19 de ago. de 2008

A Janela

Começa tudo de novo. A janela aberta me mostra o ultimo andar da academia onde pessoas já cansadas perdem as poucas gramas ganhas em seus almoços. O calor volta e não me dá muito prazer. A não ser pela janela aberta.... Por ela entram sons e odores do mundo que me cerca e não me sinto isolada como quando o inverno me torna prisioneira de meu quarto. Alguém está queimando um sanduíche no tostex, conheço o cheiro, sei que vão ter que raspar a crosta queimada, mas o queijo pelo menos estará derretido. Os carros estão parados nos faróis, escuto as buzinas nervosas e sinto a frustração de seus motoristas na pele. Sei como é ficar presa em ruas sem fim enquanto o santuário de nossa casa parece nunca chegar. As arvores... quanto tempo não as aprecio? Quantos meses de noites olhando para a janela cerrada que me esconde as estrelas e me nega a brisa? O verão parece ter chegado meses antes do tempo e não me agrada, a não ser pela janela aberta. Ver o topo das arvores e sentir a brisa suave me ajudam a sonhar com lugares que há muito não visito, quase posso sentir o cheiro do pasto e ouvir o rugir da cachoeira que embalava tantas noites em tantos fins de semana. E me pergunto... O que seria de mim sem a memória? De onde viria a força para os tempos áridos, os verões impiedosos e os invernos de janelas fechadas? Começa tudo de novo, o bafo do metrô, as roupas que se grudam em meu corpo suado, o cabelo que cai sem jeito como se cansado, o rosto que parece sempre vermelho pelo esforço. Mas a janela, essa moldura para meu mundo noturno, essa porta para meus sonhos, está aberta e, pelo menos por agora, é somente o que importa.

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15 de ago. de 2008

Os Pescadores de Perolas


Eu sei o eu vai acontecer, claro que sei, não é assim todo mês? Não me esgueiro pelos cantos, antes de ir para casa, para me dar o prazer de uma espiada disfarçada pela xícara de expresso? Eu sei o que vai acontecer.
Ele sempre me conta um pouco, cantarola uma ária enquanto com mãos expressivas conduz uma orquestra imaginaria. Ele sabe que amo o que faz e o que faz é me dar mais sonhos para sonhar. Quem pode recusar quimeras quando o mundo é um deserto árido e claustrofóbico repleto de seres sem imaginação? Durante o almoço observo enquanto corrimões são envolvidos em redes e tecidos diáfanos despencam do teto de concreto, sorrio por cima de minha alface pensando “Ah, Iacov, o que virá?” Termino o dia com a excitação que somente estas quintas-feiras me dão. Desço já com meu sorriso a postos, pois sei o que vai acontecer.
Uso de minha posição privilegiada de funcionaria para entrar de fininho no que horas antes era uma cafeteria. Os corrimões sumiram, a galeria evaporou, a livraria se encontra perdida em brumas, do nada escorrem fios de brilhantes e perolas que quase roçam minha cabeça. Ignoro as cadeiras, pois para mim não existem assim como o corrimão e a galeria. São somente espectadoras, como aqueles que nelas se sentarão, do drama que logo irá se desenrolar.
Olho o relógio, fumo um cigarro, olho o relógio, tomo um café, olho o relógio, recebo algumas pessoas, olho o relógio, fumo mais um cigarro, olho o relógio, entro e me sento, separada por uma coluna, daquele que é o mestre da musica.
Eu sei o que vai acontecer. A voz querida apresenta o mestre da musica, que me lembra sempre um duque ou conde ou seja lá que titulo que leve as pessoas a querer se curvar e dizer “Sir!” Sua voz imediatamente me transporta para muito longe, tão longe que me esqueço a que mundo pertenço. A musica começa, o que dedilha o piano o faz com maestria e os que juntam suas vozes ao instrumento provocam arrepios em minha espinha. Quando mexo meus pés sinto areia sob eles, quando viro meu rosto sinto a brisa do mar e o grito dos pescadores de perolas voltando para casa ecoa em meus ouvidos.
Tudo termina rápido demais. O amor sobreviveu à intriga, mas não sem pagar um certo preço em sangue. Não é sempre assim? Eu já não sabia que seria assim? Mas o que importa, pelo menos para mim, é que mesmo sabendo o que vai acontecer, mesmo sabendo que por trás da bruma se encontra todo meu cotidiano, ainda saio com o coração leve e agradecido. Trago para casa uma perola que pescador nenhum poderá me dar, a lembrança de mais uma noite mágica com Iacov Hillel e Mauro Wrona. Obrigada.


Pescadores de Perolas no Centro da Cultura Judaica, Domingo, 17/08, 19h00.

