24 de nov. de 2008

Lembrete a mim mesma

Junte uma palavra à outra com cuidado. Dê-lhes um bom motivo para que dancem juntas antes mesmo de tocar a melodia. Faça com que tenham paixão mesmo que o papel seja somente branco. Aqueça os sentimentos que as carregam para que deixem aqueles que as lerão trêmulos e sedentos por mais. Amacie as palavras duras, faça mais acidas as juras de amor, exponha os medos como se fossem ervas daninhas crescendo ao sol e esconda os dons para os olhos mais treinados. Deixe mensagens para serem decifradas somente por aqueles que conhecem a mão que escreve. Ponha tudo de si em cada historia, mas seja completamente impessoal com seus personagens. Revele-se sem medo com a certeza de que nunca ninguém saberá onde termina seu eu mais intimo e começa a ficção. Explore todos os sentimentos, aqueles que conhece e muito mais aqueles que pode adivinhar no rosto dos que o cercam todos os dias, dos que contam suas desgraças na tela da TV e daqueles que sentam, mudos e anônimos, em bancos de praça e sarjetas pela cidade. Junte uma palavra à outra sempre que for possível, ou melhor, o faça todos os dias mesmo que seus membros estejam doloridos e sua cabeça pareça cheia somente da idiotice e mesmice de seu dia a dia. Faça. Escreva sem medo. É somente quando escreve que se sente plena e feliz, quando sabe que todos os fios da teia estão bem presos em suas mãos. Abra uma nova pagina. Assim.... Boa menina...
.

15 de nov. de 2008

A Névoa


Do horizonte o manto branco vem cobrindo a cidade. Ninguém sabe o que pode ser, ninguém quer pensar nas possibilidades. Do alto dos edifícios as pessoas comentam como caminha lento e determinado, esse manto que agora parece dourado ao pôr do sol. Alguns sugerem um novo fenômeno, resultado do aquecimento global, da poluição, dos buracos na camada de ozônio. As pessoas esperam. É como se soubessem que tudo mudará depois que ele passar. Eu olho da minha janela e vejo a massa, que mais parece algodão doce, se aproximar, ela engole o chão e o céu, mas não apaga o sol. Não é uma névoa comum. Eu sinto. Não sei como será quando a noite cair. As pessoas já começaram a se desesperar a algumas horas. Do alto as vejo correndo como formigas no fim do verão, tentando achar um caminho para fugir do que quer que esteja vindo.

Era ainda cedo quando a internet saiu do ar e logo os celulares e os telefones fixos já não funcionavam também. As TVs ainda transmitiram até depois do almoço, aproveitando cada segundo que lhes restou para espalhar um terror que naquele momento nem se podia imaginar. Pela primeira vez em décadas eles estavam certos. Nesse ponto os escritórios já estavam vazios e as ruas cheias. A cidade parou. As pessoas tão acostumadas a depender de seus carros, relutavam em abandoná-los e eram alcançadas pela névoa. Fiquei na minha janela vendo o manto branco se estender. Vi pessoas correrem para ele como se fosse o caminho da liberdade, mas não vi ninguém sair de lá.

Já não vejo nenhum raio de sol, ele finalmente se pôs, talvez cansado dos gritos que tomaram o lugar das buzinas e do ruído dos motores. Não quero sair de casa para me desesperar na companhia de estranhos. Se não posso dizer adeus aos que amo, prefiro ficar e rezar para que estejam tão calmos como eu. Sim, porque é possível se desesperar em uma calma absoluta. Dou as costas à janela e olho para minha casa como se fosse pela primeira/ultima vez. Em minha cabeça lembro pedaços de “The Mist” do meu amado Stephen King e tantos outros contos e filmes que falam de horrores desconhecidos. Minha janela já se embaça com a proximidade da neblina que é muito mais densa do que imaginava. Deito em minha cama e espero. Fecho os olhos e sinto o ar gelando a minha volta e sei que a névoa me abraça. De certo modo é reconfortante.


Acordo e é dia. Meu corpo ainda está gelado apesar da manta e edredom que me cobrem. Pela janela vejo um céu azul como há muito tempo não podia nem sonhar ver em minha cidade. A parede de névoa ainda está lá, mas se afastando lentamente. Não fico colada às janelas, nem mesmo escovo os dentes ou alivio minha bexiga dolorida, corro escada abaixo para saber para que mundo acordei.

Somos poucos. Tão poucos. Andamos nos olhando entre desolados e maravilhados. Não podemos perceber nada em comum entre nós alem do fato de estarmos vivos. Somos brancos, negros, amarelos, jovens, velhos e crianças. Temos todas as idades, cores e tamanhos. O ar cheira a terra num mundo de concreto, existem flores brotando por entre o asfalto e dizem que os rios correm limpos e cheio de peixes. Para onde foram todos que não somos nós?

Faz um mês que a névoa limpou o mundo. E ele agora é lindo novamente.
.

8 de nov. de 2008

Godbye Nani


Nana,

O que sobra de mim chora. Parece sempre que já não restam lagrimas, mas me surpreendo em senti-las correr livres pelo meu rosto cansado. É como se eu fosse menos eu mesma sem você e os outros que antes se foram pelo mesmo caminho recheado de salsichas. Não sinto meus braços e nem pernas, é como se eu fosse um tronco dolorido com dedos fantasmas que digitam meu adeus.
Eu sei que está cercada de seus amigos agora e que recuperou suas pernas e seu coraçãozinho já não pula incerto quando se anima. Sei que deve estar correndo entre eles feliz, mas, filha, eu morri mais um pouco hoje.
Um coração aos pedaços ainda é um coração? A tristeza infinita tem um fim? Quanto agüenta ainda bater um coração que não tem motivos para se surpreender?
Nana, mamãe te ama para sempre. O pouco que me resta nunca vai esquecer e não terá medo de recordar. Fui uma melhor humana em sua companhia, aprendi a amar melhor, a me resignar com menos revolta, a viver momentos simples com alegria extrema.
Desculpe se não pude conter suas dores e curar seus tumores, Deus me deu fé, mas infelizmente não colocou em minhas mãos a mágica que te faria perfeita novamente, me deu apenas um coração forte o suficiente para estar ao teu lado até o ultimo segundo.
Espero que no seu céu canino sua cama seja macia, o ar sempre fresco, a chuva caia refrescante e que existam flores que exalem meu cheiro para que não me esqueça.
Fica com Deus.
Eu, por aqui, fico somente mais triste.
Te amo.
Sua humana.
Mamãe
.

