elevadores. Visão. O que dizer da moda que explode pelo corpo das mulheres como um vírus de mau gosto? Não posso negar que ao mesmo tempo em que me dói ver que o bom senso das mulheres afundou mais que o Titanic também me diverte. O que seria da tortura diária da ida e volta ao trabalho sem o pior desfile de moda do mundo? Então... É isso que estive fazendo nos últimos 15 dias. Tentando conviver com uma estação que me desagrada, tentando sobreviver sem respirar, tentando achar graça em um trabalho que já não oferece desafios, tentando achar um caminho só de sombras.
22 de fev. de 2007
18 de fev. de 2007
Tempestade
O dia não poderia ser mais ensolarado. Na verdade escaldante era a palavra que lhe vinha à mente. Apesar do sapato baixo, da roupa leve e dos cabelos presos, ela sentia-se derreter. Pensara que um passeio pela cidade quase deserta lhe faria bem, mas na verdade já estava mal humorada e não podia pensar, sem estremecer, em todo caminho de volta. A vontade de chorar era grande. Os prazeres simples eram obrigatórios, já que não tinha carro e nem dinheiro para as coisas que realmente gostaria de fazer, mas a cada vez que se obrigava à eles só que havia no final do arco-íris era frustração. Seus pés doíam, suas roupas pesavam, seus olhos turvavam e a cidade começava a parecer mais abandonada do que vazia. Sentou em um banco no ponto de ônibus mais próximo e ficou observando as nuvens de tempestade se aproximando. Ótimo. Poderia acrescentar “molhada” a todos seus outros desconfortos. Um senhor se aproximou com um carrinho de sorvete e a olhou sorrindo. Ele também parecia cansado. “ Dois sorvetes pelo preço de um?” Ela o olhou e, dando de ombros, aceitou. “Não tenha pressa, eu espero até você terminar o primeiro.” Ela escolheu um de limão, para refrescar, e não estava nem na metade dele quando as primeiras gotas começaram a cair. Ficaram, ela e o vendedor de sorvetes, observando a tempestade ganhar força. O vento parecia se animar, conforme o volume de água crescia, e girava e cortava tornando o abrigo do ponto de ônibus uma piada. Nem ela nem o velho se mexeram. Deixaram a chuva os atingir de onde viesse. O sorvete de limão terminou e dessa vez um de chocolate foi a escolha. Ele também se serviu de um e se sentou ao seu lado. Molhados eles viam os raios cortando o céu e os trovões estremecendo os edifícios da avenida. Era quase surreal. Tudo parou de fazer sentido e tudo ganhou um novo significado. Ela respirou fundo deixando toda tensão ser lavada pela água fria e furiosa. O velho somente a observava com um sorriso. O sorvete de chocolate chegou também ao fim e ela se ergueu e caminhou pela chuva sem pensar na distancia a percorrer, sem pensar no desconforto ou o perigo escondido nas poças que mais pareciam lagos. Ela simplesmente voltou para casa que a esperava fresca e nova sob a chuva de verão.
15 de fev. de 2007
Suspicion
Quando ele abriu a porta e o gemido o alcançou pensou que iria morrer. Eles já haviam passado por muitas, mas superado todas. Houveram algumas tentações, mas ambos sempre souberam avaliar muito bem o que tinham e se afastaram sem remorsos da aventura passageira. Haviam chegado a um ponto na vida onde podiam simplesmente aproveitar, podia não haver mais paixão, mas havia respeito e amor. Não tinham filhos, uma opção da qual nunca se arrependeram. Viajavam quase todos finais de semana. Corriam o mundo nas férias. Investiam seu dinheiro sabiamente e unidos se fortaleciam cada vez mais. E agora isso. Um gemido mais alto seguido de um soluço o arrancou do transe em que estava. A imaginou em sua nudez madura e curvilínea, suada e entregue aos braços de um estranho que não saberia o quanto ela poderia ser maravilhosa em dias simples. Esse estranho não saberia que ela ria de olhos fechados, nem que gostava de usar meias para dormir, mas não calcinha. Ele não saberia nada alem da sensação maravilhosa do sexo com uma mulher experiente e fogosa. Novo gemido fez andar. A porta do quarto estava aberta no fim do longo corredor. Podia ver os lençóis desarrumados e o edredom jogado na poltrona onde ela gostava de se enroscar para ler. Não adiantava adiar o fim depois que ele havia começado. Entrou no quarto como um demônio, pronto para destruir e vociferar, mas o que viu o encheu de espanto, alivio e remorso. - Amor! Me ajuda! Que bom você chegou. Não consegui ir até o telefone.
Ela estava caída ao lado da cama. O tornozelo estava claramente quebrado e a cada pequeno movimento ela gemia de dor. Voltaram do hospital como um casal em lua de mel. Ele a carregou no colo e pediu comida de seu restaurante preferido. Assistiram TV até tarde já que ele decidira não trabalhar no dia seguinte. Ele a seduziu aquela noite. Ela estava surpresa com este fogo inesperado, mas correspondia com paixão. Ele nunca lhe disse. Não poderia dizer que redescobrira a paixão quando pensara tê-la perdido.