14 de jul. de 2008

Uma Questão de Negócios


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O sorriso era amistoso, apesar dos dentes que brilhavam por entre os lábios serem tão afiados e a mão que a convidava a sentar ser tão branca que a luz vinda da lareira parecia atravessá-la.
Em sua cabeça ela ouviu as linhas da historia infantil “Para que dentes tão grandes, vovózinha?”, “Para te comer, minha netinha!”. Reprimiu a custo uma risada nervosa que sabia que teria se espalhado em ecos infinitos pela parede do castelo.
- Suas referencias são maravilhosas. Governanta na casa do Duque D e também na casa do Lorde L e assistente pessoal do Primeiro Ministro J. O que a fez sair destes empregos? - A voz do Conde era melodiosa e um tanto quanto melancólica.
- Bem, não haviam desafios e com o tempo eu senti necessidade de mudar, mas sai em bons termos de todos. Posso dizer que tenho a honra de constar na lista de pessoas de confiança de meus antigos empregadores. – Ela não o olhava nos olhos. Os dele pareciam ser feitos de fogo liquido em um continuo redemoinho e mais do que a intimidavam, a faziam temer ser hipnotizada e levada alem da sanidade.
- Ah.... lhe faltava aventura, presumo. Algo mais do que o mundano, algo alem da rotina.
- Não....Sim... Quer dizer, todos esperamos por um pouco de emoção em nossas vidas, não é? Algo que faça nosso sangue correr.... - Se arrependeu das palavras logo que as disse. Mencionar sangue para um Conde pálido, de dentes afiados, em um castelo decrépito era um risco grande demais.
- Sim. O sangue, tudo sempre se resume a ele. O queremos frio em nossas veias para tomar decisões. O queremos quente para saborear melhor as paixões. O queremos correndo, como fogo liquido, para nos excitar diante do perigo. – E os dentes brancos e estranhamente sedutores morderam os lábios vermelhos.
- Bem, o senhor me desculpe, mas acho que foi um erro essa entrevista. O castelo é muito distante e...
- Não, por favor, não se negue. Não vê que sofro? - e ele realmente parecia cansado e abatido. - Minha casa ancestral é uma ruína. Meus servos não têm uma mão firme que os comande e não faço uma refeição decente há séculos.
- O senhor come? - ela perguntou curiosa.
- A curiosidade maior que o medo....- e ele sorriu animado. - sabe quem sou e ainda assim.... mas, respondendo a sua pergunta. Sim. Eu como. Sopas, vitaminas e afins. É preciso imaginação para preparar minhas refeições, mas minha maior preocupação é com o castelo. Não vejo porque tenho que viver em meio à teias de aranhas e pó secular. Nem entendo porque me visto à rigor se minha casa parece prestes a desabar. Preciso de ajuda. – e seu rosto se torceu angustiado.
- Mas...mas... o risco... sei que disse que gostaria de mais aventuras, mas trabalhar aqui... com o senhor...
- Minha cara, os tempos modernos são incríveis. Posso não conseguir uma governanta, mas tenho TV à cabo e conexão rápida para a Internet. Faço compras online como qualquer um e os bancos de sangue estão sempre prontos a me atender à qualquer hora. Posso até mesmo escolher o tipo sangüíneo que prefiro. O- é uma iguaria, mas ultimamente anda em falta no mercado. Portanto o único risco que correria aqui seria tropeçar nas teias de aranha e cair escada abaixo. Já há muito tempo que não ataco pescoços. O ultimo bom dentista que conheci faleceu em 1930 e o que veio depois quase me pôs a perder um canino. Imagina o que é um canino para mim?
- Mas o castelo é imenso! Eu sozinha não daria conta.
- Tenho muitos servos. Inúteis todos eles, mas a meu comando te obedecerão cegamente. Reinsfield! - ele chamou sem levantar a voz e quase de imediato um homem maltrapilho entrou meio curvado. - Reinsfield, de hoje em diante você e os outros obedecerão essa senhorita cegamente. Aquele que ousar encostar a mão nela ou lhe faltar com o respeito sofrerá dois séculos de torturas. E, pelo amor de Deus, tome um banho e vista-se decentemente. Pode ir.
- Sim, mestre. - E tão silenciosamente como havia surgido ele se foi.
- Vê? Rios de dinheiro, a vida eterna e se contentam em andar pelas sombras vestindo farrapos. Preciso de você para que trazer o mundo moderno para minha realidade.
- Conde, não nos apressemos. Nem mesmo falamos sobre remuneração e nem nos benefícios. Apesar de ansiar por uma vida mais aventureira não serei leviana no que diz respeito à minha carreira. - antes de tudo ela era uma mulher muito pratica.
- Seu salário será de 10.000 libras por mês, folgas aos domingos e duas férias, de quatro semanas cada, por ano onde poderá desfrutar de minhas propriedades na Reviera, Escócia, Grécia, Estados Unidos, Itália, França, Irlanda e se não estou enganado existe também uma fazenda no Brasil. Claro que citei somente os lugares que imagino possam atraí-la, mas pode escolher entre qualquer uma das minhas propriedades.
Ela quase não respirava. Não era somente a riqueza nunca sonhada, mas também o desafio e a aventura que lhe faltavam. Era como uma negociação qualquer, mas com tantas possibilidades....
- Não me faça sofrer mais, desde que vi seu currículo que sonho com uma casa brilhante onde possa receber sem vergonha. Se a proposta não lhe é atraente me diga, minha fortuna está em suas mãos. - Ele tinha lagrimas sangüíneas nos olhos e seus caninos agudos mordiam os lábios de ansiedade.
- A proposta é ótima, senhor Conde. Só o que me atrevo a dizer é que, apesar de gostar de aventuras, dormir em um castelo com seus servos e suas noivas.... o senhor as tem ainda, não? As vi em muitos filmes e elas não parecem do tipo de obedecer à regras, mesmo impostas pelo senhor.
- Ah, sim, minhas noivas. Criaturas tolas. Poderiam ter feito dessa casa o castelo mais rico do mundo, mas só dormem nas masmorras em meio à sujeira e na companhia dos ratos. Você está certa. Tenho uma casa, nem 500 metros daqui, seria a casa do administrador se eu o tivesse. É sua. Amanha mesmo mando plantarem alho em toda sua volta e pedirei ao padre da vila que benza seu terreno. Vê meu desespero? Só quero ser normal...- Uma lagrima vermelha se desprendeu dos olhos e correu a face triste.
Ela se levantou e lhe estendeu a mão diminuta. O negocio estava selado. No dia seguinte ela se mudou para a casa cercada por plantações de alho e onde o terreno tinha sido aspergido com água benta. Logo o castelo ganhou vida. Reformas foram feitas, moveis novos comprados, cortinas e roupas de cama, mesa e banho encomendadas. E ela, a pequena governanta, era a rainha, somente ela geria toda fortuna acumulada por séculos. As pessoas vieram, governantes, diplomatas, nobres, todos para conhecer o castelo que saíra das brumas para o esplendor. Ela, feliz como nunca, passava horas inventando pratos líquidos para o deleite de seu patrão. Ele, remoçado, lhe adivinhava os desejos e a cobria de presentes.
No fim, foi tudo somente uma questão de negócios.