1 de nov. de 2008

Pessoas que ultrapassam a faixa amarela me irritam.


Não é somente uma sugestão, nem mesmo é um pedido. É uma ordem. NÃO ultrapasse a faixa amarela. Mas não é o bastante. As pessoas parecem gostar de se colocar em perigo somente para dar trabalho aos outros, como aqueles idiotas que se arriscam nas geleiras e acabam virando picolé para todos depois dizerem que foi uma tragédia. Não. Na verdade foi uma completa IDIOTICE! As pessoas gostam de ultrapassar a faixa amarela principalmente quando existe uma platéia para vê-los dar o idiótico passo. Vocês podem até pensar que falo de jovens, cujos hormônios fazem idiotices sem nem mesmo a conivência do dito jovem, mas existem irresponsáveis de todas idades. Ontem mesmo, no metrô, um senhor de seus 60 anos, porte militar, cabelo escovinha ultrapassava, com um olhar arrogante, a faixa amarela que separa a todos do perigo. Ficou tão na ponta da plataforma que eu imaginei sua barriga sendo arrancada pelo trem que se aproximava. Pena, não foi desta vez. Mas o impacto da velocidade e do vento o jogou para trás uns 4 passos e lá ele ficou completamente revoltado por essa afronta. Reclamou em voz alta como se algum funcionário invisível do metrô o houvesse empurrado à força alem da linha de segurança.
Pessoas que ultrapassam a linha amarela me irritam, profundamente, porque em 99,99% das vezes não estão preparadas para enfrentar as conseqüências de sua idiotice.
.

19 de out. de 2008

Regras da Sedução

Ela ficou esperando pelo príncipe encantado durante toda a noite. O moreno alto e razoavelmente bonito, mas usando óculos, não tirava seus olhos dela, mas não era o tipo de homem que iria impressionar suas amigas. Repeliu todas tentativas que ele fez de se aproximar, recusou o drink, lhe deu as costas quando a cumprimentou, fingiu não o ver quando dançou a sua frente. A noite já se aproximava do fim e ele ainda a encarava, com olhos grandes e negros que pareciam espetá-la como um alfinete mal colocado. O homem com quem ela sonhava apareceu e lhe deu o mesmo tratamento que ela dispensara ao seu Romeu. Ela tentou de tudo. Exagerou na dança sexy arrancando riso dos que assistiam, tentou lhe pagar uma bebida que nem foi dispensada, mas devidamente ignorada. Apelou para a agressão e derramou bebida em sua calça, limpando pornograficamente com um guardanapo o colo molhado. Ele nem agradeceu, somente a chamou de desastrada e saiu carregando consigo uma menina sem graça que havia ficado a noite toda completamente na sua. Suas amigas riram dela sem dó fazendo com que finalmente se sentisse humilhada. Olhou para o moreno quase belo e viu em seu rosto uma expressão que, anuviada pelos vapores da bebida que ingerira e na ânsia de não terminar a noite sozinha, não reconheceu. Caminhou até ele tentando ser sexy, mal sabia que somente parecia desesperada, e finalmente lhe disse que aceitava uma bebida. Ele não lhe disse uma palavra. Pediu a bebida e como um perfeito cavalheiro a ofereceu com aquela mesma expressão no rosto que começou a deixá-la inquieta, mas ele não lhe deu tempo para pensar, disse boa noite e foi embora com passos largos e firmes. Tivera a noite toda para reparar nas pernas longas, no peito largo, nos olhos negros por trás das lentes, mas não virá nada. Agora era tarde demais, mas não para reconhecer a expressão com que se despedira. Era uma expressão mista de pena com embaraço e foi com essa ultima lembrança que ela teve que dormir.
.

14 de out. de 2008

Ausência

Ele é alto, magro e extremamente gentil. Tem toda calma do mundo para ouvir a historia de minhas dores e os lamentos pelo meu corpo preguiçoso. Ele sorri com freqüência, acena com a cabeça interessado. Sem energia, cansaço vindo da tensão, períodos de preocupação prolongados. Ele entende e pode ajudar. Acupuntura liga botões que se desligaram quando sobrecarregados e desligam outros que não deveriam ficar ligados por tanto tempo. Ele me explica que é possível reprogramar meu corpo para que a carga diária pese menos em meus ombros, é possível reorganizar esta maquina. Perfeito! Deito com nervos retesados de segunda-feira e penso que ele terá trabalho para me manter nessa posição por uma hora. Impossível! Algumas agulhas depois e já brinco com as correntes da persiana acima da minha cabeça e rio sem freio de suas piadas que ficam mais engraçadas ainda pelo jeito doce de seu sotaque chinês. Ele me deixa só na penumbra e olho com curiosidade para todas as agulhas que parecem flutuar sobre meu corpo. Carpenters toca sem parar ao fundo, sempre as mesmas musicas, se repetindo como um eco do passado. E meus olhos se fecham. Sinto que ele retorna muitas vezes. Gira as agulhas como se fossem brinquedo e algumas queimam e ardem sob suas mãos. É normal, ele diz. Acordo muito tempo depois. Ele me pergunta como me sinto e não sinto nada. Todo meu cansaço se foi, a tensão que corria até a ponta de meus dedos, a energia negativa que varre o trabalho todo dia, tudo desapareceu. Tudo. Não sinto medo do amanhã, nem o desejo de vê-lo chegar. Não sinto carinho pelo rosto sorridente que me olha e nem esperança. Não anseio pela minha casa e nem pela minha família. Sou uma casca vazia que somente pensa friamente no que é possível se fazer quando todos os botões estão desligados. Não existe pudor ou moral ou medo de conseqüências. Somente a liberdade de não se ter nenhum sentimento. Agradeço efusivamente, pois sei que é importante fingir que todos os sentimentos ainda estão no lugar, e saio para a rua respirando um ar mais puro, pois não existem expectativas. Da minha natureza amorosa nada resta, meu novo eu pode cometer o ato mais odioso sem piscar. Eu agora posso até mesmo matar sabendo que não derramarei nem uma lagrima. Nem uma lagrima.