14 de fev. de 2007
Manual do Inútil - Como fazer...
Macarrão. Você está com fome e francamente pedir comida no fim do mês não está dando. A carteira está vazia e os tickets da empresa já acabaram faz dias. Então vamos lá. Um macarrão com um molho pronto não é nada difícil. Pegue uma panela grande, não, não essa. Maior. Assim, essa serve. Encha de água e acrescente um pouco de óleo e uma colher de sal. LARGA ESSE ÓLEO, MALUCO!!!! É UM FIO DE ÓLEO e não a lata toda. Jogue essa água fora, é capaz de fritar em vez de ferver, encha de novo. Sal. Óleo, UM FIO. Assim. Agora deixa ferver. Abre uma cerveja e vai ler uma playboy. ACORDA!! Não está ouvindo a água borbulhando? Agora coloca o macarrão, não o pacote todo , senão vai virar um porquinho. Ponha metade, já é até muito. Agora deixe por uns dez minutos. Enquanto isso pegue uma panela pequena e abra aquele vidro de molho pronto que a ultima namorada deixou ai. E eu tenho culpa que é com azeitonas?? Se você não gosta porque ela comprou? Vai esse mesmo e não reclama. Ponha o quanto você quiser numa panela e esquenta. Dá uma experimentada para ver se tá a seu gosto. Mas já disse que não tenho culpa que é de azeitona, deixa assim e finge que é de coração de alcachofras ou vai comer na sua mãe. Pegue um garfo e experimente se o macarrão está bom . tem que estar macio sem estar molengo. Pega isso logo, menino! Mas tá tão difícil assim?? Uma concha?? Ei! que você vai fazer com isso? Aii Jisuisssss. Tá, deixa pra lá. Pega um escorredor para escorrer o macarrão. Como não tem? É aquela bacia cheia de furinhos. Raquete? De Tênis? Tá, vai fazer o que, usa a raquete mesmo. Escorre o macarrão na raquete e depois põem na panela com o molho e mistura. Ou ponha no prato e jogue o molho por cima. MAS EU NÃO TENHO CULPA QUE A IDIOTA DA SUA EX NAMORADA COMPROU MOLHO DE AZEITONA, COME ISSO E PARA DE ENCHER.! Agora pegue seu pratinho e sente onde te apetecer e coma seu macarrão. E não esqueça de lavar a louça depois. Não, eu não vou lavar não. Ahh. você gosta de azeitona ? Era alcaparras que não gostava? É sim, bem fácil de confundir....... humpfffff
13 de fev. de 2007
Walking Home
Com a mão em concha ele segurava a pequena caixa sem tampa. Mas era uma mão muito pequena. A caixinha, com o carro amarelo dentro, balançava precariamente em sua palma e os dedos não ajudavam em nada, já que mal conseguiam se fechar. Seus olhos carregavam toda preocupação com seu tesouro, mas os olhos de seu pai eram impacientes. O homem não poderia estar mais desinteressado nos sentimentos da criança. O puxava pela mão livre fazendo com que o menino meio corresse, meio andasse enquanto a caixinha pulava como um sapo com soluços. Ela era grandalhona, vestida para um dia na escola, cara redonda e macia como uma rosa cheia e molhada de orvalho. Fresca. Jovem. Bela. Aparentava ter 15 anos e provavelmente era essa mesma sua idade. Suas amigas, chamemos assim pois estavam na mesma roda, deviam ter a mesma idade, mas aparentavam de 20 a 30 anos, dependendo do ângulo que se olhasse. As roupas de todas eram variações do guarda roupa básico de uma prostituta bêbada e pouco era deixado para a imaginação. Nossa garota, a rosa, fez uma observação esperta sobre um assunto qualquer. Suas amiga não riram. Ela não fazia parte. Ela não era como elas. Ela falava coisas que não entendiam. Pena que a rosa não viu o garoto bonitinho que sorriu e a olhou com olhos mais que amigos. Adivinho que não pela primeira vez.
Ele olhava para cima encostado no muro do terreno vazio. O celular colado à orelha, os olhos súplices, a voz tremula e incrédula. Olhava para o edifício do outro lado da rua sem entender porque a sombra à janela se recusava a descer para vê-lo. O pôr do sol não esperaria pelo fim do ato. Já é quase noite e logo ele será uma sombra contra um muro qualquer, em uma rua qualquer. Esperando.
O cão esperava pacientemente que o homem se aproximasse. Era como a dança muito simples e repetitiva. O homem soltava a guia retrátil, deixando que o cão se afastasse. O cão, vendo os velhos pés lentos e incertos, parava e esperava até a guia se retrair inteiramente para então se afastar outra vez. O cão leva seu dono sempre em segurança de volta para casa. Aposto como isso acontece todos os dias.
Somente mais um dia voltando para casa.
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