7 de jul. de 2008

O dia que assassinaram Hamlet

Não. Não o assassinato esperado. Não o final sangrento e cataclísmico de sempre de Shakespeare. Não. Se assim fosse eu não teria ficado com gosto de figo estragado com patê de ameba na boca.
Se fosse por minha vontade cortaria todo o primeiro ato para os 5 minutos em que Wagner Moura não ficou pulando pelo palco como um ornitorrinco bêbado. Nestes minutos ele esteve bem, dramático e cômico sem apelação, mas foram somente 5 minutos das quase duas horas do primeiro ato.
Shakespeare pode ser atualizado, simplificado, adaptado, mas se você quiser se manter fiel ao texto não tente transformar suas belas palavras em gritos exagerados e loucura desvairada. Em certos momentos o discurso insano de Hamlet é até incompreensível pois Wagner Moura grita tanto que seu sotaque baiano ganha e só o que se pode imaginar é que definitivamente este Hamlet não bate bem da bola.
Rainha Gertrudes é carioca, com certeza, Ss e Rs tão carregados que quando se diz no reino da Dinamarca dá para rir como se fosse piada. Rei Claudius pensa estar em novela cômica da globo e em vez de insidioso parece patético, em vez de maquiavélico parece ridículo, em vez de rei parece chefe do jogo do bicho. Seus gritos, como os de Hamlet, em vez de mostrarem ira ou medo somente evidenciam descontrole e mais, evidenciam o fato de que o ator perde suas falas a todo o momento, cuspindo entre os gritos até achar a palavra certa.
Horacio se dá bem, contido, amigo e confidente, sobressai em meio à confusão não vulgarizando um personagem amado por todos.
Ofélia é bela, doce e sempre no tom certo, sei que já vi esta menina em algum lugar e espero que ela tenha mais sorte numa outra peça, pois sua presença é reconfortante dentre o caos generalizado.
Polônios pensa estar no Show dos trapalhões. O personagem que deveria ser bajulador, cheio de si e de sua importância se torna, nesta leitura, somente um falastrão ridículo que quer por força arrancar risadas mesmo quando o drama corre solto.
Hamlet é um drama, com momentos de extrema comicidade, mas este que vi é somente um pastelão inspirado em um clássico.
Saí ao fim do primeiro ato sem um segundo de hesitação. Para mim Hamlet foi assassinado bem antes do tempo.
Quem teve o bom senso de ler a peça ou de assistir o filme de Kenneth Branagh sabe que Hamlet é dor e rancor, mesclado com o riso do disfarce forçado e finalizado com lagrimas sinceras pela queda de um reino onde a honra ficou esquecida num passado longínquo.
The rest is silence.

Domingo, 06/07/2008, Teatro FAAP, 18h00 (deselegantemente começou às 18h20.