(Somente a metade é verdade. Eu acho...)
.

13 de out. de 2008

Não tema, trema...


Eu não quero esquecer o trema. Não interessa que não o uso com a freqüência (com trema) que deveria. O fato é que o trema é um dos únicos acentos que acho delicioso (por ser tão maravilhosamente inútil), parece uma cobertura de bolo bem mais saborosa que o recheio. Essa mudança nas regras da escrita já me dá nos nervos antes mesmo de entrar na moda. Eu que sempre fui péssima em português agora também vou ficar desatualizada, pois as únicas regras que consigo guardar já não valerão para nada. Estão tirando os únicos assentos que sei aonde vão e vão tornar coco e coco a mesma coisa e nunca vou saber do que é a merda do frappé (com acento). Melhor pedir sempre de chocolate ou morango. Acho que odeio mudanças (não as feitas por caminhões). Lembro quando um diretor veio todo animado dizer que iam trocar meu computador e que o novo que teria um mouse. “Mouse?!” Grito eu indignada, “não quero mouse, sei exatamente o que fazer SEM o mouse, tirem esse treco daqui e não me incomodem mais!” O mouse venceu ao final e hoje me pergunto o que seria de mim sem ele. Não estou comparando o trema ao mouse, mas me ressinto de me separar de amigos que há tão pouco tempo aprendi a respeitar. Sempre fui mais de números que de letras (samurai do Excel) e ainda me surpreendo quando dizem que eu escrevo bem, afinal não consegui aprender no colégio nem uma regra básica dessa língua infernal (pra que eu tenho que saber o que é pretérito imperfeito se já é passado?). Dou graças a Deus pelo corretor de textos e pelo mano Urso que me ensina (com cara de Santo Urso/pecador pagando pecado) enquanto corrige meus textos cheios de erros prosaicos. Depois de velha preciso somente escutar uma vez, ou no máximo duas, para guardar para sempre certas esquisitices que tornam a prosa inteligível. Enfim.... Nem sei porque estou tão irritada com o novo código, talvez porque somente agora consiga entender algo do velho? Enfim 2 a missão... vou esperar mano Urso me contar o que devo ou não fazer de agora em diante, mas tenho certeza que nunca deixarei de usar o trema, mesmo que ele somente venha à vida quando sugerido pelo corretor de texto.
.

10 de out. de 2008

Caixinha de enxaqueca


Vivemos numa era de extremismos onde todos pregam o comedimento. Parece-me sempre que estou assistindo a um filme japonês com péssima dublagem onde as bocas falam muito mais do que o som que delas parece sair. Ouço as idéias mais idiotas ofertadas como prêmios Nobel e fico pensando se houve qualquer outra era em nossa historia onde tantos ignorantes dominaram o mundo. Não falo somente de nossos políticos, que ao redor do globo parecem competir pelo premio de maior charlatão do mundo, mas também das ditas celebridades, atores, cantores, escritores, diretores, e outros ores que ditam as tendências para o mundo. E que tendências.... Somos tratados como tolos, e a maioria da população o é, mas não existem mais aqueles poucos nichos criados especialmente para aqueles que gostam de usar a caixinha cinzenta que está presa dentro da cabeça e que em muitos serve somente para medir o tamanho da dor de cabeça. Tudo nos é apresentando como se fossemos lerdos demais e a maioria se torna lerda, esperando que digam o que deve ser feito, como e quando. Do meio dos pobres seres que somente usam a cabeça para as enxaquecas e daqueles que tentam nadar contra a corrente emburrecedora tentando aumentar a cada dia sua capacidade cerebral, surgem estes cartoons cujas bocas pronunciam em japonês o que as vozes dizem em norueguês. Ninguém entende, mas é melhor segui-los. Ou não? Não sei o que leva o mundo a andar para o lado que anda, não entendo e talvez nem queira. Acho que prefiro criar na tela branca do meu laptop o que gostaria de ver quando ando pela rua. Gente pensante desapegada de modismos, que questiona o que vê e ouve e que sorri com mais sinceridade, pois sabe de onde vem a graça. Gente com senso de humor e maior ainda senso de justiça. Gente honesta e cheia de brios que não tem medo de expor suas idéias mesmo quando elas vão contra a maré. Gente que eu gostaria de conhecer.
.

23 de set. de 2008

A Arte da Sedução

Ele estava parado do outro lado da sala. Pela expressão de seu rosto aquela sala lotada de gente, bem vestida e perfumada, poderia bem ser qualquer estação do metrô ou mesmo um elevador lotado. Parecia entediado ou simplesmente indiferente a todos os olhares femininos que tentavam capturar os seus. Não era belo da maneira moderna em que homens parecem mais garotos, mas sim másculo, rosto de ângulos retos, olhos profundos com leves rugas de riso ao redor, boca cheia e que poderia ser cruel ou extremamente sensual. Não parecia interessado em nada, não até que ela entrou. Ao contrario dele parecia extremamente interessada nas pessoas, mas com o distanciamento de quem estuda e não se relaciona. Passeou pela multidão com olhos atentos e parou em um canto com um sorriso nos lábios e os olhos meio serrados, como uma gata olhando para o pires de leite que logo beberia. Girava a cabeça devagar, escutando trechos de conversas, deixando transparecer o que lhe faziam sentir no brilho dos olhos e na curva da boca pintada de um rosa quase transparente. Ele estava diretamente a sua frente, perfeitamente visível por sua altura e porte, mas mesmo assim ela não o olhava. Isso o incomodou, sem que soubesse por que, queria que ela o achasse tão interessante quando aos outros que observava. Ele se aproximou devagar, rodeando como se ela fosse uma presa, andando devagar, dando-lhe tempo de ver que ela captara sua atenção, mas os lábios sorriam da conversa que escutava, sem esconder, entre duas loiras siliconadas e seus acompanhantes. Ele parou a sua frente de testa franzida, se perguntando o que havia nela que o atraia e porque o incomodava que o deixasse em paz como queria que os outros fizessem. E ela o olhou finalmente. E lhe sorriu. Não se apresentou como todas, esperando apressar o passo, mas esperou que ele lhe estendesse a mão e lhe dissesse seu nome e somente então lhe deu o seu como se fosse um presente. E então, como se ele fosse um velho conhecido, lhe contou o que escutava, o que via e o que pensava e ele riu enxergando pelos seus olhos o absurdo das pessoas. A festa chegava ao fim e ele a convidou para irem a um café onde ela poderia contar mais das coisas loucas que passavam por sua cabeça. Na reclusão de seu carro ele reparou como seu perfume combinava com ela e como parecia tão relaxada, sem esperar nada deste encontro a mais do que o café oferecido. Ele a quis naquele momento. Desejou possuir não somente seu corpo, mas o que havia em sua mente. E foi somente então que ela perguntou, denotando pela primeira vez que o havia notado antes que ele lhe oferecesse a mão: “O que fazia tão emburrado naquele canto?” E ele sabia que só havia uma resposta: “Acho que esperava por você.”