6 de jul. de 2008

O Morto

- Morto?
- Morto!
- Mas morto… Como?
- E eu que sei! Se nem sei quem é o morto!
- Mas ele tá no seu sofá, Ana!
O dia acabava de amanhecer e o sol mal chegava no hall minúsculo do apartamento onde as duas mulheres falavam aos sussurros. A sala se abria aos seus olhos incrédulos e o morto estava instalado, confortavelmente, em um dos sofás baixos e modernos. Era obvio, pelo estado catastrófico do aposento, que a festa da noite anterior tivera mais convidados do que o pequeno aposento comportava. Copos e restos de salgadinhos por todos os cantos, cheiro de cerveja derramada e suor de muitos corpos em uma noite de verão.
- Só o sofá é meu, Denise, não o morto. Alias nem sei quem é ele. Você lembra com quem ele veio?
- Lembrar? Não lembro nem com quem EU vim, depois de tanta Vodka e ainda mais com você me tirando da cama às 5 da manhã de Domingo. Eu tinha acabado de deitar.
- E quem eu ia chamar? A policia? Alem do mais foi você que me convenceu a me dar essa festa pra inaugurar o apartamento. E vê só como terminou? Essa sujeira, copo pra todo lado e um morto no meu sofá.
- Tá bom, eu divido a culpa sobre a festa, mas eu sai daqui antes do morto morrer.
- Como você sabe? Nem eu vi o morto morto. Eu....
- Você o que? Aha, Ana!!! Você foi pro quanto com alguém antes da festa acabar, não é? Eu sabia!!! Foi o Mario?
- Não, e isso não interessa. O que interessa é: O que eu faço com esse morto?
- Bom, precisamos nos livrar dele. Vamos deixar ele num banco de praça e pronto.
- E como a gente faz isso?
- Carregamos como se estivesse bêbado, já vi isso num filme. Nessa hora não tem ninguém na rua e é só largar o coitado em alguma praça.
- Tá bom. Vamos nessa.
Carregar o morto era mais difícil do que parecia, mas as duas conseguiram entrar com ele no elevador. Quando as portas se abriram no subsolo deram de cara com o zelador, de olhar sonolento e aparência desleixada.
- Morto?
- Como assim, morto? – Ana perguntou tentando parecer ingênua.- Ele tá só bêbado.
- Tá não, moça. Esse ai tá morto. Vai levar pra onde.
- Não sei.... – Ela entregou resignada
- Larga em alguma esquina. Logo acham ele.
- Mas, seu Zé, mal estamos conseguindo segurar ele agora. Enfiar ele no carro e tirar vai ser mais difícil ainda.
- Eu ajudo, deixa só avisar a patroa que vou sair.
Ele se foi e voltou depois de 5 minutos seguido de uma mulher baixa e morena que devia ser a patroa.
- Morto, né? Foi na festa que a moça deu? Bebida ou droga?
- Não sei, nem sei quem é ele. – respondeu Ana sem graça.
- Ahh, esses morto são os pior.
O marido se despediu da esposa e enfiou o morto no carro de Ana sem compaixão. Acharam uma praça deserta facilmente e descarregaram o morto o sentando em um banco. Ficaram os três olhando para o homem sem perceber que duas velhas senhoras se aproximavam com seus poodles.
- Ih!!! Morto? – perguntou a mais velha das velhas
- Claro que tá morto, que pergunta besta, Madalena. – respondeu a mais nova das velhas.
Os três, Ana, Denise e o zelador deram um pulo e encararam as duas velhas que se aproximaram do morto sem hesitação.
- Morto arrumadinho... Tava numa festa, é? Foi drogas ou sexo? – Disse a mais velha.
- Tá na cara que foi sexo, é sempre sexo nesses dias. Com qual das duas foi? – Perguntou a mais nova olhando de Ana para Denise.
- Nenhuma, nem sabemos quem é o morto. Ele amanheceu morto, só isso. – Denise começou a perder a calma. – Olha, precisamos ir....
As duas senhoras deram de ombros e continuaram a investigar o defunto enquanto os três se viravam para voltar ao carro. Uma viatura da policia estava parada, bem atrás do carro de Ana e dois policiais saltavam olhando para eles. Aproximaram-se conversando, com copos de café nas mãos e andar cansado.
- Morto é? – Perguntou o mais baixo.
- Mortinho. – Respondeu a mais velha das velhas.
- Mas falaram que não foi sexo. – Disse a mais nova delas.
- Deve ter sido drogas, então. – Disse o mais alto dos policiais.
- Não tem cara de drogado, só de safado. Ainda acho que foi sexo. – Disse a mais nova das velhas.
- Já disse que não foi sexo. – Gritou Ana irritada.
- A senhora conhece o morto? – Perguntou o mais alto dos policiais.
- Nunca vi o morto vivo, se o senhor quer saber.
- E vocês, conheciam o morto? – Perguntou o mais baixo olhando para Denise e o zelador que acenaram um rápido não.
- Então é melhor que a gente chame o rabecão pra levar o pacote. Alguém quer acompanhar o defunto? – Ofereceu o mais baixo.
Os três recusaram e as duas senhoras também, com certa tristeza, já que tinham que passear com seus cães. Os policiais, alto e baixo, deram de ombros e foram para o carro chamar o rabecão. Ana, Denise e o zelador foram andando bem devagar até o carro, esperando pelo momento em que os mandariam parar, mas ninguém o fez. Entraram no carro e partiram dando a volta na praça devagar como se não tivessem pressa. Os policiais acenaram adeus e as duas velhas, agora sentadas flanqueando o morto, também.
Na garagem do edifício a esposa do zelador os esperava e desejou um bom dia “pras moças” enquanto arrastava o marido para trocar a lâmpada da cozinha e reclamava que a maquina de levar tinha pifado de novo.
Ana e Denise voltaram para o apartamento e ficaram paradas no hall olhando uma para a outra sem entender o que havia se passado nas ultimas horas e como haviam saído de tudo sem um arranhão. Talvez seja assim com mortos anônimos, fica obvio para todos que ninguém é culpado, sendo assim só nos restam perguntas prosaicas e de interesse geral. “Foi bebida, drogas ou sexo?”

3 de jul. de 2008

A Viúva

O caixão parecia pequeno demais para o homem que ele fora. Poderoso e temido agora ocupava um espaço restrito, mesmo que acolchoado de cetim. Os homens usavam ternos que custavam o salário de um ano de muitas pessoas e as mulheres desfilavam pretinhos não tão básicos assim. Todos vinham prestar suas homenagens diante do morto e, de passagem, lhe jogavam uma ou duas palavras de consolo. Ninguém lhe dava muita atenção, não chegava a ser ignorada, mas era como se fosse a quinta coadjuvante em um filme de terceira categoria. Todos sabiam que seu casamento fora uma fachada, ela tinha boa linhagem e dinheiro de família e ele havia prezado demais as aparências para largá-la por uma de suas varias amantes. Ela nunca tivera força suficiente para deixá-lo, fora criada para obedecer e assim o fizera. Aceitara tudo como parte do pacote assim como aceitara o dinheiro fácil e a posição social inclusos. Olhou o rosto endurecido pela morte à sua frente e não sentiu nada a não ser um alivio divertido. Ouvia os comentários pelo enorme salão, a ultima fofoca de como ele a deixara sem nada, de como fundira sua fortuna à dele, de como passara para o nome de amantes e partidários todos seus bens quando pressentira a morte. O jovem advogado que cuidara de tudo estava postado a um canto, a olhando vez por outra com um sorriso no rosto. A hora chegou e o caixão baixou ao solo lavado por lagrimas de mil amantes e de partidários políticos que perdiam seu benfeitor. Ela não chorou. Na verdade sorriu olhando para o céu azul de inverno e escandalizou a todos partindo antes do fim da cerimônia, balançando a bolsa pequena como em um piquenique e assobiando uma antiga canção. A casa, que sempre lhe parecera gélida, agora a recebeu cálida e confortável. Da biblioteca, refugio de seu pobre e morto marido, vinha o som de uma musica suave e o crepitar do fogo na lareira. Ela abriu a porta e lá estava ele. O jovem advogado que fora eleito como seu carrasco. Ele a tomou nos braços e ensaiou uma valsa enquanto riam do mundo. Na lareira os documentos que a sentenciavam à miséria queimavam e sobre a mesa o antigo testamento, dos tempos de recém casados, lhe dava o mundo. Valera a pena esperar. Foram dois longos anos para que o veneno lhe torcesse as cordas duras do coração de aço, mas ele sucumbira. Ela não cometeria o mesmo erro duas vezes. O jovem advogado a levaria em uma longa viagem por lugares exóticos e com certeza a pediria em casamento. Mas talvez ele não voltasse...

30 de jun. de 2008

Madame Butterfly

Militar Americano filho da puta baseado no Japão seduz jovem inocente e se casa sabendo que a cerimônia é invalida em seu país. Após um bom divertimento retorna à pátria com promessa vazia de voltar para a esposa-gueixa. Três anos depois o casamenteiro sacana que a casará com o americano filho da puta tenta empurrá-la para rico nobre japonês que somente permanece casado enquanto a noiva é fresca. Cônsul americano bondoso se compadece de esposa-gueixa abandonada quando vai ler a carta onde americano filho da puta finalmente demonstra toda sua canalhice. Esposa-gueixa revela filho mestiço e pede que Cônsul bondoso avise americano filho da puta que ela o espera com sua cria. Nobre japonês safado e casamenteiro sacana tentam dobrar esposa-gueixa abandonada quando navio de americano filho da puta atraca no porto, partem amargos por não completar seus intentos. Esposa-gueixa, filho-mestiço e criada-sábia esperam toda a noite em vão pelo retorno do cretino. Americano filho da puta aparece casado e pede que cônsul bondoso convença esposa-gueixa e entregar filho para ele e esposa-oficial. Esposa gueixa comete harakiri e todos choram lagrimas de crocodilo sobre o corpo da inocente, mas criada-sábia e cônsul bondoso sinceramente sentem sua trágica partida. Americano filho da puta parte com filho-mestiço e esquece que um dia pisou no Japão.

Madame Butterfly é uma belíssima opera, me deixou sem fôlego e com o gosto amargo na boca que um bom drama deve deixar. Figurino riquíssimo, palco e iluminação perfeitos e personagens carismáticos, infelizmente as cadeiras rangedoras do Teatro Municipal muitas vezes abafaram as vozes lindíssimas dos cantores.

Mesmo assim voltarei, mesmo sabendo que a próxima ópera talvez esteja cheia de personagens pérfidos e inocentes imolados. É disso que é feita a bela ópera, de grandiosidade, drama, sangue e beleza.

Obrigada pela oportunidade, Diógenes, no palco você é tão belo como o é quando está ao meu lado. Kiss.

24 de jun. de 2008

Sapatos

Coloquei seus sapatos e eram muito confortáveis. Deram-me a sensação de poder e bem estar que só um bom par de sapatos pode dar. Ofereci os meus pensando estar sendo justa, afinal se eu posso me ver em seus sapatos porque ela não pode provar os meus? Já esperava sua recusa, mas mesmo assim me causou embaraço, ela nem mesmo quis entender o porquê de eu reclamar da dor que me davam quando o dia era longo e os metros compridos demais. Disse simplesmente que não lhe serviam, apesar dos dela me servirem muito bem, e que não entendia o porquê das minhas reclamações sendo que eu mesmo comprara o pobre par. Achei que devia explicar que infelizmente eram o único par que pude conseguir e que haviam parecido bem melhores na vitrina do que posteriormente em meus pés, mas ela não entende sendo que nunca os precisou vestir. Devolvi-lhe os seus sem inveja. Prefiro os meus que apertam nos lugares errados e estão frouxos onde deveriam ser firmes do que sapatos que me dão tanto conforto que evitam que eu veja a dor alheia.

20 de jun. de 2008

Um pequeno milagre...

Um milagre não é algo absurdo. É somente aquele algo que você desesperadamente espera acontecer se tornando realidade. Milagres podem ser pequenos, mínimos, médios, grandes ou imensos, mas se você não ficar com os olhos abertos pode se passar por um simples acaso, um ato do dia a dia, uma pequena sorte que chega na hora certa. Eu espero por um. Não rezo por ele, não anseio e nem me desespero, mas simplesmente espero que dessa vez esse pequeno milagre que espero venha como um presente pelos anos que esperei em vão. Pode ser que no fim ele venha em outra forma e o aceitarei de braços abertos, mesmo que não com um sorriso, mas sim com lagrimas lavando meu rosto cansado.