20 de set. de 2008

Dever


Recebeu suas ordens com um aceno de cabeça, o rosto sempre o mesmo, duro e decidido, mas por dentro gritava à plenos pulmões em revolta e terror. A sala estava lotada com outros pilotos como ele, todos em suas roupas especiais feitas para suportar a violência da velocidade, que o olhavam com inveja e talvez um pouco de alivio por não terem sido escolhidos.
Deixara sua casa naquela manha com um beijo na testa de sua mulher e vários pelo corpo ainda tão gorducho de seu filho. Pensara que tinha sorte de viver o sonho de muitos, de lutar pela sua pátria e a liberdade do mundo, agora parecia que um pesadelo se insinuava em seu conto de fadas. Não podia mais se ver como o cavalheiro de armadura brilhante que mata o dragão, na verdade se sentia como o feiticeiro cruel que aprecia o sangue inocente desperdiçado. O que pode fazer um homem que jurou obedecer? Como pode dizer que “Não, isso é desumano, nem mesmo pela minha nação, nem mesmo pela minha família. NÃO!”. O dever incutido em cada fibra de seu corpo o fez caminhar até o avião de linhas perfeitas que o aguardava no hangar, uma maquina perfeita de linhas sensuais e apetrechos letais. Duas linhas de homens o esperavam como para dar suas benções, mas o que sabiam eles? Completa ou não a missão ele estaria condenado. Se falhasse seus pares o olhariam com desprezo, se tivesse sucesso seu espírito se quebraria para sempre.
A cabine do avião parecia pequena demais agora, pequena demais para ele e suas duvidas, ele e seus demônios. A ordem fora simples, destruir o esconderijo e tudo à sua volta, a escola, a creche e o centro comunitário onde as mulheres se reuniam para fazer artesanato. Para sua grande nação as perdas são aceitáveis.
A turbina rugiu alto, seu corpo se preparou para ser moldado ao assento pela velocidade. Ele sabia o que fazer e algumas horas depois o fez. Era o seu dever. A merda do seu dever.

15 de set. de 2008

Por trás da teia

Estudar as pessoas é quase um sexto sentido. Não sei se é da minha natureza, se é um habito cultivado ao longo dos anos como uma rede de proteção ou se é algo que simplesmente me diverte imensamente. Minha querida e elétrica chefe sempre acha que julgo muito duramente as pessoas, que vejo teias onde nem mesmo existem aranhas, mas mal sabe ela que eu somente vejo um pouco mais longe do que a maioria das pessoas. As intenções de terceiros ficam cada vez mais evidentes para mim com o passar dos anos. Como qualquer outro mortal da pelota gigante eu frequentemente me engano com as primeiras aparências, aquela-coisa-de-todos-usarmos-mascaras-etc-etc-já-cansei-de-falar-nisso, mas o convívio torna as pessoas bastantes transparentes para mim. Não é bem que as pessoas se mostrem mais, mas sim que é mais fácil ver por baixo da fachada que vez por outra cai. São estas quedas que espero, são os olhares francos, apesar de maldosos, captados num relance. São os gestos de raiva quando deveriam ser de admiração ou felicidade, são os punhos fechados quando as mãos deveriam estar relaxadas. São pequenos detalhes que montam quebra-cabeças humanos que para mim são como teias, mesmo que sem aranhas.

9 de set. de 2008

30 de ago. de 2008

Até breve, Magali


Minha ursinha, perder você é mais um prego cravado em meu coração. Não sei o que resta, resta pouco eu sei. Cada dia tenho menos do que amo e isso me assusta, pois para o que se pode viver senão para quem se ama? Já sinto falta do seu jeito quieto e seus olhos de chocolate. Apesar de ser em outros pés que sempre se aninhava, são os meus que sentem falta do seu calor. Não sei o que aconteceu e peço perdão se deixei que algo te fizesse sofrer. Sinto-me indefesa e impotente perdendo meus mais amados companheiros sem aviso. Culpa minha? Destino? Que destino pode ser tão perverso de me negar mais uns anos de felicidade? Minha ursinha, você foi mais uma luz a iluminar a vida sem graça e mais um motivo para que eu continuasse voltando para casa noite após noite. Seja doce com seu pai e seu filho que a esperam no paraíso, sei que a receberão com latidos e abanos de rabo de felicidade. Eu fico aqui, cuidando de sua mãe, irmão e filha e somente digo: Até breve. Cuida bem de mais esse pedacinho do meu coração que se quebrou e me devolva quando nos encontrarmos novamente.
Te amo,
Mamãe