17 de jun. de 2008

Noites Melancólicas


Dizem que ele surge em noites de neblina, quando o mar parece mais um céu cheio de nuvens. Dizem que é amaldiçoado e que ver sua silhueta é mau agouro. Mas isso é somente o que dizem. A lenda fala de um capitão cruel e de torturas sem fim, de porões de paredes tingidas de sangue e saques onde uma musica diabólica embalava piratas durante assassinatos e estupros. Quando ele surge no horizonte pode-se ver seu capitão em pé na proa, uma figura negra de cabelos longos que os dedos da neblina acariciam quase com carinho. Do navio só podemos adivinhar as formas elegantes e a potencia de seus canhões que estão sempre expostos por entre as portinholas abertas. Vemos também a sombra das velas negras que se debatem ao vento fantasma que não agita a neblina. É a imagem mais bela que pode surgir sobre esse mar céu da meia-noite, imagem que deveria inspirar enlevo e não temor, mas o ser humano parece sempre preferir acreditar no mal em vez do bem e isso talvez se deva à degeneração de nossa espécie. Eu , quando o imagino em meus sonhos, prefiro acreditar que este navio fantasma surge do fundo do oceano nas noites melancólicas. Nestas noites ele passeia pelo mar onde antes reinava, lembrando do balanço das ondas e dos portos onde outrora ancorava. Vagueia exalando suspiros entre as tabuas lustrosas e embalando uma tripulação de espectros que olha para o horizonte sem rancor. Não há porque ter medo, em noites melancólicas somente as boas lembranças conseguem emergir e apesar de nos causar saudade elas não produzem mal maior do que algumas lagrimas derramadas por um coração enternecido.

16 de jun. de 2008

Regras

Ele sempre vivera segundo regras. Primeiro foram seus pais que diziam que tudo dependia dele se comportar segundo o esperado. Depois viera a escola com suas regras e códigos de conduta que só ele se importava em seguir, afinal era o que se esperava dele. À anos e anos de estudo seguiram-se anos e anos de trabalho onde ser político foi mais importante que ser eficiente, mais isso é o que todos esperam de todos, certo? Sua vida era perfeita, todos invejavam seus ternos de bom caimento, suas namoradas perfeitamente platinadas, seu cargo de titulo pomposo e seu apartamento luxuosamente decorado, mas ninguém o conhecia realmente. Por trás de todas regras estocadas nas estantes de sua memória, de sua personalidade programada para nossos dias, existia um coração jovem e apaixonado à procura de uma saída para sua existência robótica. Seu trabalho o levava aos lugares mais remotos e belos do mundo, mas sempre olhava para tantas maravilhas como uma criança com o rosto colado à vitrine de uma loja de doces e sem um centavo no bolso. Nunca se deu ao prazer de subir ao alto da Torre Eifell ou de caminhar pela muralha da China ou andar pela Praça Vermelho ou mesmo de sentar em um café e sonhar em Casablanca. Sempre concentrado em seu dever e nunca se dando o prazer de ser simplesmente mortal. Seu caminho era sempre em frente e seu coração sempre pesado até que um dia, ao passar por um campo de flores selvagens que viviam sem regras e sem cuidados, sentiu todas amarras se partindo como se as pequenas flores entoassem cânticos mágicos que abriram todas malditas comportas que encarceravam seus sentimentos. A penúltima pessoa que o viu conta que corria nu pelo campo rindo como uma criança, sem medo e sem vergonha, simplesmente livre. A ultima pessoa que o viu conta que vive em uma felicidade serena em uma cabana de conto de fadas na beira de uma floresta e que ri com freqüência, conversa com todos que encontra, ama profundamente as mulheres que lhe cruzam o caminho, aprecia imensamente cada pequena maravilha que encontra e não segue absolutamente nenhuma regra.

15 de jun. de 2008

Quando velhos falam


Dividir experiências e memórias é o que nos resta. Não que não haja algo mais, mas se não tivermos para quem contar o que trazemos no peito o que fazer com toda essa bagagem? Vemos nossas mães e avós relembrando os velhos tempo, historias que já conhecemos, mas que sempre trazem algum detalhe novo, alguma pequena melhoria no roteiro. Não é somente para nosso entretenimento que cada momento de peso em suas vidas é repetido, mas, mais do que tudo, para lhes lembrar que suas vidas tiveram momentos marcantes, que suas vidas não foram em vão vividas. Nossos pais e avós nos lembram constantemente do que aprenderam nos tempos em que honra, dedicação e respeito queriam dizer algo mais que palavras vazias. Tentam, através de suas experiências, nos ensinar que somos responsáveis pelo que acontece ao nosso redor e que nossos erros podem ser concertados ou pelo menos minimizados se ousarmos nos responsabilizar por eles. Mães, pais, avós e avôs nos brindam constantemente com perolas que ignoramos por serem tão constantes. Falhamos em perceber que no meio do borbulhar constante de recordações está a chave para descobrirmos quem somos, pois de suas experiências resultou nossa educação, falha ou não. Passamos tempos demais tentando ignorar o que os velhos falam quando deveríamos lhes emprestar um instante nossos ouvidos e nos maravilhar por quantas mudanças foram capazes de passar, a quantos revezes sobrevieram e quantos amores lhes foram negados. Entender suas vidas é acharmos soluções para as nossas, pois cada vez que lamentam não ter seguido um caminho é como uma placa luminosa nos dizendo “Não desperdicem suas oportunidades. Não ignorem seus desejos”.

14 de jun. de 2008

No Puppet Here

O exterior não é nada. Somos fantoches com mil fios em mãos diferentes e com diferentes agendas. Navegamos pela vida esperando suprir as expectativas alheias e nos esquecemos de nossas próprias. Cada um quer um pedaço de nossa alma e seus propósitos são sempre egoístas. Mesmo quando nos recompensam é somente como um afago na cabeça de um cão, continue fiel, caro amigo, mas obediente, sempre obediente. É chamado de rebelde aquele que não aceita os puxões que lhe dão e caminha somente na direção que sabe ser a certa. Não há porque ter medo, fazer o seu melhor sem ser capacho de ninguém é perfeitamente aceitável, mas vem com uma certa carga, uma certa tarja negra onde se lê “difícil”. Aceite e continue cortando as cordas que tentam lhe prender, pois o único laço aceitável é aquele que você mesmo faz e onde se lê “fidelidade” e esse laço o damos somente para aqueles que ganharam nosso respeito. Somos o que somos, bons ou ruins, mas quando bons podemos nos dar ao luxo de fincar o pé nas coisas em que acreditamos sabendo que o retorno que damos, nossa dedicação e inteligência compensam todo o resto. I’m a rebel, but I like it.