24 de ago. de 2008

Máscaras


Para mim é difícil não observar as pessoas. É como se eu precisasse estudá-las constantemente para entender para onde o mundo está indo. E ele está indo para o buraco. Não é só no rosto que podemos ler quem realmente são aqueles à nossa frente, mas também na postura de seus corpos. Infelizmente, cada vez mais, cada expressão e gesto é estudado. Estudado demais para meu conforto. Não é somente naqueles primeiros momentos, onde todos usamos nossas melhores máscaras para passar uma boa impressão, que vejo dissimulação, é como se todos de repente quisessem ser atores num mesmo cenário. Gestos naturais são cada vez raros e relacionamentos completamente honestos ainda mais. Quando olho à minha volto vejo máscaras e as imagino ressecadas e quebradiças ao sol mostrando a verdade que ninguém quer revelar. O que tanto escondem? Porque poses e bocas e gestos estudados? Será que já não temos face para mostrar? Porque ser político é mais importante que se ser honesto? Onde está a verdade em esconder nossa aversão ou amor? Acho que não nasci para um mundo onde se é preciso ensaiar cada frase dita. Não sou cautelosa o suficiente para pesar minhas palavras a todo o momento, minha sinceridade brusca está desatualizada, meu humor acido está condenado. Mudar? Nem pensar. Em duas semanas chego aos 45 e se a idade te dá algo é a rara oportunidade de se aceitar mesmo que o modelo esteja gasto. Alguém disse que nunca mudamos, somente nos tornamos cada vez mais o que somos. Essa sou eu e deixo as máscaras para os que têm o que esconder. Prefiro meu rosto ao vento, meu humor negro e meus sentimentos claros. Que seja. Desatualizada ou não aqui estou. Sem máscaras.

19 de ago. de 2008

A Janela

Começa tudo de novo. A janela aberta me mostra o ultimo andar da academia onde pessoas já cansadas perdem as poucas gramas ganhas em seus almoços. O calor volta e não me dá muito prazer. A não ser pela janela aberta.... Por ela entram sons e odores do mundo que me cerca e não me sinto isolada como quando o inverno me torna prisioneira de meu quarto. Alguém está queimando um sanduíche no tostex, conheço o cheiro, sei que vão ter que raspar a crosta queimada, mas o queijo pelo menos estará derretido. Os carros estão parados nos faróis, escuto as buzinas nervosas e sinto a frustração de seus motoristas na pele. Sei como é ficar presa em ruas sem fim enquanto o santuário de nossa casa parece nunca chegar. As arvores... quanto tempo não as aprecio? Quantos meses de noites olhando para a janela cerrada que me esconde as estrelas e me nega a brisa? O verão parece ter chegado meses antes do tempo e não me agrada, a não ser pela janela aberta. Ver o topo das arvores e sentir a brisa suave me ajudam a sonhar com lugares que há muito não visito, quase posso sentir o cheiro do pasto e ouvir o rugir da cachoeira que embalava tantas noites em tantos fins de semana. E me pergunto... O que seria de mim sem a memória? De onde viria a força para os tempos áridos, os verões impiedosos e os invernos de janelas fechadas? Começa tudo de novo, o bafo do metrô, as roupas que se grudam em meu corpo suado, o cabelo que cai sem jeito como se cansado, o rosto que parece sempre vermelho pelo esforço. Mas a janela, essa moldura para meu mundo noturno, essa porta para meus sonhos, está aberta e, pelo menos por agora, é somente o que importa.

.

15 de ago. de 2008

Os Pescadores de Perolas


Eu sei o eu vai acontecer, claro que sei, não é assim todo mês? Não me esgueiro pelos cantos, antes de ir para casa, para me dar o prazer de uma espiada disfarçada pela xícara de expresso? Eu sei o que vai acontecer.
Ele sempre me conta um pouco, cantarola uma ária enquanto com mãos expressivas conduz uma orquestra imaginaria. Ele sabe que amo o que faz e o que faz é me dar mais sonhos para sonhar. Quem pode recusar quimeras quando o mundo é um deserto árido e claustrofóbico repleto de seres sem imaginação? Durante o almoço observo enquanto corrimões são envolvidos em redes e tecidos diáfanos despencam do teto de concreto, sorrio por cima de minha alface pensando “Ah, Iacov, o que virá?” Termino o dia com a excitação que somente estas quintas-feiras me dão. Desço já com meu sorriso a postos, pois sei o que vai acontecer.
Uso de minha posição privilegiada de funcionaria para entrar de fininho no que horas antes era uma cafeteria. Os corrimões sumiram, a galeria evaporou, a livraria se encontra perdida em brumas, do nada escorrem fios de brilhantes e perolas que quase roçam minha cabeça. Ignoro as cadeiras, pois para mim não existem assim como o corrimão e a galeria. São somente espectadoras, como aqueles que nelas se sentarão, do drama que logo irá se desenrolar.
Olho o relógio, fumo um cigarro, olho o relógio, tomo um café, olho o relógio, recebo algumas pessoas, olho o relógio, fumo mais um cigarro, olho o relógio, entro e me sento, separada por uma coluna, daquele que é o mestre da musica.
Eu sei o que vai acontecer. A voz querida apresenta o mestre da musica, que me lembra sempre um duque ou conde ou seja lá que titulo que leve as pessoas a querer se curvar e dizer “Sir!” Sua voz imediatamente me transporta para muito longe, tão longe que me esqueço a que mundo pertenço. A musica começa, o que dedilha o piano o faz com maestria e os que juntam suas vozes ao instrumento provocam arrepios em minha espinha. Quando mexo meus pés sinto areia sob eles, quando viro meu rosto sinto a brisa do mar e o grito dos pescadores de perolas voltando para casa ecoa em meus ouvidos.
Tudo termina rápido demais. O amor sobreviveu à intriga, mas não sem pagar um certo preço em sangue. Não é sempre assim? Eu já não sabia que seria assim? Mas o que importa, pelo menos para mim, é que mesmo sabendo o que vai acontecer, mesmo sabendo que por trás da bruma se encontra todo meu cotidiano, ainda saio com o coração leve e agradecido. Trago para casa uma perola que pescador nenhum poderá me dar, a lembrança de mais uma noite mágica com Iacov Hillel e Mauro Wrona. Obrigada.


Pescadores de Perolas no Centro da Cultura Judaica, Domingo, 17/08, 19h00.

14 de jul. de 2008

Uma Questão de Negócios


.
O sorriso era amistoso, apesar dos dentes que brilhavam por entre os lábios serem tão afiados e a mão que a convidava a sentar ser tão branca que a luz vinda da lareira parecia atravessá-la.
Em sua cabeça ela ouviu as linhas da historia infantil “Para que dentes tão grandes, vovózinha?”, “Para te comer, minha netinha!”. Reprimiu a custo uma risada nervosa que sabia que teria se espalhado em ecos infinitos pela parede do castelo.
- Suas referencias são maravilhosas. Governanta na casa do Duque D e também na casa do Lorde L e assistente pessoal do Primeiro Ministro J. O que a fez sair destes empregos? - A voz do Conde era melodiosa e um tanto quanto melancólica.
- Bem, não haviam desafios e com o tempo eu senti necessidade de mudar, mas sai em bons termos de todos. Posso dizer que tenho a honra de constar na lista de pessoas de confiança de meus antigos empregadores. – Ela não o olhava nos olhos. Os dele pareciam ser feitos de fogo liquido em um continuo redemoinho e mais do que a intimidavam, a faziam temer ser hipnotizada e levada alem da sanidade.
- Ah.... lhe faltava aventura, presumo. Algo mais do que o mundano, algo alem da rotina.
- Não....Sim... Quer dizer, todos esperamos por um pouco de emoção em nossas vidas, não é? Algo que faça nosso sangue correr.... - Se arrependeu das palavras logo que as disse. Mencionar sangue para um Conde pálido, de dentes afiados, em um castelo decrépito era um risco grande demais.
- Sim. O sangue, tudo sempre se resume a ele. O queremos frio em nossas veias para tomar decisões. O queremos quente para saborear melhor as paixões. O queremos correndo, como fogo liquido, para nos excitar diante do perigo. – E os dentes brancos e estranhamente sedutores morderam os lábios vermelhos.
- Bem, o senhor me desculpe, mas acho que foi um erro essa entrevista. O castelo é muito distante e...
- Não, por favor, não se negue. Não vê que sofro? - e ele realmente parecia cansado e abatido. - Minha casa ancestral é uma ruína. Meus servos não têm uma mão firme que os comande e não faço uma refeição decente há séculos.
- O senhor come? - ela perguntou curiosa.
- A curiosidade maior que o medo....- e ele sorriu animado. - sabe quem sou e ainda assim.... mas, respondendo a sua pergunta. Sim. Eu como. Sopas, vitaminas e afins. É preciso imaginação para preparar minhas refeições, mas minha maior preocupação é com o castelo. Não vejo porque tenho que viver em meio à teias de aranhas e pó secular. Nem entendo porque me visto à rigor se minha casa parece prestes a desabar. Preciso de ajuda. – e seu rosto se torceu angustiado.
- Mas...mas... o risco... sei que disse que gostaria de mais aventuras, mas trabalhar aqui... com o senhor...
- Minha cara, os tempos modernos são incríveis. Posso não conseguir uma governanta, mas tenho TV à cabo e conexão rápida para a Internet. Faço compras online como qualquer um e os bancos de sangue estão sempre prontos a me atender à qualquer hora. Posso até mesmo escolher o tipo sangüíneo que prefiro. O- é uma iguaria, mas ultimamente anda em falta no mercado. Portanto o único risco que correria aqui seria tropeçar nas teias de aranha e cair escada abaixo. Já há muito tempo que não ataco pescoços. O ultimo bom dentista que conheci faleceu em 1930 e o que veio depois quase me pôs a perder um canino. Imagina o que é um canino para mim?
- Mas o castelo é imenso! Eu sozinha não daria conta.
- Tenho muitos servos. Inúteis todos eles, mas a meu comando te obedecerão cegamente. Reinsfield! - ele chamou sem levantar a voz e quase de imediato um homem maltrapilho entrou meio curvado. - Reinsfield, de hoje em diante você e os outros obedecerão essa senhorita cegamente. Aquele que ousar encostar a mão nela ou lhe faltar com o respeito sofrerá dois séculos de torturas. E, pelo amor de Deus, tome um banho e vista-se decentemente. Pode ir.
- Sim, mestre. - E tão silenciosamente como havia surgido ele se foi.
- Vê? Rios de dinheiro, a vida eterna e se contentam em andar pelas sombras vestindo farrapos. Preciso de você para que trazer o mundo moderno para minha realidade.
- Conde, não nos apressemos. Nem mesmo falamos sobre remuneração e nem nos benefícios. Apesar de ansiar por uma vida mais aventureira não serei leviana no que diz respeito à minha carreira. - antes de tudo ela era uma mulher muito pratica.
- Seu salário será de 10.000 libras por mês, folgas aos domingos e duas férias, de quatro semanas cada, por ano onde poderá desfrutar de minhas propriedades na Reviera, Escócia, Grécia, Estados Unidos, Itália, França, Irlanda e se não estou enganado existe também uma fazenda no Brasil. Claro que citei somente os lugares que imagino possam atraí-la, mas pode escolher entre qualquer uma das minhas propriedades.
Ela quase não respirava. Não era somente a riqueza nunca sonhada, mas também o desafio e a aventura que lhe faltavam. Era como uma negociação qualquer, mas com tantas possibilidades....
- Não me faça sofrer mais, desde que vi seu currículo que sonho com uma casa brilhante onde possa receber sem vergonha. Se a proposta não lhe é atraente me diga, minha fortuna está em suas mãos. - Ele tinha lagrimas sangüíneas nos olhos e seus caninos agudos mordiam os lábios de ansiedade.
- A proposta é ótima, senhor Conde. Só o que me atrevo a dizer é que, apesar de gostar de aventuras, dormir em um castelo com seus servos e suas noivas.... o senhor as tem ainda, não? As vi em muitos filmes e elas não parecem do tipo de obedecer à regras, mesmo impostas pelo senhor.
- Ah, sim, minhas noivas. Criaturas tolas. Poderiam ter feito dessa casa o castelo mais rico do mundo, mas só dormem nas masmorras em meio à sujeira e na companhia dos ratos. Você está certa. Tenho uma casa, nem 500 metros daqui, seria a casa do administrador se eu o tivesse. É sua. Amanha mesmo mando plantarem alho em toda sua volta e pedirei ao padre da vila que benza seu terreno. Vê meu desespero? Só quero ser normal...- Uma lagrima vermelha se desprendeu dos olhos e correu a face triste.
Ela se levantou e lhe estendeu a mão diminuta. O negocio estava selado. No dia seguinte ela se mudou para a casa cercada por plantações de alho e onde o terreno tinha sido aspergido com água benta. Logo o castelo ganhou vida. Reformas foram feitas, moveis novos comprados, cortinas e roupas de cama, mesa e banho encomendadas. E ela, a pequena governanta, era a rainha, somente ela geria toda fortuna acumulada por séculos. As pessoas vieram, governantes, diplomatas, nobres, todos para conhecer o castelo que saíra das brumas para o esplendor. Ela, feliz como nunca, passava horas inventando pratos líquidos para o deleite de seu patrão. Ele, remoçado, lhe adivinhava os desejos e a cobria de presentes.
No fim, foi tudo somente uma questão de negócios.