2 de jun. de 2008

Inocência

As pessoas insistem em amadurecer e de certa maneira é a ordem natural das coisas, mas existem partes de nós que podem manter a inocência se ao menos lhes dermos uma chance. Gosto de ainda me surpreender como quando ainda tinha pernas pouco firmes e olhos arregalados para o mundo. Gosto de rir com abandono e de adorar um animalzinho fazendo papel de bobo. Adoro ser meio palhaça e de mostrar a língua para as costas de quem não gosto em vez de me morder de raiva. Me divirto com dancinhas idiotas para fazer rir aos outros e em falar como o exterminador do futuro só porque as mesmas frases de sempre parecem mais divertidas assim. Mantenho algo vivo dentro de mim desde a infância e nem mesmo faço força, somente não quero me separar do que me faz tão inocentemente feliz. Todos finais de semana me sento ao lado do meu irmão no sofá de casa e exercitamos o que temos de melhor, nosso lado completamente insano, escrachado, palhaço e irreverente. Falamos com liberdade, sem medo, aliviados de termos ainda com quem dividir o que temos de melhor. Nossa inocência. Não sei o quanto isso é saudável, mas o fato é que com 45 anos não tenho rugas, apesar de todas dores de cabeça que a vida me dá, e vejo cada cor como ela é e cada imagem com tudo que ela traz de mágico. Olho uma flor ainda tentando entender como pode algo tão belo nascer da terra, quase mordo minhas orelhas tentando entender a maravilha que é um avião, acho cada animal do mundo um milagre dos mais belos e ainda estendo a mão para cada um que encontro mesmo quando me dizem que eles podem morder. Manter o coração batendo não depende do nível de colesterol, do controle da pressão ou da alimentação saudável, mas sim da capacidade de manter dentro dele um santuário à criança que todos um dia fomos.

1 de jun. de 2008

Bloody Depression

Ele pegou o lenço de linho egípcio e delicadamente secou o sangue que escorria de seus lábios. Se alimentar era um assunto tão incomodo em certos dias que quase não valia à pena o esforço. Achar sangue jovem não era difícil, nem mesmo era preciso utilizar seu famoso olhar hipnotizante, era necessário somente estalar os dedos e mostrar os caninos afiados que logo uma legião de jovens lhe oferecia os pescoços sem nem mesmo pedir pela vida eterna. Tão tedioso.... Alem do mais todo esse assunto de sangue era por demais nojento para ele. O liquido viscoso e seu cheiro acre, o pensamento sempre constante de quantas doenças sugava de pescoços nem sempre limpos. Porque as pessoas pareciam menos limpas hoje do que no século 18? Elas cheiravam melhor e não eram ensebadas como seus antepassados, mas pareciam sempre mais podres, menos decentes, mais decadentes. Ele ainda lembrava quando era jovem e achava o mundo um lugar fantástico, via cada transformação como um milagre até que ele mesmo se transformara na criatura que era agora. E os anos se transformaram em décadas e em séculos e nada mais parecia fantástico. Houve época que caçar era um prazer, mergulhava seus dentes em pescoços mais sujos, mas mentes mais brilhantes e o que via naqueles instantes era assustador e maravilhoso. Hoje não havia o perfume forte para esconder a falta de higiene e todos faziam bom uso do sabonete, mas as mentes eram embotadas e os últimos pensamentos tão rasos quanto as poças nas ruas pavimentadas. O sangue de hoje fora razoavelmente limpo, mas a garota parecia viver de vento e, portanto seu sangue fraco não o sustentaria muito tempo. Ele não gostava das magras, eram sempre insípidas e preocupadas com sua aparência até o ultimo segundo “Morrerei magra!” pensavam elas com uma alegria estúpida. E haviam os que se enchiam de drogas e nem mesmo tinham a consideração, quando se atiravam em seus braços, de avisar que sua refeição viria com um nauseante premio extra. Limpou novamente a boca carnuda, olhou para o lenço para sempre maculado e com um suspiro desejou ser mortal para poder partir deste mundo que já não o seduzia mais.

29 de mai. de 2008

Bondade

A bondade não tem cheiro, idade ou beleza, mas pode ser vista no brilho de uma lagrima, em um sorriso complacente, no olhar doce, nas mãos amigas. A bondade não tem cor, nem religião e muito menos língua. A bondade mora dentro do peito onde todos somos iguais, feitos de carne, banha, músculos, veias e órgãos. A mão que se estende pode nem sempre estar limpa, mas se está estendida a tome, pois quem a estende merece ao menos essa delicadeza. A bondade não tem carteira, ela independe de status e carreira, é algo muito precioso para poder ser guardado em cofres e muito simples para adornar pescoços em correntes de ouro. A bondade é artigo raro, cada vez mais difícil de se encontrar, mas mesmo exposta não é reconhecida por corações endurecidos pela fúria do século 21. Não sei se o que está pequena é a mente dos humanos ou se somente seu espírito que se desintegra a cada dia, mas o fato é que julgamos o próximo por padrões que não queremos nos ver impostos e nos fazemos de cegos quando o pacote não é tão belo quanto o recheio. A bondade existe, meus amigos, mas é ignorada, pois os que ainda se incomodam em demonstrá-la somente a podem ofertar em pequenas doses. Quer a minha mão? Ou meu ombro amigo? É só o que tenho para dar, mas é mais do que muitos podem lhe oferecer.