7 de jul. de 2008

O dia que assassinaram Hamlet

Não. Não o assassinato esperado. Não o final sangrento e cataclísmico de sempre de Shakespeare. Não. Se assim fosse eu não teria ficado com gosto de figo estragado com patê de ameba na boca.
Se fosse por minha vontade cortaria todo o primeiro ato para os 5 minutos em que Wagner Moura não ficou pulando pelo palco como um ornitorrinco bêbado. Nestes minutos ele esteve bem, dramático e cômico sem apelação, mas foram somente 5 minutos das quase duas horas do primeiro ato.
Shakespeare pode ser atualizado, simplificado, adaptado, mas se você quiser se manter fiel ao texto não tente transformar suas belas palavras em gritos exagerados e loucura desvairada. Em certos momentos o discurso insano de Hamlet é até incompreensível pois Wagner Moura grita tanto que seu sotaque baiano ganha e só o que se pode imaginar é que definitivamente este Hamlet não bate bem da bola.
Rainha Gertrudes é carioca, com certeza, Ss e Rs tão carregados que quando se diz no reino da Dinamarca dá para rir como se fosse piada. Rei Claudius pensa estar em novela cômica da globo e em vez de insidioso parece patético, em vez de maquiavélico parece ridículo, em vez de rei parece chefe do jogo do bicho. Seus gritos, como os de Hamlet, em vez de mostrarem ira ou medo somente evidenciam descontrole e mais, evidenciam o fato de que o ator perde suas falas a todo o momento, cuspindo entre os gritos até achar a palavra certa.
Horacio se dá bem, contido, amigo e confidente, sobressai em meio à confusão não vulgarizando um personagem amado por todos.
Ofélia é bela, doce e sempre no tom certo, sei que já vi esta menina em algum lugar e espero que ela tenha mais sorte numa outra peça, pois sua presença é reconfortante dentre o caos generalizado.
Polônios pensa estar no Show dos trapalhões. O personagem que deveria ser bajulador, cheio de si e de sua importância se torna, nesta leitura, somente um falastrão ridículo que quer por força arrancar risadas mesmo quando o drama corre solto.
Hamlet é um drama, com momentos de extrema comicidade, mas este que vi é somente um pastelão inspirado em um clássico.
Saí ao fim do primeiro ato sem um segundo de hesitação. Para mim Hamlet foi assassinado bem antes do tempo.
Quem teve o bom senso de ler a peça ou de assistir o filme de Kenneth Branagh sabe que Hamlet é dor e rancor, mesclado com o riso do disfarce forçado e finalizado com lagrimas sinceras pela queda de um reino onde a honra ficou esquecida num passado longínquo.
The rest is silence.

Domingo, 06/07/2008, Teatro FAAP, 18h00 (deselegantemente começou às 18h20.

6 de jul. de 2008

O Morto

- Morto?
- Morto!
- Mas morto… Como?
- E eu que sei! Se nem sei quem é o morto!
- Mas ele tá no seu sofá, Ana!
O dia acabava de amanhecer e o sol mal chegava no hall minúsculo do apartamento onde as duas mulheres falavam aos sussurros. A sala se abria aos seus olhos incrédulos e o morto estava instalado, confortavelmente, em um dos sofás baixos e modernos. Era obvio, pelo estado catastrófico do aposento, que a festa da noite anterior tivera mais convidados do que o pequeno aposento comportava. Copos e restos de salgadinhos por todos os cantos, cheiro de cerveja derramada e suor de muitos corpos em uma noite de verão.
- Só o sofá é meu, Denise, não o morto. Alias nem sei quem é ele. Você lembra com quem ele veio?
- Lembrar? Não lembro nem com quem EU vim, depois de tanta Vodka e ainda mais com você me tirando da cama às 5 da manhã de Domingo. Eu tinha acabado de deitar.
- E quem eu ia chamar? A policia? Alem do mais foi você que me convenceu a me dar essa festa pra inaugurar o apartamento. E vê só como terminou? Essa sujeira, copo pra todo lado e um morto no meu sofá.
- Tá bom, eu divido a culpa sobre a festa, mas eu sai daqui antes do morto morrer.
- Como você sabe? Nem eu vi o morto morto. Eu....
- Você o que? Aha, Ana!!! Você foi pro quanto com alguém antes da festa acabar, não é? Eu sabia!!! Foi o Mario?
- Não, e isso não interessa. O que interessa é: O que eu faço com esse morto?
- Bom, precisamos nos livrar dele. Vamos deixar ele num banco de praça e pronto.
- E como a gente faz isso?
- Carregamos como se estivesse bêbado, já vi isso num filme. Nessa hora não tem ninguém na rua e é só largar o coitado em alguma praça.
- Tá bom. Vamos nessa.
Carregar o morto era mais difícil do que parecia, mas as duas conseguiram entrar com ele no elevador. Quando as portas se abriram no subsolo deram de cara com o zelador, de olhar sonolento e aparência desleixada.
- Morto?
- Como assim, morto? – Ana perguntou tentando parecer ingênua.- Ele tá só bêbado.
- Tá não, moça. Esse ai tá morto. Vai levar pra onde.
- Não sei.... – Ela entregou resignada
- Larga em alguma esquina. Logo acham ele.
- Mas, seu Zé, mal estamos conseguindo segurar ele agora. Enfiar ele no carro e tirar vai ser mais difícil ainda.
- Eu ajudo, deixa só avisar a patroa que vou sair.
Ele se foi e voltou depois de 5 minutos seguido de uma mulher baixa e morena que devia ser a patroa.
- Morto, né? Foi na festa que a moça deu? Bebida ou droga?
- Não sei, nem sei quem é ele. – respondeu Ana sem graça.
- Ahh, esses morto são os pior.
O marido se despediu da esposa e enfiou o morto no carro de Ana sem compaixão. Acharam uma praça deserta facilmente e descarregaram o morto o sentando em um banco. Ficaram os três olhando para o homem sem perceber que duas velhas senhoras se aproximavam com seus poodles.
- Ih!!! Morto? – perguntou a mais velha das velhas
- Claro que tá morto, que pergunta besta, Madalena. – respondeu a mais nova das velhas.
Os três, Ana, Denise e o zelador deram um pulo e encararam as duas velhas que se aproximaram do morto sem hesitação.
- Morto arrumadinho... Tava numa festa, é? Foi drogas ou sexo? – Disse a mais velha.
- Tá na cara que foi sexo, é sempre sexo nesses dias. Com qual das duas foi? – Perguntou a mais nova olhando de Ana para Denise.
- Nenhuma, nem sabemos quem é o morto. Ele amanheceu morto, só isso. – Denise começou a perder a calma. – Olha, precisamos ir....
As duas senhoras deram de ombros e continuaram a investigar o defunto enquanto os três se viravam para voltar ao carro. Uma viatura da policia estava parada, bem atrás do carro de Ana e dois policiais saltavam olhando para eles. Aproximaram-se conversando, com copos de café nas mãos e andar cansado.
- Morto é? – Perguntou o mais baixo.
- Mortinho. – Respondeu a mais velha das velhas.
- Mas falaram que não foi sexo. – Disse a mais nova delas.
- Deve ter sido drogas, então. – Disse o mais alto dos policiais.
- Não tem cara de drogado, só de safado. Ainda acho que foi sexo. – Disse a mais nova das velhas.
- Já disse que não foi sexo. – Gritou Ana irritada.
- A senhora conhece o morto? – Perguntou o mais alto dos policiais.
- Nunca vi o morto vivo, se o senhor quer saber.
- E vocês, conheciam o morto? – Perguntou o mais baixo olhando para Denise e o zelador que acenaram um rápido não.
- Então é melhor que a gente chame o rabecão pra levar o pacote. Alguém quer acompanhar o defunto? – Ofereceu o mais baixo.
Os três recusaram e as duas senhoras também, com certa tristeza, já que tinham que passear com seus cães. Os policiais, alto e baixo, deram de ombros e foram para o carro chamar o rabecão. Ana, Denise e o zelador foram andando bem devagar até o carro, esperando pelo momento em que os mandariam parar, mas ninguém o fez. Entraram no carro e partiram dando a volta na praça devagar como se não tivessem pressa. Os policiais acenaram adeus e as duas velhas, agora sentadas flanqueando o morto, também.
Na garagem do edifício a esposa do zelador os esperava e desejou um bom dia “pras moças” enquanto arrastava o marido para trocar a lâmpada da cozinha e reclamava que a maquina de levar tinha pifado de novo.
Ana e Denise voltaram para o apartamento e ficaram paradas no hall olhando uma para a outra sem entender o que havia se passado nas ultimas horas e como haviam saído de tudo sem um arranhão. Talvez seja assim com mortos anônimos, fica obvio para todos que ninguém é culpado, sendo assim só nos restam perguntas prosaicas e de interesse geral. “Foi bebida, drogas ou sexo?”

3 de jul. de 2008

A Viúva

O caixão parecia pequeno demais para o homem que ele fora. Poderoso e temido agora ocupava um espaço restrito, mesmo que acolchoado de cetim. Os homens usavam ternos que custavam o salário de um ano de muitas pessoas e as mulheres desfilavam pretinhos não tão básicos assim. Todos vinham prestar suas homenagens diante do morto e, de passagem, lhe jogavam uma ou duas palavras de consolo. Ninguém lhe dava muita atenção, não chegava a ser ignorada, mas era como se fosse a quinta coadjuvante em um filme de terceira categoria. Todos sabiam que seu casamento fora uma fachada, ela tinha boa linhagem e dinheiro de família e ele havia prezado demais as aparências para largá-la por uma de suas varias amantes. Ela nunca tivera força suficiente para deixá-lo, fora criada para obedecer e assim o fizera. Aceitara tudo como parte do pacote assim como aceitara o dinheiro fácil e a posição social inclusos. Olhou o rosto endurecido pela morte à sua frente e não sentiu nada a não ser um alivio divertido. Ouvia os comentários pelo enorme salão, a ultima fofoca de como ele a deixara sem nada, de como fundira sua fortuna à dele, de como passara para o nome de amantes e partidários todos seus bens quando pressentira a morte. O jovem advogado que cuidara de tudo estava postado a um canto, a olhando vez por outra com um sorriso no rosto. A hora chegou e o caixão baixou ao solo lavado por lagrimas de mil amantes e de partidários políticos que perdiam seu benfeitor. Ela não chorou. Na verdade sorriu olhando para o céu azul de inverno e escandalizou a todos partindo antes do fim da cerimônia, balançando a bolsa pequena como em um piquenique e assobiando uma antiga canção. A casa, que sempre lhe parecera gélida, agora a recebeu cálida e confortável. Da biblioteca, refugio de seu pobre e morto marido, vinha o som de uma musica suave e o crepitar do fogo na lareira. Ela abriu a porta e lá estava ele. O jovem advogado que fora eleito como seu carrasco. Ele a tomou nos braços e ensaiou uma valsa enquanto riam do mundo. Na lareira os documentos que a sentenciavam à miséria queimavam e sobre a mesa o antigo testamento, dos tempos de recém casados, lhe dava o mundo. Valera a pena esperar. Foram dois longos anos para que o veneno lhe torcesse as cordas duras do coração de aço, mas ele sucumbira. Ela não cometeria o mesmo erro duas vezes. O jovem advogado a levaria em uma longa viagem por lugares exóticos e com certeza a pediria em casamento. Mas talvez ele não voltasse...