27 de mai. de 2008

O homem Verde

Ele era feito de dias e noites, de terra e ar, de folhas e frutos. Tinha no lugar de coração um rubi gigante que brilhava incessantemente dentro de seu peito. Era um homem, sim, mas tão diferente dos outros de sua raça quanto um leão o é de um simples gato. Ele gostava de olhar o mundo, mas nunca era observado, se mesclava à vegetação que dançava ao seu redor e chorava sementes pelo caminho que a humanidade tomava. As flores que nasciam de seu pranto viviam eternamente, murchando e revivendo para espanto daqueles que as viam brotar por entre o asfalto ou no meio do deserto. Pois ele andava.sem descanso e também sem descanso deitava sementes pelo caminho, mas quando olhava para trás via somente mãos ávidas arrancando as margaridas, pés sujos espezinhando as hortênsias, corações gelados passando sobre as rosas e olhos vazios ignorando os girassóis. Ele continuou a andar, mas cada vez mais longe dos homens, tomou posse de um monte e lá vive em meio às flores e arvores esperando que um dia alguém com um coração de carne e sangue sinta prazer no éden que planta com suas lagrimas.

25 de mai. de 2008

Homens


Não é preciso muito para agradar um homem. Também não é preciso muito para desagradá-lo. Por mais que se fale as mulheres ainda continuam querendo discutir a relação, continuam insistindo em falar dos sentimentos, continuam perguntando se estão gordas, se a roupa nova cai bem e se notaram seus penteados novos. NÃO! Homens não notam nada à não ser que sejam obrigados. Eles não querem falar de seus sentimentos e nem mesmo discutir para onde vai a relação, se não for para a cama, não lhes interessa. Homens são criaturas simples, deixem que eles vejam seu futebol, que joguem poker com os amigos uma vez por semana ou simplesmente vão encher a cara com os amigos no bar. Um pouco de liberdade é tudo que eles precisam para agradá-los. Homens somente são realmente homens quando podem interagir com sua própria espécie. As mulheres precisam aprender que exigir que um homem lhes dê completa atenção é a melhor forma de fazer com que eles façam exatamente o contrario. Quem suporta viver voltado somente para uma pessoa? Perpetuamente colado como um monstro de duas cabeças com mentes tão distintas que o fim é uma cabeça tentando devorar a outra. Não. Homens precisam de espaço, de cumprimentos simples e óbvios, de sexo honesto e comprometido e de riso. Mulheres que perdem o bom humor durante um relacionamento estão fadadas ao fracasso. Por um sorriso em lábios masculinos é tão divertido quanto fazer rir à uma criança. É fácil e pode lhe dar mais recompensas do que todo biquinho do mundo.

22 de mai. de 2008

O meu está pela metade.

Existem coisas que me irritam, e isso não é novidade já que muito me irrita nos dias de hoje, mas certas pessoas com sua filosofia de botequim pegam em um nervo que desperta meu lado homicida. Os malditos livros de auto-ajuda são prato cheio para essas pessoas que adoram vomitar as frases batidas e os pensamentos rasos. “Para você o copo está meio cheio ou meio vazio?” Ah... Esta perguntinha me faz afiar facas imaginarias e carregar minha magnum 44 fantasma, é típico de pessoas que dizem achar que o copo está sempre meio cheio, mas são elas mesmas sempre meio vazias. Para deixar o registro, para mim o copo está pela metade e direi que está meio vazio se quero que o encham e que está meio cheio se já atingi meu limite. Todo mundo que lê esse tipo de livros compulsivamente nunca chega aonde quer, parece que o simples fato de se importarem tanto em seguir os ensinamentos vazios atrasa seus passos. Pensamento posivivo, my ass! É muito bom estar de bem com a vida, sorrindo á toa, pensando que tudo VAI melhorar, mas ser assim 7 dias por semana 24 horas por dia é tão irreal quanto coelhinho da Páscoa botar ovo (não, crianças, ele não bota ovo, os pega pronto de um ganso de chocolate). Um depressãozinha não faz mal à ninguém e nem um pouco de pessimismo, vejo todos os dias os otimistas com caras espantadas por não verem seus sonhos realizados. Ser realista quanto às possibilidades de merdas acontecerem é sadio e evita muita dor de cabeça futura. Portanto... Não importa como você vê seu copo, o que importa é como, no final das contas, fica o balanço de sua vida.

5 de mai. de 2008

Hora do ensaio


“Andréa! Você já vai?”
Vejo a companhia toda reunida para o começo dos ensaios e fico mais do que tentada a mandar as obrigações que gritam por mim em casa e me deixar ficar. Minha passagem pela cafeteria foi proposital, sabia que estariam ensaiando para a próxima opera e sempre gosto de roubar um pouquinho da próxima apresentação. Doses homeopáticas que me enchem o coração de algo como chocolate derretido com fios de marshmallow.
Ele pede que um deles cante minha ária favorita de La Boheme. Choro, como sempre. Lagrimas que se derramam sozinhas pulando de meus olhos que piscam incontrolavelmente. Quero vê-los cantar, seus rostos alegres nesse momento de descontração, o recreio do ensaio, como jogadores de futebol que descansam batendo bola na praia.
Vejo que ele me olha, sorri, sabe muito bem que amo o que vejo e escuto. Posso não saber se é a melhor atuação que pode haver, pode até mesmo não ser, mas quem liga quando se tem o coração cheio de chocolate derretido com marshmallow?